Subsídios para a Quaresma - Missionários do Verbo Divino

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A QUEM SE DESTINA ESTE LIVRO
E COMO USÁ-LO
A Igreja em Outubro celebrou o Sínodo sobre a
importância da Palavra de Deus na vida e na
missão da Igreja, quarenta e três anos, após a
promulgação da Constituição Dogmática Dei
Verbum, no Concílio Vaticano II.
Várias dioceses de Portugal estão a dar
continuidade ao Sínodo com programas de
formação bíblica, com particular destaque para
S. Paulo, de quem estamos a celebrar os dois
mil anos do seu nascimento.
Os Missionários do Verbo Divino sentem-se
chamados de modo especial a colaborar nesta
tarefa e, por isso, apresentamos este itinerário
de reflexão para ajudar a todos a orientar a sua
vida pela Palavra de Deus neste tempo de
Quaresma.
Pode ser usado individualmente, mas foi
sobretudo pensado para pequenos grupos de
leitura orante da Bíblia.
Propõe-se no início, um dos muitos métodos de
leitura orante da Bíblia, usado na África do Sul
e que tem sido adoptado em muitos outros
países.
Preze a Deus que este livro ajude os leitores a
fazerem uma boa caminhada de fé para que,
renovados pelo Espírito Santo, e seguindo o
Crucificado-Ressuscitado, ressuscitem para a luz
da vida.
1
Leitura orante da Bíblia:
Este método simples de leitura orante da Bíblia
nasceu em Lumko, Áfric a do Sul, e está
especialmente indicado para pessoas que querem
partilhar a sua fé em grupo. O que mais se valoriza
nele é deixar-se “tocar” pela Palavra e partilhá-la.
O mesmo texto é lido três vezes. Eis os passos a
seguir:
1 - Acolher-se, tomar consciência da realidade
actual, abrir o texto, dar alguma informação sobre
o contexto do texto, invocar o Espírito Santo
(oração, cântico).
2 - Escuta-se o texto pela primeira vez. Silêncio
de alguns minutos.
- Partilhar a palavra do texto, o versículo em que
“tropeço”, que mais me toca, ou simplesmente
recontar o texto de modo pessoal. Não fazer
comentários, dizer simplesmente a palavra ou
versículo. Depois de todos terem participado,
pode-se cantar um refrão.
3 - Escuta-se o texto pela segunda vez, durante a
qual tentamos lembrar os participantes que
repararam nesses versículos. Silêncio de alguns
minutos.
2
Partilhar a palavra da vida pessoal, ou seja: porque reparei nesta palavra
ou frase, o que é que isto quer dizer hoje para mim? Que experiência de fé
tenho neste assunto? Cada um fala no singular, dizendo “eu, na minha
vida...”, e procura ser breve, para que todos tenham ocasião de partilhar.
Não julgar ou moralizar, não discutir.
4 - Escuta-se o texto pela terceira vez, ligando ao texto as experiências de
vida que foram partilhadas pelos membros do grupo. Silêncio de alguns
minutos.
Resposta concreta ao texto e à vida, qual a luz que em oração cada um
recebeu para agir.
5 - O caminho da Comunidade indicado pelo Espírito Santo: depois de
todos terem partilhado pessoalmente a resposta, em oração, a comunidade
pergunta: qual é o caminho que o Espírito Santo nos está a indicar como
comunidade de fé? Que palavra nos poderia resumir a resposta? O caminho
da comunidade poderá encontrar-se: estando atento ao que cada membro
falou e rezando para que o Espírito Santo nos mostre a perspectiva comum.
6 - Oração final, por exemplo um cântico e um Pai-nosso de mãos dadas,
simbolizando a comunhão que realizamos, partilhando as nossas vidas e
experiências de Deus.
Pessoalmente, e juntos como comunidade, discernir por onde o Espírito
Santo nos orienta. Resumindo:
Palavra na boca, lê (leitura), Palavra no coração, guarda e tenta
compreender (meditação), Palavra no pé, pratica, faz o que Deus te diz
(acção).
Por outras palavras: o que diz o texto? O que o texto me diz? O que é que
o texto me faz fazer em resposta a Deus?
Haverá outra forma de transmitir o Evangelho
que não seja a de contar à outra pessoa
a experiência pessoal de fé?
(Paulo VI, EN 46)
3
Quarta-feira de Cinzas
Ambientação
A bênção e a imposição das cinzas são uma prática penitencial muito antiga.
Nos primeiros séculos da Igreja os cristãos que haviam prejudicado a
comunidade cristã com escândalos públicos, expiavam-nos durante a
Quaresma. No começo deste tempo litúrgico recebiam as cinzas sobre as
suas cabeças em sinal de humildade, e, a seguir, eram acompanhados à
porta da Igreja. Até 5ª Feira-Santa não participavam nas assembleias da
comunidade, mas permaneciam no átrio em sinal de penitência.
Hoje, em que tudo se permite e tudo se procura contestar, não só se está a
perder a consciência do pecado como também a própria realidade
dramática do pecado. Ao ouvirmos a palavra de Deus “lembra-te que és
pó” (terra) é hora de defendermos a Terra que está a ser destruída pela
ganância do lucro.
Na Quaresma orientemo-nos pela conversão – escutar Deus, e pela
solidariedade – ajudar os necessitados. Jejum, hoje, é renunciar, para mais
partilhar.
A PALAVRA DE HOJE:
Joel 2, 12-18
2 Coríntios 5,20 - 6, 2
Mateus 6, 1-6. 16-18
■ Comentário às leituras
A mensagem do profeta Joel foi pronunciada provavelmente depois do
desterro, no templo de Jerusalém. Uma praga de gafanhotos devastou os
campos, provocando carestia de bens e fome (1, 2 – 2, 10). Como
consequência, cessou o culto dos sacrifícios no templo (1, 13-16). O profeta
lê os sinais dos tempos e por isso anuncia a proximidade do dia do Senhor,
convidando todo o povo ao jejum, à oração, à penitência (2, 12.15.-17a).
4
A palavra-chave deste texto, repetida três vezes nos
primeiros versículos é voltar (shûb em Hebraico)
verbo clássico da conversão. O v. 12 apresenta ao
povo o convite à conversão. Sem a renovação
interior e a mudança do coração os ritos litúrgicos
não agradam a Deus. No v. 13, o convite à
conversão aparece de novo e a motivação é porque
o Senhor é sempre misericordioso.
No v. 14 o mesmo verbo se refere a Deus abrindo
uma porta à esperança: “perdoará uma vez mais”.
A conversão expressa-se num amor sincero a Deus,
numa fé mais sólida e numa esperança que se faz
oração comunitária e penitente. Tendo estas
disposições, o profeta e os sacerdotes poderão
pedir ao Senhor que se mostre zeloso com a sua
terra, compassivo com a sua herança (vv.17s).
Para Paulo, se alguém está em Cristo é nova
criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se
fez uma realidade nova (v.17). Deus reconciliou-nos
consigo por Cristo e confiou-nos o ministério da
reconciliação. Em Cristo, Deus reconciliava o
mundo consigo, não imputando aos homens as
suas faltas e colocando em nós a palavra da
reconciliação.
Paulo em nome de Cristo exorta os Coríntios a que
se reconciliem com Deus. E acrescenta que agora
é o tempo favorável, o dia da salvação. No seu
entender, entre a primeira vinda de Cristo e o seu
retorno, decorre um tempo intermédio, que é o dia
da salvação. Tempo concedido em vista da
conversão, da salvação do “Resto” e dos gentios.
Embora tenha duração incerta, esse tempo de
peregrinação deve ser considerado como breve,
cheio de provações e de sofrimentos que preparam
a glória futura. O fim aproxima-se, assim como o
dia da plena luz. Importa vigiar e fazer sábio uso
do tempo que resta para que nos salvemos e
salvemos os outros, deixando a Deus a tarefa de
fazer a retribuição final.
5
Jesus pede aos seus discípulos uma justiça superior à dos escribas e fariseus
(cf. Mt 5, 20). Mesmo que as práticas exteriores sejam as mesmas, Jesus
reclama a vigilância sobre as intenções que nos movem a actuar.
O evangelho repete primeiro as três obras típicas da piedade judaica: a
esmola (6, 2-4); a oração (6, 5-15) e o jejum (6, 16-18). A novidade de Jesus
é esta: essas obras não valem de nada se forem feitas para vanglória e a
própria recompensa. O valor delas consiste em fazê-las diante do Pai que
vê no segredo. Jesus completa a tradição ensinando-nos o Pai-nosso e
ressaltando como é indispensável o perdão …”mas se não perdoardes aos
homens também o vosso Pai não perdoará os vossos delitos” (Mt 6, 15).
Penitência e arrependimento não são sinónimos de abatimento, tristeza
ou frustração; pelo contrário, constituem uma modalidade de abertura à
luz que pode dissipar as obscuridades interiores, tornar-nos conscientes de
nós mesmos na verdade e fazer-nos experimentar a misericórdia de Deus.
Quem vive na presença de Deus, é livre.
O Senhor tinha confiado ao profeta a missão de convocar o povo para
suscitar uma nova esperança através de um caminho penitencial; aos
apóstolos confia-lhes o ministério da reconciliação; à Igreja hoje, encarregaa de proclamar que agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação!
Renovados pelo amor aprenderemos a viver sob o olhar do Pai, contentes
de poder cumprir humildemente o que lhe agrada e ajudar os nossos irmãos.
A sua presença no segredo do nosso coração será a verdadeira alegria, a
única recompensa esperada e de que temos já um antegosto.
■ Perguntas para reflexão
- Que significado tem para nós, hoje, o jejum, a oração, a esmola?
- Com que atitudes devemos iniciar e viver o tempo da Quaresma?
- Como entendo a expressão de Paulo que agora é o tempo favorável, é o
dia da salvação?
■ A nossa resposta em oração
Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
Pai misericordioso e Deus de toda a consolação,
Que nos consola em todas as nossas tribulações,
para que também nós possamos consolar
aqueles que estão em qualquer tribulação,
mediante a consolação
que nós mesmos recebemos de Deus.
Como abundam em nós os sofrimentos de Cristo,
por Ele também é abundante a nossa consolação.
Quando somos atribulados
É para consolação e salvação de todos.
Quando somos consolados é para consolação de todos.
A nossa esperança é firme:
assim como participamos dos sofrimentos de Cristo,
também havemos de participar na sua consolação. Amén.
(cf. 2 Cor 1, 3-7)
7
Primeiro domingo da Quaresma
Ambientação
Neste primeiro domingo de
quaresma lemos na liturgia o relato
das tentações segundo o evangelho
de Marcos. É um relato breve que nos
convida a centrar-nos no que
significaram as tentações na vida de
Jesus e no que elas significam para
nós, seus seguidores.
A PALAVRA DE HOJE:
Génesis 9, 8-15
1 Pedro 3, 18-22
Marcos 1, 12-15
■ Comentário às leituras
A história do dilúvio e de Noé são reflexões teológicas sobre a natureza
humana e a sua relação com Deus e com a criação. Como acontecimento
histórico por detrás destas narrativas estão as inundações desastrosas do
vale do Tigre e do Eufrates, aumentadas pelos autores sagrados como um
cataclismo universal. O autor dotou esta lembrança das inundações de um
ensino eterno sobre a justiça e a misericórdia de Deus, sobre a malícia do
ser humano e a salvação concedida ao justo.
Perante o crescimento da perversão humana “ o Senhor viu que a maldade
do homem era grande sobre a terra, e que era continuamente mau todo o
desígnio do seu coração” (Gen 6, 5) a humanidade chegou a um colapso: é
o dilúvio. No meio da multidão perversa há alguém que agrada a Deus:
“Noé era um homem justo, íntegro entre seus contemporâneos, e andava
com Deus” (Gen 6, 9). Deus dá-lhe ordem de construir uma arca e nela
entrar: “entra na arca tu e toda a tua família, porque és o único justo que
vejo diante de mim no meio desta geração.” (Gen 7, 1). Esse justo que
agrada a Deus serve de barca para salvar; é um justo que segue Deus.
8
Apesar da maldade do ser humano, Deus não o abandona; depois do dilúvio
sela uma aliança com Noé, com a humanidade e com toda a criação: “eis
que estabeleço a minha aliança convosco e com os vossos descendentes
depois de vós, e com todos os seres animados que estão
convosco…estabeleço minha aliança convosco: tudo o que existe não será
mais destruído pelas águas do dilúvio; não haverá mais dilúvio para
devastar a terra. (Gen 9, 9.11).
O ser humano é de novo abençoado e consagrado rei da criação, como
nas origens, mas não é mais um reinado pacífico. A nova época conhecerá
a luta dos animais com o homem e dos homens entre si. A paz do paraíso
só reflorescerá nos últimos tempos (cf. Is 11, 6).
É nossa responsabilidade hoje velar pela vida na terra. Se a perversão da
humanidade se avoluma, a ponto de quase mais ninguém querer seguir a
Palavra de Deus e armarem-se em donos da vida e do planeta, vão acontecer
cataclismos como o dilúvio.
É urgente salvar o planeta de todos os egoísmos que o destroem e põem
em risco a sobrevivência de gerações futuras ou até o próprio planeta. As
grandes questões ecológicas fazem parte do compromisso cristão: poluição,
efeito de estufa, degelo polar, fontes de energia, questões demográficas e
de justiça social. O planeta pode ser destruído pelo próprio ser humano:
bombas atómicas e consequências de alterações climáticas – subida dos
oceanos, crescimento de zonas desérticas, falta de água, desflorestação,
etc… Tudo isto é o pecado humano na sua expressão planetária.
Para os cristãos a salvação da vida está garantida em Jesus Cristo. A
ressurreição de Jesus é como uma nova criação. Entramos nela pela graça
de Jesus, convertendo-nos, renunciando ao mal e participando da morte e
ressurreição pelo baptismo (cf. Act 2, 38), o que leva a uma vida nova (cf.
Act 2, 42-47). É o que a 2ª leitura nos diz com as seguintes palavras: ser
baptizado é alcançar de Deus uma boa consciência pela ressurreição de
Jesus Cristo. Na linguagem de Paulo ser baptizado é ser sepultado e
ressuscitado com Cristo (cf. Col 2, 12). Não é possível pretender participar
na ressurreição se não participamos na morte de Cristo. O Crucificado é o
Ressuscitado e o Ressuscitado é o Crucificado.
Evangelho
O Filho de Deus, no baptismo no Jordão, é mesmo Deus no meio de nós,
pecadores, mas sem pecado, e por isso nosso Salvador. Jesus foi ungido
pelo Espírito e assume a sua missão: ser Filho (cf. Mc 1, 1. 11; 15,39). A
tentação é por causa da missão que Jesus tem que assumir; não pelo
9
caminho do poder, da vanglória e da riqueza, mas pelo caminho da cruz.
Jesus vence a tentação decidindo seguir o caminho da cruz. (cf. Mc 10, 32).
As suas primeiras palavras são estas: “o Reino de Deus está próximo,
convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1, 15).
A salvação é-nos oferecida mas sem conversão não estamos em condições
de a receber.
Conversão é morrer para o pecado, ser baptizado e passar a uma vida
nova: assiduidade à escuta da Palavra, à comunhão fraterna, à fracção do
pão (eucaristia) e às orações: (cf. Act 2, 42-47; 4, 32-35).
■ Perguntas para reflexão
Jesus, após o baptismo, assumiu a missão, vencendo as tentações.
– Quais são as dificuldades (“tentações”) que tornam difícil ser coerente no
teu compromisso de baptizado?
– Seguindo o exemplo de Jesus, como vencê-las?
■ A nossa resposta em oração
Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade;
pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
Lava-me de toda a iniquidade;
purifica-me dos meus delitos.
Reconheço as minhas culpas
e tenho sempre diante de mim os meus pecados.
Contra ti pequei, fiz o mal diante dos teus olhos;
por isso é justa a tua sentença
e recto o teu julgamento.
Cria em mim, ó Deus, um coração puro;
renova e dá firmeza ao meu espírito.
Não me afastes da tua presença,
nem me prives do teu santo espírito!
(Cf Sl 51, 3-6b.12-13)
10
Segundo domingo da Quaresma
Ambientação
No domingo passado dialogámos
sobre as dificuldades ou tentações
no seguimento pessoal de Jesus.
Também não foi fác il para os
primeiros discípulos entender que o
seu Mestre ia a caminho de
Jerusalém e que morreria na cruz:
“Jesus ia à frente deles, eles seguiamno espantados e cheios de medo.”
(cf. Mc 10, 32). Jesus já não tem
dúvida de que o seu caminho é ser
morto na cruz. Ele já venceu a
tentação de fugir, mas os próprios
discípulos ainda estão em crise de
fé e para os ajudar, nesta passagem
à fé, Jesus dá-lhes a luz da
transfiguração.
A PALAVRA DE HOJE:
Génesis 22, 1-2.9 a.10-13.15-18
Romanos 8, 31 b-34
Marcos 9, 2-10
■ Comentário às leituras
A situação terrível que existia no tempo de Abraão era o sacrifício das
crianças e até de outros seres humanos para atrair os favores dos deuses.
A narrativa implica, pois, a condenação, tantas vezes pronunciada pelos
profetas, dos sacrifícios de crianças (cf. Lv 18, 21; 20, 2-3; 2 Rs 3, 27; 2 Rs
23, 10; Jr 32, 35; 2 Reis 17, 31; Jz 11, 29-40).
A palavra-chave do texto é “não estendas a mão contra o menino, não lhe
faças nenhum mal” (22, 12). O nosso Deus revela-se diferente das crenças
de então e louva a fé de Abraão que até não hesitaria em oferecer o filho.
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A tradição cristã lança mão deste episódio para nos expressar o quanto
Deus nos ama: “Deus amou tanto o mundo que nos entregou o seu Filho
Único para que todo o que nele crer não pereça mas tenha a vida eterna”
(Jo 3, 16).
Na carta aos Romanos, Paulo ajuda-nos a compreender que a entrega do
Filho à humanidade é a suprema revelação do amor de Deus. Não há
dúvida que Deus assume por completo a humanidade e nada nos pode
separar do seu amor (v.39).
Jesus para ajudar os discípulos a assumir que o Filho de Deus, o Messias é
um Crucificado, dá-lhes uma visão de luz agradável e bela para assim haver
coragem de continuar o caminho da cruz.
O candor e a luz resplandecente da sua pessoa recordam o Filho do homem
da visão de Daniel (7 e 10). A aparição de Elias e Moisés, esperados como
precursores do Messias, apresenta Jesus como o cumprimento da Lei e dos
profetas. Eles tiveram o privilégio de contemplar no alto de um monte a
glória de Deus com vistas a cumprir uma missão importante para todo o
povo: agora a antiga aliança cede o testemunho à nova e os três discípulos
(Pedro, Tiago e João) convertem-se em testemunhas oculares da glória de
Cristo em favor de todos os crentes (cf. 1 Jo 1, 1-3; 2 Pe 1, 17 s). Um temor
sacro os invade. Pedro trata de reagir e propõe erigir três tendas para os
distintos personagens. Jesus revela-se como o verdadeiro templo, a
verdadeira tenda da Presença que dá felicidade à vida humana: “é bom
estarmos aqui” (Mc 9, 5).
Outro símbolo muito impor tante é a nuvem, que acompanhou
continuamente o povo eleito no seu caminho do êxodo e agora envolve
os presentes. Da nuvem sai a voz divina que proclama Jesus como Filho
predilecto. No momento do baptismo, a voz dirigiu-se a Jesus para confirmálo e investi-lo na sua missão (cf. 1, 11). Agora dirige-se aos discípulos: “este
é o meu Filho amado: escutai-o” (v. 7).
Jesus é o Filho que o Pai entregou por nós; o companheiro que nos abre o
caminho, nos ensina a escutar e a dar passos para uma entrega sem
reservas.
■ Perguntas para reflexão
– Que relação vês entre a transfiguração e a ressurreição?
12
– Por que é que Jesus dá ordem aos discípulos
para não contarem nada
do que tinham
visto? Que mal entendido estava na cabeça de
Pedro e dos discípulos? (Mc 8, 33)
– Toda a vida tem necessidade de momentos de
luz. Na tua vida e na v i d a d a q u e l e s c o m
quem vives, que momentos de luz ou de
transfiguração conheces?
■ A nossa resposta em oração
Senhor, Jesus Cristo,
Envia sobre nós o dom do Espírito Santo
A fim de vivermos não já para nós próprios
Mas para Ti que por nós morrestes e ressuscitastes
E oferecermos toda a nossa vida,
Para testemunhar o teu amor por nós.
Ámen
13
Terceiro domingo da Quaresma
Ambientação
A PALAVRA DE HOJE:
Exodo 20, 1-17
1 Coríntios 1, 22-25
João 2, 13-25
Nas comunidades cristãs que têm
c atecúmenos eleitos para os
sacramentos de iniciação cristã nos
III, IV e V Domingo da Quaresma
lêem-se os evangelhos do Ano A e
celebram-se os escrutínios sobre os
eleitos, ou seja, a oração da Igreja
sobre os catecúmenos eleitos em
ordem a uma purificação do pecado
e a uma iluminação da vida com a
Palavra de Deus, concretizada nos
encontros de Jesus com a
Samarit ana, com o cego de
nascença, e com Marta, Maria e
Lázaro. Esses encontros são
referência para o próprio
catecúmeno eleito rever o seu
encontro com Cristo e como é que
chegou a dizer a Jesus: “eu creio”. Os
escrutínios são acompanhados pela
entrega das “tradições” ou símbolos
da fé.
■ Comentário às leituras
Um dos textos mais antigos da Bíblia é o código da aliança. O código da
aliança abre com uma palavra-chave que é “escuta Israel” Escuta, Israel! O
Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com
todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. (Dt 6,
4). Se lermos todo o decálogo, logo se nota que reconhecer a Deus como
único Senhor tem como consequência reconhecer as outras pessoas como
nosso próximo. Todos os mandamentos referentes ao próximo foram mais
14
tarde resumidos deste modo: “…amarás o teu próximo como a ti mesmo”
(Lev 19, 18).
Não foi de uma vez que se compreenderam os mandamentos de Deus. Foi
no decorrer de um processo histórico muito prolongado até chegar à
plenitude da revelação em Jesus Cristo ( cf. Heb 1, 1) que vai resumir tudo a
um único mandamento: “…amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”
(Jo 13, 34; 15, 17).
Neste terceiro domingo de quaresma, vamos ler um acontecimento da vida
de Jesus segundo João, e que se encontra também nos outros evangelistas
(cf. Mt 21, 12-16; Mc 11, 15-19; Lc 19, 45-46), o que mostra a sua importância.
A narrativa situa-se no Templo de Jerusalém e o gesto de Jesus e as suas
palavras podem ajudar-nos a rever a nossa forma de prestar culto a Deus.
Jesus, na linha da tradição profética, (cf. Is 1, 11-15; Am 5, 21-13) vai
desmascarar o culto no templo de Jerusalém e afirmar que o templo é Ele
mesmo e toda a pessoa tornada morada de Deus (Jo 14, 23; 1 Cor 3, 16).
Com a expulsão dos vendilhões do templo, Jesus vai desmascarar o culto
falsificado, chamando-o de covil de ladrões e responde à pergunta do chefe
da religião, dizendo: destruí este templo e eu o reconstruirei em três dias. O
verdadeitro templo do culto a Deus é Jesus Cristo, Deus encarnado, é o
corpo de Cristo presente nas pessoas especialmente nos mais necessitados
(cf. Mt 25, 31-46; Act 9, 4).
Ao derrubar uma religião degenerada em negócio e discriminação de
pessoas, (lei do puro e do impuro) Jesus foi condenado à morte, pelos
próprios representantes da religião do templo e da lei.
Por isso é que S.Paulo nos dá a síntese da nossa fé em Cristo crucificado
que é escandalo para os judeus, loucura para os gentios mas para nós
cristãos é sabedoria de Deus.
Cristo crucificado é a surpreendente resposta de Deus às expectativas da
humanidade: o verdadeiro sinal é a sua cruz, que liberta a humanidade da
escravidão do mal; a maior sabedoria é a sua morte, que assume o absurdo
do nosso pecado para abrir a todos um destino glorioso.
■ Perguntas para reflexão
– O que é que estava a acontecer de falsificação naquele culto, naquela
religião que Jesus não aguentou e explodiu com um chicote e derrube de
15
de mesas? Na tua opinião, por que é que Jesus
não derrubou as pombas?
– Se Jesus entrasse hoje no nosso culto, na nossa
eucaristia dominical, o que é que Ele teria que
derrubar e expulsar?
– Compara a narrativa de João com a de Mateus
21, 12-16: quem fica dentro do templo e quem pode
agora entrar?
■ A nossa resposta em oração
Ajuda-nos Senhor,
a praticar uma verdadeira justiça
e excedermo-nos em bondade e compaixão,
cada um para com o seu irmão;
a não oprimir a viúva e o órfão,
o estrangeiro e o pobre,
e a não formar nos nossos corações maus
desígnios
uns para com os outros.
(cf. Zc 7, 9-10)
16
Quarto domingo da Quaresma
Ambientação
Na Eucaristia do quarto domingo de
Quaresma lemos o texto do encontro
de Jesus com Nicodemos. O
Evangelista João, depois de
apresentar qual há-de ser o autêntico
culto, convida-nos a nascer do
Espírito e a acolher Jesus como
salvação e Vida.
A PALAVRA DE HOJE:
2 Crónicas 36, 14-16.19-23
Efésios 2, 4-10
João 3, 14-21
■ Comentário às leituras
Seguindo a reflexão do domingo passado, o Jesus crucificado é a sabedoria
de Deus. É olhando o Cristo na cruz que podemos ver como Deus ama o
mundo: “tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito,
a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De
facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele. (Jo 3, 16-17). O trágico é que a
humanidade ama mais as trevas do que a luz porque as suas obras eram
más (cf, Jo 3, 19). Mas o amor de Deus não é vencido, porque ao ser
levantado, ou seja, crucificado, Ele é a vida eterna (ressurreição) para todo
aquele que nele crê (cf. Jo 3, 15).Para o povo judeu a figura da serpente de
bronze no deserto levantada por Moisés fazia entender estas palavras de
Jesus.
A primeira leitura ao relatar o regresso do exílio na Babilónia quer mostrar
como o amor de Deus desde sempre acompanhou o povo no exílio e trouxeo de volta. Para esse regresso, Deus faz até colaborar o imperador Ciro,
que era o dominador do povo nessa altura.
17
O amor de Deus não é para confundir com a
ambivalência que existiu na construção do
templo por ordem do imperador da Babilónia
(cf. 2 Cr 36, 23), nem com a discriminação
praticada pelos judeus, vindos do exílio em
relação aos que já estavam na terra. (cf. Esd 4,
3; 10, 3.19).
Lembrando o conflito de Jesus com o templo
(Jo 2,13-25) e a discriminação que o Judaísmo
praticava desde a construção do templo (foramse fazendo 613 leis), S. Paulo, como no domingo
passado também hoje nos dá a síntese cristã:
pela graça fostes salvos, por meio da fé. E isto
não vem de vós; é dom de Deus; não vem das
obras, para que ninguém se glorie. (Ef 2, 8-9).
Sabemos como Paulo para anunciar Jesus Cristo
aos não judeus teve que enfrentar as leis do
judaísmo, sem negar que Jesus é um judeu da
nascimento. Tanto judeus como gentios são
salvos pela graça e não pelos méritos de cumprir
a lei. É esta a grande visão de Paulo, que Pedro
no concílio de Jersualém confirma: “Além disso,
é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos
que seremos salvos, exactamente como eles.”
(Act 15, 11).
■ Perguntas para reflexão
– Olhando o evangelho, experimentas Jesus na
tua vida como o que dá a vida, o que salva?
Como expressas isso na tua vida?
– Deus amou tanto o mundo que lhe enviou o
seu Filho: eu, cristão, tenho consciência que em
nome de Jesus sou enviado para testemunhar
o mesmo amor (cf. Jo 20, 21)?
18
■ A nossa resposta em oração
Recebe a cruz na tua fronte;
Cristo te fortalece com o sinal da sua caridade.
Aprende agora a conhecê-lo e a segui-lo
Recebe o sinal da cruz nos ouvidos,
Para ouvires a voz do Senhor
Recebe o sinal da cruz nos olhos,
Para Jesus ser a tua luz
Recebe o sinal da cruz na boca
Para responderes à Palavra de Deus
Recebe o sinal da cruz no peito,
Para que Cristo, habite, pela fé no teu coração
Recebei o sinal da cruz nos ombros
Para levares o jugo de Cristo, que é suave.
(Da liturgia com os catecúmenos)
19
Quinto domingo da Quaresma
Ambientação
Os relatos dos evangelhos que
estamos a ler vão-nos assinalando
um caminho para viver a Quaresma.
Além disso, em cada um deles, se
adverte o destino de Jesus. É um
destino que também tem que ver
com o nosso compromisso cristão.
A PALAVRA DE HOJE:
Jeremias 31, 31-34
Hebreus 5, 7-9
João 12, 20-33
■ Comentário às leituras
O 5º Domingo da Quaresma apresenta Jesus na angústia diante da hora
da morte na cruz que se aproxima. Há um diálogo doloroso de
discernimento com o Pai para a aceitação do despojamento total da cruz e
há um reconforto vindo do céu, uma voz que se escuta: “A minha alma
está agora conturbada. Que direi: Pai salva-me desta hora! Mas foi
precisamente para esta hora que eu vim. Pai glorifica o teu nome. Veio
então uma voz do céu: Eu o glorifiquei e glorificarei novamente” (Jo 12, 2728).
A carta aos Hebreus confirma a mesma situação dolorosa: “nos dias da
sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e
lágrimas àquele que o podia salvar da morte…” (Heb 5, 7).
Jesus oferece-se à morte para realizar a obra que glorificará o Pai,
manifestando o seu amor ao mundo (Jo 12, 28; cf. Jo 17, 6). O que é próprio
do Pai é amar. Ele prova o seu amor, entregando o seu Filho único por nós.
Por conseguinte, quem não reconhece o Filho, não reconhece o amor do
Pai (cf. Lc 10, 22).
20
A vinda dos gentios (gregos) à procura de querer ver Jesus (cf. Jo 12, 21) é
interpretada como a exaltação de Jesus. Jesus entende a sua morte como
o grão que morre para dar fruto, como quem perde a vida por amor aos
outros: “se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se
morrer, dá muito fruto. Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se
despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna “ (Jo 12,
24-25; cf. Mt 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24).
A vinda dos não-judeus que querem ver Jesus (cf. Jo 12, 21) e a nova
aliança escrita no coração de cada um (cf. Jr 31,31. 33), é fruto da morte e
ressurreição de Jesus.O dom do Cristo ressuscitado é o Espírito Santo (cf. Jo
20, 22), que une todos os povos (cf.Act 2,5.9).
■ Perguntas para reflexão
– Vimos no evangelho e no comentário que não foi fácil para Jesus aceitar
a morte na cruz. Qual é a “tua cruz”, aquela que te mete medo e que te
custa lágrimas e suores… e donde te vem a coragem para enfrentar essa
cruz? (cf. Jo 12, 28.30)
– Há algum aspecto da passagem que queiras recolher e aplicar a partir de
hoje à tua vida? Qual? Porquê?
■ A nossa resposta em oração
Meu Pai, a vós me abandono:
fazei de mim o que quiserdes!
O que de mim fizerdes, eu vos agradeço.
Estou pronto para tudo, aceito tudo,
contanto que a vossa vontade se faça em mim
e em todas as vossas criaturas.
Não quero outra coisa, meu Deus.
Entrego a minha vida em vossas mãos,
eu vo-la dou, meu Deus,
com todo o amor do meu coração,
porque eu vos amo.
É para mim uma necessidade de amor dar-me,
entregar-me em vossas mãos sem medida,
com infinita confiança, porque sois meu Pai. (Carlos de Foucauld)
21
Domingo de Ramos
DIA MUNDIAL DA JUVENTUDE
Ambientação
Com o Domingo de Ramos os cristãos
começam a Semana Santa. A entrada
de Jesus em Jerusalém e as atitudes
das diversas pessoas que o rodeiam
fazem-nos pensar em como vamos
hoje celebrar estes dias a sua paixão,
morte e ressurreição.
A PALAVRA DE HOJE:
Isaías 50, 4-7
Filipenses 2, 6-11
Marcos 14, 1 – 15, 47
■ Comentário às leituras
Discípulo de Pedro e seu companheiro em Roma, Marcos escreve o seu
evangelho para não-judeus. O seu relato da Paixão é breve, mas denso e
rico em pormenores concretos. É bom reparar nalguns detalhes na narrativa
da Paixão segundo Marcos:
– São os representantes da religião (escribas e sacerdotes) que tramam a
morte de Jesus (14, 1)
– Há uma mulher que unge Jesus com perfume de alto preço; é tratada
com aspereza, Jesus defende-a (14, 3)
– Seguir o homem da bilha de água para saber onde é o lugar da celebração
da Última Ceia (14, 13)
– Instituição da eucaristia: (14,22)
– Os discípulos todos se mostram muito valentes, dispostos a morrer por
Jesus e logo a seguir dormem e depois fogem. (14, 29.37.40.68)
22
– O traidor é um discípulo: Judas (14, 11)
– Um jovem que o seguia enrolado num lençol, quando agarrado, foge nu
(14, 51); Jesus morto é enrolado num lençol (15, 46).
– Jesus é declarado réu de morte por dizer: sou Filho de Deus (14, 61-63)
– Os nomes dos filhos de Simão de Cirene: Alexandre e Rufo (15, 22)
– Soltam um assassíno e condenam um inocente (15, 11)
– Os ultrajes a Jesus na cruz: “desce agora da cruz, para que vejamos e
creiamos!” (15,29-32)
– O centurião (um estrangeiro) vê no crucificado o Filho de Deus (15, 39;
ver 1, 1)
– A presença das mulheres no começo (o derrame do perfume) e no fim: as
que acompanham Jesus até à cruz. (15, 46)
– O véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo (15, 38).
O Evangelho de Marcos abre com a afirmação Jesus Cristo é o Filho de
Deus (cf. Mc 1, 1). O surpreendente é que, depois de ter contado a vida de
Jesus, Ele é reconhecido como Filho de Deus por um não judeu, um militar
romano, que olha para a cruz e diz: “verdadeiramente este homem era
Filho de Deus!” (Mc 15, 39). Por outras palavras é na cruz que Jesus dá a
conhecer o verdadeiro Deus. Se queremos encontrar o Deus verdadeiro
não é a olhar para o céu, mas para o crucificado na terra.
Esse crucificado na história já tinha aparecido na figura do Servo Sofredor
principalmente nos quatro cânticos do Servo dos quais faz parte a leitura
de hoje. (cf. Is 42, 1-4; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 – 53,12). Já lá, esse sofrimento
inocente era anunciado como possibilidade de salvação para todos (cf. Is
53, 5.12b).
Esta dimensão do Deus crucificado, servo que salva a todos, é-nos mostrada
na segunda leitura: sendo de condição divina, assumiu a condição de servo,
descendo até à morte na cruz. Mas Ele é o Senhor (cf. Flp 2, 6-11).
O Domingo de Ramos põe diante de nós uma questão muito real: os
criminosos andam soltos; os inocentes são mortos (as guerras, os pobres
que são vítimas da crise económica, o aborto, o tráfico de armas, de drogas
e de pessoas); a multidão tanto aclama o bem: hossana, hossana, ó Filho
de David, como o condena: crucifica-o, crucifica-o!
Como é possível, numa sociedade que aclama tanto a defesa dos direitos
humanos, crescer cada vez mais o negócio da escravatura humana,
escondida no tráfico de pessoas e órgãos?! Como não lembrar as multidões
de imigrantes africanos que morrem a caminho da Europa?!
23
É também uma contradição todos necessitarmos da Terra e estarmos a
destruí-la pelo comportamento humano. A Terra inteira está a sofrer as
culpas dos humanos. O pecado tem as suas consequências pessoais, sociais
e planetárias.
■ Perguntas para reflexão
– A celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus, a que
compromissos te leva?
– Como reages quando vês alguém a sofrer injusta ou inocentemente?
■ A nossa resposta em oração
Rezemos juntos este hino que revela a nossa fé em Cristo:
Cristo Jesus que é de condição divina,
não considerou o ser igual a Deus
como algo a que se apegar ciosamente
mas esvaziou-se a si mesmo
e assumiu a condição de servo.
Tornando-se semelhante aos homens
e sendo, ao manifestar-se,
identificado como homem,
rebaixou-se a si mesmo,
tornando-se obediente até à morte
e morte de cruz.
Por isso é que Deus o elevou acima de tudo
e lhe concedeu o nome
que está acima de todo o nome,
para que, ao nome de Jesus,
se dobrem todos os joelhos,
os dos seres que estão no céu,
na terra e debaixo da terra;
e toda a língua proclame:
“Jesus Cristo é o Senhor!”,
para glória de Deus Pai. (cf. Flp 2, 6-11)
24
Quinta-Feira Santa
Ambientação
A PALAVRA DE HOJE:
Êxodo 12, 1-8.11-14
1 Coríntios 11, 23-26
João 13, 1-15
Com a Quinta-Feira Santa começa o
Tríduo Pascal que é o auge de toda a
liturgia cristã.
Este dia começa com a Missa Crismal da
parte da manhã, presidida pelo Bispo e
concelebrada pelos sacerdotes, onde os
sacerdotes renovam as suas promessas
de serviço e obediência.
O Bispo benze os santos óleos: dos
enfermos, dos catecúmenos e do crisma.
À noite celebra-se a Ceia do Senhor, que
é instituição da Eucaristia – nova e
eterna aliança - e consequentemente o
sacerdócio, com a entrega do
mandamento novo: Como eu vos amei,
amai-vos também uns aos outros (Jo 13,
34).
A missão pública de Jesus começa com
o Baptismo e termina com a Eucaristia,
(sabendo que a seguir vai ser preso e
morto). A Eucaristia é a última acção de
Jesus com os seus discípulos. Nela, Jesus
retoma toda a sua vida e faz dela o
sacramento da presença, entrega total
de amor.
■ Comentário às leituras
A festa da Páscoa e a dos ázimos eram duas festas muito antigas que
existiam antes do Êxodo.
A festa anual dos pastores nómadas tornou-se o memorial de um
acontecimento histórico onde Israel reconheceu um acto salvífico de Deus,
fazendo-o passar da escravidão à liberdade, da morte à vida. O sangue do
25
cordeiro aspergido nas portas dos judeus era o sinal para a morte não
entrar nas suas casas quando passou matando todos os primogénitos no
Egipto.
A festa anual dos pães ázimos pode ter tido como origem uma festa rural
que se celebrava no início da colheita dos cereais. Era um ritual de
renovação, de recomeço. Ao adoptar esta festa, depois da sua entrada em
Canaã, Israel deu-lhe um novo significado, relacionando-a com a saída do
Egipto.
Paulo dá-nos o primeiro testemunho escrito de como a tradição cristã
chegou até nós. A escrita da Carta aos Coríntios é anterior ao Evangelho
de Marcos. Para melhor compreender a leitura de hoje deve ler-se no seu
contexto: (cf.1 Cor 11, 17-31). Paulo não está satisfeito com o modo como
os cristãos de Corinto estão a celebrar a Eucaristia “desprezais a Igreja de
Deus e quereis envergonhar aqueles que nada têm” (v.22), remete-os à
origem da ceia do Senhor: recebi do Senhor o que vos transmiti (v.23) e dá
séria orientação para se poder comungar: cada um examine-se a si mesmo
antes de comer deste pão (v.28).
Seguindo a orientação de S. Paulo aprofundemos as palavras do evangelho
que nos relatam o acontecimento inicial da eucaristia.
Jesus faz os mesmos rituais da Páscoa judaica, mas dá-lhes outro sentido.
Jesus não faz alusão ao cordeiro que era o centro da refeição pascal. O
acento recai agora nos gestos e palavras de Jesus.
João, como os Sinópticos, quer evidenciar na narrativa da última ceia, a
total entrega de amor por parte de Jesus. Na entrega do pão e do vinho, vê
toda a sua vida para trás e para a frente e faz dela o sacramento da sua
presença real e de toda a vida cristã.
Nas palavras da instituição da Eucaristia fica claro que, quem acredita e
segue Jesus, ao celebrar a Eucaristia, é desafiado a fazer o mesmo que
Jesus: entregar a própria vida por amor aos outros. Sem essa entrega de
Jesus e a nossa própria entrega no seu seguimento, não há eucaristia. Por
isso atenção às palavras: “fazei isto em minha memória”.
O “fazei isto em minha memória” dos Sinópticos significa em João “amaivos como Eu vos amei”, “lavai os pés uns aos outros”; não é questão de um
ritual, é entrega da própria vida como Jesus: “… entregue por vós, …
26
derramado por vós”. Na palavra “entregue por vós”, os quatro evangelistas
juntam-se no mesmo sentido que tem a Eucaristia.
A tarefa de lavar os pés era trabalho de escravos e inclusive um rabi não
podia exigi-lo a um escravo hebreu. Jesus pede-nos a nós esta mesma
humildade, este espírito de serviço recíproco que só se pode inspirar no
amor (vv.12-15).
Acolher o escândalo da humilhação do Filho de Deus, que lava os pés aos
discípulos e é crucificado; deixar-nos purificar pela sua caridade (v.8) levanos ao mesmo dinamismo da oblação divina, seguindo o exemplo de Cristo
(v.13-15).
Esta é a condição indispensável para participar no seu memorial, para
celebrar a Páscoa com Ele.
■ Perguntas para reflexão
– Como vês o lava-pés relacionado com a Eucaristia?
– Que serviços realiza a nossa comunidade cristã na sociedade onde está
inserida?
– Comparando a nossa comunidade paroquial com a comunidade de
Corinto, o que é que S. Paulo reprovaria na nossa comunidade?
– Lendo Jo 13, 34-35 qual é o distintivo do cristão?
■ A nossa resposta em oração
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
Se não tiver amor, nada sou.
Ainda que eu tenha o dom da profecia
E conheça todos os mistérios e toda a ciência,
Que tenha uma fé capaz de transformar montanhas,
Se não tiver amor, nada sou.
Ainda que eu distribua todos os meus bens
E entregue o meu corpo às chamas,
Se não tiver amor, de nada me aproveita.
O amor é paciente e prestável,
Não é invejoso, arrogante ou orgulhoso,
27
Nada faz de inconveniente
Nem busca o seu próprio interesse,
Não se irrita nem guarda ressentimento.
O amor não se alegra com a injustiça,
Mas rejubila com a verdade.
O amor tudo desculpa,
Tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.
Há três coisas que recebemos:
A fé, a esperança e o amor,
A maior de todas é o amor.
Ámen.
(cf. 1 Cor 13, 1-7.13)
28
Sexta-Feira Santa
Celebração da Paixão do Senhor
Neste dia não há Eucaristia. Celebra-se
a Paixão do Senhor, que não pode ser
entendida isoladamente, mas no
conjunto do tríduo pascal: paixão,
morte e ressurreição.
A figura do Servo Sofredor ajuda-nos a
compreender este mistério do
Crucificado.
Esta celebração consta de quatro
partes: a liturgia da Palavra; a oração
Universal; a adoração da cruz e a
Comunhão.
A PALAVRA DE HOJE:
Isaías 52, 13 – 53, 12
Hebreus 4, 14-16; 5, 7-9
João 18, 1 – 19, 42
■ Comentário às leituras
O texto da primeira leitura é o quarto cântico do Servo. Isaías apresentanos quatro cânticos: (Is 42, 1-4; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 – 53,12). A figura do
servo que aparece no tempo do Exílio pode fazer pensar num profeta, no
povo de Israel sofredor no exílio mas o Novo Testamento identifica essa
figura com o Cristo da Paixão.
Servo, Justo, Cordeiro, Filho, são termos afins. Vejamos o processo do Servo.
1 – Desanimado no Exílio, pensando que Deus o abandonou, descobre
que, mesmo aí, Deus o ama: “Eis o meu Servo, meu eleito em quem tenho
prazer” (1º cântico do Servo).
2 – Amado por Deus, recebe uma missão: a prática da justiça, aliança do
povo e luz das nações (2º cântico).
29
3 – No cumprimento da missão, o servo parece que passa por uma tentação:
como quem está em situação superior e muito protegido porque Deus vai
punir os adversários (3º cântico e versículos seguintes).
4 – No exercício da missão, o servo dá um passo decisivo: aceitar sofrer
inocente e injustamente, indo a caminho como um cordeiro conduzido ao
matadouro (53,7).
O Servo sofredor inocente mostra que acontece uma injustiça, um absurdo.
O Servo salva, porque não responde pelo mesmo caminho do opressor.
Pode salvar mesmo o opressor que, ao ver o mal causado ao inocente,
pode-se arrepender e encontrar a salvação. O sofrimento inocente e por
amor salva: (Is 53, 5: esmagado pelas nossas iniquidades…por suas feridas
fomos curados).
Hoje é o pobre, o pequeno que carrega com os males da sociedade. A
grande notícia é que esse sofrimento não é inútil; tem missão salvadora.
A Igreja celebra a paixão do Senhor com a segurança de que a cruz de
Cristo não é a vitória das trevas, mas a morte da morte. Esta visão de fé
aparece de modo particular em João. Jesus é apresentado como rei que
conhece a situação, domina-a e apropria-se dela. A Hora de Jesus – que
chegou – descreve-se através dos acontecimentos como hora de sofrimento
e de glória: o ódio do mundo condena Jesus à morte de cruz, mas do alto
da cruz, Deus manifesta o seu amor infinito. Nesta esplêndida revelação,
nesta total entrega divina, consiste a glória. A cruz é glória porque é vitória
do amor levado ao extremo. É prova máxima do amor de Deus.
A vida de Jesus não foi só ensinar o bem, não foi só fazer o bem; foi
entregar a vida e sofrer como aqueles que Ele quer salvar. Não basta ensinar
o bem, não basta fazer o bem de vez em quando; é indispensável entregar
a vida, sofrer com quem sofre.
A narração da paixão começa e termina num horto – lembrança do Éden –
querendo indicar que Cristo assumiu e redimiu o pecado do primeiro Adão
e o homem recobra agora a sua beleza original. A narração ao mostrar o
sofrimento de Jesus ressalta que Jesus é o Senhor, que Ele é Deus: “SOU
EU” (cf. 18, 5-7) e que a história não lhe foge da mão. O termo rei aparece
doze vezes no relato da paixão (dezasseis em todo o quarto evangelho).
No momento em que Jesus é julgado, cumpre-se antes de mais, o juízo
sobre o mundo (cf. Jo 18, 19).
30
Quando é elevado na cruz, cumpre-se a Escritura (19, 28. 36-37).
Precisamente no momento da morte nasce a Igreja onde Maria é Mãe (19,
26-27: Eis o teu filho, eis a tua mãe. O novo povo regenerado no Baptismo,
pela participação na morte e ressurreição de Jesus, e alimentado com a
Eucaristia, celebrará ao longo dos séculos a Páscoa do verdadeiro Cordeiro
(19, 33; cf. Ex 12, 16), até que se cumpra no reino de Deus (cf. Lc 22, 16).
■ Perguntas para reflexão
– Olha para a cruz e fica a pensar como se revela o Deus verdadeiro em
Cristo crucificado.
– Pensa em pessoas concretas que estão a sofrer no mundo.
– Quem carrega hoje os pecados do mundo? (Crise económica, vítimas das
guerras, os indefesos).
– O próprio sofrimento inocente de Deus a sofrer na cruz, traz alguma luz
ao problema de todo o sofrimento inocente?
■ A nossa resposta em oração
Se Deus está por nós,
Quem pode estar contar nós?
Ele que nem sequer poupou o seu próprio Filho,
Mas o entregou por todos nós,
Como não havia de nos oferecer tudo juntamente com Ele?
Quem poderá separar-nos do amor de Cristo?
A tribulação, a angústia, a perseguição,
A fome, a nudez, o perigo, a espada?
Mas em tudo isso saímos vencedores
Graças àquele que nos amou.
Sabemos que nem a morte nem a vida,
Nem os anjos nem os principados,
Nem o presente nem o futuro,
Nem as potestades, nem a altura, nem o abismo,
Nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor
De Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso.
Ámen.
31
Vigília Pascal
Ambientação
A Vigília Pascal é o coração da liturgia
cristã, centro do ano litúrgico, a mais
antiga, a mais sagrada, a mais rica de
todas as celebrações; no dizer de S.
Agostinho a “mãe de todas as vigílias”.
É na noite de Páscoa que a celebração
da morte e ressurreição do Senhor tem
o seu ponto culminante.
O mistério pascal não é estático, mas
dinâmico. Não é um estado de Cristo,
mas uma “passagem”, um movimento,
em que é envolvido todo o povo de
Deus. A espera dos cristãos nesta noite
santa não se reduz à comemoração de um facto objectivo e real. É a espera
de Alguém. É a espera do Senhor que volta ressuscitado para nos levar a
fazermos com Ele a mesma passagem da morte à vida, seguindo-o no diaa-dia, carregando a nossa cruz.
Ao celebrarem a primeira manhã de Páscoa, os cristãos esperam com alegria
a sua própria manhã de Páscoa.
Ser baptizado é, na verdade, morrer com Cristo para ressuscitar com Ele.
Por isso, a Igreja, desde os tempos mais antigos, pensou que o melhor
meio de celebrar o mistério pascal era baptizar nesta noite os seus
catecúmenos e levar os baptizados a fazer memória viva dos compromissos
do seu dia de Baptismo.
A Liturgia da Vigília Pascal tem as seguintes partes:
Liturgia da Luz: Cristo ressuscitado, luz do mundo que não se apaga mais.
Liturgia da Palavra: História da salvação – da criação à ressurreição “nova
criação”.
Liturgia Baptismal: nossa entrada na ressurreição com Jesus.
Liturgia Eucarística: Vivência e celebração permanente da morte e
ressurreição de Cristo e da nossa vida cristã.
32
(O Missal Romano tem nove leituras para a Vigília
Pascal: sete do Antigo Testamento e duas do Novo
Testamento. Mantendo a visão da história da
salvação, como a Liturgia o exige, apresentamos aqui
três leituras do Antigo Testamento e duas do Novo
Testamento).
A PALAVRA DE HOJE:
1 - Génesis 1, 1 – 2,2
2 - Êxodo 14, 15 – 15, 1
3 - Ezequiel 36, 16-17 a.18-28
4 - Romanos 6, 3-11
5 - Marcos 16, 1-8
■ Comentário às leituras
Depois da celebração da Luz, simbolizando a
Ressurreição, a Liturgia volta atrás apagando as luzes
para ver o caminho da História que conduziu até à
Ressurreição. No entanto, o Círio pascal, que
simboliza Cristo ressuscitado, permanece aceso. É
nele que se acende a vela durante o Baptismo.
Cristo é a luz do mundo e o cristão, no Baptismo,
recebe a missão de ser testemunha da luz.
A primeira leitura relata-nos a Criação. Assim começa
a Sagrada Escritura: “No princípio Deus criou…”. É a
Palavra de Deus que cria e ordena o Universo. A
coroa da criação é o homem e a mulher, criados “à
sua imagem e semelhança ” (v.26). Com o ser
humano, a criação fica completa e a partir daí, em
vez de bom o texto diz: Deus viu tudo o que tinha
feito: e era muito bom (v.31).
A nossa primeira vocação é à vida em comunhão
com Deus, com os nossos semelhantes, e a harmonia
com a natureza.
Os males que vemos no mundo (fratricídio, desordem
moral, idolatria, injustiça, tráfico humano e toda a
33
opressão e escravatura) não vêm de Deus; vêm da desobediência do ser
humano à sua Palavra e da influência externa negativa.
Na segunda leitura, Deus escuta o grito do povo oprimido e liberta-o da
escravidão. É o Êxodo.
As águas do Mar Vermelho, uma ameaça de morte, convertem-se em fonte
de salvação; (por isso o Cristianismo viu nessa passagem do Mar, um
símbolo das águas baptismais; cf. Oração da Bênção da água na Vigília
Pascal).
A passagem do mar aparece aos olhos do povo liberto, como uma
impressionante revelação de Deus, que actua na história. Este texto termina
com três verbos fundamentais: o povo viu, temeu e acreditou. Estes verbos
aparecem nas narrações evangélicas da ressurreição de Cristo. As
maravilhas realizadas pelo Senhor reforçam a fé dos libertos do Egipto que
podem retomar o caminho e exaltar solenemente a experiência vivida,
como aparece no cântico da vitória (Ex 15, 1-21).
Sabemos como o povo, pouco depois, começou a murmurar contra Deus e
contra Moisés e caiu na idolatria e na prática das injustiças, negando a
aliança com Deus e uns com os outros.
Mas Deus não abandona o seu povo. Repetidas vezes contrai aliança com
os homens, e pelos Profetas os forma na esperança da salvação (cf. IV
Oração Eucarística). Vai nascendo no coração do povo pobre e humilde, a
esperança do Messias, e paralelamente se anuncia que Deus vai dar um
coração novo, um espírito novo, como lemos na leitura de Ezequiel.
“Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; …Dentro de
vós porei o meu espírito, fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais
e pratiqueis os meus preceitos (cf. Ez 36, 25-27).
Ao longo da história da salvação foram aparecendo luzes de esperança,
resistências ao mal, e desejos de vida. A Ressurreição de Cristo surge como
a grande Luz, que ilumina toda a história para trás e para a frente. Nela,
ganham sentido, todas as resistências ao mal e desejos de vida da
humanidade. A pedra da morte que pesava sobre a humanidade foi
removida! (Marcos 16,3)
A morte e a ressurreição de Cristo são a resposta de Deus ao grito de todos
os oprimidos da humanidade, também ao de Cristo na cruz. É a nova criação;
é vida eterna.
34
O verdadeiro e definitivo Êxodo é a passagem da morte à vida. Todo o ser
deseja viver para sempre; o maior obstáculo na frente é a morte. A criação
existe, ninguém a pode negar, ninguém assistiu ao começo, mas está aí,
como uma evidência. A ressurreição é uma nova criação, que já começou;
também já está aí.
Os primeiros cristãos, quando fizeram a experiência que Jesus está vivo
exclamam: é o Senhor: (Vi o Senhor! - Jo 20,18; Vimos o Senhor - Jo 20, 25;
É o Senhor - Jo 21,7; é verdade, o Senhor ressuscitou - Lc 24, 34); o
Crucificado ressuscitou (cf. Mc 16, 6).
O povo de Deus, quando se viu libertado da escravidão no Egipto, tendo
passado a pé enxuto, o Mar vermelho: exclamou: foi o Senhor que nos
libertou.
É conveniente reparar na relação e semelhança da experiência de fé dos
dois Êxodos: saída da escravidão no Egipto e saída da morte.”É o Senhor!”
A vigília pascal é o momento oportuno e próprio para o Baptismo; é por
isso que os catecúmenos são baptizados nesta noite e os baptizados
renovam o seu Baptismo. “Pelo Baptismo fomos, pois, sepultados com Ele
na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos
pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova” (Rom 6, 4).
Ser cristão é ter esta alegria e certeza da vida eterna, mas também é uma
missão: ser testemunha da ressurreição de Jesus (Act 1, 8). A semente de
eternidade que o Baptismo lança em nós, deve guardar-se e crescer, para
que a graça de uma vida nova se desenvolva em plenitude. Jesus não só
ressuscitou, mas tornou-se visível (Act 10, 40; Apoc 1, 1).
■ Perguntas para reflexão
– Sabes a data do teu Baptismo?
– Saúdas e recebes com carinho os novos baptizados?
– Se a Vigília Pascal é o máximo da nossa fé e de toda a Liturgia cristã,
porquê a maioria das nossas paróquias não a celebra?
– Ser cristão é ser testemunha da ressurreição de Cristo. Como é que tu O
testemunhas e O tornas visível?
– A ressurreição é uma nova criação. O que estamos a ver no mundo que
é realidade desta nova criação?
35
■ A Palavra converte-se em oração
Bendito seja Deus,
Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo,
que na sua grande misericórdia
nos gerou de novo
para uma esperança viva,
para uma herança incorruptível,
para um compromisso de uma boa consciência
para com Deus
pela ressurreição de Jesus Cristo.
Ámen.
(cf.1 Pe 1, 3-5; 3, 21)
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Domingo de Páscoa
Ambientação
A Quaresma levou-nos à cruz onde
Deus se revela de maneira totalmente
extraordinária, ao revelar-se Deus
crucificado, prova máxima do seu
amor.
A grande surpresa da Páscoa é a
descoberta, a experiência dos (as) seus
discípulos (as) que esse mesmo
Crucificado está vivo, ressuscitado. A
pedra da morte está removida (cf. Mc
16, 4) e os seus discípulos começam
pouco a pouco a ter a certeza de que
Ele está vivo.
A PALAVRA DE HOJE:
Actos 10, 34 a. 37-43
Colossenses 3, 1-4
Lucas 24, 13-35.
■ Comentário às leituras
Quando nós, cristãos, nos reunimos ao Domingo, no Dia do Senhor para
celebrar a Eucaristia, celebramos a presença do Senhor Crucificado e
ressuscitado. “Celebramos Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa
ressurreição, vinde, Senhor Jesus! Todos os Domingos são Domingos de
Páscoa. Assim rezamos cada Domingo: “Reunidos na vossa presença ao
celebrarmos o primeiro dia da semana em que Nosso Senhor Jesus Cristo
Ressuscitou dos mortos…”
Nós cristãos nascemos da ressurreição do Senhor: fomos gerados e nascidos
pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos (cf. 1 Pe 1, 3).
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Lemos na primeira leitura que “Deus o ressuscitou ao terceiro dia e concedeulhe que se tornasse visível” (Act 10, 40). A nossa missão de cristãos é
visibilizar, testemunhar a ressurreição de Cristo em toda a parte (cf. Act 1,
8).
O Senhor ressuscitado não aparece com prepotência. Continua idêntico ao
presépio e à cruz. Como Ressuscitado necessita da humildade e fragilidade
das testemunhas, que por vezes também são crucificadas, para fazer chegar
a luz libertadora da ressurreição, a nova criação. De notar que as primeiras
testemunhas da ressurreição são as mulheres que nessa época não eram
consideradas testemunhas válidas.
O Domingo, o Dia do Senhor, tem origem na vida dos cristãos que se
começaram a reunir e a celebrar a presença do Senhor. Daí a importância
para não falharmos a este encontro dominical, mas não o façamos apenas
por preceito; façamo-lo por identidade cristã.
Os evangelhos do tempo pascal dizem respeito às aparições e ao discurso
do pão da vida (Jo 6). As leituras são tiradas principalmente dos Actos dos
Apóstolos e do Apocalipse. Olhando as leituras podemos dizer que é a
vida dos cristãos que torna visível a ressurreição. As testemunhas iniciais
daqueles que andaram e amaram Jesus são referência determinante. Esses
discípulos e discípulas anunciaram com alegria e por toda a parte:
“Ressuscitou”; “Ele é o Senhor”. (cf. Jo 20,18. 25; Jo 21,7; Lc 24, 34; Mc 16, 6;
Act 2,24.36; 3,15;4,10-12).
O caminho para nós hoje descobrirmos o Ressuscitado é o caminho da
Eucaristia (Jo 6) ou seja o caminho de Emaús: Vida, Bíblia, Eucaristia
(Comunidade) (cf. Lc 24, 13-35).
O evangelho para a tarde deste domingo de Páscoa (Lc 24, 13-35) é uma
catequese maravilhosa para mostrar como Jesus nos acompanha e nos
ressuscita. Olhando o texto apresentamos um roteiro:
1 - Partir da VIDA levada a sério, “conversavam sobre todos estes
acontecimentos (v.14);
2 - Deixar-se interpelar e esclarecer por um desconhecido… “o próprio Jesus
aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles e perguntou-lhes: que palavras
são essas que trocais de rosto tão sombrio enquanto ides caminhando?
(vv-15-16) … Um deles pergunta-lhe: Tu és o único forasteiro que ignora os
factos que aconteceram nestes dias…como os nossos chefes entregaram
Jesus para ser condenado à morte e o crucificaram?
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O desconhecido disse-lhes: insensatos e lentos de coração para crer… e
explicou-lhes as Escrituras (BIBLIA) (cf. v.25-27).
3 – Acolher o desconhecido na casa e mesa: “Fica connosco, pois a tarde e
o dia já declina” (COMUNIDADE) (v.29). E agora acontece a grande surpresa:
na fracção do pão descobrem a luz da ressurreição: “então os seus olhos se
abriram e o reconheceram; Ele porém ficou invisível diante deles.” (v. 31).
4 – Voltar ressuscitado à comunidade dos discípulos e discípulas que
proclamam: “é verdade, o Senhor ressuscitou!” (v. 34) e eles por sua vez
narraram os acontecimentos do caminho e como haviam reconhecido Jesus
na fracção do pão (MISSÃO).
O caminho de Emaús é o nosso caminho de Páscoa, onde, celebrando
juntos a Eucaristia, nos ajudamos uns aos outros a descobrir a presença do
Ressuscitado, contando a nossa vida na partilha de fé. A ressurreição não
é comprovável como a crucifixão; está na esfera da fé, não é demonstrável
empiricamente.
■ Perguntas para reflexão
– A tua fé fundamenta-se num encontro pessoal com o Ressuscitado?
– Se a ressurreição de Jesus é uma nova criação, um movimento de vida
eterna (reino de Deus), que sinais estamos a ver que testemunham a
ressurreição de Jesus e a nossa entrada nessa mesma ressurreição?
– Como ser hoje missionário da Ressurreição?
■ A Palavra converte-se em oração
Senhor Deus do Universo,
que neste dia, pelo vosso Filho Unigénito,
vencedor da morte,
nos abristes as portas da eternidade,
concedei-nos que,
celebrando a solenidade da rRessurreição de Cristo,
renovados pelo vosso Espírito,
ressuscitemos para a luz da vida.
Ámen.
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ANUNCIAMOS CRISTO CRUCIFICADO
Subsídios para a Quaresma e Páscoa - Ano B
Texto: Joaquim Domingos Luís e Manuel Abreu, svd
Desenhos: Editorial Verbo Divino - Espanha
Composição Gráfica: J. Leonel de Sousa, svd
Impressão: Tadinense AG - Braga
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