O DISPOSITIVO ANALÍTICO COMO PRODUÇÃO ARTÍSTICA*

O DISPOSITIVO ANALÍTICO
COMO PRODUÇÃO
ARTÍSTICA*
VEIGMA LACERDA E SILVA**, DENIZYE ALEKSANDR A
ZACHARIAS***
Resumo: o presente estudo tem como objetivo a tentativa de cotejar as produções artísticas à
arte interpretativa da Psicanálise, bem como a posição do analista e analisante no enlace da
transferência com o fazer do artista via sublimação. Trata-se de discutir sobre os propósitos
da experiência analítica que possibilita ao sujeito aprender algo dos efeitos desta produção
artística singular. Isto será possibilitado através de teorias freudianas e de fragmentos de
atendimentos clínicos realizados no CEPSI. Apesar das dificuldades concernentes à elaboração
do trabalho de natureza psicanalítica, acredita-se na possibilidade de lograr êxito quanto ao
desejo de dizer sobre arte e Psicanálise.
Palavras-chave: Transferência. Analista. Artista. Arte. Sublimação.
É preciso ao analista “portar-se como um artista que compra tintas com o dinheiro da despesa da casa e queima seus móveis para
aquecer a modelo.
(Carta de 05 de Junho de 1910; Freud e Pfister, 1998)
N
a procura do tratamento analítico o indivíduo, de início ao menos, procura
fornecer sua demanda consciente para que esta seja correspondida. Demanda de
aliviar suas angústias, de alcançar o autoconhecimento, de cura, de obter saída
para seus principais conflitos, adquirir formas mais saudáveis de lidar com seus problemas
senão eliminá-los. No entanto, o que se vê é que em todo seu discurso, o analisando está
demandando amor. Um amor não correspondido em algum momento de sua vida.
Nem sempre o que leva a pessoa à análise é o amor dirigido à figura do analista, mas
imprescindivelmente, um significante qualquer que comparece em meio à sua escolha, como,
* Recebido em: 18.01.2015. Aprovado em: 20.02.2015.
** Mestranda em Psicologia pela PUC Goiás. Graduada em Psicologia pela PUC Goiás. Bailarina da Cia de Dança
Noah da Coordenação de Arte e Cultura da Pró-Reitoria de Extensão e Apoio Estudantil da PUC Goiás.
*** Professora-orientadora do artigo. Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás. Graduada em
Psicologia pela Universidade Católica de Goiás. Coordenadora da Área de Desenvolvimento e Escolar do
Departamento de Psicologia e Supervisora de Estágio Clínico em Psicanálise
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por exemplo, o nome do analista ou o que já lhe disseram sobre o mesmo. Contudo, o amor
será convocado a emergir no dispositivo analítico, pois é neste âmbito que a libido terá espaço
para se fazer presente; a transferência torna-se porta de entrada para o inconsciente, já que
“pode aparecer como uma apaixonada exigência de amor” (FREUD, 1917/2006, p. 443).
O indivíduo, então, leva seus problemas para a análise na busca de solução para os
mesmos, contudo no decorrer do tratamento “o paciente, que deveria não desejar outra coisa
senão encontrar uma saída para seus penosos conflitos, desenvolve especial interesse pela pessoa do médico” (FREUD, 1917/2006, p. 441). No entanto, este interesse não é atual, deriva
de experiências infantis vivenciadas como suas imagos paterno e/ou materno.
E como a experiência analítica propícia o aparecimento da libido – pois aqui ela é
convocada a comparecer – esta entra num curso regressivo, recordando materiais passados e
revivendo imagos infantis (FREUD, 1912a/2006), assim como ocorre na produção artística,
onde o artista, na confecção de sua obra, expressa as mais variadas experiências vividas em um
passado remoto.
Segundo Freud (1914b/2006), a transferência é um fragmento da repetição. Pois
o paciente utiliza-se disto para desviar da cena principal que havia trazido para a análise: seu
sintoma. Agora seu inconsciente a partir do mecanismo de repetição, usufrui da transferência
como meio de abandonar furtivamente aquilo que lhe angustia, que são lembranças de fases
primevas de sua vida.
Como um artista em busca de expressar seus desejos a um expectador atencioso, o
analisante repete na tentativa de lograr seu sofrimento, compartilhando com seu analista suas
experiências calculando o quão isso possa despertar seu interesse compreensivo e ser capaz
de evocar e satisfazer os mesmos impulsos inconscientes repletos de desejos também nele
(FREUD, 1925/2006), tentando conquistar sua atenção amorosa.
Contudo, sob esta repetição em forma reeditada há sempre uma alteração da experiência original porque a libido não se vincula diretamente à pessoa do analista, mas à figura que o
mesmo representa no dispositivo analítico. Então, o amor que emana neste âmbito não se liga ao
analista: é, no entanto, fruto de um deslocamento dos sentimentos vivenciados na infância para a
figura do mesmo. “Quando as coisas atingem esta etapa, pode-se dizer que a neurose primitiva foi
substituída por outra nova, pela ‘neurose de transferência’” (FREUD, 1921/2006, p. 29).
Assim, a transferência no ensejo do tratamento analítico comparece como a “arma
mais forte da resistência” (FREUD, 1912a/2006, p. 115). Até porque este mecanismo atua
como resistência quando está se chegando ao desejo, então para não tomar consciência este
analisando resiste em recordar. Entende-se que a libido que deveria comparecer como recordação fazendo-se consciente se faz presente ligando-se a protótipos do indivíduo atuando
como repetição das experiências vividas na infância.
Contudo, é economicamente viável para o indivíduo desviar suas energias para o
amor que direciona à figura do analista ao invés de recordar-se de algo que lhe foi traumático.
Desta forma, assim como um escritor, cria uma espécie de incerteza não permitindo saber,
inconscientemente de propósito, se se conduz pelo mundo real ou por um mundo de sua
própria criação (FREUD, 1919a/2006).
Então, a resistência que comparece em análise para que o indivíduo não se recorde
de suas lembranças encontra o amor ao analista “pronto, à mão, faz uso dele e agrava suas
manifestações [...] o amor consiste em novas adições de antigas características e repete reações
infantis” (FREUD, 1912a/2006, p. 185).
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Contudo, sabe-se que estes sentimentos despertos no dispositivo analítico é algo
próprio da “invenção” entre analista e analisante, onde, por meio da transferência, este é convidado a por em jogo sua responsabilidade criadora e o comprometimento de sua fantasia,
se implicando com seu desejo. Atuando como artista, o analisante encontra neste dispositivo
a liberdade para criar e produzir de acordo com sua subjetividade, pois não é conduzido por
meio de técnicas. O analista apenas atenta-se a recomendações, pois cada sujeito em análise
produz sua própria invenção, não havendo um saber imposto.
Uma das recomendações a serem colocadas em práticas nesta conjuntura atuando
como principal interesse para o analista reside nas resistências do paciente. “A arte consistia
então em descobri-las tão rapidamente quanto possível, apontando-as ao paciente e induzindo-o, pela influência humana [...] a abandonar suas resistências” (FREUD, 1921/2006),
p. 29). Cabe ao analista, com todo seu conhecimento realizar o manejo da transferência e
aproveitar este momento para amparar esta libido e “transformar a repetição em lembrança”
(FREUD, 1917/2006, p. 445). Pois, é recordando que o sujeito está vivendo de alguma
forma sua fantasia. Pois do lado do neurótico, do sintoma, encontra-se a repetição; no lado
criativo, o artista torna claro que se pode engendrar algo novo na significação de seu desejo.
O analista pode conduzir para que estas fantasias do sujeito transmudem-se em
novas produções de saber, subtraindo-se à neurose e reatando as ligações com a realidade
(FREUD, 1910/2006) semelhante ao que faz um artista. Isto é permitido pelo manejo da
transferência ensejada na análise, possibilitando que o analista alcance seus principais esforços de “tornar consciente o que é inconsciente, remover as repressões e preencher as lacunas
da memória” (FREUD, 1917/2006, p. 437). É levar o analisante “a confirmar a construção
teórica do analista com a sua própria memória” (FREUD, 1921/2006, p. 29). Desta forma,
este procedimento torna-se um forte aliado para o tratamento.
“A transferência cria, assim, uma região intermediária entre a doença e a vida real”
(FREUD, 1914b/2006, p. 170). Tratado sob estas recomendações, esse amor transferencial
pode fornecer espaço para o desvelar de novos saberes a partir da revivência de experiências
passadas. Quando, então, o sujeito desvela seus desejos produz seu próprio saber e constrói
em análise a elaboração de sua sexualidade infantil, diminuindo possivelmente suas resistências em recordar.
“O artista, como o neurótico, se afastara de uma realidade insatisfatória” (FREUD,
1925/2006, p. 67). Este mesmo autor afirma que a arte propicia uma reconciliação entre o
princípio do prazer e o de realidade, de maneira única (1911/2006). E, próximo às construções realizadas em análise, esta pode ser também uma das maneiras onde ambos os princípios
do acontecer psíquico possam pôr-se de acordo entre si.
Vê-se então que o único contexto onde deveria haver reconciliação entre os conflitos psíquicos e se fazer arte é no dispositivo analítico, pois pela associação livre e a escuta
no enlace da transferência permitem produzir algo, tornando arte aquilo que seria penoso de
outra forma.
“É perfeitamente normal e inteligível que a catexia libidinal de alguém que se acha
parcialmente insatisfeita, uma catexia que se acha pronta por antecipação, dirija-se também
para a figura do médico” (FREUD, 1912a/2006, p. 112). O analista não deve entender,
então, o amor direcionado a si como produto de suas atribuições pessoais e valer-se disto em
análise, mas antes de tudo sondar o âmbito analítico e tirar proveito da transferência para
auxiliar o analisando no reconhecimento de novos saberes.
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Vê-se assim a importância do papel do analista, onde ele deve se destituir de sua
posição de sujeito e pôr-se como objeto causa de desejo do analisante e saber conduzir o tratamento através do manejo da transferência por meio da política do desejo: não deve desejar
outra coisa senão que haja análise. E esta postura do analista envolve sua criação de analista
enquanto tal, não como analista ideal, porque “o ideal é a glória da forma” (Miller, 2010, p.
2) e no dispositivo analítico o disforme e o estranho têm lugar fundamental.
Desta forma, permite-se assim a análise funcionar como potência criadora de produções artísticas onde analisante e analista se comprometem, respectivamente, a levar a cabo
a regra fundamental da psicanálise e a ser objeto causa de desejo de cada subjetividade no
dispositivo analítico. O trabalho em análise parte do analisante e o analista nada mais faz a
ter que exercer a paciência, permitindo que as coisas aconteçam de acordo com o curso de
elaboração de cada sujeito, sem retê-las ou antecipá-las (FREUD, 1914b/2006).
O trabalho da interpretação e também do manejo da transferência via política do
desejo “traz a luz, por assim dizer, a matéria-prima, que deve, no mais das vezes, ser descrita
como sexual no mais amplo sentido, mas que encontrou as mais variadas aplicações em adaptações posteriores” (FREUD, 1933/2006, p. 242).
E uma destas vias para a satisfação do desejo é o da sublimação, mas que em si tem
sua finalidade modificada, não sendo sexual. Freud (1905) afirma que a origem da sublimação reside dos desvios sofridos pela pulsão sexual em função dos obstáculos encontrados para
a obtenção da satisfação; “a curiosidade sexual [...] pode ser desviada (“sublimada”) pela arte,
caso se consiga afastar o interesse dos genitais e voltá-la para a forma do corpo como um todo”
(p. 147). Por isso poder dizer que o alvo da sublimação não é sexual, há um desvio quanto à
sua meta: seu objetivo é distante da satisfação sexual.
Sublimação é o processo de tornar algo sublime atingindo altíssimo grau na escala
dos valores morais (Bueno, 1996). É, pois conseguir elevar seu desejo à satisfação por via da
confecção de uma obra artística que conquista uma aceitação social. Em análise, próximo a
esta contigência, o analisante pode falar sobre suas questões e produzir algo de forma socialmente aceitável. O analisante como o artista acede a um gozo por um viés que não implica o
recalque, diferente do neurótico que dissimula para si mesmo as condições de acesso ao que
lhe satisfaz.
A psicanálise, então, deve ser entendida não só como ciência, mas acima de tudo
como uma arte interpretativa (FREUD, 1921/2006). Pois, através dos efeitos da transferência o
analista auxilia o analisante a produzir sua arte. Segundo Freud (1913a/2006, p. 188-9), “as forças motivadoras dos artistas são os mesmos conflitos que impulsionam outras pessoas à neurose
e incentivam a sociedade a construir instituições”; como em outras entidades como a filosofia
e a religião tem suas forças motivadoras próximas aos delírios paranoicos e à neurose-obsessiva.
Esta ciência, então, não tem sua aplicação voltada somente ao campo dos distúrbios psicológicos, mas estende-se “à solução de problemas da arte, filosofia e da religião”
(FREUD, 1919c/2006, p. 188). De acordo com este mesmo autor (1913a/2006) a atividade
artística está destinada a apaziguar desejos não satisfeitos do artista. Semelhante, ocorre em
análise quando o sujeito nomeia e endereça seu desejo ao Outro, fazendo enunciação de suas
fantasias e inventando novos saberes extraindo da doença a riqueza que ela traz, mas sempre
baseados em vivências passadas.
Em seus estudos, Freud também dirigiu parcela de sua atenção às análises de produções artísticas com outras finalidades fora de âmbito terapêutico, como de análises de sonhos
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de imaginação realizados por alguns artistas que levaram, por fim, em suas próprias análises
(FREUD, 1914a/2006). De certa forma, cada produção social tem em si conteúdos de suas
experiências pessoais, mesmo que desconhecidas conscientemente pelo próprio sujeito ou por
seus expectadores.
Os estudos que abrangem estas outras áreas de saber têm seu interesse
por parte da psicanálise não só por ser em si ricas de conteúdos que se relacionem com
a história do pensamento humano, mas por muito dizerem sobre as estruturas psíquicas estudadas por esta ciência. Freud realiza uma analogia entre estas e as três instituições sociais: a arte, a religião e a filosofia; a histeria sendo a caricatura de uma obra de
arte, a neurose obsessiva a de uma religião e o delírio paranoico como sistema filosófico
(FREUD, 1913b/2006).
Em uma de suas obras, Freud (1919b/2006, p. 280) afirma que
os histéricos são indubitavelmente artistas imaginativos mesmo que, de um modo geral, expressem
as suas fantasias mimeticamente e sem considerar a sua inteligibilidade para as outras pessoas; os
cerimoniais e proibições dos neuróticos obsessivos levam-nos a supor que eles criaram uma religião
própria, particular; e os delírios dos paranoicos têm uma desagradável similaridade externa e um
parentesco interno com os sistemas dos nossos filósofos.
Estes sujeitos, quanto à produção de novos saberes em análise, trazem consigo algo
que muito tem a dizer sobre a própria história da humanidade, assim como o artista em sua
obra, pela via da sublimação, diz sobre seus desejos e fantasias em si mesmos não revelados.
Pois, o caminho da fantasia à realidade só é possível pela via da arte.
Apenas em um único campo de nossa civilização foi mantida a onipotência de pensamentos e esse
campo é o da arte. Somente na arte acontece ainda que um homem consumido por desejos efetue
algo que se assemelhe à realização desses desejos e o que faça com um sentido lúdico produza efeitos
emocionais – graças à ilusão artística – como se fossem reais” (FREUD, 1913b/2006, p. 100).
E estes efeitos também se assemelham aos produzidos no dispositivo analítico, desde o nascedouro da transferência.
Assim como uma obra de arte as próprias construções realizadas em análise jamais
poderão ser expressas por palavras. Mesmo em sua fiel exposição, um caso jamais terá uma
representação única; terá, entretanto, infinitas formações de sentido, a começar pelo criado
no enlace transferencial entre analista e analisante.
Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo suscitar, a partir de fragmentos
de casos atendidos no CEPSI junto às teorias freudianas, as produções artísticas que puderam
ser criadas a partir do enlace transferencial e do saber produzido na experiência analítica. Podendo assim, discutir sobre os propósitos desta experiência que possibilita ao sujeito aprender
alguma coisa dos efeitos desta produção artística singular.
MÉTODO PSICANALÍTICO
• Participante: foi participante do presente estudo um paciente em análise entre os que procuraram atendimento psicológico no Centro de Estudos, Pesquisas e Práticas Psicológicas
(CEPSI), sexo masculino, à época do estudo com 23 anos de idade. Os atendimentos
ocorreram durante o período de um semestre compreendido no ano de 2011.
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Guilherme procurou atendimento psicológico por estar sofrendo muito com o preconceito devido ele mancar de uma perna, consequência de um acidente de carro. Vale ressaltar que o nome do analisante, que aqui está sendo citado, é fictício para que se preserve sua
identidade.
• Instrumentos: para a realização dos atendimentos clínicos utilizou-se de um consultório
disponibilizado pelo CEPSI (Centro de Estudos, Pesquisa e Práticas Psicológicas) situado
na área V do Campus I da PUC de Goiás na cidade de Goiânia, localizada no setor
Universitário, rua 232, número 128, no segundo andar. Nesta sala contém um divã,
duas poltronas, travesseiros, uma mesa de canto, uma mesa de centro, três cadeiras,
condicionador de ar, janelas, um relógio de mesa, uma luminária e um quadro contendo
uma pintura artística.
Utilizou-se também de caneta e caderno para a anotação das sessões após o encerramento das mesmas; bem como de Prontuários nos qual foram registradas observações
referentes ao paciente para controle do CEPSI, como dados de identificação, frequência e
ficha de evolução da análise. Como os atendimentos tiveram por base a técnica psicanalítica
sistematizada por Sigmund Freud, dos instrumentos utilizados pela analista-praticante, o de
maior valia foi a técnica da associação livre, regra fundamental para que haja análise.
• Procedimento: após a autorização fornecida pela professora-supervisora, a analistapraticante selecionou algumas fichas de triagem, prontuários de psicodiagnóstico e de
atendimentos pendentes fornecidos pelo CEPSI de acordo com horários disponíveis pela
mesma, pelos pacientes e pela agenda de consultas. Foi feito o contato telefônico com cada
paciente. Aos que interessavam o atendimento psicológico no CEPSI foram marcados os
dias, horários e consultórios para o início das sessões.
Com cada paciente foi informado os critérios e política de funcionamento clínico
estabelecidos pelo campo de estágio em questão: frequência mínima; aviso prévio concernente
a faltas e atrasos; o aceite do Termo de Compromisso acerca do sigilo, da discussão dos casos
em supervisão e dos dados para pesquisa; a duração de, em média, 50 minutos cada sessão;
atendimentos, por no mínimo, duas vezes semanais e pagamento simbólico realizado ao CEPSI.
Na primeira sessão, com cada paciente, já foi acordado entre analista-praticante e
analisante que este deveria seguir somente a única e fundamental regra da Psicanálise: a associação livre, onde poderia dizer tudo o que lhe viesse à mente, sem alguma restrição, não importando o conteúdo da fala, independente de qualquer conexão e/ou julgamento (FREUD,
1910/2006).
É na fala que o analisante traz à luz o material com que trabalha o analista, a saber,
o inconsciente. E para receber os conteúdos presentes na fala de cada paciente, a analista-praticante serviu-se da atenção flutuante, onde a mesma permanece em atenção uniformemente
suspensa em face do que se escuta. O analista deve deixar fluir livremente a fala e ações do
paciente (FREUD, 1914b/2006).
Iniciaram-se então as entrevistas preliminares com cada paciente, tendo em vista,
a sondagem inicial para compreensão de suas queixas (sintomas, inibições ou angústia) e
demandas. Este primeiro momento da avaliação clínica tem função diagnóstica, pois precede
a entrada em análise permitindo saber sobre a estrutura psíquica do sujeito que se apresenta
para a posterior condução do tratamento (MILLER, 1997).
Para haver a entrada em análise, propriamente dita, ressalta-se a importância da
transferência para compreensão dos conteúdos presentes ou não na fala de cada paciente.
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Sem que se tenha estabelecido o enlace transferencial entre analista e paciente, a análise não
acontece. Portando, durante o tratamento de cada paciente foram discutidas em supervisão
as principais observações e pontuações concernentes a esta forte arma do dispositivo analítico.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise em muito se assemelha a uma produção de ordem artística no que concerne a seus efeitos. Se a arte oferece a sublimação, podendo nomear aquilo que não foi dito,
produzindo uma obra na tentativa de poder satisfazer um desejo, a Psicanálise enquanto ciência propõe a enunciação da fantasia repousando-se na transferência, fazendo arte retirando
do sintoma a riqueza que ele traz.
Para, então, discorrer sobre este tema foram selecionadas algumas sessões realizadas com
Guilherme, ressaltando as de maior interesse para o caso e para a experiência da analista-praticante
diante da prática teorizada da Psicanálise. O caso deste paciente foi selecionado para tal estudo, devido à possibilidade de poder discutir sobre a transferência e efeitos das construções
realizadas em análise próximas às produções artísticas.
Guilherme se alistou no exército durante três anos por escolha própria para poder
sair de sua cidade natal. E durante esse tempo ele sofreu um acidente de carro que acarretou
em um coma de oito dias, a paralisia temporária de seu dos membros direitos e como sequela,
uma diminuição na perna direita resultando no ato de mancar.
• Fragmento 1: na primeira sessão chegou dizendo à analista-praticante que ele se achava um
cara muito galanteador e educado. E, após falar detalhadamente sobre o acidente, disse:
“Não gosto de mulher burra, gostosa. De mulher inteligente sim”. A analista-praticante
perguntou, então: “O que é uma mulher burra?”; respondeu-lhe: “Ah, mulher que não fala
é burra, mulher que fica calada assim” (apontou a mão para a analista). Foi-lhe pontuado:
“Hum!”.
Na sessão seguinte ele aparece três vezes no CEPSI procurando pela analista-praticante dizendo que havia se esquecido do horário da sessão. E quando lhe foi falado
sobre a questão do pagamento ele perguntou: Pra onde vai esse dinheiro? É pra você ou o
que?”. A analista-praticante respondeu que o dinheiro é destinado ao CEPSI. Respondeu-lhe
então: “Neste caso eu pago só R$1,00, porque se fosse pra você eu pagaria até mais”.
Nota-se a entrada na transferência, comparecendo um significante no dispositivo
analítico de “mulher burra” referente à posição silenciosa da analista-praticante, o esquecimento concernente ao horário da sessão e a questão do pagamento. Diante desta situação
pode-se lembrar de Freud (1912a/2006, p. 12) quando afirma que a libido, em sua capacidade de vincular-se a outros objetos que têm a ver com o desejo em questão, “incluirá o médico
numa das séries psíquicas que o paciente já formou”, onde mulher calada, em posição passiva,
é sinônimo de burrice.
• Fragmento 2: durante a sessão o telefone de Guilherme tocou e ele atendeu: “Oi amor
da minha vida, meu tudo (...)”. Desligou o telefone e disse: “Tá vendo como eu sou
com as mulheres?! Eu sou um cara muito bonito, mas eu não consigo acreditar nisso
não, minha namorada vive falando pra mim, mas não acredito. Eu tenho que malhar
pra ficar do jeito que ela quer”. A analista-praticante perguntou: “E você? O que acha
de você mesmo?”
Esta pergunta foi feita na tentativa de levá-lo a responsabilizar-se pelo que diz, pois
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durante algumas sessões ele falava sobre os que os outros achavam de si e sua preocupação
com estas pessoas. Neste momento, então, Guilherme foi convidado a por em jogo sua responsabilidade criadora e o comprometimento de sua fantasia, para se implicar com seu desejo.
Diante deste convite, Guilherme esbravejou-se e respondeu gaguejando: “Eu, eu
estou bem”. Pegou sua agenda dentro da mochila e marcou a próxima sessão levantando-se
da poltrona para ir embora e disse: “É... ou você enlouquece ou eu”. A transferência, desta
forma, irrompeu algo demasiadamente desprazeroso para o analisante, pois nela os conflitos
se despertam e se atualizam (FREUD, 1912a/2006).
• Fragmento 3: após falar sobre o tempo de exército e o acidente, Guilherme diz: “Me
preocupo com acidentes porque os paraplégicos ficam preocupados com sua função genital”.
A analista-praticante pontuou: “E isso te preocupa”. Respondeu: “É, preocupa”. Em seguida
fala sobre um aluno da universidade que estava esvaziando os extintores: “É, ele tava me
lesando, mesmo que eu nem tenha nada a ver com isso. O cara pegava os extintores e ficava
tirando os pinos e penetrava os pinos de novo assim...” (gestos com as mãos).
Imediatamente olhou para o quadro do consultório e se levantou perguntando:
“Você sabe como se pinta quadros?” A analista-praticante respondeu que não. Ele apontou
para um “defeito” que segundo ele existia no quadro: “Esta folha está torta e a pétala deveria
estar mais dobrada e o pedúnculo mais em cima, ele tá meio caidão e o pintor centralizou a
cena, a gente sabe que as pinturas mais sinistras não têm isso de centralizar”.
Disse em seguida: “Depois do meu acidente eu fico bastante preocupado com as
coisas, você sabe né?!”. A analista-praticante respondeu: “Não, não sei não”. Ele, então: “As
preocupações que todo homem no meu estado fica, com o ... (gesto com a mão), não fica do
mesmo jeito né?! Sabe, tô precisando desenhar, me sinto bem, aprendi a fazer isso sozinho”.
Guilherme fala sobre o pedúnculo da flor presente na pintura. Pedúnculo é “o pé
da flor ou fruto; suporte de qualquer órgão animal” (Bueno, 1996, p. 492). Dirigindo-se à
obra de arte presente no dispositivo analítico ele consegue dizer sobre algo que lhe angustia.
Na sessão seguinte, ele diz: “Minha namorada é meio ninfomaníaca. Acho legal,
mas tem hora que é meio punk, mas tô até dando conta do recado”. Pode-se perceber que
mesmo que não ultrapasse o nível da fantasia, ele consegue produzir um novo discurso referente à sua dificuldade sexual que foi mencionada em outras sessões. O analisante em questão
pôde tirar partido da fantasia através de uma obra artística produzindo uma análise única
desta obra que vem no lugar daquilo que lhe é oculto conscientemente.
Não se pode dizer se ele fez arte, mas foi artista. Pois, “não existe realmente o que
se possa dar o nome de arte. Existem somente os artistas” (GOMBRICH, 1999, p. 15). Ser
artista é uma tentativa de lidar com a falta, reconhecendo a castração. Ou seja, o artista tenta
produzir, inventar uma forma interessante de lidar com algo que poderia ser penoso de se
dizer. Artista não é a pessoa, mas alcança este status em seu momento de produção.
A escuta desta tentativa que o analisante faz de articular sua angústia de algo que ainda não tem nome à tentativa de nomeá-la só foi possível, pois, repousa sobre ela a transferência.
No caso em questão, Guilherme, atuando como artista encontrou no dispositivo a liberdade
para criar e tentar produzir um novo discurso, a partir do vislumbre de uma obra artística.
Na arte, sua essência “é a de estetizar o dejeto, de idealizá-lo, ou como dizemos
em psicanálise, de sublimá-lo” (MILLER, 1910, p. 2). No entanto, os efeitos produzidos no
dispositivo analítico vão para além da idealização do objeto; permite não só a entrada nas
fantasias inconscientes, mas o atravessamento da mesma.
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Devido à escassez relativa à quantidade de atendimentos de Guilherme, não se pode
afirmar o quão sua fala proporcionou algo da mudança subjetiva do mesmo frente à sua angústia. Apenas pode-se apreender um efeito aprazível desta cena para este analisante. Apesar
disto, Freud (1912b/2006, p. 132) não indica tal procedimento a todas as situações analíticas:
“Opino [...] que empenhar regularmente o tratamento analítico na sublimação das pulsões é
algo muito louvável, mas de modo algum se pode recomendá-lo para todos os casos”.
O lugar ocupado pela analista-praticante frente ao sujeito do inconsciente que se
manifestou no dispositivo analítico também confere tênue importância nesta cena. Pois, Guilherme só se colocou na posição de artista em busca de expressar seus desejos e angústias porque contou com a presença de uma expectadora atenciosa, que dispôs do amor transferencial
na tentativa de fornecer espaço para o desvelar de novos saberes.
E este lugar é de intricada significação não permitindo definições cerradas. A única
coisa que se tem convicção é que esta posição ocupada pelos psicanalistas só será possível se
eles tiverem “tido êxito em sublimar o suficiente sua degradação para elevá-la à dignidade de
uma prática, ou seja, de um objeto de troca. Eles se fazem pagar, tudo está aí. Eles vendem o
que eles chamam às vezes sua arte” (MILLER, 2010, p. 4). E para, então, poder um dia dizer
sobre este lugar é necessário desmedido percurso de prática e análise da analista-praticante.
THE ANALYTICAL DEVICE AS ARTISTIC PRODUCTION
Abstract: this study aims to attempt to collate artistic productions to the interpretative art of
psychoanalysis , and the position of the analyst and analysand in the transfer link with the make
of the artist via sublimation. It is to discuss the purposes of the analytic experience that enables the
subject to learn something of the effects of this singular artistic production. This will be enabled by
Freudian theories and clinical care fragments made in
​​ CEPSI . Despite the difficulties concerning
the preparation of the psychoanalytical work , it is believed in the possibility of achieving success on
the desire to say about art and psychoanalysis.
Keywords: Transfer. Analyst. Artist. Art . Sublimation.
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