Miguel Real O ÚLTIMO EUROPEU 2284

Miguel Real
O ÚLTIMO EUROPEU
2284
Romance
Índice
PRIMEIRA PARTE
I
Os Últimos Europeus
A Invasão Oriental
A Europa como «Ásia Ocidental»
Os Cidadãos Dourados
15
18
20
26
II
Uma Nova Concepção de História
A Origem da Nova Europa
A Invasão da Nova pela Velha Europa
37
42
45
III
A Pré-História e o «Homo Humanus»
Pensar mas não Falar
A História e a Pré-História
O Regime Alimentar Gustativo
O Sinal
A Família de Afinidade
A Sexualidade
A Educação
O Distintivo
49
50
53
56
59
60
67
69
72
IV
O Contacto
Consumo – Palavra Maldita I
Trabalho – Palavra Maldita II
O Extermínio dos Bárbaros
Violência e Prisão
A Velha Europa
75
81
84
88
90
93
V
Nascer e Morrer
As Imagens
Morrer na Nova Europa
97
97
99
Nascer na Velha Europa
O Homem é o Vírus Maligno da Terra
101
105
VI
A Missão
América do Sul
O Clã dos «Linces»
Missão de Sobrevivência
107
109
116
117
VII
Os Sessenta
A Fuga
Os Açores
121
125
127
SEGUNDA PARTE
I
Os Princípios Morais
O Estado de Natureza
131
139
II
Jorge Tomás
Identidade Individual
Constituição de Famílias
O Vegetarianismo
143
153
156
167
III
Fim e Princípio: Extinção e Renascimento
Passagem de Testemunho
As Novas Casas
O Colégio
169
179
182
184
TERCEIRA PARTE
I
2294
Multa Comportamental
A Comunidade
195
201
203
II
O Império Americano
209
A Tecnocracia Democrática
Tudo São Regulamentos
A Educação
Os Andróides
213
215
222
224
III
O Cerco Aéreo
A Insensatez
O Fim do Cerco
233
241
250
IV
A Descida dos Americanos
O Meu Voto
257
267
V
O Último Europeu
273
PRIMEIRA PARTE
I
OS ÚLTIMOS EUROPEUS
A minha função de Reitor, membro superior da direcção
dos museus da História da Europa, tem-me feito conviver com
espólios ancestrais, autênticas relíquias do passado, que não
me canso de contemplar, espantando-me, tal a barbaridade
primitiva de que são compostos.
Entre eles, o livro, uma das preciosidades provindas de um
tempo europeu incógnito, objecto que, aos poucos, fui aprendendo a manusear, a seleccionar pelo título e pelo conteúdo
impresso ou a apreciar pelas ilustrações, descobrindo, nos seus
caracteres a tinta preta ou nas suas pinturas realistas, mundos
reais e fictícios, históricos e ilusórios, personagens maravilhosas ou astuciosas, que têm aberto – e muito – o horizonte do
meu conhecimento do passado.
Para dizer a verdade, apaixonei-me pelo livro, objecto ausente neste meu tempo, dominado pela comunicação mental e pela
leitura em linguagem Universalis projectada em ecrãs informáticos.
Os nossos museus abundam de livros, uns corpos materiais
feitos de pasta sólida e dura de celulose, designada por «papel» (se fechados do tamanho de uma mão, se abertos de duas
mãos). No papel, os nossos ancestrais, com uma tinta líquida,
usando um instrumento designado por «caneta», registavam as
suas reflexões e os seus peculiares modos de vida, transpostos,
por via de caracteres móveis de chumbo ou de computadores,
para cadernos tipográficos e livros.
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Juntavam-nos às centenas, aos milhares, mesmo aos milhões, em edifícios apropriados, as Bibliotecas, onde os nossos
ascendentes acorriam para estudar os tempos passados.
Outros, comprados em lojas denominadas Livrarias, eram levados para casa, constituindo objecto de distracção para adultos,
como os brinquedos o eram para crianças.
Tudo cabia dentro do livro, tanto a formação mais especializada como o divertimento mais atrevido, ou, ainda, a reflexão
mais espiritual.
Com efeito, constituía para os nossos antepassados um
autêntico objecto maravilhoso, a que atribuíam uma importância desmesurada, genuíno repositório da cultura de cada
uma e de todas as épocas desde a criação dos lendários Impérios Fenício e Grego, no Mediterrâneo.
No tempo presente, na Nova Europa, espantar-me-ia que
algum dos meus contemporâneos reconhecesse o significado
da palavra Livro, com excepção, evidentemente, dos Reitores
que, como eu, se debruçam sobre o passado, mantendo viva a
memória de antigas civilizações.
Admirar-me-ia que os nossos Cidadãos Dourados, a maioria da população dos Conglomerados, soubessem interpretar
a palavra Livro sem necessidade de activar a sua Enciclopédia
Neuronal.
O mesmo direi dos instrumentos que lhe estão intimamente
ligados, como caneta, lápis, tinta, papel, ou, recuando mais ainda, cálamo, pena, estilete, papiro, manuscrito, palavras decerto
correntes no seu tempo mas hoje praticamente desconhecidas.
Desde há 150 anos que projectamos e registamos o nosso
pensamento no Grande Cérebro Electrónico cuja função é
prestar ordem sintáctica e lógica aos imperfeitos raciocínios
humanos, aformoseando-os segundo os preceitos da Grande
Ordenação.
A escrita em papel tornou-se, desde então, desnecessária,
foi, aliás, considerada um acto de barbaridade, devastador de
florestas.
Vingou a escrita mental.
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Ninguém sabe hoje escrever segundo este antigo modo senão os hermeneutas museológicos como eu, que interpretam e
esclarecem o espólio dos museus relativos aos tempos grosseiros do passado.
Ninguém sabe escrever porque ninguém precisa de escrever.
Toda a nossa escrita é mental.
Escrever para nós significa o acto de transferência mental
dos nossos pensamentos individuais para um computador, que
os regista e grava e, caso necessário, no-los oferece num ecrã de
computador em linguagem Universalis.
As modelizações informáticas do ADN, criadoras do hipercórtex, foram preparadas para registar os nossos pensamentos
e os enviar mentalmente para os nossos companheiros por via
do Grande Cérebro Electrónico, que nos aconselha.
Basta indicar-lhe as condições sociais e existenciais em que
nos encontramos e os resultados que desejamos, ou, na sua
terminologia, a «situação» e a «finalidade», e ele conversa connosco, responde-nos mentalmente se sim, se é possível, como,
quando e o que devemos fazer para que os nossos desejos se
realizem tendo em conta as necessidades de toda a sociedade.
É considerada um acto caprichoso, fútil e herético uma decisão individual que não tenha em conta os ditames do Grande
Cérebro Electrónico, ou seja, os seus «aconselhamentos», que,
por serem lógicos e se submeterem às necessidades sociais, são
encarados como verdadeiramente sábios.
A actual filosofia da Europa é profundamente humanista.
Somos livres de pensar, de propor, de criar alternativas de
vida, de querer e desejar, mas devemos atender aos conselhos
lúcidos do Grande Cérebro Electrónico, que reúne a experiência de cerca de 150 anos de sabedoria social, não permitindo
que, pelos desejos individualistas e narcisistas de cada Cidadão
Dourado, a organização científica dos Conglomerados se estiole, enfraquecendo-se, regressando-se aos velhos tempos da
desigualdade e da injustiça sociais, do aterrador domínio do
trabalho obrigatório sobre o prazer próprio e da perversão das
leis harmónicas da natureza.
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A INVASÃO ORIENTAL
Os Mandarins orientais cortaram a rede neo-europeia de
abastecimento de energia a partir das oito centrais geotérmicas, instaladas nos limites sólidos do centro da Terra, e sabotaram, com demolidores raios fotónicos, o circuito difusor e
abastecedor de tubos secundários.
Hoje, paradoxalmente, últimos dias da civilização humanista que os nossos Pais Fundadores criaram, designada por Nova
Europa, aparentemente vencedora da Velha Europa bárbara
e cruel que a antecedeu, vejo-me obrigado, titubeantemente,
sem grande convicção, a regressar ao antigo papel de pasta de
madeira e às velhíssimas canetas de tinta sintética do museu do
Conglomerado para registar por escrito as minhas impressões
sobre os tempos próximos do Absolutismo Oriental.
Fui escolhido pelo Conselho dos Pantocratas para esta missão mecânica e artesanal de assentamento dos últimos dias da
nossa civilização, a fim de que os europeus do futuro, sobretudo os europeus humanistas, se um dia (queiram os desígnios
volúveis da História que sim) voltarem a governar este pequeno
território do mundo, saibam que entre a antiga Europa bárbara e a doravante Europa dominada pelo Absolutismo Oriental,
nascida este ano de 2284, existiu uma Europa Humanista, racional, bela, justa, próspera, abastada, igualitária, comunitária,
onde todos os cidadãos eram felizes e a liberdade absoluta, já
que, mesmo quando os conselhos do Grande Cérebro Electrónico desaprovavam uma acção individual, nunca a proibiam e
encontravam sempre meios e instrumentos de os requerentes
viverem mental e intensamente os seus desejos, como se em
concreto os tivessem vivido, assim registando na memória a sua
aparente experiência existencial.
No seu passado individual, os Cidadãos Dourados poderiam
ser sempre tudo o que tivessem querido ser, cancelando na sua
memória pessoal, que o Grande Cérebro Electrónico gravava
indelevelmente, os registos da sua verdadeira vida, passando a
recordar a partir de então outra existência, a que quisessem e os
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satisfizesse ou realizasse, ou a integrar no seu passado memórias biográficas de experiências vividas, verdadeiramente sentidas mas nunca realmente acontecidas.
Sem energia, o nosso Grande Cérebro Electrónico e a rede
neuronal que mantinha governados ao pormenor os Conglomerados finaram-se, desligados das oito centrais geotérmicas.
Com efeito, a inesgotável fonte de energia geotérmica que
alimentava a nossa civilização foi cortada – uma situação por
nós considerada totalmente absurda e nunca verdadeiramente
imaginada, nem mesmo deduzida pelos velocíssimos e infinitesimais raciocínios sinápticos do Grande Cérebro Electrónico.
Lá fora, nas ruas rolantes dos Conglomerados, nas instituições reitorais e sincretistas, reina o pânico.
Um pânico controlado, mas epidémico e crescente.
Informados, todos os neo-europeus esperam o pior, o Fim,
nunca previsto ou sequer imaginado.
Pensávamo-nos eternos, alimentados gratuitamente pela
potência infinita da força calórica do centro da Terra.
A última mensagem do Grande Cérebro Electrónico, dirigida à mente da totalidade dos Cidadãos Dourados, destinou-se
a alertá-los: a partir daquele exacto momento, deveriam manter-se unidos, aplicar os princípios da filosofia humanista que
nos tinham governado e não oferecer resistência, nem à Grande Ásia, nem aos Bárbaros nossos vizinhos.
Estes últimos, resíduos prolongados da Velha Europa, habitantes dos Baldios, zonas não governadas pelo Grande Cérebro
Electrónico, separadas dos Conglomerados pelo Cordão Verde
de Segurança, fundados em antigas filosofias individualistas,
esperam igualmente o Fim.
Porém, sem hábitos de disciplina e objectividade, o pânico
foi neles patente desde a primeira hora e, buscando auxílio e
protecção, ultrapassaram a fronteira electrónica, agora desligada, e invadiram os nossos Conglomerados.
Desequilibrados, como é de seu natural, inclinados à obediência do seu cérebro reptiliano e mamífero, desorientaram-se, aterrorizaram-se, extravasando-se emotivamente.
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Pilhagens e assassínios, invasões de Conglomerados e massacres colectivos, desconhecidos da nossa civilização, já foram
cometidos.
Os nossos cidadãos, pacifistas, não resistem, limitam-se a
apelar por gestos ao primitivo cérebro racional dos Bárbaros,
que os não compreendem.
Eles, que nada têm de seguro, apoderam-se dos nossos bens,
incapazes de entender ser o inimigo comum a todos, nada podermos fazer, nem nós nem eles, apenas esperar serenamente
que o Absolutismo Oriental dê o último passo e nos invada.
Desconhecemos o nosso futuro, mas permanecemos exteriormente serenos, embora interiormente em estado de alerta
emotivo.
As últimas informações chegadas ao edifício da Reitoria do
Conglomerado Principal detectaram o grau sete de alerta vermelho.
Estou seguro de que atingiremos o oitavo.
Controlamo-nos, pelo que nunca atingiremos o nono, muito menos o décimo grau, costumeiro dos nossos vizinhos Bárbaros.
Cada Conglomerado sabe o que fazer e o Conselho dos Pantocratas activará os procedimentos da Grande Ordenação.
A EUROPA COMO «ÁSIA OCIDENTAL»
Os Mandarins da Grande Ásia transferirão do seu território
500 milhões de habitantes para o continente europeu, exterminando-nos ou escravizando-nos, a nós, designados por Nativos, neo e vetero-europeus.
As suas estações aéreas e as suas naves rodeiam a Europa,
imobilizadas no céu.
Penso que não passará outro mês até que a invasão seja metodicamente processada, activada com meticulosidade, como é
seu hábito e o praticaram em África, apoderando-se das grandes jazidas de matérias-primas.
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A Europa, toda ela, não possui qualquer filão extraordinário
de matéria-prima e os novos Mandarins não estarão interessados em matéria humana, que teriam de alimentar.
Os Bárbaros pré-históricos, habitantes dos Baldios, revelar-se-iam resistentes e indomáveis.
Os mais inteligentes e abastados, como nós, revelar-se-iam
inúteis para o trabalho e desnecessários como criados ou lacaios.
Os andróides, comprados a peso de ouro ao Império Americano pelos asiáticos, substituem-nos.
O antigo Império Chinês, hoje verdadeiro senhor da totalidade da Ásia e da África, designado pomposamente por
Grande Ásia, dominado pelo Absolutismo Oriental, firmado na
antiga filosofia burocrática e disciplinadora de Confúcio, contraposta à filosofia livre, racional e humanista da Nova Europa
e do Império Americano, necessita de territórios para transferir os seus excedentes demográficos, que, com o domínio do
subcontinente Indostânico, ultrapassaram todos os limites de
controlo despótico.
A Grande Ásia criou nos últimos anos os instrumentos de
acesso às nossas oito fontes de energia, sabotando-as e desligando-as.
Sentimo-nos impotentes, nós, os últimos verdadeiros europeus humanistas.
A Bolha Hiperatómica de Protecção e Segurança, penhor
científico da nossa saudável e tranquila existência, foi desligada, e as nossas naves, superiores às orientais, foram desconectadas por iniciativa dos Pantocratas, que recusaram gerar uma
carnificina através da resistência activa nos céus da Europa.
Os propulsores hiperatómicos venceriam a primeira legião
de naves orientais, porventura a segunda, nunca a terceira e as
restantes.
O território da Europa ficaria biofisicamente devastado, infestado e contaminado durante três mil anos, de nada servindo
para o vencedor, e nós, os vencidos, desapareceríamos definitivamente da História.
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A Grande Ásia teria de procurar novos territórios, avançando para a América do Sul.
O Grande Cérebro Electrónico, calculando as perdas e os
ganhos, foi impositivo – se a Nova Europa se render, é possível
que no futuro, um futuro longínquo, venha a ressurgir através
da passagem dos valores da nossa tecnologia para a Grande
Ásia, possivelmente com populações mulatas, euro-asiáticas.
Porventura, a Europa irá dormir o grande sono de mil ou
dois mil anos para que, posteriormente, uma nova civilização a
estude através dos registos informáticos ocultos do Grande Cérebro Electrónico e ressuscite os nossos valores humanistas, fazendo-os reviver em novas instituições, tomando-os como modelo – pensar o tempo em séculos e milénios, e não em meses
e anos: eis o lúcido conselho do Grande Cérebro Electrónico.
O meu livro insere-se igualmente nesta estratégia do Conselho dos Pantocratas: legar ao futuro a memória dos vencidos
de hoje.
Em África, o Despotismo Oriental buscava matérias-primas
e mão-de-obra para as suas gigantescas instalações fabris; na
Europa, busca apenas espaço onde descarregar o seu excedente
populacional, sobretudo crianças e velhos não abrangidos pela
lei geral da eutanásia.
Em 2200, no dealbar de um novo século, os dirigentes asiáticos, que tinham retomado a designação de Mandarins, antigo
título superior da nobreza chinesa, ordenaram a celebração da
Grande Festa da Família, cujo acto central consistia na matança
colectiva de todos os cidadãos com mais de noventa anos, executados em antigos estádios desportivos, para aí transportados
por filhos e parentes.
Dançava-se, comia-se, bebia-se em cada estádio e no final
os nonagenários separavam-se dos seus parentes em grandes
abraços saudosos, as famílias instalavam-se nas bancadas, os
velhos nos campos centrais relvados, naves militares enlaçavam o conjunto dos corpos destes com raios fotónicos, e estes,
decompostos instantaneamente, desapareciam no ar, sugados
por aspiradores químicos celestes, que os projectavam para
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o espaço planetário, onde seriam varridos e queimados pelos
ventos solares.
Há 24 anos, em 2260, registou-se a primeira ameaça.
A Grande Ásia pediu autorização à Nova Europa para o extermínio selectivo de todos os Bárbaros existentes no território
europeu.
O conselho de Pantocratas, composto por todos os neo-europeus com mais de 130 anos – cerca de uma centena –, induzido
pelo Grande Cérebro Electrónico, recusou liminarmente a proposta em nome dos valores éticos formadores da Nova Europa,
que negam a utilização da violência excepto em defesa legítima.
Segundo a Grande Ordenação, não existem guerras justas,
todas as guerras são consideradas injustas, ilegítimas e imorais,
característica duradoura e essencial do estado de barbaridade
do Homem até ao nascimento da Nova Europa, que, assim, do
passado se diferencia e afasta.
O Conselho de Pantocratas, ainda que considerando desprezíveis as populações bárbaras dos Baldios, não podia consentir
na sua exterminação sem grave ofensa de princípios éticos.
Recusou.
Uma década mais tarde, o Império Oriental, em nome da
totalidade da África e da Ásia, exigiu de novo a posse do território dos Baldios e a consequente exterminação da população
bárbara.
Alegou não ser esta já uma população europeia, descendente, na sua grande maioria, de africanos, árabes, latino-americanos e orientais fugidos para a Europa nos séculos XX e XXI, filhos
de filhos de párias intercontinentais, híbridos genéticos.
Os Pantocratas alegaram não fazer distinção genética entre
os homens da Terra, apenas distinção ética e civilizacional.
Geneticamente, todos eram homens, irmãos em Humanidade.
Se o fizessem, deveriam igualmente considerar os asiáticos
e os africanos uma subespécie inferior, como estes o estavam
fazendo relativamente aos povos bárbaros da Velha Europa.
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Os Mandarins de Tóquio, Pequim, Xangai, Nova Deli, retorquiram caluniando os membros do conselho, chamando-lhes
aristocratas, elitistas e humanistas.
Os Pantocratas reafirmaram a honra de pertencerem a uma
estirpe humanista, mas negaram pretensões, sequer imagináveis, de aristocracia e elitismo.
A existência tranquila, cómoda e farta dos Cidadãos Dourados constituía prova provada.
Nenhum habitante da Grande Ásia, nem mesmo o puro
descendente de chineses, gozava de semelhante privilégio de
abastança alimentar, de vida feliz e de total liberdade, mesmo
mental.
Na Nova Europa todos os homens eram absolutamente iguais
e livres, milimetricamente iguais, do nascimento à morte.
Em 2260, aquando da primeira ameaça, os dirigentes superiores da Grande Ásia informaram o Conselho de que a situação no seu continente se tornara insustentável em termos
demográficos, tinham demagogicamente subido para 100 anos
o tempo máximo de vida.
Esta medida profiláctica deveria acrescer num aumento populacional, em dez anos, de um bilião e meio a dois biliões de
habitantes em África e na Ásia.
Dez anos depois, uma nova geração de dirigentes chegada à cúpula do Grande Império Asiático baixou para 90 anos
o limite de vida, única medida que não geraria a curto prazo
uma quebra no rendimento económico e no bem-estar dos
asiáticos, especialmente dos chineses, grupo étnico e social
dominante.
Como medida extrema, assoberbados por uma inesperada
vaga de aumento populacional na África Central, decidiram
baixar para 80 anos o limite de tempo de vida dos africanos,
exterminando em dois anos cerca de 500 milhões de negros,
poupando em habitação, alimentação, tratamentos médicos e
vestuário.
Com o extermínio e o decreto dos 80 anos, deu-se pela primeira vez uma falta de mão-de-obra mineira em África.
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Ainda assim, o excedente de asiáticos permanecia.
O Conselho Superior de Mandarins, reunido, analisando
fria e cuidadosamente o mapa do mundo, decidiu reivindicar
o território europeu como continuidade geográfica da Ásia e
descarregar neste espaço entre 500 milhões a 1 bilião de chineses, redimensionando-o, passando a designar a Europa por
«Ásia Ocidental».
O Conselho de Pantocratas receava que esta nova cúpula
de Mandarins aniquilasse todos os europeus, decompusesse os
seus corpos e que as suas células constituintes fossem fumigadas colectivamente para o espaço interplanetário.
Num curto período de negociações, em que participei, os
responsáveis absolutistas nunca deram a entender qual o destino a dar aos neo-europeus.
Os Bárbaros, esses, não havia dúvida, seriam condenados ao
aniquilamento.
Num último esforço negocial, instaram que os neo-europeus se deslocassem para a América do Sul no prazo de meia
década.
Evidenciavam, assim, os Mandarins, o respeito que lhes
merecia o continente que dirigira o mundo durante cerca de
três mil anos e os 100 milhões de habitantes descendentes
dos antigos europeus humanistas, hoje habitando nos Conglomerados.
O Conselho de Pantocratas declinou a oferta e, dignamente, recusou abandonar a terra dos seus antepassados, consciente de que apenas pela guerra e pela opressão e domínio
das populações nativas se conseguiriam instalar 100 milhões
de neo-europeus entre as pampas da América Sul e as florestas
centrais da Amazónia.
O Conselho chamou delicadamente a atenção dos Mandarins para a impossibilidade de as suas armas penetrarem a nossa Bolha Hiperatómica de Protecção e Segurança.
Estes nada retorquiram até há cerca de um mês, quando as
suas estações e naves estacionaram no nosso céu e os nossos
geradores foram instantaneamente desligados.
25
OS CIDADÃOS DOURADOS
Nesse dia aterrador, quando o céu dos Conglomerados se
escureceu de um brilho sombrio metalizado, constituído por
centenas de estações de transplantação de mais de 500 milhões
de chineses, crianças e velhos, olhámos para os nossos pés e as
nossas ruas não rolavam e o plastifex dos nossos edifícios, desconectado do Grande Cérebro Electrónico, não se adequava aos
nossos desejos ou às nossas necessidades, e cada Cidadão Dourado viu-se na mais inconsútil solidão, sem saber o que fazer, o que
querer, o que pensar e como interpretar os novos sinais do céu.
Gaguejando, reaprendeu a falar, activando a língua e o ar
fonador, buscando palavras adequadas no fundo inconsciente
da mente.
Não bastava já pensar para comunicar, era preciso falar, falar
de novo, articular os lábios com a língua, esta com os dentes e
todos estes órgãos com o sopro do ar da respiração.
Nos primeiros dias, a maioria dos nossos cidadãos engasgava-se, tossindo abruptamente, abrindo desmesuradamente a
boca, ansiando por um ar forte que lhes limpasse a garganta.
Buscavam goradamente nos ventiladores das casas o pó alimentício, que, inspirado, lhes saciaria a fome, ou o pó de lavagem que os desinfectaria das toxinas suadas, efeito do calor semitropical que definitivamente envolvia o continente europeu
desde há cerca de 150 anos.
Porém, os ecrãs pretos e mudos das paredes assinalavam
que o Grande Cérebro Electrónico se encontrava desligado e
não havia já lugar para ordens, conselhos, recomendações, directivas, nem alternativa à alimentação que escasseava e à água
que desaparecera.
Os Depósitos Alimentícios foram invadidos por Cidadãos
Dourados quando se constatou estar desligado o Cordão Verde
de Segurança.
Cidadãos Dourados, até então polidos e disciplinados, traziam para a rua frutos verdadeiros destinados à pulverização,
desconhecendo como comê-los, se o invólucro, a casca, se o
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interior, o caroço, tentando pelo cheiro identificar o antigo sabor do pó alimentício.
O corpo, desabituado de alimentação sólida desde o nascimento, descarregava os alimentos pelo frágil ânus em diarreias
sucessivas, que empestavam as ruas rolantes ora imóveis.
Os mecanismos informáticos inteligentes, que supervisionavam os bairros e os Conglomerados, dotados de implantes
receptores de pensamento electrónico, desentendiam os sinais
humanos, tornando-se, não ajudantes ou auxiliadores, mas verdadeiros obstáculos, insistindo em repetir até ao esgotamento
de energia as tarefas para que tinham sido programados, levando os Conglomerados à total desorganização.
Nunca pensei assistir a cenas de tão profunda confusão e
descoordenação, próprias dos povos bárbaros ou de situações
catastróficas que havia lido nos antigos livros dos museus que
dirigia, como nos terramotos e maremotos, causas de descontrolo caótico.
Obedientes aos ditames da Grande Ordenação, gravados
no seu hipercórtex, os meus concidadãos neo-europeus encontravam-se no mais absoluto isolamento e na mais humana das
angústias, ainda que racionalmente controlada, apenas explodida em momentos de sensação activa de fome ou sede, incapazes de proverem ao que necessitavam e que até então lhes
chegara gratuita e celeremente.
O seu hipercórtex, efeito de transformações biogenéticas
induzidas, que os conectava desde o nascimento ao Grande
Cérebro Electrónico, hesitava animalescamente entre seguir
passivamente as grandes multidões amontoadas nas praças
centrais dos Conglomerados ou buscar soluções por si próprio.
Do terraço do edifício da Reitoria, eu assistia, impotente,
ao esboroamento da mais perfeita civilização que tão humanamente tinha sido construída.
Pagávamos nefastamente os erros cometidos na Ásia por uma
camarilha de dirigentes que não sabia utilizar a razão como meio
privilegiado de controlo da população, antecipando e prevenindo os problemas demográficos e urbanos.
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Tínhamos feito nosso o lema de um antigo filósofo ético
europeu que declarara não ser a política a arte de fazer o bem,
mas a de evitar o mal.
Tínhamos criado a Nova Europa, uma sociedade perfeita,
em que não havia lugar para a fome, a miséria, a doença artificial
(apenas a doença final, quando os órgãos, velhos e regenerados,
se abandonavam ao colapso final, que não evitávamos; detectávamo-lo e deixávamos o processo activar-se), não havia lugar para a
desigualdade, a injustiça, a guerra, a simples violência individual,
uma organização social em que predominava, como rainha ética,
a harmonia entre a tolerância e a liberdade, mesmo que só mental, a sociedade mais perfeita até hoje criada.
Nos últimos dez anos, os novos Mandarins tinham encontrado uma forma científica de subverter as oito centrais geotérmicas instaladas na periferia do centro da Terra que alimentavam a totalidade da Nova Europa de energia abundante
e permitiam a existência de uma atmosfera comum eléctrica
pela qual cada mente individual humana comunicava telepaticamente com as restantes e com todos os electro-humanos,
robots e andróides, trocando sugestões e opiniões e recebendo
espontaneamente conselhos do Grande Cérebro Electrónico.
A todo o momento se aguarda a chacina aérea dos Bárbaros
dos Baldios, decompostos celular e molecularmente e sugados
para o espaço interplanetário, e a aterragem das naves asiáticas
nos territórios da Nova Europa.
Desconhecemos as reais intenções dos Mandarins sobre os
100 milhões de habitantes da Nova Europa.
Os nossos concidadãos são passivos e amáveis, fruto de uma
educação electrónica fundada na tolerância e na liberdade, não
se revoltarão senão acicatados pela fome e pela sede.
Mesmo assim, serão, por natureza própria, mais propícios à
resignação do que à revolta.
Anseiam por ordens do Conselho de Pantocratas e do Grande Cérebro Electrónico.
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Não as terão por ausência de meios de transmissão.
Todos os microcircuitos neuronais se encontram desligados, alimentados por energia comum, ora interrompida.
Multidões inquietas aguardam expectantes, alguns seguirão o primeiro que lhes ordenar o que fazer.
Se for um seu concidadão hesitante, porventura melancólico,
desejando ganhar para si uma autonomia animal, segui-lo-ão.
Se for um dirigente asiático, segui-lo-ão também, buscando
a antiga segurança.
Eu próprio, como Reitor, experimentado e treinado no uso exclusivo da razão, sinto as minhas defesas psicológicas vacilarem.
Apelando à confiança absoluta nos princípios éticos da nossa civilização, tento controlar, no meu fundo, a insegurança e o
medo do futuro sentidos por todos, debruço-me sobre o livro,
escrevendo realisticamente aquilo a que vou assistindo do terraço do edifício da Reitoria, trabalhando dois terços do dia.
O sentido histórico de missão a que me voto na escrita do
livro supera a inquietação que os meus concidadãos sentem.
Resigno-me a morrer se for este o destino dos neo-europeus, mas sei que morrerei realizado, legando para uma longínqua posteridade o anúncio da existência da mais perfeita
civilização criada pela humanidade.
A dependência dos nossos concidadãos do Grande Cérebro
Electrónico é total.
Face ao questionamento sobre a correcção de uma acção,
accionavam a ligação ao Grande Cérebro Electrónico, que, à
luz dos ditames da Grande Ordenação, instantaneamente lhes
respondia e, face à «situação» e à «finalidade», os aconselhava.
Raramente havia desobediências.
Não, não eram desobediências, apenas deslizes éticos motivados pelas pulsões do desejo, resolvidas através de Multas
Comportamentais.
A filosofia educativa das crianças e a enformação cultural de
todo o cidadão, recebida electronicamente, inibiam comportamentos de revolta, catalogados como irracionais, semelhantes
aos dos povos bárbaros dos Baldios.
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Sonolento, sonâmbulo, é como o Cidadão Dourado se encontra hoje, acolitado em magotes silenciosos nas praças centrais e nos parques, esperando que algo aconteça, desejando
um futuro igual ao passado.
Porém, o futuro apresenta-se-lhes pela primeira vez, como
a mim, totalmente imprevisível.
Apenas o corpo os move, as pulsões instintuais.
Socorrem-se dos Depósitos Alimentícios quando têm fome,
apoderam-se de frutos de longa duração que desconhecem
como comer, raspam a língua no pó expirado pelos ventiladores gerais, assim se vão alimentando há quase um mês.
Sem o auxílio do Sonador, que hipnoticamente os adormecia e despertava à hora indicada, atravessam a noite como
espectros, de olhos pronunciados e leve película de suor na
testa.
A escuridão absoluta faz-lhes renascer medos ancestrais,
animalescos, recostam-se uns nos outros, apoiam-se mutuamente, sentindo a respiração do conjunto, presumindo assim
tornarem-se mais fortes.
Hipnóticos, parecem regredir aos momentos primitivos da
humanidade.
Na solidão involuntária a que me condena o meu gabinete
do Museu da Reitoria, uso as ancestrais luminárias e as ânforas
de azeite dos Romanos para trabalhar à noite, iluminando escassamente o papel.
As sombras esconsas, o lento movimento flutuante do
fumo das lucernas, o som da raspagem do bico da caneta no
papel, despertam-me remotos terrores que se confundem
com o crepitar da fogueira na floresta, o avanço silencioso
dos predadores nocturnos e o sibilar rastejante das serpentes, infundindo no meu inconsciente – toda a vida recalcado,
verdadeiramente apagado, desaparecido por via do domínio
dos mecanismos do hipercórtex sobre o cérebro natural –
inquietações e temores que sinto dificuldade em controlar,
mas, num esforço de pura racionalidade, vou tentando dominar.
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Os espectrógrafos de imagem e som revelavam hora a hora
a situação social entre os povos bárbaros.
O Cordão Verde de Segurança isolava-nos dos territórios
dos Baldios, qualquer tentativa de passagem da Velha para a
Nova Europa era instantaneamente castigada com a mutilação
do corpo por raios fotónicos, ora um braço, ora uma perna,
nunca um ferimento mortal.
A violência era usada em legítima defesa, e sem obrigação
de morte.
Sentíamo-nos seguros e tranquilos.
O Cordão Verde foi apagado e os espectrógrafos inutilizados por falta de abastecimento energético dos Acumuladores
espalhados pelos Conglomerados.
Há menos de um século, o Conselho de Pantocratas tinha
considerado a Nova Europa absolutamente invencível por mar,
terra e ar.
A Bolha Hiperatómica de Protecção e Segurança constituía
o nosso escudo de salvaguarda.
Nenhum poder de fogo, mesmo o molecular, mesmo o radioactivo, mesmo o fotónico e o positrónico, a conseguiria vencer.
Hoje, vemo-nos indefesos, os actuais Mandarins, mais manhosos do que o manhoso Ulisses da antiquíssima Odisseia,
detectaram com perscrutação e acutilância o nosso calcanhar
de Aquiles – as fontes geotérmicas da nossa abundante energia.
Desconheço como sabotaram e destruíram as oito megacentrais instaladas na periferia do centro geotérmico da Terra.
A difusão de energia por toda a Nova Europa, operada por
cabo acótido, forrado a ferro e chumbo, revestido exteriormente de uma camada de plastónio, o material sintético mais duro
do mundo, encontrava-se garantida pela cartografia de Acumuladores, de igual modo instalados em bunkers de ferro, chumbo
e plastónio.
Nenhuma arma atómica ou hiperatómica conseguiria penetrar no interior dos Acumuladores.
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Nunca o Conselho de Pantocratas e o Grande Cérebro
Electrónico conceberam a inutilização dos Acumuladores por
secagem de energia provinda das megacentrais geotérmicas do
centro da Terra.
Os asiáticos, desconfio sobretudo dos chineses, foram aonde tinham de ir – não aos Acumuladores, sim à fonte – e conseguiram.
Como?
Todos desconhecemos – constituirá doravante o maior segredo desta invasão.
Os registos históricos da Europa encontram-se arquivados
em Centrais de Comunicação espalhadas por todo o território,
anexas ao Museu de que sou Reitor Principal.
Cada sinapse em cada microssegundo, acontecida no cérebro de cada um dos nossos concidadãos desde a instauração de
Nova Europa em 2184, encontra-se registada e arquivada nos
nossos processadores para que no futuro se possa registar de
um modo rigoroso e objectivo a história da nossa civilização.
Tememos, porém, que a Grande Ásia inutilize os processadores do Grande Cérebro Electrónico e apague a história recente da Europa, se não mesmo a história passada, mandando
destruir os Museus e os Arquivos.
Odeiam-nos por considerarmos o trabalho um valor arqueológico, próprio de uma civilização desumana e bárbara.
Eles consideram o trabalho a actividade mais nobre do homem, mesmo o acto mecânico de enroscar porcas em torno de
um parafuso.
Nós, não.
Privilegiamos o ócio, o prazer de acordar e estar disponível, nada ter que fazer senão o que se decidir fazer, a sensação
deleitosa da existência de um tempo permanentemente vazio,
preenchido de um modo singular em cada dia, produto de uma
escolha selecta e reflectida das nossas acções, que correspondem intrinsecamente aos nossos desejos, mesmo que realizados mentalmente.
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Não trabalhar, mas estar sempre ocupado – o lema de um
outro filósofo, de origem portuguesa, quando as nações e as línguas eram consideradas realidades primeiras na educação de
um cidadão –, tornou-se um dos lemas essenciais do nosso viver
colectivo.
Privilegiar o prazer em detrimento do trabalho, eis uma das
nossas divisas, que os Mandarins confucionistas desprezam
tanto por desconhecerem a sua excelsa virtude como por incapacidade tecnológica, por atraso científico face à Nova Europa.
O trabalho não realiza o homem, sim a sua acção dirigida
pelo e para o prazer, um prazer racional, não animal nem libidinal.
A sociedade, no seu todo, através das suas instituições reitoras, tem o dever da utilidade, de promover a acção útil.
O cidadão, o dever de dirigir a sua acção para o prazer.
Os Orientais realizam-se pela família e pelo trabalho, levantam dinastias familiares, idolatram os seus mortos e consomem-se no trabalho, crendo ser este o sentido da vida, acrescentar um novo bem, não raro uma mercadoria, ao bem antigo.
Nós, os neo-europeus, realizamo-nos pelo prazer lúdico, livre, sem horário nem outra finalidade senão o deleite e o gosto
usufruídos pela própria acção, como fazer colecções, como é
o meu caso enquanto alto organizador e dirigente de museus.
Em nome do trabalho e para a ocupação completa da população, os Mandarins regionais ou Aitões constroem novas pirâmides, gigantescos obeliscos, com cubos de pedra artificial,
plastificada, que, à semelhança do primitivo século XX, acartam
em carrinhos de mão; furam montanhas abrindo casamatas
militares ou túneis dirigidos a lugar nenhum; criam barragens
oceânicas do tamanho de cidades, prevenindo presumíveis
maremotos que nunca acontecem e a ciência garante que não
acontecerão.
Logo construídos, todos os monumentos são inspeccionados por Mandarins nacionais que, para humilhação do inferior,
alegam engano por parte dos Aitões, não era ali, era a trezentos quilómetros do lado nordeste, as pirâmides, os obeliscos,
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as construções devem ser deslocadas para lá e os túneis de novo
tapados.
Sem nenhuma utilidade, furam galerias em montanhas a pá
e picareta – instrumentos primitivos de construção, caídos praticamente em desuso – apenas para três ou quatro anos depois
as encherem de terra sintética, alegando possível desmoronamento.
Constroem colossais pontes, viadutos e estradas aéreas,
aquedutos e barragens, escavam vales onde existiam montanhas e atulham-nos até se tornarem montanhas, que, finalizadas, logo são destruídas por inúteis; erguem monumentais estátuas de Mandarins mortos que, caídos em desgraça, são de
imediato estilhaçadas, substituídas por estátuas de novos Mandarins.
Erigem fábricas com 300 quilómetros de diâmetro, incorporando cidades no seu interior, cada cidade habitada por trabalhadores de um ramo industrial, que, como espectros vivos,
labutam orgulhosamente na sua exclusiva especialidade, alimentando-se em gigantescos refeitórios de uma comida sempre a mesma, arroz, arroz e arroz, contactando com os filhos,
que vivem em colégios de outras cidades, um dia por mês, o
Grande Dia da Família.
Alegaram que a antiquíssima Muralha da China corria o risco de desmoronamento, prestes desabaria, desmontaram-na
pedra a pedra e remontaram-na com nova argamassa, considerada eterna.
As descobertas científicas dos séculos XXI e XXII, que lançaram os fundamentos da Nova Europa, são desconhecidas da
Grande Ásia, que há menos de cinquenta anos iniciou um processo de cientifização da sociedade, copiando as nossas invenções e descobertas.
O meio de transporte privilegiado continua a ser o automóvel, agora eléctrico por depauperamento das reservas de petróleo, e as vias de comunicação, as estradas.
Nós, há mais de um século que eliminámos o automóvel
e, usando os electro-homens ou robots como trabalhadores,
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abrimos por toda a Nova Europa ruas rolantes onde se «anda»
confortavelmente sentado em esplanadas e jardins, recebendo
no cérebro a informação do dia, comunicando telepaticamente
com amigos ou com o Grande Cérebro Electrónico.
À medida que a nossa população não ultrapassava o valor
sagrado de 100 milhões, a população da Grande Ásia e da África aumentava exponencialmente, atingindo o volumoso montante de 20 biliões de habitantes.
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