FATORES GEOMORFOLÓGICOS E ANTRÓPICOS NA AVALIAÇÃO

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FATORES GEOMORFOLÓGICOS E ANTRÓPICOS NA AVALIAÇÃO
DE FRAGILIDADE A PROCESSOS EROSIVOS.
(1)
TOMINAGA,
L.K.(1),
ROSS,
J.L.S.(2);
Instituto
Geológico
(2)
[email protected]; Depto de Geografia – FFLCH/USP
–
SMA/SP;
RESUMO
Apresenta-se neste trabalho, os resultados de uma análise morfodinâmica
realizada em um setor de baixas vertentes da Serra do Mar em São Sebastião, SP.
Esta análise possibilitou a avaliação da fragilidade a processos erosivos que, na área
de estudo, são predominantes os de movimentos de massa e os de escoamento de
água superficial e subsuperficial. Os fatores de relevo considerados na avaliação da
fragilidade foram obtidos por meio da elaboração de mapa geomorfológico e os
fatores antrópicos a partir de carta de uso e ocupação da terra com as unidades
classificadas quanto ao potencial de indução aos processos erosivos.
Palavras chaves: Processos erosivos; Fragilidade; Morfodinâmica; Serra do Mar; São
Sebastião.
ABSTRACT
This paper presents the results of a morphodynamic analysis of a low slopes
sector at Serra do Mar in São Sebastião/SP, Brasil. Through this analysis it was
possible to assess the fragility to erosive processes in the study area – the
predominance there are landslides and superficial and subsuperficial water runnoff.
The relief factors considered for the fragility assessment were obtained through the
elaboration of a geomorphological map and the human factors from the landuse map
together with the classified units of erosive processes induction potential.
Key words: Erosive processes; Fragility; Morphodynamic; Serra do Mar; São
Sebastião.
INTRODUÇÃO
A área de estudo deste trabalho abrange um setor de baixas vertentes da Serra do
Juqueriquerê (denominação local da Serra do Mar) localizada na porção norte do Município de
São Sebastião, Região do Litoral Norte do Estado de São Paulo. Estas vertentes vêm sofrendo
uma ocupação crescente e desordenada, principalmente a partir da década de oitenta. As
modificações na morfologia introduzidas pela ocupação induzem e/ou intensificam os
processos morfodinâmicos que alteram o equilíbrio dinâmico das vertentes, podendo levar à
instabilização das mesmas.
Com o agravamento dos problemas ambientais decorrentes do uso e ocupação
inadequados, os estudos geomorfológicos vêm se destacando como importante instrumento
para subsidiar as ações de planejamento físico-territorial e ambiental, pelo fato de possibilitar a
integração e síntese das informações do meio físico. A proposição deste trabalho pretendeu
apresentar um exemplo de aplicação dos dados fornecidos pelo mapa geomorfológico (no caso,
em escala 1:10.000), para a análise de fragilidade a processos erosivos naturais e/ou induzidos
pela ação antrópica.
OBJETIVOS
Avaliar a área de estudo quanto à fragilidade a processos erosivos com base na
correlação dos fatores naturais e antrópicos envolvidos, e determinar os fatores
geomorfológicos e antrópicos que condicionam os processos morfodinâmicos na área.
BASES METODOLÓGICAS
A análise de fragilidade realizada neste trabalho, baseou-se na proposta de Ross (1994,
1996) que pressupõe uma avaliação integrada dos componentes do estrato geográfico, baseado
no princípio de que, na natureza, a funcionalidade é intrínseca aos componentes físicos, bióticos
e sócio-econômicos.
A avaliação da fragilidade dos ambientes naturais e antropizados voltada
à aplicação no planejamento territorial ambiental, fundamenta-se no conceito
de Unidades Ecodinâmicas de Tricart (1977), que definiu as Unidades
Ecodinâmicas Estáveis, Instáveis e Intergrades. Ross (1990), ampliou o uso do
conceito, estabelecendo as Unidades Ecodinâmicas Instáveis ou de
Instabilidade Emergente em vários graus, de muito fraca a muito forte. As
Unidades Ecodinâmicas Estáveis são consideradas como Unidades
Ecodinâmicas de Instabilidade Potencial (face à possibilidade de inserção
antrópica) em diferentes graus, ou seja de muito fraca a muito forte (Ross,
1994).
A análise empírica da fragilidade, conforme proposta de Ross (1994, 1996),
necessita de estudos básicos do relevo, da litoestrutura, do solo, do uso da terra e do
clima, gerando produtos cartográficos específicos de cada tema.
O componente sócio econômico é analisado através do uso da terra espacializado,
decorrente da intervenção no meio físico provocada pela ação antrópica. “Ações antrópicas são
impulsionadas por necessidades originadas do modo de vida vigente, e modeladas por aspectos
políticos, econômicos, culturais e sociais, os quais caracterizam essas ações. Isso indica que a
ação antrópica pode ser analisada segundo muitos enfoques, mas como elemento de análise em
produtos geotécnicos a ação antrópica deve ser investigada conforme suas formas de uso e
ocupação do meio físico, as quais são interpretadas conforme seu impacto ambiental e demanda
por espaços e recursos naturais.” (Holl, 1998)
Ao se tratar de áreas urbanizadas, Ross (1994) sugere a distinção dos padrões de
urbanização quanto à impermeabilização, áreas verdes, padrões das edificações, infraestrutura
como canalização das águas pluviais, asfaltamento, guias e sarjetas, entre outros.
PROCEDIMENTOS DA CORRELAÇÃO E ANÁLISE DOS FATORES DO RELEVO
E DO USO DA TERRA
O mapa geomorfológico elaborado em escala 1:10.000, segundo a classificação
taxonômica de Ross (1992), forneceu as propriedades do relevo necessárias para a avaliação da
fragilidade. Analisou-se, inicialmente a fragilidade relacionada aos elementos do relevo, e
posteriormente confrontou-se com as unidades de uso da terra, classificadas quanto ao
potencial de instabilização morfodinâmica associada.
Os fatores do relevo considerados para esta análise são: a declividade, as formas de
vertentes e os materiais de cobertura detrítica. Foram estabelecidos os critérios de classificação
da fragilidade morfodinâmica para cada um destes fatores. A aplicação destes critérios,
associando-se os tipos e as formas dos segmentos de vertentes, as classes de declividade e os
materiais de cobertura detrítica, possibilitou a classificação da fragilidade potencial do relevo.
Os padrões de uso da terra foram classificados, segundo características que indicam um
potencial de indução aos processos morfodinâmicos (erosivos) em diferentes graus.
Estabeleceu-se, assim, uma correlação das fragilidades do relevo com as classes de potencial de
indução aos processos erosivos do uso da terra, obtendo-se, as classes de fragilidade potencial e
emergente.
CARACTERIZAÇÃO GEOLÓGICO-GEOMORFOLÓGICA
As características do relevo da área de estudo apresentam forte influência das estruturas
geológicas. A morfologia em patamares descendentes mostra-se condicionado por falhamentos
em blocos escalonados, como observado por Campanha et al. (1994) e Vargas (1995).
As orientações estruturais se manifestam no relevo, refletindo na disposição dos espigões
alongados e nas principais drenagens orientados a N 60 E, que corresponde à direção
preferencial das fraturas e lineamentos.
Na morfologia da região de São Sebastião reconhecem-se três domínios principais,
associados à evolução tectônica e escultural do relevo: Planalto do Juqueriquerê, Serra do Mar e
Planície Costeira. No domínio da Serra do Mar identificam-se dois compartimentos
morfológicos: as Escarpas e os Patamares dos Espigões Secundários.
A área de estudo abrange um setor dos Patamares dos Espigões Secundários que,
correspondem às baixas vertentes da Serra do Juqueriquerê (denominação local para a Serra do
Mar) e da Planície Costeira.
No domínio da Serra do Mar foram identificados por Tominaga (2000), os seguintes tipos
de relevos ou padrões de formas: Morros Alongados dos Patamares dos Espigões Secundários,
Morros Isolados e Rampas Coluviais. No domínio da Planície Costeira reconhecem-se dois
padrões de formas: as Planícies Alúvio-Coluviais e a Planície Marinha. Estes padrões de formas
correspondem às unidades geomorfológicas definidas na área (Figura 1).
Os tipos litológicos que compõem o substrato geológico desta área dividem-se em dois
grupos: o primeiro que corresponde às rochas do embasamento cristalino, representados por um
Complexo Gnáissico-Migmatítico e por um pequeno corpo de granito gnaisse leucocrático,
além de diques magmáticos; e o segundo refere-se aos Sedimentos Quaternários constituídos
pelos depósitos alúvio-coluviais das planícies, pelos depósitos coluviais das rampas e pelos
sedimentos marinhos atuais e pré-atuais.
CLASSIFICAÇÃO DA FRAGILIDADE DO RELEVO
Neste estudo avaliou-se inicialmente a fragilidade relativa aos elementos do
relevo e, posteriormente correlacionou-se com as unidades de uso e ocupação
classificadas quanto ao potencial de instabilização morfodinâmica relativa a
processos erosivos de escoamento superficial e subsuperficial e de movimentos de
massa.
Os fatores do relevo considerados mais importantes no condicionamento dos processos
morfodinâmicos, e por isso indicativos de maior ou menor fragilidade para a área de estudo,
foram: a declividade, as formas de vertentes e os materiais de cobertura detrítica.
Deste modo, em função das características da área estudada, estabeleceu-se os critérios de
classificação da fragilidade associada aos elementos do relevo, apresentados nas Tabelas 1, 2 e
3. Para o estabelecimento destes critérios analisou-se também o potencial de ocorrência de
processos morfodinâmicos, relacionados a cada um dos fatores considerados.
A classificação da fragilidade potencial do relevo, apresentada na Tabela 4, resultou da
aplicação destes critérios, considerando-se os tipos de segmentos de vertentes (topos, vertentes,
patamares), a forma do segmento (côncava, convexa ou retilínea), as classes de declividade e os
tipos de materiais de cobertura detrítica.
CLASSIFICAÇÃO DA FRAGILIDADE EM FUNÇÃO DO RELEVO E DO USO DA
TERRA
Os padrões de uso e ocupação encontrados na área de estudo enquadram-se em oito
unidades que refletem diferentes graus de potencialidade de indução à instabilização das
vertentes (Figura 2). Essas unidades de uso são classificadas, conforme as características
descritas em Tominaga (2000), quanto ao potencial de indução aos processos morfodinâmicos,
considerando que na área de estudo, predominam os processos de movimentos de massa e os de
escoamento superficial difuso e/ou concentrado das águas pluviais, Tabela 5.
Para estabelecer uma matriz de associação das fragilidades do relevo com as classes de
potencial de indução aos processos erosivos do uso e ocupação da terra, seus elementos foram
agrupados conforme as classes de fragilidade ou de potencial de indução respectivamente.
Obteve-se, assim as classes de fragilidade potencial e emergente da área apresentadas na
Tabela 6 e na Figura 3.
CONSIDERAÇÕES E CONCLUSÕES
As características do relevo da área indicam uma forte predominância da
morfogênese em relação à pedogênese, na evolução das vertentes dos Espigões
Secundários. O desenvolvimento de solo residual é restrito aos patamares convexos e
a alguns setores de vertentes convexas. Enquanto os colúvios são encontrados nas
partes baixa e média das vertentes côncavas.
Na distribuição das formas de processos morfodinâmicos recentes observam-se as
seguintes relações: as cicatrizes de escorregamento estão presentes nas vertentes côncavas,
preferencialmente associadas às rupturas de declividade junto ao topo; os sulcos de escoamento
pluvial concentrado, em geral, aparecem em vertentes côncavas e retílineas; os matacões
derivados da alteração diferencial e do transporte gravitacional ocorrem de forma localizada,
em vertentes côncavas e retilíneas; os terracetes de pisoteio de gado encontram-se tanto nas
vertentes convexas como nas côncavas. Nota-se que estes processos ocorrem principalmente
em declividades superiores a 30%, podendo-se considerar este valor como um limite, acima do
qual a ocorrência de processos erosivos é mais intensa.
Face às características da área de estudo e da escala adotada, verificou-se que os fatores
do relevo que são determinantes para a análise da fragilidade referem-se à forma da vertente, à
declividade e aos materiais de cobertura detrítica.
As formas de vertentes diferenciadas em côncavas, convexas e retilíneas, além dos
segmentos de topos e patamares, implicam em comportamentos morfodinâmicos distintos,
tornando-as mais ou menos frágeis. A declividade das vertentes é um fator que influencia de
modo significativo nos processos erosivos e na presença de materiais de cobertura detrítica,
bem como na sua estabilidade.
O mapa de uso da terra indicou as áreas que sofreram modificações e que interferem no
equilíbrio dinâmico do relevo, possibilitando inserir o fator antrópico na análise da fragilidade.
Considerou-se importante identificar padrões de uso quanto ao impacto no meio físico, com
possibilidade de induzir ou de acelerar processos de erosão e com a existência, ou não de obras
de proteção e/ou de minimização dos efeitos destes processos.
A pluviosidade é também um fator fundamental na análise de fragilidade, porém a mesma
não foi considerada neste estudo, por se tratar de uma área que apresenta um comportamento
pluviométrico relativamente homogêneo.
Esta proposta de análise de fragilidade, adaptada de Ross (1994, 1996), com base nos
fatores do relevo obtidos do mapa geomorfológico e dos fatores antrópicos, representados pelo
potencial de indução aos processos erosivos dos padrões de uso da terra, permitiu uma
avaliação qualitativa da fragilidade do relevo integrada às informações do uso da terra.
A carta de fragilidade resultante de estudos desta natureza pode constituir um importante
subsídio para aplicação por profissionais de outras áreas, na orientação ao planejamento do uso
territorial, na elaboração de Planos Diretores e no gerenciamento dos problemas de uso e
ocupação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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TOMINAGA, L. K. 2000. Análise Morfodinâmica das Vertentes da Serra do Juqueriquerê em
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