astronomia babilónica 2 - Astronomia - glauciojesus

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ASTRONOMIA DA BABILÔNIA
-------------------------------------------------------------------------------Fonte: Echoes of the Ancient Skies: The Astronomy of Lost Civilizations por E. C. Krupp
REGISTRANDO OS CÉUS
A maior parte dos textos astronômicos mesopotâmicos que chegaram até nós foram escritos entre
650 e 50 Antes da Nossa Era. Estas tábuas de argila em escrita
cuneiforme são chamadas de diários astronômicos, e constituem, sem dúvida, em observações de
especialistas: escribas-astrônomos profissionais..
Uma entrada típica do diário começa com uma declaração do comprimento do mês anterior. Este
podia Ter tido 29 ou 30 dias. Então, era feita a primeira observação
do mês: o tempo entre pôr-do-sol e o nascer da lua do primeiro dia da lua crescente, seguidas de
informações sobre as horas entre o desaparecimento da
lua e o nascer do sol na lua cheia. No final do mês, eram também registrados o intervalo entre o
nascer da última lua minguante e o nascer do sol.
Quando ocorria um eclipse solar, a data, tempo e duração eram anotados, bem como os planetas
visíveis, as estrelas que estavam no ponto mais alto e o vento
que prevalecia na hora do eclipse. Os pontos significativos nos vários ciclos planetários eram
tabulados, e eram também anotadas as datas dos solstícios,
equinócios e os aparecimentos significativos de Sírio.
Os astrônomos babilônicos usavam um conjunto de 30 estrelas como referências para posições
celestes, e seus diários astronômicos detalhavam as localizações
da lua e planetas com relação às estrelas. Relatórios de mau tempo ou fenômenos atmosféricos
não triviais - como arco-íris - também eram anotados nos diários.
Finalmente, vários eventos de importância local (incêndios, roubos, conquistas), a subida e
descida dos rios da Babilônia e a quantidade de bens que poderiam
ser compradas com uma moeda de prata enchima o relatório do astrônomo diligente.
Por 600 Antes da Nossa Era, os astrônomos babilônicos estavam já computando com
antecedência os tempos esperados entre o aparecimento e desaparecimento
da lua e do sol por vários dias para os meses vindouros. Estes cálculos eram baseados em
observações sistemáticas. Mais tarde, quando combinadas com tabulações
numéricas do movimento mensal do sol, a posição do sol e da lua na lua nova, a duração da luz
do dia, a metade da duração da noite, índices para calcular
um eclipse, a taxa de movimentação diária da lua, e outros dados, possibilitaram previsões
detalhadas e precisas de quando e o como a lua iria se manifestar
nos céus.
Os planetas recebiam atenção semelhante, mas tendo em vista que seus movimentos não eram
uniformes, os astrônomos mesopotâmicos tiveram de projetar técnicas
matemáticas que levassem em conta as variações de movimento. Como Júpiter, por exemplo, faz
o seu caminho através do zodíaco em quase exatamente 12 anos,
a cada ano ele se move numa zona ou constelação diferente. Cada ano também ele é visto em
oposição ao sol - levantando-se no entardecer, desaparecendo
ao amanhecer - mas por que o movimento de Júpiter não é uniforme, ele não vai atingir a
oposição na mesma data a cada ano. Os babilônicos expressavam este
fato de forma um pouco diferente de nós, e preferiam especificar a oposição de Júpiter ao invés
da data desta oposição. O efeito é o mesmo, entretanto,
e as tabelas babilônicas mostram que eles compensavam o movimento não uniforme de Júpiter
aumentando sua mudança de posição pela mesma medida para cada
oposição na primeira metade do ciclo de 12 anos e diminuindo a medida pela mesma quantidade
de cada vez para a outra metade. Quando a mudança de posição
é gravada através de oposições sucessivas do planeta, temos como resultado uma linha em zigzag.
Naturalmente os babilônios nunca desenvolveram representações totalmente precisas de
movimento não uniforme, mas nas últimas dinastias da Mesopotâmia, e
especialmente no Período Selêucido (301-164 BC) após a morte de Alexandre, o Grande
(durante o período chamado Caldeu), astrônomos aproximaram as acelerações
e desacelerações cíclicas da lua e dos planetas com as funções de zig-zag. Eles fizeram isto
numericamente, não em termos gráficos, mas a técnica funcionava
bem para seus propósitos.
Apesar dos extensos relatos escritos da astronomia babilônica, temos muito pouco conhecimento
dos instrumentos usados na Antiga Mesopotâmia, e sabemos ainda
menos sobre os observatórios que devem Ter existido. Um astrolábio de argila da Assíria está em
exposição no Museu Britânico em Londres. Na realidade,
um verdadeiro astrolábio é usado para medir a altura angular de um objeto celeste, e os
instrumentos assírios parecem mais diagramas de zonas nos céus.
Eles parecem ser tabelas de informações astronômicas, designadas para guiar o astrônomo na
contagem do tempo. A não ser por algumas limitadas referências
a um instrumento usado para medir os trânsitos, o gnomômetro (ou bastão de sombra), e do
relógio d'água, este é relatório completo do nosso conhecimento
de instrumentos astronômicos babilônicos.
Não é de surpreender, entretanto, que sejam difíceis para nós encontrar instrumentos
astronômicos e observatórios de civilizações antigas. Não existiam
muitos instrumento, e quanto aos observatórios, caso estes existissem também, seria muito difícl
que nós os reconhecêssemos pelo que foram. Os equipamentos
verdadeiros devem há muito Ter desaparecido. Se tais observatórios fossem incorporados a
templos e palácios, eles podiam ainda ser mais dificeis de identificar.
Quando encontramos uma estrutura com alinhamento astronômico, nem sempre é fácil dizer se a
estrutura era usada para rituais ou observações astronômicas,
ou para ambos.
OS DEUSES QUE ADORAMOS
Uma breve observação de quase todos os panteons da Antigüidade revela o óbvio: pelo menos
alguns deuses, em geral os mais importantes, são objetos estelares.
As razões metafóricas não são difíceis de se entender. O movimento regular dos objetos celestes
fazia deles agentes da ordem que ajudavam a dar sentido
ao mundo das esferas inferiores; a repetição infinita de seus aparecimentos e desaparecimentos
sugeria a imortalidade; a grande luz das estrelas e planetas
comandava atenção e poder. E estando nos céus, com tal perspectiva da terra situada em baixo,
era natural supor que os deuses deviam saber todo o que podia
acontecer, pois tudo eles podiam ver. Para ver o mundo em baixo, os olhos de uma pessoa
deveriam estar nos céus.
Apesar de deuses diversos diferirem em termos de recursos que eles podiam controlar, controle
era um atributo que todos os deuses e deusas compartilhavam.
O que eles e elas controlavam e como o faziam determina o tipo de deuses e deusas que são. Os
deuses celestes controlam a passagem do tempo em geral marcando
e medindo esta mesma passagem. Eles controlam a direção e o espaco através das posições de
suas idas e vindas. Como senhores do espaço e do tempo, eles
movem o mundo, fazem o universo mudar, o dia amadurecer e se tornar noite; o inverno se
transformar na primavera, os rios subirem e descerem, os cereais
surgirem, crescer e amadurecer. Nestes ciclos do mundo e de nossas vidas diárias, há uma
mudança que ocorre dentro de uma forma ordenada, e esta mudança
é coordenada pelos céus.
IMORTALIDADE E DIVINDADE
Se estivermos procurando pela imortalidade, o céu é um bom lugar para se começar. Há uma
infinita repetição nos céus. Apesar de sabermos que vamos morrer,
sabemos que o sol, a lua e as estrelas sobreviverão noite após noite, mês após mês, ano apõs ano.
Eles podem desaparecer, mas suas ausências são apenas
temporárias.
Os céus são apenas algumas das coisas que fornecem imagens concretas sobre as quais nossa
concepção de imortalidade pode se condensar. O céu por si mesmo
é eterno, e seus ocupantes estão continuamente ressurgindo. Nas passagens e retornos celestes
está o contraste entre o que é mortal e o que é divino.
O poder dos deuses celestes era revelado pela luz que possuíam. Qualquer pessoa que ficar de pé
ao sol pode atestar sua energia, seu calor é inconfundível.
Apesar de obviamente mais fraca, a lua e os planetas também comandam respeito. Eles brilham
não apenas na escuridão da noite, mas também quando os céus
estão claros, alguns podem ser visíveis â luz do dia. Sempre, os deuses estão associados com a
luz.
Por exemplo, Anu era o maior dos deuses sumérios. Seu nome era a palavra para céu e alturas, e
o símbolo escrito para seu nome era também compartilhado
pela palavra diugir, ou brilhante.
A Lua era também foco de grande reverência e adoração, conforme um texto de Ur, na
Mesopotâmia, do Terceiro Milênio Antes da Nossa Era:
Nana, grande senhor
brilho de luz dos claros céus,
que traz à cabeça o diadema dos príncipes
Deus justo que traz o dia e a noite, que estabelece os meses, fazendo completar os anos
Outra prece suméria invoca o brilho de Inana, a deusa Vênus, ao entardecer:
Tocha pura que brilha nos céus,
luz celestial que brilha tanto quanto o dia,
a grande rainha dos c~eus, Inana, eu saúdo!.
De sua majestade, de sua grandeza, de sua dignidade sem igual,
de seu brilho aos céus do entardecer,
de seu incendiar dos céus -tocha mais pura dela aparecer nos céus tal qual o sol e a lua
conhecida por todas as terras de Norte a Sul
da grandeza da Alta Sacerdotisa dos Céus
À Inana, eu canto!
OS DEUSES DO CÉU: O SOL E A LUA
O aparecimento e comportamento específico de certos corpos celestes freqüentemente levava
pessoas diferentes, em locais e tempos diferentes a assinalarem
os mesmos valores simbólicos aos astros. O sol, por exemplo, é ao mesmo tempo poderoso e de
confiança, pois segue um curso ordenado durante as estações,
e estas características têm inspirado muitos povos a ver nele a fonte de toda autoridade, lei e
ordem social.
Na Babilônia, o sol era Shamash. Seu olhar cuidadoso observava todas as coisas e a todos
julgava. Justiça residia nele. Hamurabi, o grande codificador das
leis da Babilônia, é mostrado frente a Shamash na coluna de pedra, ou estela, onde está inscrito o
código que leva seu nome. Pela lei, a ordem solar era
transferida para a terra.
Comparada ao sol, as mudanças rápidas da Lua faziam-na parecer uma viajante, mas era este
corpo celeste que havia trazido consigo a contagem do tempo, por
isso sendo extremamente importante.
O deus babilônico da Lua era Sin, o senhor do conhecimento. Ele presidia sobre o calendário e as
adivinhações astrológicas. Seu número sagrado era 30, conforme
o número de dias no mês.
OS DEUSES PEREGRINOS
Nos primeiros tempos, os gregos e romanos parecem não Ter diferenciado os planetas.
Escrevendo em 400 Antes de Nossa Era, o filósofo Platão descreveu os
cinco "peregrinos" como deuses e mencionou que a prática de associá-los com deuses específicos
do Olimpo tinha sido introduzida por estrangeiros. Os estrangeiros
provavelmente vieram do Egito e da Mesopotâmia. O mais provável é que os Mesopotâmicos
tenham sido a fonte para os gregos, pois os deuses planetários babilônicos
têm características paralelas aos deuses gregos, enquanto que as representações egípcias são
bastante diferentes das gregas.
Na antiga Babilônia, Marduk era considerado o rei dos deuses e estava associado com o planeta
Júpiter. Na Grécia, Zeus era o deus mais importante do Olimpo,
com domínio sobre o planeta Júpiter. Neste sentido, ele é a contrapartida grega de Marduk. Em
contraste, os egípcios mostravam Júpiter - bem como Marte
e Saturno também - com a cabeça de falcão do deus celeste Horus.
O papel de Júpiter-Marduk era fundamental na Babilônia, pois ele havia criado o mundo,
trazendo a ordem e eliminando o caos. Textos do mito da criação babilônico
estão preservados em tábuas de escrita cuneiforme da biblioteca de Assurbanipal, rei da Assíria
de cerca de 700 Antes da Nossa Era, se bem que o relato
seja bem mais antigo, provavelmente datado do Império Antigo Babilônio, de cerca de 1800
Antes da Nossa Era. No mito, Marduk estabelece a ordem matando
Tiamat, o dragão do caos primordial. Do corpo de Tiamat, Marduk cria todo o universo.
Marduk decide também que o curso de Jupiter pelo firmamento irá guiar as estrelas e os planetas.
Esta parece uma escolha estranha, mas a trilha de Jupiter
nos céus segue a forma elíptica, a jornada anual do sol, de forma mais precisa do que outros
planetas conhecidos naqueles tempos tão antigos. Da mesma
forma, as configurações de Jupiter nas estrelas se repetem quase que exatamente a cada 12 anos.
Por exemplo, Jupiter irá entrar em oposição (ou seja, ficar
em oposição ao Sol) 12 vezes num período de tempo apenas cinco dias maior do que 12 anos, e a
última oposição irá ocorrer entre as mesmas estrelas da primeira.
Estes aspectos do movimento de Júpiter combinado com seu brilho dentre as estrelas da noite,
provavelmente levaram os primeiros astrônomos a usar o planeta
como referência, uma função refletida, parece-nos, no mito. Mas há incertezas, entretanto. O
nome real para o planeta usado no texto é Nebiru. Apesar deste
termo significar Jupiter, ele também pode significar polo ou pivô. O polo Norte celestial é uma
referência chave na rotação do céu, portanto um ou outro,
ou mesmo os dois significados podem ser igualmente válidos no épico da criação..
Os outros planetas também tinham um papel importante, e também semelhante, em outros
panteons de outras culturas da Antigüidade. Os babilônicos também associavam
Ishtar, a deusa do amor e da guerra, ao planeta Vênus, assim como mais tarde o fizeram os
gregos e Romanos, por conseqüência.
Além de seu brilho, o aspecto mais distintivo de Vênus é seu ciclo como estrela matutina e
vespertina. Da mesma forma, os egípcios simbolizavam Vênus como
Bennu, um pássaro comumente equiparado à Fênix. O Bennu pertencia a Osiris, provavelmente
porque os egípcios associavam morte e ressurreição com os aparecimentos
do planeta ao amanhecer e entardecer, ou talvez com suas conjunções atrás do sol e seus
períodos de visibilidade. Algo semelhante pode estar atrás do mito
da Descida de Ishtar ao Mundo Subterrâneo.
Entre os babilônicos, Mercúrio era Nabu, o arquivista e mensageiro dos deuses. Seu status como
mensageiro pode estar relacionado com a rapidez do planeta
em seu circuito, que vai do Oeste ao Leste do Sol, para voltar novamente ao Oeste. A rapidez de
Mercúrio também fez dele o mensageiro dos deuses na Grécia
e Roma, bem como o guia das almas ao Reino dos Mortos.
É fácil ver Marte nos céus da noite. Sua cor vermelha faz com que seja visível em relação a
outros planetas e estrelas. A cor vermelha - a mesma do sangue
- também explica sua associação com os deuses da guerra, Nergal na Babilônia, Ares na Grécia
e, naturalmente, Marte em Roma.
Finalmente, Saturno, a última das estrelas peregrinas da Antigüidade, era conhecido como Ninib
pelos Babibônicos. Depois de uma carreira inicial como deus
sol e padroeiro da cidade de Nipur, ele formou laços com a primavera e a agricultura.
TEMPO E ADIVINHAÇÃO
Ao observar o que se passava nos céus, os xamãs e sacerdotes-astrônomos faziam calendários e
marcavam cerimônias. Eles tinham acesso ao domínio dos deuses
e à fonte da ordem cósmica, o que lhes permitia o conhecimento do estado do cosmo. Eles
podiam, então, comunicar os sinais dos céus e revelar as intenções
dos deuses com relação à terra. Adivinhação através dos calendários provém da Mesopotâmia.
Em 1900, o assiriologista R. Campbell Thompson compilou centenas
de augúrios astronômicos num livro chamado "The Reports of The Magicians and Astrologers of
Nineveh and Babylon." Muitos destes augúrios envolviam o aparecimento
da lua:" Quando a lua ao surgir estiver numa posição fixa, os deuses pretendem a felicidade da
terra".
O texto se refere ao primeiro crescente (aparição) da lua que ocorrer numa data esperada.
"Quando a lua fora do seu tempo de cálculo não puder ser vista,
haverá invasões na cidade..." O comportamento inesperado dos astros era visto como uma
mensagem. Esta poderia ser ruim, mas um encanto ou palavra mágica
recitada por um sacerdote dedicado podia evitar catástrofes.
É importante salientar que os babilônicos procuravam verificar se os fatos previstos pelo
calendário previsto correspondiam aos fatos da terra. Entretanto,
sempre que os astros seguiam comportamento não esperado, tais passagens eram motivo de
preocupação.
CALENDÁRIOS, CORREÇÕES E REIS
Na Mesopotâmia, foram provavelmente os sumérios o povo que construiu a civilização que
moldou a região, e que colocou em uso o primeiro calendário formal.
O calendário sumério era lunar, mas seus meses começavam quando a primeira lua crescente
ficava visível no Oeste. Uma passagem do mito da criação babilônico
mostra a preocupação de Marduk com o ciclo da lua:
Ele pediu para a lua aparecer (para ele)
designando para ele o adorno da noite para medir o tempo;
e cada mês, sem falhas, ele marcava numa coroa:.
"Quando a lua nova estiver se levantando sobre a terra
iluminando você com seus chifres, devem ser medidos seis dias;
no sétimo dia, quando a metade da coroa da lua aparecer.
E então irá se suceder o período de quinze dias
duas metades a cada mês.
Quando, depois, o sol ganhar sobre você as fundações do céu,
diminuindo de brilho passo a passo, faça o crescimento em ordem inversa!"
A "coroa" é o disco completo da lua (lua cheia) e os chifres se referem, naturalmente ao
crescente e minguante. No sétimo dia, meio chifre descreve a lua
crescente, e o restante do texto narra a forma com que a lua deve continuar a medir os meses.
Alguns dos nomes dos meses sumérios sobreviveram em textos cuneiformes e, como os nomes
egípcios, referem-se às festividades principais: O mês da festa
de Shulgi, O mês de Comer a Cevada de Ningursu.. As festas eram planejadas de acordo com as
fases da lua, com festividades regulares no primeiro crescente,
no sétimo dia e na lua cheia (o décimo quinto dia).
Os sumérios dividiam o ano em verão, ou emesh, e inverno, enten. Sabemos que o festival de
Ano Novo era marcado pelo casamento simbólico do rei com a alta
sacerdotisa. Este ritual festejava as núpcias de Dumuzi, um deus associado com o crescimento de
cereais e plantas, e Inana, a deusa do amor e da guerra.
O mais provável é que esta cerimônia ocorresse na primavera, quando a vida voltava aos
campos, flores e frutos.
Naturalmente, a intercalação era apenas uma forma para manter o calendário lunar
mesopotâmico no mesmo compasso das estações, e algumas inscrições implicam
que um mês extra era adicionado antes do mês do equinócio de outono. Outros textos se referem
a um décimo terceiro mês, adicionado também antes do mesmo
equinócio. Seja qual for a regra seguida anteriormente, a cerca de 1000 Antes da Nossa Era, os
sacerdotes babilônicos que preparavam os calendários intercalavam
os meses de acordo com um ciclo de oito anos. Durante este período, três meses mais eram
adicionados. Nos tempos caldeus, um Metônico, ou seja, um ciclo
de 19 anos tropicais com 235 meses lunares é chamado segundo o astrônomo grego Meton, que
introduziu seu uso no mundo Mediterrâneo nas últimas décadas
do quinto século antes da nossa era. A. Sachs, um especialista em Astronomia da Mesopotâmia
acredita que as intercalações eram designadas para manter a
curva anual ascendente de num mês determinado. Se este for o caso, novamente temos a
importância do papel da estrela mais brilhante do céu como um sinal
das estações e medidor do calendário para as civilizações antigas. Seus atributos astronômicos brilho e tempo de seus aparecimentos - faziam-na extremamente
valiosa onde quer que pudesse ser vista.
Não obstante qual o método usado para manter o calendário lunar mesopotâmico coordenado
com as estações, apenas o rei podia declarar quando deveria ser
adicionado um mês a mais.
O COMEÇO DO ANO
O tempo era medido em contagens dos corpos celestes em seus passeios pelos céus por xamãs e
sacerdotes especializados em calendários. Estes técnicos do
sagrado marcavam pontos no tempo com cerimônias e rituais que correspondessem na terra aos
padrões encontrados nos céus. Tais momentos podiam ocorrer várias
vezes durante o ano, pois não são necessariamente restritos a um padrão anual. Eles dependem
de como as pessoas vivem, cultivam seus campos, fazem a colheita
e percebem, em seu modo de viver e sentir, a ordem cósmica.
Os sacerdotes babilônicos faziam uma espécie de drama ritual para comemorar o Novo Ano na
Mesopotâmia. Este ritual, também, iniciava o ciclo de renovação
cerimonial e envolvia a recitação do Enuma elish, o mito da criação babilônico. Os sacerdotes
também encenavam alguns dos pontos altos do mito, como a
vitória de Marduk sobre o caos e como Marduk estabeleceu a ordem no universo. O festival
babilônico do Ano Novo era chamado de Akitu, e era festejado na
primavera ou no outono. Registros de meses intercalados sugerem que nos tempos do Antigo
Babilônio o Ano Novo era celebrado no Equinócio de Outono. Mais
tarde, o Ano Novo passou a ser comemorado a partir da primeira lua nova da primavera. A data
realmente não importa. O que conta é a escolha de um ponto
de mudança no tempo que era fundamental para os babilônicos. Muitas razões sugerem o
equinócio, e apenas vislumbres destas razões originais permaneceram
em cerimônias que continuaram a ser celebradas.
Nos primeiros dias da cerimônia, Marduk era simbolicamente confinado no que os textos
chamam "a Montanha". Por 3 dias, Marduk permanecia neste Mundo Subterrâneo,
reino do caos e da morte. O termo "montanha" também se refere às torres dos templos (ou
zigurates). É possível que esta parte da cerimônia estivesse ligada
de alguma forma com o zigurate. No quarto dia, o Enuma elish era repetido, e esta ação,
provavelmente acompanhada por outras, trazia Marduk de volta à
vida e permitia-lhe emergir da Montanha, ou Mundo Subterrâneo. Vimos já como tais metáforas
podem ser relacionadas com o nascer do Sol e o começo do Ano
Novo.
Marduk não era Shamash, o sol, mas assumia muitos atributos do sol como parte da elevação de
seu status no período Neo-Babilônico. A emergência de Marduk
da Montanha no Equinócio e Ano Novo, de qualquer modo, representa a criação da ordem no
mundo. Sabemos qual foi o papel de Marduk no épico da criação.
Ao encenar este mito em termos de ritual num dos pontos de virada das estações do ano, os
babilônicos reconheciam a natureza cíclica do mundo. O final
de cada ano é, na realidade, uma nova entrada no tempo de antes da criação do mundo. O mundo
anterior deve desaparecer antes de ser refabricado, e é por
isso que Marduk é aprisionado e sacrificado na montanha.
Algumas cenas mitológicas mostradas em selos cilíndricos podem mostrar relação com estas
idéias. Quando os mesopotâmios queriam colocar um selo oficial
num documento de argila ou proteger a integridade dos conteúdos de um contêiner, eles
imprimiam um desenho na argila mole rolando um pequeno cilindro de
pedra nele. O cilindro era cuidadosamente esculpido, e um destes selos, do período acádio (23602180 Antes da Nossa Era), também no Museu Britânico, mostra
o deus Sol Shamash, brandindo uma serra e emitindo rais ondulados de luz à medida em que
emerge de uma abertura entre dois picos de montanhas. O deus à
direita, com dois rios saindo de seus ombos, é Ea. A deusa à esquerda, é identificada com o
planeta Vênus, ou Ishtar, a estrela da manhã e do anoitecer.
As águas dos ombros de Ea representam as enchentes da primavera. Não podemos Ter certeza,
pois a figura não tem texto. Mas se ela significar primavera,
a cena pode simbolizar o equinócio de outono, o equinócio de primavera e possivelmente
também o Ano Novo.
Mais preces e rituais continuavam a cerimônia do Ano Novo, que durava 11 dias. Um ritual
chamado "fixar do destino" e claramente ligado à leitura de augúrios
para o novo ano fazia parte dos festejos. Os babilônicos também perpetuaram o Casamento
Sagrado dos Sumérios. Nele, o rei representava Tamuz e a alta sacerdotisa
era Ishtar. A mensagem era a mesma: fertilidade em todos os níveis. A passagem do tempo
cíclico significa o mesmo na Babilônia que para outros lugares
do mundo: renovação - dos deuses, dos homens, da fertilidade da terra, do calendário e dos céus.
A ESTRELA DE ISHTAR
Tendo em vista que alguns objetos astronômicos se movem no espaço em intervalos repetidos e
conhecidos de tempo, o comportamento dos deuses celestes associados
com eles pode ser simbolizado em termos numéricos. Ishtar, como o planeta Vênus, talvez fosse
tratada desta forma na estrela de oito pontas, que em geral
representa a grande deusa do amor e da guerra nas pedras babilônicas que marcavam os
limites/fronteiras.
São conhecidas referências a Vênus já desde 3000 ANTES DA NOSSA ERA a ...
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