Explosão das SEITAS MARGINAIS À REFORMA

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Explosão das SEITAS MARGINAIS À REFORMA
REV. ARNILDO KLUMB
SAMUEL FERRAZOLLI
REV. MÁRCIO
INTRODUÇÃO
A liberdade sobre a leitura bíblica imposta pela Reforma ocasionou um enorme avanço ao
cristianismo, ou pelo menos, possibilitou-o a retomar os passos do cristianismo primitivo.
Entretanto, tamanha liberdade fez com que várias correntes de interpretação surgissem nos
séculos subsequentes. Pessoas começaram a ler a bíblia de acordo com o seu tempo – o que
respondeu a inúmeras perguntas, mas suscitou muitas interpretações distintas,
principalmente quando era feito sem critério e por pessoas leigas influenciadas pelo
sentimento. Estes leigos, sem formação acadêmica, e, principalmente nestes dois últimos
séculos, fizeram-se ouvir pelas suas interpretações simplistas e populares. Diante dessas
várias leituras bíblicas nos encontramos hoje. Veremos alguns ramos (abordaremos mais a
questão do néo-pentecostalismo – pois trata-se de algo emergente e atual) que brotaram de
maneira distorcida do seio reformado.
Faremos aqui uma breve definição de seita, a partir do que diz o Rev. Tácito Gama:
“O termo seita vem do substantivo latino secta e do verbo sequi, que significa seguir. A
palavra grega que aparece na bíblia é háiresis, ou seja, heresia, que, por causa da semântica,
foi traduzido na Vulgata por seita. No seu sentido original significa escola ou modo de
pensar e de viver que é seguido por pessoas. O sentido original, portanto, não é pejorativo,
visto que o próprio cristianismo foi denominado de seita (At 26.5). Com o tempo, o termo
foi adquirindo um significado negativo, ou seja, espírito sectário, ferrenho, estreito,
agressivo, maquiavélico”1.
Seitas Proféticas
Seitas proféticas, em sua maioria, são movimentos que surgem a partir de uma visão
fanática, de um sonho, uma revelação pessoal aliada à uma interpretação
descontextualizada de algumas passagens bíblicas. Geralmente profetizam o fim dos
tempos; sua linguagem natural é de sectarismo e sua argumentação está baseada em
profecias futurísticas. Também não vêem Jesus como o único Deus, mas como um deus.
Dentre elas podemos destacar: Adventistas do Sétimo dia, Mórmons, Ciência Cristã,
Testemunhas de Jeová, Meninos de Deus, entre outras.
Seitas Pentecostais
O pentecostalismo nunca foi homogêneo. Desde seu início, sempre conteve diferenças
internas. As maiores diferenças na verdade, não são nem tanto teológicas, mas
comportamentais, e são elas que definem a identidade pentecostal; desde o seu surgimento
até agora, inúmeros ramos brotaram na árvore pentecostal. São difíceis, não de discernir,
mas de dar-lhes uma identidade. Vários teólogos tentam dividir o movimento pentecostal.
A divisão que achamos ser mais coerente é a de Paul Freston:
“O pentecostalismo brasileiro pode ser compreendido como a história de três ondas de
implantação de igrejas. A primeira onda é a década de 1910, com a chegada da
Congregação Cristã (1910) e da Assembléia de Deus (1911). A segunda onda pentecostal é
dos anos 50 e início de 60, na qual o campo pentecostal se fragmenta, a relação com a
sociedade se dinamiza e três grandes grupos (em meio a dezenas de menores) surgem:
Quadrangular (1951), Brasil para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962). O contexto dessa
pulverização é paulista. A terceira onda começa no final dos anos 70 e ganha força nos anos
80. Seus principais representantes são a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja
Internacional da Graça de Deus (1980). O contexto é fundamentalmente carioca”2
O tempo vai passando e mudando, com isso, determinando a leitura e o surgimento de
novos grupos oriundos da fé pentecostal. Sua marca, em todas as classificações, é o
sentimentalismo e a experiência. Desde quando surgiu, surgiu pela experiência e para ela. O
homem foi colocado no centro para que pudesse sentir a experiência com o divino. Eis a
classificação atual de pentecostalismo baseada em Freston:
a) Pentecostalismo Clássico
Fazem parte dessa linhagem, no Brasil, a Igreja Assembléia de Deus e a Cristã no Brasil. O
termo clássico surgiu em meados de 1970, quando pesquisadores norte-americanos
acrescentaram a designação classical às denominações pentecostais do início do século,
período de gênese do pentecostalismo, para distingui-las de outras pentecostais ou
carismáticas surgidas nos anos 60. Alguns autores também usam o termo histórico, ou
ainda, tradicional. Para entender o que se denomina movimento pentecostal clássico do
século XX, é necessário tornar claro o seguinte: É um movimento missionário de caráter
mundial, que possui uma dinâmica própria, herdando muitos traços dos movimentos de
santidade da Inglaterra e dos Estados Unidos, particularmente do metodismo. A grande
maioria das igrejas pentecostais surgiram das igrejas históricas herdeiras da Reforma
Protestante do século XVI. Seu marco inicial foi em 1900, quando Charles Parham, alugou
uma "Mansão de Pedra", como era conhecida, em Topeka, Kansas para estabelecer uma
escola bíblica chamada Betel. Cerca de 40 estudantes ingressaram na escola para o seu
primeiro e único ano atraídos pelo seguinte propósito - "descobrir o poder que os
capacitaria a enfrentar o desfio do novo século". O método de ensino era pesquisar e
estudar um assunto, esgotando todas as citações bíblicas sobre o assunto e apresentá-lo para
a classe em forma de sabatina oral, orando para que o Espírito Santo estivesse sobre a
mensagem trazendo convicção. Até dezembro de 1900, já tinham estudado sobre
arrependimento, conversão, consagração, santificação, cura e a eminente vinda do Senhor.
No dia 25 de dezembro, Charles Parham iria se ausentar por alguns dias e deu a seguinte
instrução para eles:
"Nós nos deparamos em nossos estudos com um problema. É sobre o segundo capítulo de
Atos?... Tendo ouvido tantas entidades religiosas diferentes reivindicarem diferentes provas
como evidências do recebimento do batismo pentecostal, eu quero que vocês estudantes
estudem diligentemente qual é a evidência bíblica do batismo no Espírito, para que
possamos apresentar ao mundo alguma coisa incontestável que corresponda absolutamente
com a Palavra"3.
Três dias após, apresentaram seus trabalhos com a mesma história. Embora diferenças
tenham ocorrido quando a benção pentecostal caiu, tinham como prova irrefutável o falar
em outras línguas. Foi esta descoberta, que deu inicio o Movimento Pentecostal do século
XX. "Tal foi a magnitude e impacto do movimento, que, já na primeira década depois de
Azuza , sabia-se de experiências pentecostais na Ásia, África, Europa e América Latina. O
movimento se multiplicava agora em muitos movimentos com variedade de matizes e
expressões, como um grande caleidoscópio"4.
O movimento pentecostal no Brasil, teve inicio com os missionários Daniel Berg e Gunner
Vingren, crendo ter recebido revelações de Deus, vieram para o norte do Brasil -estado do
Pará; onde, numa Igreja Batista, começaram a pregar o batismo com o Espírito Santo e ali
fundaram a Igreja Assembléia de Deus. Outro missionário, Luigi Francescon, antigo
membro da Igreja Presbiteriana Italiana de Chicago, também, por "revelação" de Deus,
segue para a Argentina e Brasil, iniciando nos estados de São Paulo e Paraná a
Congregação Cristã do Brasil.
Este movimento hoje é considerado como sério (principalmente quando se trata da igreja
Assembléia de Deus). Teve uma origem leiga sob uma exegese contestável; entretanto,
agora parece ser um movimento preocupado em servir a Deus.
b) Deutero-pentecostalismo
Nos anos 50, uma segunda onda pentecostal se iniciou, fazendo dos milagres e da cura
divina sua principal ênfase, diferentemente da primeira onda, onde a ênfase recaia sobre a
glossolalia, entretanto, o núcleo doutrinário permaneceu inalterado. Os pioneiros dessa
nova onda são os ex-atores de filmes de faroeste do cinema americano: Harold Williams e
Raymond Batright. Difundiram-na por meio do rádio (que era considerado até então pelo
pentecostalismo clássico como mundano e diabólico). Dessa nova investida surgem
denominações como a Igreja do Evangelho Quadrangular - Cruzada Nacional de
Evangelização (1953)5; Igreja Pentecostal "O Brasil para Cristo"(1956); Igreja de Nova
Vida (1960); Igreja Pentecostal "Deus é Amor"(1961); Casa da Benção(1964), Metodista
Weslyana(1967) e uma enorme quantidade de pequenas denominações, formando
comunidades locais.
c) Neo-pentecostalismo
Finalmente, nos anos setenta, o país recebe o impacto da terceira onda pentecostal, vinda
junto com uma crise econômica sem precedentes, crise internacional do petróleo e
emergido em uma ditadura militar tentando resolver os problemas básicos do povo mais
pobre. Dessa onda surgem o Salão da Fé(1975), a Igreja Universal do Reino de Deus(
1977)6, a Igreja Internacional da Graça(1980) e várias outras. Seu discurso básico, presente
em todo momento é a cura divina7, porém com uma doutrina diferente dos pentecostais
anteriores. Todas as aflições são resultante da onipresença de demônios na vida. A saída é o
exorcismo, a freqüência constante aos cultos e a aplicação das várias terapias8
recomendadas pelo movimento. O movimento que foi chamado de "neo-pentecostal”,
colocou em primeiro lugar a saúde do corpo, a prosperidade e a solução dos problemas
psíquicos, colocando-as como resultado imediato da busca do sagrado. Ficaram para traz as
preocupações escatológicas e até mesmo glossolalia. O velho dito de antes agradar a Deus
do que aos homens foi fadado a existir apenas nas religiões já existentes. O que agora se vê
é uma procura para agradar o homem, independentemente do agrado a Deus; Ele que se
adapte a nova filosofia. Além disso, o "diabo" é enfatizado como o causador de todos os
males que atacam os seres humanos, animais ou objetos. Daí, a importância que se deu ao
exorcismo, uma maneira de se delimitar campos e forças aparentemente misturadas, que
impedem a saúde, sucesso e prosperidade. Devido a tendência das igrejas pentecostais de
aceitarem os dons de profecias e profetas, sem uma ortodoxia bíblica, criou-se um espaço
para as afirmações da teologia da prosperidade, a qual encontrou um solo fértil para se
firmar e crescer, no entanto, há algumas igrejas pentecostais que não fazem parte da
teologia da prosperidade. Entretanto, há uma grande disparidade teológica entre as igrejas
néopentecostais: alguns são predestinacionalistas, outros sabatistas, etc.; herança do
pentecostalismo clássico e deutero. São muitos que se infiltram nas igrejas de Bíblia em
punho, parecendo crer no que cremos; no entanto um estudo mais minucioso revelará que
suas posições doutrinárias são inaceitáveis à luz das Escrituras e do cristianismo histórico e
ortodoxo.
HISTÓRICO DAS IGREJAS NEOPENTECOSTAIS
Igreja de Nova Vida
Embora insignificante no cenário neopentecostal a Igreja de Nova vida desempenhou papel
destacado como formadora e provedora dos líderes das duas maiores igrejas
neopentecostais do Brasil: IURD e Internacional da Graça de Deus. De seus bancos saíram
Edir Macedo, R. R. Soares e Miguel Ângelo. Já na nova vida encontramos uma forma
embrionária das principais características do neopentecostalismo, ou seja: intenso combate
ao Diabo, valorização da prosperidade material mediante a contribuição financeira,
ausência do legalismo nos usos e costumes.
Foi fundada em 1960 no bairro Botafogo, RJ, pelo missionário canadense Walter Robert
McAlister. A igreja surgiu como conseqüência de seu programa radiofônico A voz de Nova
Vida. McAlister é oriundo de família pentecostal, e sempre se dedicou a atividade
missionária, trabalhando como evangelista em vários países, onde nas Filipinas tem uma
experiência profunda na libertação de demônios.
Em 1960 McAlister se estabeleceu no Rio, passando a pregar semanalmente no auditório da
Associação Brasileira de Imprensa e anualmente no Maracanãzinho e deu início à Cruzada
de Nova Vida. Ao contrário das demais igrejas neopentecostais formadas nos anos 50 e 60,
a Nova Vida desde o princípio tinha como seu público alvo a classe média e média baixa.
Este fenômeno só vai ocorrer nas demais igrejas neopentecostais a partir dos anos 80.
No ano de 1979 a Nova Vida foi implantada no Estado de São Paulo pelo seu líder.
Contudo não obteve o mesmo sucesso entre os paulistanos, possuindo atualmente apenas
dois templos.
Com a morte de McAlister em 1993 nos EUA seu filho, McAlister Jr., assumiu o poder da
igreja. Mas, não desempenhou uma liderança carismática como o pai, por isso, em três anos
já via sua liderança sucumbir. McAlister Jr. saiu e fundou a igreja Nova Aliança,
conseguindo levar consigo um ínfimo contigente de pastores. Com o cisma sua mãe, Glória
McAlister, se tornou a mais nova líder da igreja, mantendo quatro bispos à frente da Nova
Vida, com Tito Oscar na presidência. Em seguida retornou aos EUA.
Apesar do cisma a igreja permaneceu firme, sendo que em meados de 1997, um ano após o
“racha”, possuía 60 templos, 45 só no Rio.
Como o cargo de bispo aponta, o governo eclesiástico da Nova Vida é episcopal. Contudo,
desde 1975, as congregações ganharam autonomia e independência administrativa,
tornando-se congregacionais, mais democráticas e autônomas.
Atualmente a igreja cresce pouco pois seu público alvo é a classe média que é pouco
receptiva aos métodos pentecostais. Outro motivo é a forte concorrência das outras igrejas
neopentecostais, além da diminuição dos fenômenos extáticos e carismáticos em seus
cultos.
Igreja Universal do Reino de Deus
Embora oriunda de uma “costela”da Nova Vida, a Igreja Universal é seu oposto em matéria
de expansão e freqüência nas manifestações de poder divino e demoníaco na vida cotidiana
dos crentes.
A Igreja Universal surgiu no cenário nacional em 1977 numa sala de uma ex-funerária no
bairro da Abolição, subúrbio da zona norte do Rio., fundada por Edir Bezerra Macedo,
carioca, filho de migrantes nordestinos. Seu pai era comerciante, sua mãe dona de casa.
Edir é o quarto de uma série de 33 filhos, dos quais 10 morreram e 16 foram abortados por
terem nascido “fora de época”.
Com 17 anos, em 1962, Edir Macedo começou a trabalhar como servente na Loterj,
Secretaria de Finanças do Estado. Em 1977, quando era agente administrativo, pediu
licença do trabalho, vindo a se desligar totalmente da Loterj em 1981. Nos começo dos
anos 70 freqüentou a Universidade Federal Fluminense cursando matemática e a Escola
Nacional de Ciências e Estatística onde cursou estatística. Acabou não concluindo nenhum.
Com 18 anos se converteu ao mundo pentecostal, na Igreja de Nova Vida, através de sua
irmã, que fora curada de bronquite asmática nesta denominação. Anteriormente freqüentava
a Igreja Católica e os centros de Umbanda.
Depois de 12 anos como membro da Nova Vida, farto do elitismo da igreja e sem apoio
para suas atividades evangelísticas, consideradas agressivas, decidiu alçar vôos mais altos.
Em acordo com Romildo Ribeiro Soares, Roberto Augusto Lopes e dos irmãos Samuel e
Fidélis Coutinho, fundou em 1975 a Cruzada do Caminho Eterno. Antes mesmo de Abri-la,
Macedo e Romildo, foram consagrados pastores na Casa da Benção pelo missionário
Cecílio Carvalho Fernandes. Com sua experiência com números e dinheiro, Macedo se
tornou tesoureiro da Cruzada. Dois anos depois, nova cisão. Desentendendo-se com os
irmãos Coutinho, Edir e os outros dois, além do bispo Carlos Rodrigues, fundaram a
Universal. Entre uma cisão e outra, Macedo pregou de casa em casa, nas ruas, em praça
pública e cinemas alugados.
No começo, o missionário R. R. Soares era o líder da Universal e seu principal pregador.
Entretanto, sua liderança começou a declinar e Macedo surgiu como o novo líder. O estilo
autoritário e centralizador de Macedo contribuíram e muito para a derrocada de Soares. No
final dos anos 70 os dois chegaram a um impasse. Macedo propôs que a disputa fosse
resolvida por meio de uma votação do presbitério. Macedo venceu o pleito. Soares foi
recompensado financeiramente, e desligou-se da Universal, para fundar, em 1980, nos
mesmos moldes, a Igreja Internacional da Graça de Deus. E foi assim que Macedo
atropelou o cunhado, e se tornou o principal líder da IURD.
Em julho de 1980, por ocasião do terceiro aniversário da Universal, o pastor Roberto Lopes
dirigiu o culto de consagração de Macedo ao bispado, momento em que a igreja adotou o
sistema eclesiástico episcopal, tal qual o da Nova Vida. No mesmo ano, Lopes, ex-coroinha
e ex-frequentador da umbanda, sob ordens de Macedo, rumou para São Paulo com a missão
de implantar a Igreja na capital. Fundou a primeira sede da igreja no Parque D. Pedro II,
que mais tarde, foi transferida para o bairro da Luz, e em seguida, para o antigo Cine Roxi,
no Brás, que se tornou sua sede nacional em 1992. Em 1984 Lopes retornou ao Rio. Dois
anos depois engressou na carreira política e foi eleito deputado federal pelo PTB/RJ com
54.332 votos. Em 1987, porém, desligou-se da Universal e retornou à “velha casa”. Com
sua saída, Macedo passou a reinar absoluto.
O bispo Macedo foi morar nos EUA em 1986 com o intuito de expandir a Universal pelo
mundo. Pretendia criar um núcleo de evangelismo mundial enviando os estrangeiros lá
convertidos como missionários para seus países de origem. A estratégia não deu muito
certo. Em 1990 optou em investir na clientela espanhola. Contudo, também não obteve o
sucesso esperado.
Atualmente a Universal está inserida em mais de 50 países, seus templos chegam a mais de
três mil, e possui mais de um milhão de membros.
Magia Organizada
Embora fartos de simbolismo e pródigos em manifestações sobrenaturais, os cultos da
Universal caraterizam-se pela simplicidade. Além de simples, sua liturgia é despojada, sem
roteiro rigidamente preestabelecido a ser seguido. Não existe um momento certo para orar,
cantar, exorcizar ou ofertar. Os pastores detêm liberdade na direção do culto. A reunião
tanto pode começar com oração, cânticos, corinhos, bem como no pedido para que as
pessoas se aproximem do púlpito para participar da corrente de oração do dia. O pastor é
quem faz tudo: ora, canta, prega, pede ofertas. Comanda o culto do princípio ao fim.
Quanto às correntes de oração, aso rituais de exorcismo e de unção e à oração com
imposição de mãos, o pastor conta com o abnegado e indispensável auxílio dos obreiros.
Desta forma, não é exagero afirmar que a Universal estabeleceu um sistema de magia
organizado e bem elaborado. Ela institucionalizou denominacionalmente práticas e crenças
mágico-religiosas de inspiração cristã. E isto deriva do fato dela se propor, na qualidade de
mediadora dos poderes divinos, a resolver todos os problemas terrenos dos fiéis. É
justamente para atender eficientemente a tais interesses e necessidades da clientela,
majoritariamente pobre e pródiga em demandar soluções mágicas, que ela organiza e
raciocina sua oferta de serviço religiosos. Verifica-se isto, de imediato, no fato de ter
rotinizado a dispensação das graças divinas e fixado um calendário de cultos e rituais para
prestar atendimento especializado a problemas determinados. Às segundas-feiras: oferece
soluções sobrenaturais para quem deseja prosperidade; às terças: para cura física; às
quintas: para problemas familiares e afetivos; às sextas: faz libertação espiritual
(exorcismos); aos sábados: repete ritual para prosperidade. Os cultos de quarta e domingo
são dedicados à adoração do Espírito Santo.
A Universal tem hinário próprio e seus cultos são intercalados com corinhos avivados.
Apesar disso, não há ênfase no louvor, e sim, na luta contra o diabo e a evangelização. Os
neófitos são normalmente aliciados como obreiros voluntários. Estes trabalham muito e
nada recebem. Aqueles que carecem de tempo para serem obreiros ou pastores são
encorajados a entrar na luta contra as hostes infernais (“guerra santa”), a pregar o
evangelho, distribuindo folhetos em locais públicos, convidando amigos, parentes e
vizinhos aos cultos e, sobretudo, a ofertar e ser fiel no pagamento de dízimo, colaborando
para a expansão do reino de Deus na terra.
A igreja exige muito de seu pastores e obreiros, pois funciona como um verdadeiro
“pronto-socorro espiritual”. Seus apelo às pessoas é “pare de sofrer”. Assim os pastores e
obreiros têm de estar sempre de plantão. Sua membresia e clientela é formada por pessoas
carentes, sofredoras e marginalizadas. Pesquisa realizada pelo ISER revela que 91% dos
seus membros recebem menos de 5 salários mínimos, 85% não passaram do primário, 60%
são pardos e 24% negros. Portanto, são os muito pobres e marginalizados que fazem a
fortuna da Universal. A universal prega que há esperança para todos, e que Jesus deseja
libertar as pessoas do mal e conceder-lhes “vida em abundância”. O Reino dos céus é aqui
na terra. Enfim, prega a Teologia da Prosperidade. Ela também não desenvolve atividades
assistenciais para seus membros. Neste caso, a ação social da igreja se restringe aos de fora.
No Rio mantém dois orfanatos e dois asilos e oferece curso de alfabetização de adultos até
a 4a série reconhecido pelo MEC. Em São Paulo assumiu a direção da Sociedade
Pestalozzi, que possui escolas e sustenta projetos assistenciais para crianças excepcionais.
Atua em delegacias e presídios. Criou a ABC, Associação Beneficente Cristã, em 1994 para
combater a fome e desbancar os projetos assistenciais da VINDE.
A via-crúcis do pastorado
Para ser pastor na Universal, é preciso negar a si mesmo, tomar sua cruz, despojar-se de
tudo, abandonar estudo, trabalho e, no caso dos solteiros, família. Pastores casados sem
filhos e aqueles prestes a casar são aconselhados a fazer vasectomia para poderem se
dedicar exclusivamente à obra divina. Os pastores praticamente não têm folgas. Estão
sempre atarefados com os cultos diários, aconselhamento pastoral, programas de rádio e
TV, vigílias e, no final do expediente, com montanhas de cédulas de dinheiro para contar.
Dormem pouco. Trabalham muito. Família é aspecto secundário.
As esposas dos pastores também sofrem na Universal. Existem regras rigorosas sobre a
conduta feminina: devem ser discretas, boas mães e amorosas, submissas e obedientes aos
maridos. Sua maior preocupação deve a de não incomodar o marido. Além disso, deve
também, ser o braço direito do marido e tudo fazer, voluntária e gratuitamente, desde a
limpeza do templo até evangelismo em presídios, para ajudá-lo em seus afazeres. Na
Universal há pastores nomeados e consagrados. Os primeiros exercem a função de auxiliar.
São normalmente jovens. Não realizam casamentos nem ministram os sacramentos. Devem
ser casados e mostrar aptidão para o ministério. Ganham apenas uma ajuda de custo. Os
últimos ganham em média de 4 a 5 mil reais. No geral levam uma vida confortável. Muitos
deles têm direito a plano de saúde, casa, telefone, carro, escola paga para os filhos. Nenhum
destes bens, no entanto, lhes pertence. São da igreja. Os que se destacam assumem
programas de rádio, espaço na TV e têm seus pedidos atendidos. Logo são transferidos para
dirigir templos maiores.
A Universal não possui seminário. Tinha um mas fechou. Atualmente existe o Instituto
Bíblico Universal, não obrigatório e com duração de 6 meses. O Governo eclesiástico da
Universal é centralizado em torno de seu líder carismático. Pastores e congregações não
possuem autonomia alguma. Os membros não escolhem os seus pastores, que são
designados, e obedecem a um esquema de rodízio.
Quem não cumprir as exigências (dedicação, profissionalismo e aumento de produtividade)
são sumariamente despojados.
Expansão e Consolidação
A Universal cresceu meteoricamente na década de 80. Quando completou três anos, em
julho de 1980, tinha apenas 21 templos em 5 Estados. Em 1982, dobrou, passou a ter 47
templos em 8 Estados. Em 1983, chegou a 62 templos e alcançou mais um Estados, Em
1984, avançou para 85 templos em 10 Estados. Em 1985 saltou para 195 templo em 14
Estados e no DF. Em 1986, atingiu a marca de 240 templos em 16 Estados. Em 1987, tinha
já 356 templos em 18 Estados, 2 em NY e mais 27 “trabalhos especiais” em cinemas
alugados. Em 1988, além de 26 “trabalhos especiais”, possuía 437 templos em 21 Estados e
Brasília. E em 1989, somava 571 templos. Nestes nove anos o número de templos da
Universal cresceu 2.600%. Em 1998, já presente em pelo menos 50 países, a Universal
estava fundando um templo por dia em média e possuía mais de 3000 deles no Brasil, e 700
no exterior.
Seu primeiro programa de rádio durava 15 minutos na rádio Copacabana. Em meados da
década de 90 já mantinha em seu poder 40 emissoras de rádio. Em 1980 dava seus
primeiros passos na TV, e já em 1989 comprava a Rede Record de Rádio e TV por US$ 45
milhões, no pacote também herdou uma dívida de 300 milhões de dólares, quitada logo
depois.
Assédio da Imprensa e Discurso Vitimizador
Com a compra da Rede Record a Universal passou a ser questionada e investigada pela
imprensa. Foi alvo de inúmeras reportagens especiais. Os inimigos do bispo Macedo
começaram a aflorar. Dentre eles, destaca-se um ex pastor da Universal, Carlos Magno de
Miranda, que acusava Macedo de sonegar impostos, remeter ouro e dólares ilegalmente
para o exterior e de envolvimento com o narcotráfico. Porém, nada ficou provado.
Diante de todas estas acusações a igreja se posicionou como vítima de perseguição e
discriminação religiosa. A prisão do bispo em maio de 1992 veio consolidar esta postura, e
o discurso de perseguição aso crentes ganhou enorme força. Havia no âmbito nacional uma
conspiração da imprensa e de seus aliados, entre os quais a Igreja Católica, a Rede Globo, o
Diabo e os comunistas, para dificultar o trabalho e impedir o crescimento dos evangélicos
no país.
Macedo saiu fortalecido da prisão, inclusive conseguindo a adesão de outros segmentos
evangélicos, inclusive de vários pastores pentecostais. O discurso adotado foi o do direito à
liberdade religiosa.
Este discurso foi novamente adotado em três polêmicos episódios em que a Universal
rivalizava, ao mesmo tempo, com a Rede Globo e, de quebra, com a Igreja Católica, duas
das mais poderosas instituições do país. O primeiro episódio foi a minissérie Decadência,
de 12 capítulos, escrita por Dias Gomes e exibida em setembro de 1995 pela Globo. O
segundo episódio foi o famoso “chute na santa”, ocorrido um mês depois da minissérie. Em
pleno 12 de outubro, feriado de Nossa Senhora Aparecida, Sérgio Von Helde, bispo da
Universal, responsável pela igreja no Estado de São Paulo, em dois programas matutinos da
Record, tocava com os pés e os punhos a imagem da santa. O terceiro episódio foi a
publicação de um vídeo, no qual Macedo aparecia ajoelhado, rindo para a câmera enquanto
contava dinheiro da coleta num templo em Nova York, divertindo-se num iate na
paradisíaca Angra dos Reis (RJ), dançando numa vigília em Copacabana e, no trecho mais
devastador, durante intervalo de um jogo de futebol com a cúpula da igreja, ensinando, de
modo debochado e em meio a termos chulos, pastores e bispos a serem mais agressivo,
persuasivos e eficazes na arrecadação de recursos dos crentes. Macedo dizia para os líderes
pedirem mais e mais: “Você tem que chegar e se impor... Você nunca pode ter vergonha.
Peça, peça, peça. Quem quiser dá, quem não quiser não dá. Ou dá ou desce”.
Participação Política: Clientelismo e Antiesquerdismo
Junto com a Assembléia de Deus a Universal é a igreja pentecostal que faz mais sucesso na
política. Iniciou a sua primeira candidatura própria em 1982. A Universal não mede
esforços para eleger seus candidatos, nem tenta camuflar a sua participação no meio
político. Não contra a política, pelo contrário, a utilizam para defender seus interesses.
Pastores e bispos pedem abertamente votos de púlpito. Obreiros distribuem “santinhos”.
Suas emissoras fazem propaganda eleitoral, convidando seus candidatos para participar de
entrevistas. Em 1986, a Universal elegeu um parlamentar para o Congresso. Em 1990,
conseguiu eleger 4 deputados federais e três estaduais. Em 1994, Elegeu seis deputados
federais e seis estaduais. Em 1998, ampliou consideravelmente sua representação: elegeu
14 deputados federais e 26 estaduais.
A Universal mantém uma ideologia política baseada no moralismo e no antiesquerdismo.
Nas eleições de 1990 e 1994 atacou publicamente a candidatura do candidato do PT, Lula,
associando sua imagem, a dos padres e do Diabo. Ter por filosofia não se filiar à partidos
de esquerda.
Igreja Internacional Da Graça De Deus
Em 1980, após se separar da Universal do Reino de Deus, Romildo Ribeiro Soares fundou
a Igreja Internacional da Graça de Deus, na cidade do Rio de Janeiro. Nasceu em Muniz
Freire, ES em 1948. Sua era católica e seu presbiteriano desviado. Se converteu aos 6 anos
num culto presbiteriano. Logo em seguida começou a freqüentar a igreja Batista, na qual
permaneceu até os 16 anos, quando mudou-se para o Rio, onde ficou afastado do evangelho
por 4 anos. Em 1968, filiou-se à Nova Vida, igreja na qual se casou e permaneceu como
membro. Em 1975, foi consagrado pastor na Casa da Benção e participou da Fundação da
Cruzada do Caminho Eterno. Dois depois, fundou a Igreja Universal, da qual saiu em 1980.
Soares não cursou seminário, mas bacharelou-se em direito na Universidade Gama Filho,
rio. É ele quem comanda o televangelismo e a organização eclesiástica da igreja. A sede
localiza-se no Meyer, Rio. Até 1998 a igreja só possuía 317 templos.
A Internacional se parece muito com a Universal. Adota agenda semanal, abre as portas
diariamente, prega curas, exorcismos e prosperidade, utiliza intensamente a TV, tem líder
carismático e pastores jovens e sem formação teológica, não concede autonomia as
comunidades locais, e é liberal em matéria de usos e costumes. Seus pastores recebem um
curso bíblico de 12 meses. Possui duas classes de pastores os comissionados e os
consagrados. Para ser consagrado o pastor deve ser casado e ter vocação pastoral.
Trabalham de tempo integral, recebendo de 3 a 5 salários mínimos. Valorizam mais a TV
do que o rádio.
Renascer Em Cristo
A Renascer foi fundada na capital paulista em 1986 pelo casal Estevam Hernandes Filho,
ex-gerente de marketing da Xerox do Brasil e da Itautec, e Sônia Hernandes, nutricionista e
ex-proprietária da butique La Belle Femme.Toda a família de Estevam é de origem
espanhola se converteu a uma igreja pentecostal. Aos 20 anos ingressou na Pentecostal da
Bíblia do Brasil, depois freqüentou Cristo Salva e a Evangélica Independente de Vila
Mariana, das quais adotou a ênfase musical como recurso evangelístico. Já Sônia, cuja
família era da IPI (Igreja Presbiteriana Independente), da qual seu pai é presbítero, aceitou
Jesus aos 5 anos e foi batizada no Espírito Santo aos 12.
Em 1986, juntamente com um grupo de crentes de classe média o casal fundou os trabalhos
da Renascer numa pizzaria. Em seguida tomaram emprestado um templo de uma igreja
pentecostal, e em 1989, alugaram o Cine Riviera, no Cambuci, transformado em sede
nacional da denominação depois de comprado por um empresário membro da igreja.
Em 1998, a Renascer contava com mais de 300 templos, a maioria em São Paulo. Em 1995,
adotou governo eclesiástico episcopal, cujo topo hierárquico é ocupado por Estevam
Hernandes, promovido então a apóstolo. A maioria de seus pastores são de tempo parcial.
Cerca de 10 % são mulheres. Esposas de pastores são co-pastoras. O ensino teológico fica a
cargo da Escola de Profetas, com duração de 2 a 3 anos.
A fundação Renascer, criada em 1990, administra a denominação. A Renascer em Cristo
detém a patente da marca Gospel no Brasil, a cúpula possui rádios, emissora de TV UHF, a
produtora RGC, a Editora Renascer, o jornal Gospel News, o Instituto Renascer de Ensino,
o Cartão Gospel Bradesco Visa e a livraria Point Gospel em cada templo. Também
possuem uma gravadora e uma casa noturna.
Realiza megaeventos na cidade de São Paulo e encabeça o movimento Gospel. Dá
prioridade aos programas de TV, enfatizando sempre a música gospel tanto em rádio com
TV. É liberal quanto a usos e costumes. Seu público alvo são os jovens, empresários e
profissionais liberais. A denominação tem um consistente papel na ação social semelhante a
Universal; na política apóia os candidatos evangélicos e é contra candidatos da esquerda.
Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra
Fundada em Goiânia em 1976, a Comunidade tem sua origem diretamente ligada à
biografia de seu líder Robson Rodovalho, professor de física licenciado da Universidade
Federal de Goiás, é proprietário da Editora Koinonia e autor de vários livros com ênfase na
guerra espiritual.
Rodovalho é vem de família kardecista, freqüentadores assíduos às sessões da mesa branca
na casa do avô. Robson e sua mãe iam a festas e giras de umbanda nas tendas erguidas na
fazenda da família por empregados oriundos da Bahia.
A vida de Rodovalho mudou radicalmente quando matou por acidente, na fazenda dos pais,
o caseiro da fazenda. O adolescente Robson com 14 anos ficou desequilibrado
emocionantemente, com tiques nervoso e frustrado com os guias que não o ajudaram.
Decepcionado, um ano depois, converteu-se num acampamento realizado pela mocidade da
IPB. Seus pais logo se converteram.
Paralelamente à freqüência à IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil), Robson se filiou à MPC
(Mocidade Para Cristo), passando a evangelizar e formar clubes bíblicos nos colégios.
Tornou presidente estadual da MPC. Aos 17 anos recebeu o batismo do Espírito Santo num
acampamento da MPC. Meses depois iniciou sua própria igreja em Goiânia.
Em 1976 foi consagrado pastor e fundou a Comunidade Evangélica, cuja terminação Sara
Nossa Terra só foi adotada em 1992. Para diferenciá-la das demais. Em 1997, adotou
governo eclesiástico episcopal, ocasião em que Rodovalho foi consagrado bispo primaz.
Em 1996, a igreja tinha mais de 200 templos, sendo a maioria de seus membros são de
classe média. A arrecadação é centralizada. Não obriga seus pastores a cursarem teologia.
O próprio Rodovalho fez curso teológico por correspondência. Pastores e esposas são
consagrados ao ministério.
Desenvolve ação social. Dá ênfase a parte musical. Por causa de experiência de seu líder na
MPC fundou a organização “atletas de Cristo” de vários times de futebol.
CARACTERÍSTICAS DO MUNDO NEOPENTECOSTAL
A “guerra santa” contra o diabo
Esta sofre uma ênfase excessiva por parte dos neopentecostais. Devido à dificuldade de
explicar a presença do mal, do pecado e do sofrimento no mundo, os neopentecostais
apelam para a figura do diabo como responsável causador de tais males, entre outros. O mal
não pode vir de Deus, portanto a culpa é do diabo.
Mariano afirma que a banalização dos fenômenos sobrenaturais nas igrejas pentecostais
ocorre porque pastores e fiéis enxergam a ação divina e demoníaca nos acontecimentos
mais insignificantes do dia-a-dia. Para eles não há acaso. Existe um sentido para tudo e a
Bíblia contém todas as respostas de que necessitam. E eles não estão nem um pouco
dispostos a abrir mão do sentido que o personagem do diabo e de seu criador e oponente,
Deus, são capazes de conferir à precária e sofrida vida humana.
Com a demonologização das crenças, rituais, deuses e guias dos cultos afro-brasileiros e
espíritas, os pentecostais vieram travar o que a mídia brasileira denominou de “guerra
santa”. Foi um termo usado inadvertida e exageradamente em comparação (se é que se
pode comparar) à guerra religiosa, política, econômica e territorial travada entre árabes e
judeus, protestantes e católicos na Irlanda. Tal “guerra” desencadeou-se na década de 1980,
porque até então as vertentes pentecostais precedentes não atacavam esses adversários
direta, sistemática e até fisicamente, como o faz a Igreja Universal hoje. Do conflito velado
passou-se para o conflito aberto e hostil, do discurso polêmico-pacífico, para o discurso
polêmico-agressivo-físico. No entanto, devido a processos e inquéritos judiciais que sofreu,
a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) têm lançado mão de uma versão mais light e
menos visível desta “guerra”. Mas além da IURD, participam também desta exacerbação da
guerra contra o diabo igrejas do deuteropentecostalismo, como a Deus é Amor e a Casa da
Bênção. Todavia, a exacerbada pregação da guerra espiritual se distingue teologicamente,
ainda que em termos de ênfase, as igrejas neopentecostais do pentecostalismo clássico e,
em menor grau, do deuteropentecostalimo. Mariano relata discursos de R. R. Soares e de
Edir Macedo onde se vê que, para estes pregadores, a extensão da ação demoníaca é quase
ilimitada (p. 114).
Os neopentecostais crêem que o que acontece no “mundo material” decorre da guerra
travada entre as forças divina e demoníaca no “mundo espiritual”. E os seres humanos, para
eles, estão no meio deste campo de batalha – no “mundo material”, que é onde se trava esta
guerra – de um ou de outro lado. Por isso, pertencendo ao lado divino, acreditam ter poder e
autoridade, concedidos por Deus, para, em nome de Jesus, reverter as obras do mal. Os
representantes destas (agências satânicas) são, justamente, os adeptos do espiritismo e dos
cultos afro-brasileiros, cujo objetivo, segundo eles, é levar os seres humanos à perdição.
Na guerra contra o diabo há inimigos, soldados, batalhas, luta, munição, manobras,
impiedade, perigo, resistência, crimes, castigos, desafios, destruição, libertação, vitória e
derrota.
A concorrência inter-religiosa
Trata-se de uma disputa acirrada para cooptar adeptos e mantê-los num mundo onde impera
o pluralismo religioso. Em seu sectarismo, os pentecostais até há pouco eram reconhecidos,
e muitas vezes estigmatizados, pela veiculação de sua própria identidade, uma vez que a
conversão pentecostal implicava mudar de comportamento, de estilo de vida, de visão de
mundo e a participação preferencial da comunidade religiosa. Mas hoje isso mudou,
parcialmente, com a mobilidade social de parte da membresia e com a irrupção do
neopentecostalismo. No entanto, mesmo que tenham ficado menos sectários e menos
distintos, continuam intransigentes no plano religioso.
Essa intransigência discursiva vem da convicção e da certeza de serem portadores da
verdade divina, constituindo a forma de auto-afirmação e de defesa da identidade religiosa.
Até mesmo em outras igrejas pentecostais existem as exclusivistas que negam às outras,
para retirá-las do páreo e desqualificá-las, a posse dos bens da salvação. Sendo portadores
de identidades em conflito, disputam palmo a palmo o monopólio dos bens da salvação e da
definição dos símbolos sagrados.
Os pastores e os fiéis criticam tudo à sua volta a partir de sua interpretação bíblica. Elegem
o mundanismo e as outras religiões como alvos prediletos de ataque, ou seja, canalizam sua
agressividade para os de fora de seu grupo. Todo tipo de “concorrência” leva-os a se
aclamarem como detentores exclusivos da verdade e virtude bíblicas que conduzem à
salvação. Mas correm o risco de desencadear, senão a guerra santa, pelo menos uma
perversa maré de atos de intolerância explícita, quando impõem sua verdade ou quando se
dizem cumprir ordenas pretensamente divinas.
Objetos benzidos e correntes de oração
É interessante notar que os neopentecostais muito se assemelham aos adversários que mais
combatem. Mariano relata que Universal e Internacional da Graça distribuem aos fiéis
objetos ungidos dotados de poderes mágicos ou miraculosos, ato que mais uma vez as
aproxima de crenças e práticas dos cultos afro-brasileiros e do catolicismo popular.
Segundo Edir Macedo, o uso e a distribuição de objetos visa despertar a fé das pessoas e
constitui uma das técnicas de pregação empregadas por Jesus em sua passagem pela terra.
Depois de ungidos, os objetos são apresentados aos fiéis como dotados de poder para
resolver problemas específicos, em rituais diversificados e inventivos, tendo por referência
qualquer passagem ou personagem bíblicos. Dotados de funções e qualidades terapêuticas,
servem para curar doenças, libertar de vícios, fazer prosperar, resolver problemas de
emprego, afetivos e emocionais. Não apresentam caráter meramente simbólico como
alegam os pastores quando inquiridos pela imprensa e por outros interlocutores. Para os
fiéis, cujos poucos recursos são desembolsados em troca de bênçãos nas correntes de
oração das quais participam dias ou semanas ininterruptamente, tais objetos, pelos quais
esperam ter seus pedidos atendidos, contêm uma centelha do poder divino.
Não obstante os meios pentecostais tradicionalmente se oponham ao uso de objetos
sagrados (exceto a Bíblia) dotados de poder mágico e terapêutico para não sucumbirem à
idolatria, Universal e Internacional, mediante o pagamento de ofertas espirituais, distribuem
aos fiéis rosa, azeite do amor, perfume do amor, pó do amor, saquinho de sal, arruda, sal
grosso, aliança, lenço, frasquinhos de água do Rio Jordão e de óleo do Monte das Oliveiras,
nota abençoada (xerox de cédula benzida), areia da praia do Mar da Galiléia, água
fluidificada, cruz, chave, pente, sabonete. Tal como na umbanda e no catolicismo popular,
recomenda-se que eles sejam ora guardados na carteira, carregados no bolso e daí por
diante (MARIANO, pp. 133,134).
O discurso das igrejas Universal e Internacional da Graça é altamente repetitivo, lida com
os mesmos problemas, apresenta as mesmas soluções e faz o mesmo diagnóstico de suas
causas. Para tornar o culto mais atraente e menos enfadonho, algo precisa variar. O que
varia são as formas dos rituais, bem como o modo de participar deles e o sacrifício (a
quantia de dinheiro) exigido para o fiel habilitar-se a receber as bênçãos desejadas ou
propostas. Sua capacidade de diversificar o repertório simbólico parece inesgotável. Daí
encontramos corrente: de Jó, de Davi, do tapete vermelho, dos 12 apóstolos, do nome de
Jesus, da mesa branca, do amor, das 91 portas; campanha do cheque da abundância, vigília
da vitória sobre o diabo, semana da fé total. Estratégia para socializar e converter clientes e
novatos, as correntes ou campanhas exigem a presença do fiel numa seqüência de cultos
durante 7 ou 9 dias e até por 12 semanas consecutivas. A quebra da corrente, isto é, a
ausência do fiel em algum dos cultos em que se prontificou a comparecer, impede a
recepção da bênção esperada em razão da ruptura do elo que começara a se estabelecer
entre ele e Deus. Atribui-se a culpa pela quebra da corrente aos demônios.
Bibliografia
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Últimos dias,1963.
ITIOKA, Neuza. Os Deuses da Umbanda. São Paulo: ABU, 1988.
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ed. Rio de Janeiro: Ed. JUERP, 1985.
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MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São
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MARIANO, Ricardo. Neopentecostalismo: O Novo Modo de ser Pentecostal, in: Márcio
Fabri dos Anjos, Sob o Fogo do Espírito. São Paulo: Ed. Paulinas, 1998. pp. 19-37.
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MENDONÇA, Antônio Gouveia. Pentecostalismo e as Concepções Históricas de sua
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1998.
RODOVALHO, Robson. Quebrando as Maldições Hereditárias. Rio de Janeiro: Ed.
Koinonia.
SMITH Jr, Joseph, O livro de Mórmon: Outro testamento de Jesus Cristo. Paraguai: A
Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos dias, 1995.
VAN BAALEN, Jan Karel. O caos das seitas: Um estudo sobre os ismos modernos. 8a
impressão. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1989.
1 Leite Filho, Tácito Gama. Seitas Proféticas: Série seitas do nosso tempo. Vo. I. p. 10
2 Néopentecostais: p. 28,29
3 Walker, H. p. 2 . Apostila de um curso ministrado em um seminário para obreiros em
agosto de 1989, em Jundiaí, SP.
4 Gutiérrez, Benjamín F. (editor ), p. 30. Artigo de Carmelo E. Álvarez.
5 A Igreja do Evangelho Quadrangular tem esse nome, porque Aimee Semple McPherson,
fundadora, pregando no texto de Ezequiel 1.1-28, falando sobre o ser vivente de quatro
faces, teve a idéia de denominar a sua Igreja de Evangelho Quadrangular. Os quatro pontos
seriam: Salvação, Batismo no Espírito Santo com evidências de línguas; Cura Divina e a
Segunda Vinda de Cristo.
6 Gutiérrez, Benjamín ( editor ), p.91. A IURD, tem sua origem da Igreja Nova Vida, da
qual saiu Romildo Soares, Edir Macedo e Samuel da Fonseca, em 1975, fundando o Salão
da Fé ( Cruzada do Caminho Eterno ), deixada, um ano depois, pelos dois cunhados ( Edir
Macedo e Romildo Soares - R. Soares ) para o outro sócio. Macedo e Soares então
organizaram, no ano seguinte, junto com Roberto Augusto Lopes, a Igreja da Benção, numa
antiga funerária, no bairro carioca da Abolição. Em 1977, o nome do empreendimento foi
alterado para Igreja Universal do Reino de Deus ( IURD ). Em 1980, R. Soares saiu para
fundar seu próprio movimento, a Igreja Intrenacional da Graça de DEUS.
7 Que tenda solucionar todos os problemas materiais, de relacionamento humano, de
manipulação da vida complicada das cidades e problemas psicológicos.
8 Essas terapias se situam em uma fronteira ente a magia e a religião, incluindo atividades
de passar a Bíblia no local de enfermidade, colocar um copo d'água em cima do rádio ou
televisão quando estiver se fazendo oração, e depois beber desta água, apresentar
documentos ou roupas para serem ungidas com óleo.
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