Clique aqui para do arquivo

Propaganda
O HIV NO CONTEXTO ESCOLAR E EDUCACIONAL
Bruna Frogeri Fernandes ([email protected])
Camila Quintana Ribas ([email protected])
Ana Paula Cunha ([email protected])
Ana Paula Almeida de Pereira ([email protected])
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Introdução
O
HIV
(Vírus da Imunodeficiência Humana) é o vírus causador da Síndrome da
Imunodeficiência
Adquirida (AIDS), que recebeu esse nome por estar relacionada a um
grupo de sinais e sintomas que caracterizam a doença. Em crianças, a progressão do
HIV é, em geral, diferente dos adultos. Nelas, o desenvolvimento da doença é
comumente mais rápido, pois o cérebro em formação está mais propenso à disfunção e
lesões causadas pela infecção precoce, levando a um maior comprometimento do
Sistema Nervoso Central (SNC). Alterações funcionais e estruturais no cérebro,
decorrentes da infecção por HIV acarretam déficits cognitivos no âmbito da atenção,
memória, planejamento, linguagem e velocidade de processamento. Essas alterações
podem comprometer habilidades cognitivas, ocupacionais, psicológicas e sociais,
afetando, consequentemente, o desempenho acadêmico/escolar da criança com HIV.
Assim, no âmbito da escola apresenta-se uma problemática que extrapola questões
relacionadas às formas de transmissão do vírus, questões de saúde física, estigma e
preconceito. A fim de abordar essa questão, o presente estudo tem por objetivo analisar
se essa problemática é objeto de investigação na interface entre psicologia e educação
no âmbito do contexto escolar. Para tal, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, no
mês de março de 2011, nas bases de dados Scielo e BVS-lilacs com as seguintes
palavras combinadas: HIV, criança e educação; e, HIV, criança e escola. Tais palavras
foram buscadas em todos os índices. Na base de dados BVS-Lilacs foram encontrados
19 trabalhos (6 artigos, 9 monografias e 4 teses) na combinação “HIV, criança e
educação” e 11 trabalhos (8 artigos, 1 monografia, 1 dissertação e 1 tese) na
combinação “HIV, criança e escola”. Já no Scielo foram encontrados 5 artigos para a
2
combinação “HIV, criança e educação” e 5 artigos para a combinação “HIV, criança e
escola”. Somente os artigos (24) foram analisados. Esses, então, foram divididos em 3
categorias: aspectos psicossociais (13), assistência médica (10) e HIV e contexto escolar
(1). De modo geral, as temáticas abordadas na primeira categoria incluem: direitos
humanos, educação sexual e prevenção do HIV, auto percepção da criança soropositiva
e questões relativas ao contexto familiar. A segunda categoria reúne artigos sobre:
saúde, prática profissional, cuidado medicamentoso e coomorbidades da infecção. Já o
grupo “HIV e contexto escolar” incluiu artigos que estudaram basicamente o olhar do
professor sobre a criança com HIV com enfoque nas questões de estigma, preconceito e
discriminação no contexto escolar. A partir desse resultado discute-se que a questão dos
déficits cognitivos decorrentes da infecção pelo vírus não vem sendo abordada em
pesquisas sobre a criança com HIV no contexto escolar e educacional. Discute-se
também sobre a importância da produção de conhecimento referente a essa questão
visando práticas que propiciem um ambiente inclusivo e que respeite as diferenças dos
alunos. Conclui-se enfatizando a necessidade de pensar as implicações cognitivas
causadas pelo vírus para a aprendizagem escolar da criança assim como o
desenvolvimento de possibilidades metodológicas juntamente com o professor.
1. INTRODUÇÃO
HIV
(Vírus da Imunodeficiência Humana) é o vírus causador da Síndrome da
Imunodeficiência
Adquirida (AIDS), que recebeu esse nome por estar relacionada a um
O
grupo de sinais e sintomas que caracterizam a doença. De acordo com o Ministério da
Saúde 1 , essa síndrome trata-se de uma inabilidade do sistema de defesa do organismo
humano (causando a imunodeficiência) para se proteger contra microorganismos
invasores; não sendo congênita, como no caso de outras imunodeficiências, mas sim
causada por fator externo, a infecção pelo HIV.
Em crianças, a progressão do HIV é, em geral, diferente dos adultos. Nelas, o
desenvolvimento da doença é comumente mais rápido, pois o cérebro em formação está
mais propenso à disfunção e lesões causadas pela infecção precoce, levando a um maior
comprometimento do Sistema Nervoso Central (SNC) (Campelo et al., 2006).
1
de 2010.
http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISBF548766PTBRIE.htm, acessado em 12 de fevereiro
3
Os testes neuropsicológicos mostram-se como importantes para a avaliação
prognóstica da infecção por HIV no SNC, uma vez que a atividade viral nesse local
pode ser inferida a partir das manifestações neuropsicológicas encontradas. Além disso,
a avaliação prognóstica contribui para a melhor compreensão das dificuldades das
pessoas com HIV, podendo ser utilizada como dado importante na orientação ao
paciente e acompanhamento da doença pela equipe médica (Kalil et al., 2005).
Em 1996, com o advento da Terapia Anti-Retroviral Ativa (HAART), houve
uma notável melhora no estado de saúde dos pacientes infectados pelo HIV. Isso pois os
medicamentos contribuiram para a redução do nível de carga viral e para a recuperação
significativa do sistema imunológico ( Koekkoek, Sonneville, Wolfs, Licht & Geelen,
2008), reduzindo as infecções oportunistas e melhorando a qualidade de vida desses
pessoas (Woods et al., 2009). Com esses significativos benefícios, começou-se a
considerar o sujeito com HIV como alguém que possui uma doença crônica, mas não
necessariamente fatal, como anteriormente (Gorman, Foley, Ettenhofer, Hinkin & Van
Gorp, 2009). Além disso, o advento da HAART possibilitou elementos de estudo para a
neuropsicologia da infecção pelo HIV, visto que, pelo aumento da sobrevida oferecida
aos pacientes, pode vir a proporcionar um período mais longo para que o HIV lese o
SNC do indivíduo (Kalil et al., 2005). A neuropsicologia trás instrumentos que
possibilitam uma avaliação cognitiva mais aprofundada podendo-se com ela,
estabelecer déficits em funções cognitivas específicas mostrando assim um panorama
mais preciso do status cognitivo dos pacientes avaliados.
Alterações funcionais e estruturais no cérebro, decorrentes da infecção por HIV
acarretam déficits cognitivos no âmbito da atenção, memória, planejamento, linguagem
e velocidade de processamento (Reger, Welsh, Razani, Martin, Boone, 2002). Essas
alterações podem comprometer habilidades cognitivas, ocupacionais, psicológicas e
sociais, afetando, consequentemente, o desempenho acadêmico/escolar da criança com
HIV (Wachsler-Felder & Golden, 2002). Assim, no âmbito da escola apresenta-se uma
problemática que extrapola questões relacionadas às formas de transmissão do vírus,
questões de saúde física, estigma e preconceito. A fim de abordar essa questão, o
presente estudo tem por objetivo analisar se essa problemática é objeto de investigação
na interface entre psicologia e educação no âmbito do contexto escolar.
2. MÉTODO
4
Foi realizada uma pesquisa bibliográfica, no mês de março de 2011, nas bases de
dados Scielo e BVS-lilacs com as seguintes palavras combinadas: “HIV, criança e
educação”; e, “HIV, criança e escola”. Tais palavras foram buscadas em todos os
índices. Foram encontrados 40 trabalhos. Desses, foram selecionados apenas os artigos,
descartando monografias, dissertações e teses. A análise teve por objetivo averiguar
tanto os aspectos descritos na produção científica no que se refere à educação escolar e
o HIV, e se essa mesma produção tem levado em consideração os déficits cognitivos
causados pela infecção do vírus. Para tal, os artigos foram divididos em categorias e
subcategorias, em função das temáticas abordadas.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na base de dados BVS-Lilacs foram encontrados 19 trabalhos (6 artigos, 9
monografias e 4 teses) na combinação “HIV, criança e educação”, e 11 trabalhos (8
artigos, 1 monografia, 1 dissertação e 1 tese) na combinação “HIV, criança e escola”. Já
no Scielo foram encontrados 5 artigos para a combinação “HIV, criança e educação” e 5
artigos para a combinação “HIV, criança e escola”. Somente os artigos (24) foram
analisados. Esses, então, foram divididos em 3 categorias: aspectos psicossociais (13),
assistência médica (10) e HIV e contexto escolar (1).
3.1.1
ASPECTOS PSICOSSOCIAIS
Para uma melhor análise dos dados, os artigos desse grupo foram divididos em
outras quatro subcategorias que se relacionam com o tema intitulado “aspectos
psicossociais”: educação sexual; direitos humanos; contexto familiar e auto-percepção.
A primeira e a segunda subcategoria contaram, cada uma, com 2 artigos. Na segunda,
um deles (Crianças órfãs e vulneráveis pelo HIV: onde estamos e para onde vamos?) se
repetiu uma vez nas bases de dados BVS-Lilacs e Scielo na combinação de palavras
“HIV, criança e educação”. O terceiro subgrupo contemplou 3 artigos. Um deles
(Crianças e adolescentes vivendo com HIV/Aids e suas famílias: aspectos psicossociais
de enfrentamento) se repetiu uma vez em ambas as bases na combinação de palavras
5
“HIV, criança e escola”. Outro se repetiu três vezes: uma vez no Scielo para ambas as
combinações de palavras e uma vez no BVS-Lilacs na combinação “HIV, criança e
escola” (The knowledge and perceptions of HIV positive children and their parents or
responsibles about Aids). A quarta categoria contemplou um artigo.
3.1.2 Educação sexual
No que se refere aos artigos sobre educação sexual, um deles, de autoria de Saito
e Leal (2007), descreve a adolescência como uma fase da vida vinculada à
vulnerabilidade e risco. Alguns desses riscos levam a conseqüências, tais como a
gravidez precoce, e doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV. Assim, segundo
as autoras, é imprescindível que a assistência a essa faixa etária inclua a educação
sexual com enfoque na prevenção. De encontro com essa idéia, DeMaria, Galárraga,
Campero e Walker (2009), descrevem que a educação sexual nas escolas é uma das
estratégias recomendadas mundialmente para melhorar as condições de saúde sexual da
população e é também elemento fundamental para a prevenção do HIV. DeMaria et al.
(2009) ainda apontam que é indispensável que os conteúdos sejam revistos, visto que da
forma como está estruturado atualmente, podem acarretar aprendizagens parciais e
desintegradas. Os autores propõem, então, uma intervenção de educação integral para a
sexualidade, essa devendo “ir acompanhada de um entorno sociopolítico e cultural que
facilite a implementação de seus programas nas escolas” (DeMaria et al., 2009, p.491).
Uma legislação que legitime a educação escolar sobre a sexualidade e a capacitação de
docentes para a atuação como co-educadores da sexualidade das crianças e jovens
poderia contribuir nesse processo, tal como ressaltam DeMaria et al. (2009).
Apesar do tema referente aos direitos humanos não ser o assunto relevante nos
artigos categorizados como “educação sexual”, pode-se dizer que esse tema é
indiretamente abordado nos dois artigos citados, uma vez que os autores afirmam que o
adolescente tem direito à educação sexual. “Porém, a Constituição Federal e o Estatuto
da Criança e do Adolescente não abordam expressamente os direitos sexuais e
reprodutivos dos jovens, merecendo revisão legislativa ou interpretação satisfatória que
atenda aos objetivos traçados nos documentos internacionais” (Saito & Leal, 2007, p.
183).
3.1.3 Direitos Humanos
6
O objetivo do artigo de autoria de França-Junior, Doring e Stella (2006) foi
identificar a magnitude e a situação de alguns direitos humanos no que se refere às
crianças e adolescentes com HIV/Aids, conforme expressos na United Nations General
Assembly Special Session (UNGASS) on HIV/AIDS. Segundo os autores, a epidemia de
Aids impacta a qualidade de vida de crianças e jovens e, entre outros fatores, o estigma
e discriminação ocupam uma posição relevante nesse processo. Tais fatores interferem
no acesso ao tratamento, assim como também na vida afetiva, sexual, social e
educacional, aumentando isolamento do indivíduo e a vulnerabilidade à Aids, o que
constitui-se como violações de direitos humanos (França-Junior et al., 2006). “Orfãos
por Aids, particularmente portadores do HIV, convivem com várias restrições em seus
direitos, tais como: saúde, educação, alimentação, privacidade, sexualidade e
reprodução. Todas estas situações configuram-se como violações de direitos previstos
no artigo 92 do Estatuto da Criança e do Adolescente” (França-Junior et al., 2006, p.
23).
A única meta da UNGAS, exposta por França-Junior et al. (2006), que cita o
contexto escolar, é a seguinte:
Criar, até 2003, e pôr em prática, até 2005, políticas e estratégias nacionais para
criar e reforçar as capacidades governamentais, familiares e comunitárias de
proporcionar um ambiente de apoio aos órfãos e às moças e rapazes infectados pelo
HIV/Aids
ou
por
ele
afectados,
nomeadamente,
proporcionando
lhes
aconselhamento e apoio psicossocial adequados; garantindo a sua matrícula na
escola e acesso a habitação, boa alimentação e serviços sociais em pé de igualdade
com outras crianças (França-Junior et al., 2006, p.25).
Já no artigo de autoria de Vieira (1993), é proposta a discussão dos limites dos
direitos individuais das pessoas com HIV (privacidade, o sigilo, convívio social) frente
ao direito da coletividade (direito à informaçäo dos cônjuges, conhecer amplamente a
extensão da epidemia, inclusive com identificação dos indivíduos infectados ou doentes,
para sua melhor proteção).
3.1.4
Contexto familiar
7
Os três artigos dessa subdivisão abordam aspectos referentes ao cotidiano do
cuidador ou familiar da criança com HIV e suas percepções. De acordo com
Drummond, Pinto, Mesquita e Schall (2008), a forma como as crianças se adaptam à
doença depende de sua compreensão e relação com os outros. Nesse processo, a
percepção dos cuidadores é relevante, uma vez que sentimentos (culpa, medo,
frustração, proteção e indulgência, por exemplo) podem afetar a maneira de a criança
lidar com o tratamento.
Um assunto abordado por Gomes e Cabral (2010), autores que buscaram
desvelar o cotidiano de cuidadores de crianças em terapia antiretroviral, foi a influencia
do tratamento medicamentoso no cotidiano social da criança e seus cuidadores. Sobre
isso, eles descrevem que os antiretrovirais passam a ser vistos como um signo social
identificador do HIV/AIDS, expondo a condição da soropositividade. Como
conseqüência, a criança e a família passam a conviver com os desafios dessa realidade,
passando a enfrentar estigmas e preconceitos estabelecidos pela sociedade, inclusive no
âmbito da escola. Na maioria dos casos, no entanto, o medo do preconceito tem levado
os cuidadores a optar pelo segredo sobre o diagnóstico na escola (Seidl, Rossi, Viana,
Meneses & Meireles, 2005; Gomes & Cabral, 2010). Além disso, Gomes e Cabral
(2010) relatam também que o ocultamento e silenciamento não se apresentam somente
como parte do cotidiano desses familiares em suas relações com a sociedade, mas
também com a própria criança.
3.1.5
Auto-percepção
O único artigo dessa subcategoria, de autoria de Paula, Cabral e Souza (2009)
objetivou estudar o cotidiano do ser adolescendo com HIV no cuidado de si, abordando
suas percepções sobre a doença e si mesmo. Os autores descrevem, com base no
discurso dos adolescentes entrevistados, que a escola é percebida como importante na
transição da infância para a adolescência. Além disso, é possível perceber que alguns
entrevistados também a percebem enquanto ambiente de estigma e preconceito.
3.2 ASSISTÊNCIA MÉDICA
Para melhor análise desta categoria, os artigos que a compõem foram subdivididos em três subcategorias que se relacionam: profissionais da saúde, cuidado
medicamentoso e comorbidades. A primeira reúne três artigos, sendo que um deles
8
(Avaliaçäo da assistência médica prestada no ambulatório da Liga de Combate às
DST/AIDS - Centro de Saúde) se repetiu em ambas as combinações de palavras na base
de dados BVS-Lilacs. A segunda subcategoria engloba dois artigos e a última, por sua
vez, está representada por quatro artigos.
3.2.1
Profissionais de saúde
Como afirmam Ramos et al. (1999) e Sowole, Orenuga e Naido (2009),
profissionais da saúde que prestam assistência a pessoas com HIV, devem estar
inseridos em uma equipe multidisciplinar, devendo oferecer aos pacientes um
atendimento humanizado e de qualidade, baseado-se na atenção integral do paciente e
de sua família. Esses profissionais têm, por obrigatoriedade, que saber a forma de
transmissão do HIV, os fatores de riscos que aumentam a probabilidade da transmissão,
como é o diagnóstico e as manifestações clínicas após a infecção. A formação dessa
rede de serviço tem, portanto, por objetivo oferecer uma melhor assistência aos
pacientes e as suas famílias. Nesse âmbito, é fundamental o acesso ao tratamento
preventivo (Lebensztajn, et al. , 1997), uma vez que apesar do vírus HIV ser o causador
da AIDS, há uma probabilidade, por meio do tratamento, dessa síndrome não se
manifestar (período de latência do vírus).
3.2.2
Cuidado medicamentoso
No que se refere ao tema cuidado medicamentoso, Gomes e Cabral (2009)
afirmam que é papel dos profissionais da saúde passar as informações necessárias em
uma linguagem clara e tirar as dúvidas do cuidador da criança com HIV, estabelecendo
com ele uma aliança de confiança. Segundo os autores, quando isso não acontece gerase um ciclo constante de não-ditos que influi diretamente na adesão ao tratamento e em
demais âmbitos da vida da criança. Além disso, eles descrevem que o horário do
remédio é de início facilmente esquecido, pois é algo alheio ao dia-a-dia da família.
Porém, com o passar do tempo ocorre a incorporação do tratamento e os esquecimentos
passam a ser raros. Nessa fase, pode-se dizer que as famílias tornam-se ativas e
participativas na implementação desses cuidados. Assim, como afirmam Gomes e
Cabral (2009), o núcleo familiar é responsável pela adesão e o desenvolvimento do
tratamento.
9
Além da atitude familiar frente ao tratamento medicamentoso, Feitosa, Lima,
Caetano, Andrade e Beserra (2008), descrevem que há demais fatores que interferem na
adesão ao tratamento, como: os efeitos colaterais do medicamento; o gosto do remédio;
a dificuldade de acesso regular ao serviço de saúde; e, principalmente, os problemas
financeiros das famílias. Aqui, percebe-se a “importância de conhecer o contexto social
que a criança está inserida e as dificuldades no uso dos anti-retrovirais para intervir de
forma eficiente e possibilitar uma melhor qualidade de vida às crianças” (Feitosa et. al.,
2008, p. 515).
O êxito do tratamento depende da sua correta compreensão por parte da família,
pois a não-adesão é uma das responsáveis pela piora do quadro clínico. A adesão ao
tratamento requer da pessoa mudanças no seu estilo de vida. É necessário, portanto, que
os profissionais envolvidos tentem compreender o contexto social no qual a criança está
inserida, explorando a capacidade dos cuidadores apesar das adversidades e problemas
cotidianos, criando estratégias para incentivar o desenvolvimento adequado do
tratamento.
3.2.3
Comorbidades
Pessoas infectadas pelo HIV estão mais susceptíveis a algumas comorbidades,
como, por exemplo: falência progressiva das funções fisiológicas, má absorção de
carboidratos e proteínas, perda de peso relacionada à desnutrição, infecções/inflamações
em órgãos como pulmão (turbeculose, bronquios, pneumonia), boca, olhos (retinite),
pele, intestino, entre outros (Dimantas, Finamor, Ewert, Nakanami & Muccioli, 2004;
Leite, Succi, Patrício & Fagundes-Neto, 2006; Muniz, Yamamura & Villa, 2002; Paes,
Rodriques Neto & Salaes Filho, 2006).
No período em que foi introduzida a HAART, houve um declínio significativo
dessas infecções, porém quando há uma falência às drogas utilizadas no HAART, isto é,
o aparecimento de resistências aos antivirais, ocorre uma dificuldade no tratamento das
doenças secundárias. Essas evidências caracterizam a importância de um diagnóstico
preventivo, pois o tratamento “dos pacientes infectados tem se tornando complexo, não
somente pelas inúmeras possibilidades de escolhas das drogas, como também pela
emergente resistência a elas e pelo crescimento dos efeitos colaterais induzidos pelo uso
crônico dos agentes antiretrovirais” (Dimantas et al., 2004, p. 323).
10
3.3 HIV E CONTEXTO ESCOLAR
Essa categoria não contou com subdivisões devido ao reduzido número de
artigos encontrados que se referem explicitamente a sua temática, ou seja, o HIV e o
contexto escolar. Rubini (1994), autora do único artigo sobre o assunto, descreve a
necessidade de melhor informar e educar os professores, pais e alunos para prevenir
atitudes preconceituosas e discriminatórias para com as crianças com HIV, a fim de
proporcionar a elas uma melhor qualidade de vida.
4
CONCLUSÃO
A única meta da UNGAS que envolve o contexto escolar, descrita por FrançaJunior et al. (2006) e já apresentada na análise dos resultados acima, cita a necessidade
de implantar, até 2005, políticas e estratégias nacionais que garantam a matrícula das
crianças com HIV na escola. Essa estratégia é apontada como possibilidade de pôr as
crianças com HIV “em pé de igualdade com outras crianças” (França-Junior et al.,
2006, p.25). Contudo, questionamos se a garantia de acesso à escola é o suficiente, ou
se pode ser vista somente como um primeiro passo no processo de educação escolar.
Pois, se a infecção por HIV pode acarretar déficits cognitivos no âmbito da atenção,
memória, planejamento, linguagem e velocidade de processamento, não se pode tomar o
acesso à escola como fator que garanta a aprendizagem dos conteúdos escolares pela
criança com HIV.
Assim, percebe-se que a questão dos déficits cognitivos decorrentes da infecção
pelo vírus não tem sido abordada em pesquisas sobre a criança com HIV no contexto
escolar e educacional. Dessa forma, a produção de conhecimento referente a essa
questão deve ter em vistas a construção de práticas que propiciem um ambiente
inclusivo e que respeite as diferenças dos alunos. A necessidade de pensar as
implicações cognitivas causadas pelo vírus para a aprendizagem escolar e a inclusão da
criança com HIV, assim como o desenvolvimento de possibilidades metodológicas
juntamente com o professor, para além do acesso da criança à escola, devem também ter
seu merecido foco com vistas a propiciar uma melhor qualidade de aprendizagem.
11
5
REFERÊNCIAS
Capelo, A. V., Sá, C. A. M., Rubini, N. P., Kalil, R. S. & Miranda, E. (2006) Impacto
da Neuro- AIDS na Infância. J Brás Doenças Sex Transm, 18 (4) 259-262.
DeMaria, L. M., Galárraga, O., Campero, L. & Walker, D. M. (2009) Educación sobre
sexualidad y prevención del VIH: un diagnóstico para América Latina y el Caribe.
Revista Panam Salud Publica, 26(6), 485-496.
Dimantas, M. A., Finamor, L. P., Ewert, V., Nakanami, C., & Muccioli, C. (2004).
Retinite por citomegalovírus em pacientes pediátricos infectados pelo vírus da
imudeficiência humana em tratamento com “Highly active antiretrovirus therapy”.
Revista Assoc Mad Bras, 50(3), 320-323.
Drummond, I., Pinto, J. A., Mesquita, J. D. & Schall, V. T. (2008). The knowledge and
perceptions of hiv positive children and their parents or responsibles about aids.
Psicologia em Estudo, 13 (4) 827-835.
Feitosa, A.C., Lima, H. J. A., Caetano, J. A., Andrade, L. M., & Beserra, E. P. (2008).
Terapia anti-retroviral: fatores que interferem na adesão de crianças com HIV/AIDS.
Revista Enfermagem, 12(3), 515-521.
França-Junior, I., Doring, M. & Stella, I. M. (2006). Crianças órfãs e vulneráveis
pelo HIV no Brasil: onde estamos e para onde vamos? Revista Saúde Pública, 40, 2330.
Gomes, A. M. T., & Cabral, I. E. (2009). Entre dose e volume: o princípio da
matemática no cuidado medicamentose à criança HIV positiva. Revista Brasileira
Enfermagem, 17 (3), 332-337.
12
Gomes, A. M. T. & Cabral, I. E. (2010). Ocultamento e silenciamento: familiares no
cuidado à criança em terapia antiretroviral. Revista Brasileira de Enfermagem, 63 (5)
719-26.
Gorman, Foley, Ettenhofer, Hinkin & Van Gorp. (2009). Funcional Consequences of
HIV- Associeted Neuropsychological Imparient. Neuropsychol Rev, 19, 186- 203.
Kalil, R. S., Bauer, P. G. & Santoro, G. M. R., Espíndola-Pereira, I. A., Ferry, F. R. A.,
Motta, R. N., et al. (2005). Infecção do HIV no cérebro: As Bases Biológicas da
Neuropsicologia. J. BRAS. Doenças Transm 17 (1) 71-75.
Koekkoek, S., Sonneville, L. M. J., Wolfs, T. F. W., Licht, R., & Geelen, S. P.M.
(2008). Neurocognitive function profile in HIV-infected school-age children. European
Journal of Paediatric Neurology, 12, 290- 297.
Lebensztajn, B., Frajman, M., Shadid, M., Kosin, M.D., Shitcovsky, M., Machado, A.
M. O., & Brito, J. J. (1987). Prevalência de anticuerpos anti-hiv en “ninos de calle” – en
Sao Paulo, Brasil. Rev. Cost. Cienc. Med, 8(1), 11-13.
Leite, C. A. C., Succi, R. C. M., Patrício, F. R. S., & Fagundes-Neto, U. (2006).
Aspectos Funcionais, Microbiológicos e Morfológicos intestinais em crianças infectadas
pelo Vírus da imunodeficiência humana. Arq Gastroenterol, 43(4), 310-315.
Muniz, J.N., Yamamura, M., & Villa, T.C. (1995). Aspectos Epidemiológicos da coinfecção tuberculose – HIV em Riberão Preto – SP. Medicina (Ribeirão Preto), 28 (4)
856-65
Paes, A. L. V., Rodrigues Neto, F. J., & Sales Filho, J. R. T. (2006). Tuberculose
Ganglionar Periférica – aspectos clínico – epidemiológicos. Revista Paranaense de
Medicina, 20(3), 33-37.
Paula, C. C., Cabral, I. E. & Souza, Í, E. (2009). Cotidiano do ser-adolescendo com
AIDS: movimento existencial. Revista Enfermagem, 13 (3) 632-39.
13
Ramos, D. M., Turco, F.P., Moraes, D.A., Cavalli, R.C., Xavier, N.F. & Forster, A.C.
(1999). Avaliação da assistencia médica prestada no ambulatório da liga de combate às
DST/AIDS – centro de saúde, S.P., 1994-1997. Descrições Técnicas de métodos, 32,
326-334.
Reger, M., Welsh, R., Razani, J., Martin, J. D., & Boone, K. B. A meta-analysis of the
neuropsychological sequelae of HIV infection. (2002). Journal of international
neuropsychological society, 8, 410-424.
Rubini, N. (1994). A escola e a criança portadora do vírus da AIDS; mesa-redonda.
Revista brasileira de saúde escolar, 3(4) 200-1.
Saito, M. I. & Leal, M. M. (2007). Adolescência e contracepção de emergência: Fórum
2005. Revista Paul Pediatria, 25(2), 180-6.
Seidl, E. M. F., Rossi, W. S., Viana, K. F., Meneses, A. K. F. & Meireles, E. (2005).
Crianças e Adolescentes Vivendo com HIV/Aids e suas Famílias: Aspectos
psicossociais e Enfrentamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 21( 3) 279-288.
Sowole, C. A., Orenuga, O. O., & Naidoo, S. (2009). Access to oral Health Care and
treatment needs of HIV positive paediatric patients. Pesquisa Brasileira Odontoped
Clin Integr, 9(2), 141-146.
Vieira, N. F. R. (1993). Tópicos relacionados com a infecção pelo HIV na gestação e
infância. Bioética, 1 (1), 55-9.
Wachsler-felder, J. L. & Golden, C. J. (2002). Neuropsychological consequences of
HIV in children – A review of current literature. Clinical Psychology Review, 22
(3)441-462.
Woods, S. P., Conover, E.; Rippeth, J. D.; Carey, C. L.; Gonzales, R.; Marcotte, T. D.;
et al. (2004) Qualitative aspects of verbal fluency of HIV-associated dementia: a deficit
in rule-guided lexical-semantic search process? Neuropsychologia, 42, 801-809.
Download