Entrevista sobre a realidade da Genética com doutor Salmo Raskin

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Entrevista sobre a realidade da Genética com doutor Salmo Raskin
É especialista em Genética Clínica pela Sociedade Brasileira de Genética Clínica e em Genética Médica Molecular (DNA) pela Universidade de Vanderbilt, no Tennessee, EUA. É doutor em Genética pelo Departamento de Genética da UFPR, membro titular da Sociedade Brasileira de Genética Clínica, professor adjunto de Genética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) e da Faculdade Evangélica do Paraná e médico geneticista dos Hospitais Evangélico, Nossa Senhora das Graças e Pequeno Príncipe, em Curitiba.
Um dos maiores médicos especialistas em genética do Brasil, Salmo Raskin fala ao portal sobre os avanços mais significativos da medicina genética e separa ficção e realidade, alertando para os riscos do mau uso dessas técnicas.
Um misto de fascínio e receio ainda permeia a imaginação das pessoas quando elas ouvem falar das conquistas que a genética tem feito tão rapidamente e em pouco tão tempo. Em 1996, com o nascimento da ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado da história, a humanidade começou a perceber, de maneira concreta, o que essa tecnologia, até então algo que parecia distante ou apenas um assunto para ficção científica, tinha a oferecer ao mundo. E, em 2003, com a morte prematura de Dolly e o anúncio da criação não confirmada de clones humanos mundo afora, um lado mais preocupante da história foi mostrado.
Mas, para o curitibano Salmo Raskin, 39, histórias como essas fazem parte do dia­a­dia. Doutor em genética, Raskin é diretor de uma clínica especializada em aconselhamento genético, ou seja, que ajuda as pessoas a descobrir e prevenir doenças que até pouco tempo atrás não recebiam sequer um diagnóstico. “Há dez anos, era impossível fazer o diagnóstico de doenças gênicas, só se conseguia diagnosticar doenças cromossômicas. Agora, podemos até mesmo saber de antemão se a pessoa tem predisposição genética para determinada doença”, diz o médico.
Autor de 30 artigos publicados no exterior, em revistas científicas de medicina, Raskin é um dos 10 brasileiros que fazem parte do HUGO (Human Genome Organization), órgão internacional que organiza o Projeto Genoma Humano, que decifrou o código genético. Ele falou ao portal sobre as reais possibilidades da genética atualmente, suas contribuições para a medicina e os riscos que ela oferece para a sociedade se for usada de maneira incorreta.
Quais são as contribuições que a genética e a biotecnologia podem dar à sociedade e como você vê o futuro dessas áreas?
Se você fizer a mesma pergunta para um veterinário ou para um bioquímico, provavelmente eles responderão diferentemente, mas, do ponto de vista da medicina, o conhecimento de diversos genes, por meio do projeto Genoma Humano, e das alterações desses genes e das doenças que são causadas por essas alterações nos ensina muitas coisas.
Primeiro, isso nos permitiu fazer o diagnóstico de doenças genéticas, algumas das quais nem imaginávamos ser possível. Até dez anos atrás, era impossível diagnosticar doenças gênicas; só se conseguia fazer isso com doenças cromossômicas. Agora, podemos ter a confirmação de doenças de que antes podíamos apenas suspeitar e até mesmo descobrir se o paciente tem predisposição genética para determinada doença. Um exemplo é o câncer de mama, em que 10% dos casos são hereditários. A pessoa nasce com uma mutação em determinado gene, o que faz com que ela tenha uma chance enorme de ter essa doença. Hoje, já é possível fazer um teste em mulheres de famílias em que esse tipo de câncer é comum e dizer se elas têm ou não predisposição para desenvolvê­lo, mesmo que elas sejam totalmente saudáveis. E isso é uma vantagem, pois, assim, pode­se prevenir e aconselhar precocemente. No caso do câncer de mama, quando ele é descoberto cedo, é quase 100% curável. Mas, ainda hoje, por meio dos exames normais, ele freqüentemente é diagnosticado muito tarde, quando já é considerado gravíssimo.
Uma paciente veio aqui recentemente, mesmo sendo totalmente saudável. Ela estava preocupada, pois tem um histórico de câncer de mama na família, e queria fazer o teste para saber se tem predisposição para essa doença. Sabendo disso, a paciente pode fazer mamografias ou apalpações mais freqüentes. Nos EUA, algumas mulheres estão optando até por fazer uma masectomia (retirada das glândulas mamárias) radical. Isso pode parecer absurdo, mas, se você tem três pessoas na família que morreram desse câncer e possui predisposição a desenvolvê­lo, não é tão absurdo assim.
Outra área que está abrindo­se em função do projeto Genoma é a farmacogenômica, especializada em fazer medicamentos para pessoas para as quais determinados remédios não fazem efeito por causa da carga genética delas. Volto novamente ao exemplo do câncer de mama. Hoje, existe um medicamento para tratar a doença em estado avançado, já em metástase. Para metade das mulheres, ele funciona tanto quanto tomar água, pois é totalmente ineficaz. Já a outra metade tem uma resposta excelente. Há alguns anos, não se sabia o porquê dessa diferença. Por meio da farmacogenômica, descobriu­se que, quando a pessoa tem uma mutação em determinado gene, o remédio é ótimo, mas, quando o câncer ainda não fez com que aquele gene sofresse mutação, ele não funciona. Então, faz­se um teste antes para saber se o medicamento será eficiente ou não. No futuro, poderemos fazer medicamentos personalizados, que reduzam até mesmo os efeitos colaterais e sejam mais eficazes.
Já na área do tratamento, existem as pesquisas com as células­tronco (que podem se especializar e regenerar tecidos) e a terapia gênica, que consiste no transplante de genes. A partir do momento em que se sabe que determinado gene é defeituoso, pode­se transplantar um número grande de genes corretos para o tecido doente e tentar prevenir a doença, uma vez que, atualmente, a maioria das doenças genéticas ainda não tem tratamento.
Com tudo isso, haverá uma revolução muito grande na medicina, pois ela vai se tornar muito mais profilática. Em nosso laboratório, já fazemos testes para aproximadamente 900 doenças genéticas diferentes.
Como funciona o aconselhamento genético?
É uma consulta a um médico geneticista feita por pessoas que buscam conselhos sobre anomalias genéticas, como, por exemplo, casais que pretendem ter um filho, já têm outro com problema genético (sendo o mais comum a síndrome de Down) e gostariam de saber os riscos de ter um bebê com doença ou síndrome genética. Muitas vezes, faz­se o exame quando a mulher já está grávida e, se o problema for detectado, trabalha­se com o que virá depois: se a gravidez será de risco ou se a criança terá algum problema, o que significa ter um bebê com determinada doença, e como se pode fazer o tratamento, se disponível.
Vale lembrar que o trabalho de aconselhamento genético não é diretivo, ou seja, em nenhum momento o médico vai dizer à mãe ou ao casal o que eles devem ou não fazer. Não se deve dar opiniões pessoais em momento algum. As pessoas sempre insistem para que eu opine, mas eu explico que cabe ao casal tomar as decisões depois de ter as informações sobre os riscos. O médico fala sobre as possibilidades de diagnóstico pré­natal, fertilização in vitro, diagnóstico genético ainda no embrião, etc, mas não dá um parecer pessoal.
Como é realizado o teste de paternidade?
O teste de paternidade só pode ser feito, segundo a lei brasileira, com o consentimento de todos os envolvidos. Em casos judiciais, o que ocorre é que, se o homem se nega a fazer o teste, o juiz determina que ele é o pai, o que acaba impelindo­o a realizar o exame para provar que não é.
Digo isso para esclarecer que o teste é feito por meio do sangue. Ele pode ser realizado através de um fio de cabelo ou pela saliva, mas apenas em caso de crime, em que o acusado não é obrigado a dar provas.
Para a realização do teste, tira­se sangue da mãe, da criança e do suposto pai. Do sangue são separados os leucócitos, e é comparado o DNA dos núcleos deles. Depois, as amostras de DNA vão para um banco de DNA e ficam guardadas caso se queira uma contraprova mais tarde.
Qual é a probabilidade de erro desse teste?
Usando­se o DNA para provar paternidade nunca ocorre erro. Mas, como o teste é feito por seres humanos, que são falíveis, eventualmente pode ocorrer erro por troca de amostra, contaminação do material, etc.
O teste de paternidade exclui com 100% de chances o homem que não é o pai. E quando não o faz, existe um cálculo probabilístico para se saber qual é a chance de esse indivíduo ser o pai ou se algum outro homem, por coincidência, tem as mesmas características genéticas nos pontos estudados. De qualquer maneira, essa probabilidade, por se tratar de um cálculo matemático, chega a uma dízima periódica de 99,99...%. Ou seja, na prática, o teste acaba sempre acertando.
Você acredita que é possível que venhamos a viver uma eugenia, ou seja, uma sociedade que sofra com discriminação genética?
Sim, nós corremos esse risco. E nem precisamos avançar 50 anos no futuro para isso. Primeiro, porque já aconteceu no passado, há 50 anos atrás [o médico se refere ao holocausto nazista]. É claro que, com a tecnologia atual, esses riscos ficam cada vez mais palpáveis e concretos. Exemplo: ao se fazer um teste genético num embrião, é possível saber se ele carrega o cromossomo Y ou não. Ou seja, pode­se saber se o bebê será do sexo masculino ou feminino. Então, é possível fazer uma seleção e implantar somente embriões do sexo masculino, por exemplo.
Estamos prestes também a descobrir genes ligados à esquizofrenia, à depressão, etc. Imagine se forem feitos testes para isso ainda no embrião. É bem possível que isso chegue ao eugenismo se não tomarmos cuidado. E a sociedade tem de estar preparada para impedir que isso aconteça. Atualmente, estamos preparados, mas é difícil que as leis consigam acompanhar a velocidade da tecnologia. Além das leis, os cientistas se norteiam pela bioética, que as complementa no sentido de acompanhar esses avanços.
E, ainda nesse campo, deparamos com a questão da privacidade genética, que é muito discutida, pois lida com questões éticas. Por exemplo: debate­se se é justo uma companhia de plano de saúde ou de seguro de vida ter acesso a testes para saber se algum conveniado tem predisposição a alguma doença. Mas, por outro lado, questiona­se se é justo a pessoa saber que tem o problema e esconder isso da empresa. Acredito que essa é uma área muito complicada ainda.
Até onde a modificação genética pode realmente ir para criar uma casta superior de humanos?
Hoje isso não passa de ficção. E, nos próximos cem anos, continuará sendo. Mas certamente algum dia será possível. O que não quer dizer que discussões nesse sentido não sejam válidas. Quanto mais se discutir, mais a sociedade estará preparada para lidar com isso quando for realidade.
Qual é sua opinião sobre a clonagem humana?
Minha opinião sobre o tema é bem clara. Divido a clonagem em clonagem terapêutica — na qual se pega uma célula e a transforma em várias células para formar um tecido que esteja comprometido —, da qual sou a favor, e em clonagem reprodutiva — em que se faz um ser humano de uma célula única —, da qual sou contra.
A terapêutica nos traz muitos benefícios, enquanto não consigo ver nenhum na reprodutiva, mas muitos problemas éticos, religiosos e até mesmo técnicos. Basta ver as dificuldades que foram enfrentadas para se criar a Dolly. Para um ser humano, então, elas são muito maiores.
No caso da clonagem de animais, como dos extintos, por exemplo, acredito em seus benefícios, portanto, sou a favor.
Você acredita que os raelianos, que alegam já terem desenvolvido bebês por meio da clonagem, tenham conseguido isso?
Neles eu não acredito, mas acho que é só uma questão de tempo para que apareça um clone humano.
Qual é o limite ético entre os benefícios da genética e a manipulação genética?
O limite é claro, mas tênue. Quando se começa a manipular traços genéticos que não são ligados a doenças, como sexo, cor dos olhos, etc., esse limite é ultrapassado e abrem­se precedentes perigosos. Enquanto se falar em aliviar sofrimento, sempre considerarei éticas as pesquisas nesse sentido e serei a favor delas. No entanto, quando se falar em ser mais alto ou mais baixo, mais inteligente ou menos inteligente, então, na minha opinião, o limite foi ultrapassado.
Como disse, o limite é tênue. Existem doenças, por exemplo, que são ligadas ao sexo da pessoa. Assim, se um casal tem três filhos hemofílicos (doença ligada ao sexo masculino), quer ter outro e não quer correr o risco de ele ser hemofílico, é justificável a seleção do embrião feminino. Não é o caso de se ter um homem ou uma mulher. É o caso de se ter um filho saudável ou não saudável.
Como é a legislação brasileira no campo da biotecnologia?
Em relação à clonagem, ela está bem avançada. Foi feita uma legislação bastante conservadora, que proíbe qualquer manipulação de células germinativas, até mesmo a clonagem terapêutica a partir de embriões. Mas acredito que, nesse momento, isso é bom, pois detém malucos como o Rael [o líder da seita dos raelianos], que esteve no Brasil há algumas semanas e queria montar aqui laboratórios para pesquisas genéticas.
Já na área de testes genéticos, a legislação brasileira fala, apenas indiretamente, sobre preservar a autonomia e a privacidade do indivíduo. Nenhum texto da lei brasileira diz se fazer testes para seguradoras ou empresas de planos de saúde é legal. Então, os médicos têm se baseado na bioética para suas práticas.
Como são as leis sobre patentes genéticas?
É outro caso bem interessante. O Brasil não reconhece nenhuma questão genética. Por exemplo: novamente o câncer de mama. Existem dois genes relacionados aos 10% dos casos hereditários. Assim, é possível fazer um teste para detectar a presença deles. Só que a empresa que desenvolveu o teste, lá nos EUA, patenteou o gene do câncer de mama. Dessa forma, no mundo todo, quem quiser fazer o teste terá de realizá­lo com eles. Para se ter uma idéia, o teste custa US$ 2.800,00. Mas, pela lei brasileira, se eu quisesse investir nisso e desenvolver o teste aqui, eu poderia.
Eu acredito que o mais correto seria que existissem patentes apenas para o método para conhecimento de um gene, mas não para o gene em si. Com isso, outras pessoas poderiam desenvolver um método diferente para descobrir esse gene, sem criar monopólios.
Para que essa empresa nos EUA tenha desenvolvido o método, foram necessários muitos anos de ciência básica e de inúmeras descobertas, e ele acaba patenteando um conhecimento que vem de muito antes.
Outro exemplo é o da Ilha de Tristão da Cunha, na África. Foi descoberto que metade da população da ilha tem asma e, em se tratando de uma ilha, é um bom lugar para estudar o gene da asma. Sabendo disso, uma empresa farmacêutica do Canadá contratou um grupo de pesquisadores para irem para lá. Eles descobriram três genes que supostamente estão relacionados com a asma. Mas uma cláusula do contrato deles impede que publiquem qualquer estudo sobre isso até que a empresa desenvolva um medicamento baseado na descoberta. Como isso ainda não ocorreu, os cientistas não sabem quais são e o que fazem os genes da asma; e, enquanto isso, milhares de pessoas morrem por causa da doença.
O que você acha dos alimentos geneticamente modificados?
Na verdade, já mudei muito minha opinião sobre o assunto. Acredito que, atualmente, o problema seja político e não científico. Nos países onde os alimentos geneticamente modificados têm grande profusão, como EUA, Canadá e Argentina, não se tem notícia de que esses produtos fizeram mal à saúde de alguém. E já faz alguns anos que eles são comercializados. Acho que os governos disfarçam a discussão porque os transgênicos são produzidos por multinacionais, e isso esbarra numa questão de monopólios.
Referência:
http://www.aprendebrasil.com.br/entrevistas/entrevista0097.asp
Por Diogo Dreyer, com participação dos professores
Augusto Adolfo Borba e Luiz Carlos Prazeres (Lika).
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