Mentoria Espiritual - James Houston

Propaganda
Visualização do documento
Mentoria Espiritual - James Houston.doc
(87 KB) Baixar
MENTORIA ESPIRITUAL – James Houston
Â
Â
Â
Abordagem
James Houston passei ao longo da história da humanidade pelos campos da Antropologia, psicologia,
ciência em geral, sociologia e religião. Tenta ver como o homem ao longo do tempo procurou responder
às perguntas Quem sou eu? Qual a importância do outro? Como, por que e para que me relaciono?
Nos moldes gregos, o homem se via como uma figura heróica, auto-glorificada. Daà queria conhecer-se
a si mesmo – era individualista. Nos moldes estóicos, a razão suplanta e resolve tudo, anulando quase
completamente os sentimentos humanos – o homem pode mudar com disciplina pessoal.
No mundo contemporâneo, contudo, o individualismo se acirrou com a abordagem psicológica, onde o
homem paga por serviços de auto-conhecimento e auto-avaliação. Alguém o escuta, e o homem se
torna mais individualista que em qualquer momento da história.
James Houston analisa conclusivamente a re-definição do homem: a partir de Deus, criado e talhado
para a vida de relacionamentos. Avança demonstrando que só o discipulado cristão pode transformar
um indivÃduo em pessoa, onde suas perguntas são respondidas em Deus, através da vida de Cristo.
Ninguém conseguirá explicar-se e viver plenamente a menos que viva a vida conforme propõe o
discipulado cristão.
Â
Â
Â
Â
Â
// -- //
Â
Â
Â
Â
Durante toda a história do pensamento ocidental, a equiparação da pessoa com o indivÃduo pensante e consciente
de si mesmo levou a uma cultura em que o indivÃduo pensante se tornou o conceito mais elevado na Antropologia...
Apenas o amor, o amor livre, não cerceado por necessidades naturais, pode fazer surgir uma pessoa.
John D. Zizoulas
Â
Â
Â
Em seu ensaio “Sobre a Amizade―, um Montaigne cético declara: “O amigo, não há
amigo!― Ele atribui esse pensamento a Aristóteles, embora também se detenha bastante sobre as
reflexões de CÃcero a respeito da amizade. Jacques Derrida, o moderno “pai da
desconstrução―, faz dessa afirmação o tema de seu recente trabalho intitulado, na tradução
para o inglês, Politics of Friendship (PolÃtica da Amizade, 1997). Segundo CÃcero, a amizade só pode
existir entre homens bons. Mas, pergunta Derrida, quem é suficientemente bom para os ideais da
amizade? A amizade com Deus pode nos ajudar, argumenta Aristóteles, mas o problema é que Ele é
muito distante e inacessÃvel. A presença ou a proximidade são o requisito para a amizade. Além
disso, Deus não precisa de um amigo. Então, por que deveria o homem ser levado a crer que precisa de
um amigo, ou que a amizade é uma. caracterÃstica essencial do ser humano? Para Derrida, tudo não
passa de uma fórmula racional humana:
Â
Penso, portanto sou o outro; penso, portanto preciso do outro (para poder pensar); penso, portanto a possibilidade de
amizade faz parte do movimento de meu pensamento, na medida em que ele requer, pede e deseja o outro, a
necessidade do outro, a causa do outro no coração do cogit.
Â
Ele faz uma paródia de Descartes. Não consegue, no entanto, fugir inteiramente ao seu viés,
pois ignora a afirmação cristã de que o amor, e não a razão, é transcendente. Por isso, a
importância da declaração de Zizoulas. Só o amor pode produzir um ser que é pessoa.
A “desconstrução― é uma estratégia para se “desfazer―. A mente pode ser um
espelho, mas será que ela reflete sobre a realidade ou apenas sobre si mesma? O abuso da autoridade e o
uso do poder para reivindicar o conhecimento da verdade é algo que assusta os desconstrucionistas. Por
isso, questionam e desafiam não apenas os sacerdotes que alegam ter Deus ao seu lado, mas também
os filósofos que dizem conhecer a verdade. Levam a Psicanálise um passo adiante, ao questionamento
racional tanto da motivação quanto das intenções do terapeuta e mesmo de todos os profissionais.
Derrida é um iconoclasta de Ãdolos que, no entanto, não é capaz de perceber a diferença entre o
Ãdolo e o Ãcone. O resultado é que o desconstrucionismo, por carecer de uma dimensão pessoal, nos
deixa com uma indeterminação sobre verdade e realidade.
Mas, ainda assim, tem o mérito de aprofundar e ampliar O papel atribuÃdo à hermenêutica,
ou seja a comunicação humana; ela passa a ser mais do que a mera interpretação de textos. A
linguagem é uma parte importante da vida do ser humano, repleta de motivações mistas e de
necessidades no âmbito social. A comunicação envolve muito mais do que o aspecto racional, embora
este seja importante. Para além do racional, todos os grandes pensadores cristãos viram o amor de
Deus. Em contraposição, nem mesmo os desconstrucionistas conseguem enxergar, além da razão,
qualquer coisa que não seja a anarquia. De fato, sem o amor de Deus, somos incapazes de ir além das
categorias dos anti-modelos de mentoria que descrevemos.
Â
Â
A BUSCA DO LADO PESSOAL NO OCIDENTE
Kierkegaard já nos ajudou a perceber que, como seres humanos, cada um de nós tem um relacionamento
de si mesmo, consigo mesmo e dentro de si mesmo. Tornamo-nos dois, um sujeito e um objeto, necessitados
de auto-reconhecimento, auto-afirmação e também auto-conhecimento. Contudo, nessa forma de
auto-realização, aprendo a ver a mim mesmo como dependente do outro, de realidades externas que
não posso controlar.
Â
A Visão Estética ou Heróica da “Pessoa―
Essa visão, representada nos modelos estético e heróico, está presente quando a criança aprende a
se expressar e diz “olhem para mim―! Para os gregos, a “pessoa― é a dramatis personae do
palco. Um ator põe uma máscara, que permite a passagem do som de sua voz (literalmente per sonare),
e desempenha seus vários papéis. Seu lugar na narrativa decorre das escolhas que o colocam num papel
dramático diante dos outros. A palavra grega prosopon provavelmente tem sua origem na palavra etrusca
persu, que pode estar relacionada com Perséfone, a deusa do mundo dos mortos. Então essa noção
de “pessoa― tem, inevitavelmente, uma conotação um tanto obscura! No ordenamento grego do
cosmos, caracterizado pela harmonia de elementos universais, não pode haver espaço para elementos
particulares, como, por exemplo, um ser humano único e especial. Ao reivindicar a liberdade no âmbito
dessa esfera de elementos universais abstratos e necessidade racional, o ser humano gera muitas
tragédias, pois tudo terá de permanecer impessoal.
Ulisses certamente tem uma “personalidade― tão vigorosa quanto a de qualquer herói
grego! Ele luta com os deuses e estes, por vezes, chegam a respeitar sua forte determinação. O mundo
de Homero é habitado por “personalidades―. Penélope chora a ausência de seu marido:
Como sinto falta de meu marido - sempre vivo em minhas lembranças, Aquele grande homem cuja fama ecoa por
toda Hélade, até as profundezas de Argos!
Â
Essa natureza auto-realizadora, individualista, está muito presente nos textos gregos. É retratada com
todas as cores tanto por trágicos como EurÃpedes ou Sófocles quanto por filósofos como Platão ou
Aristóteles. Que personalidade poderia ser maior do que Sócrates! Mas, em última análise, a
individualidade de um ser humano não pode ser encaixada na “dependência do outro―, na
universalidade do cosmos, naquela harmonia última do “todo― em um 8 Quando Sócrates ensina
“conhece-te a ti mesmo―, ele está simplesmente lembrando seus discÃpulos de que devem situarse e inserir-se com humildade no esquema geral das coisas. É loucura pensar ou fazer algo diferente
disso! De lá para cá, nenhum sistema intelectual foi capaz de reconhecer a mim e a você, em toda a
nossa singularidade, dentro do esquema geral das coisas “lá fora―? É por isso que toda essa
corrente de auto-análise individualista, agora tão intensificado pela “revolução terapêutica―,
seria inconcebÃvel no contexto do entendimento grego da personalidade.
Â
A Visão Estóica da “Pessoa―
O segundo estágio do “ser pessoa― ocorre quando a auto-expressão se toma mais racional e mais
receptiva às formas externas de vida moral, como ocorre com uma criança “na escola―. Os
estóicos, como habitavam um universo racional, criaram uma teoria para o conceito de “ser pessoa―.
Argumentavam que somos dotados de razão para sermos morais, e que podemos determinar o que é
virtuoso e consistente com o ordenamento moral universal de nossa existência. Essa é a teoria de CÃcero sobre “pessoas―: prevê sanções legais para obrigar os cidadãos do mundo romano a
obedecerem as “leis universais da natureza―. Suas idéias baseiam-se no pensamento de Panécio,
um estóico que o antecedeu. A “personalidade― individual só é definÃvel e admissÃvel dentro
da estrutura universal do direito romano.’0 Portanto, no inÃcio, até mulheres e crianças, além
dos escravos, eram definidos como “não-pessoas― ou não-cidadãos. O preceito romano Servus
non habet personain (o escravo não é uma pessoa) excluÃa de um só golpe um quinto da
população da Roma imperial, considerado incapaz de um relacionamento social com seus patrões. A
persona romana era a unidade privilegiada que concentrava as responsabilidades e os deveres, legais e
religiosos, para com o estado e os deuses.
O mundo ocidental tem, nos últimos tempos, convivido com a incômoda tensão entre essas
duas definições de “pessoa Quando o paradigma de “pessoa― são os atores que optam por
desconsiderar sua natureza sensorial dentro de uma sociedade cognitiva, convencional e moral, eles são
condenados como mundanos, pois a “mundanidade― consiste em ser capaz de representar, com
desembaraço e graça, uma diversidade de papéis, alguns deles pelo menos não convencionais. Mas
quando o paradigma de “pessoa― tem sua origem na lei canônica, e não mais no teatro, o
sentimento de responsabilidade torna-se inerente aos direitos e poderes de uma ação moral racional. A
mente se transforma no “ser― melhor e mais claro, como o foi durante o Iluminismo, quando o ser
racional autônomo – res cognitans – ou “ser cartesiano― desenvolveu uma separação entre
mente e corpo, e o mundo exterior das outras pessoas tornou-se de fato muito distante. Por isso, Descartes
define o “pessoal― como uma expressão da auto-consciência, consciência esta que se torna mais
aguçada quando “pensamos― mais! Emanuel Kant (1724-1804 d.C.) leva essa idéia um passo
adiante e afirma que somos mais pessoais quando somos mais racionais e também mais morais. Isso
significa necessariamente uma pessoa voltada para dentro de si mesma, um ser reflexivo cujas relações
externas têm importância secundária ou até mesmo periférica.
Â
A Atual Politização da Pessoa
Estamos hoje num mundo em que os direitos legais dos fetos (será o feto pessoa ou não-pessoa?), das
feministas, dos homossexuais e de muitos outros foram politizados por uma nova definição de pessoa.
Filósofos, historiadores, antropólogos e psicólogos, todos neste século, continuam oferecendo suas
percepções/confusões em relação ao “significado de pessoa―. Mas, de todas as teorias sobre
a identidade humana, a do caráter estóico é a mais persistente, simplesmente porque permite uma
associação mais estreita de traços psicológicos e fisiológicos, dentro de uma explicação
racional, na linha do trabalho pioneiro de Freud. Oferece uma moldura “natural― de hábitos
racionais que dão contorno, forma e continuidade ao ser habituado― que parece reforçar o cognitivo.
Dá pouco espaço, contudo, para a contingência das emoções, a não ser a sexual, num mundo
mais personalizado de auto-transcendência.
Â
“O PROBLEMA SEM NOME―: O ELEMENTO PESSOAL NUM MUNDO DE ABSTRAÇÕES
Se as “pessoas― precisam de “pessoas― para se tornarem “pessoas―, como diz um
provérbio Xhosa, então os processos de abstração             no mundo
ocidental constituem forças negativas que ameaçam despersonalizar a humanidade. C.S. Lewis nos
alertou profeticamente para essa possibilidade meio século atrás, em suas palestras intituladas The
Abolition of Man (A Abolição do Homem). Do mesmo modo como o Abstracionismo nazista lidou com
a “questão judaica― no holocausto, seria despropositado imaginar que “a questão da
pessoa―, ao ser tratada “de forma cientÃfica―, pode estar sendo ameaçada?
Â
Sem Fundamentos para a “Pessoa―
Esse processo já vem sendo evidenciado na redefinição polÃtica da famÃlia. Quando o ano de 1994
foi declarado Ano da FamÃlia, o Dr. Jonathan Sacks, principal rabino da Grã-Bretanha, deu a esse ano o
tÃtulo alternativo de “o Ano em que a FamÃlia Morreu― e marcou sua abertura com o enterro
simbólico de um caixão com a inscrição “Ano Internacional da FamÃlia―.
Se o homem secular perder de vista os fundamentos metafÃsicos da “pessoa― e deixar de
fazer a distinção entre Deus e tudo mais, se ele escolher viver como se fosse de fato um deus, então
ele perderá o entendimento prático da verdadeira realidade de todas as coisas e também de sua
própria identidade. Anthony Giddens descreveu com clareza a fragilidade do ser diante dos impactos da
modernidade tardia. Testes de personalidade, tais como o Myers Briggs, podem elucidar muita coisa, mas
sua má utilização pode gerar alienação. Se sou rotulado simplesmente como um EFSP ou um INTJ
dentre as categorias de “personalidade―, estou em situação pior do que se estivesse sendo
submetido ao tratamento dado por Homero! A adoção de uma postura clÃnica em relação à minha
própria identidade, com o propósito de auto-gerenciamento psicológico, não representa um avanço
em relação aos estóicos, sobretudo se eu algum dia puder ter um mentor culto e sábio comparável
a CÃcero ou Sêneca.
Quando Betty Friedan escreveu The FemÃnine Mys tique (A MÃstica Feminina, 1965), livro
campeão de vendas, ela revelou sua própria inquietação em relação ao “problema que não
tem nome―.16 Além de desempenhar suas funções de esposa e mãe — conforme definidos pela
sociedade — no seu Ãntimo ela desejava saber “quem, e não apenas o quê, quero ser.― Essa
pergunta se parece com uma outra levantada por um neurocimrgião amigo meu: “Será que fui
enganado pela sociedade―? E eu respondo: “Será que não foi você mesmo que se enganou e
agora seus netos estão lhe mostrando isso―? É claro que o profissionalismo e a especialização
técnica são formas de abstração que contribuem para a retração do “pessoal―.
Até um terapeuta empático como Garl Rogers, em seu livro de ensaios intitulado On BecomÃng a Person (Como Tornar-se uma Pessoa), ao descrever “como me tornei a pessoa que sou―, só
pode falar do processo mediante o qual se transformou num “indivÃduo― auto-gerado. O tÃtulo de
sua obra está, portanto, equivocado, pois ele fala sobre “transformar-se num indivÃduo―! Na
realidade, ele nos diz que rejeitou a fé cristã de seus pais para ornar-se “ele mesmo―. Até sua
aceitação de Kierkegaard é equivocada, pois ele não é capaz de perceber a polêmica cristã de
Kierkegaard. Rogers, portanto, não tem base para distinguir entre “pessoa― e “indivÃduo―
De fato, o “ser terapêutico―, segundo Christopher Lasch, acaba SC transformando num “ser
minimalista numa cultura de sobrevivência.
Jean-François Lyotard, em seus ensaios sugestivamente intitulados Inhuman (Inumano), explora
a desumanidade das instituições próprias da modernidade, bem como as maneiras como a alma é
feita refém de si mesma por causa do desejo exagerado de autocontrole. Esses dois tipos de “inhumanidade― — o que a sociedade faz comigo para provocar descontentamento e o que eu faço
comigo mesmo - origem do que Kierkegaard chamou de “desespero― — são ambos, no fundo,
manifestações de individualismo. É nesse sentido que o sofrimento de uma criança torna-se o
arquétipo da condição humana na qualidade de “indivÃduo―
Privado da capacidade de fala, incapaz de ficar de pé sozinho, hesitante em relação à escolha
dos objetos a serem observados, impossibilitado de alimentar-se sozinho, sem condições de fazer
cálculos para tirar proveito próprio, um bebê será muito vulnerável, se não tiver a proteção
social e o apoio dos pais. Jesus usa essa imagem para mostrar nossa necessidade de Deus. “A não ser
que você se torne como uma criança―, não há como entrar num relacionamento correto com Deus
e com “seu reino’120
Â
O INDIVÕDUO E A PESSOA
Lyotard chamou de “in-humano― aquele que é o traço marcante do “indivÃduo―, ou seja,
o fechar-se em si mesmo. Mas ele nada diz sobre seu oposto, a “pessoa―, cuja postura extática de
olhar para fora e encontrar no Outro tanto sua identidade como seu bem-estar assemelha-se à de uma
criança que olha para o rosto da mãe e vê o milagre do reconhecimento mútuo. A transformação
que então ocorre é marcada pela alegria. O fundamento da pessoalidade reside, portanto, naquilo que
Ricoeur chama de atestação, isto é, a credibilidade e a confiança que o outro nos dá. É por isso
que nunca devemos nos esquecer das crianças, pois suas necessidades apontam para aquilo que é
essencial na distinção entre a “in-humanidade― e a “pessoa― genuinamente humana.
Â
O quadro a seguir poderá nos ajudar a fazer esta distinção entre o “indivÃduo―, contido na inhumanidade, e a “pessoa― tida como realidade social da verdadeira humanidade 23
Â
O INDIVÕDUO
A PESSOA
Entendimento antropológico secular
Revelação teológica (imago dei)
Seres humanos criados à sua própria imagem
Seres humanos criados à imagem de Deus
Identidade baseada em ações humanas
“Tomado justo― graças à justificação
por Deus
Liberdade definida no âmbito do ser autônomo Liberdade definida como autotranscendência, isto
é, fundamentada “em Cristo―
Pecado é auto-enclausuramento, iniquidade e Discipulado é “abertura para Deus―, com
desobediencia
base no seu chamado
Â
Â
O Reducionismo da Ciência
A Encyclopaedia of the Social Sciences (Enciclopédia das Ciências Sociais), britânica, um marco da
Antropologia cientÃfica, traz vários artigos sobre “o indivÃduo―, mas nenhum sobre
“pessoa―. Quando os filósofos definem “pessoa― como uma questão ética, estão
fazendo a distinção entre um ser humano e um feto ou outro conceito material. A questão da pessoa
humana permanece em aberto, como um tema problemático, cientificamente inacessÃvel e indefinÃvel.
O humano só pode ser um ponto de interrogação. É somente a partir da analogia teológica feita
entre pessoas, humanas e divinas, que a Antropologia teológica faz algum sentido, ao nos definir como
pessoas-em-relação-a-Deus. A Ciência e a Filosofia dispõem apenas de seus próprios critérios e
só podem definir a humanidade dentro de seus entendimentos restritos, inevitavelmente reducionistas e
alientantes. Não tem como explorar o mistério da humanidade.
Â
O locus classicus da Antropologia teológica encontra-se em Gênesis 1.26: “E Deus disse,
façamos o homem à nossa imagem e semelhança―. Essas palavras nos mostram, em primeiro lugar,
que Deus é o tipo de Deus que se identifica irrevogavelmente com a humanidade, numa aliança de
amor. Sem Deus, a humanidade é um mistério. Por outro lado, sem a humanidade, Deus não pode
ser conhecido. Essa verdade deixa maravilhado o autor do Salmo 8, que fica a imaginar por que, dentre
todas as suas criaturas, Deus escolheu justamente os seres humanos para um relacionamento de parceria
numa aliança.
Em segundo lugar, o termo “imagem― implica relacionalidade, como na expressão
“macho e fêmea os criou―, em co-igualdade e complementariedade. A humanidade também
recebeu um mandato de mordomia sobre a Criação, para melhor definir sua posição dada por Deus,
sua responsabilidade e seu relacionamento com a Criação. Esse relacionamento vertical diante de Deus,
como representante de Deus na Terra, continua mesmo após a queda, embora agora a gravidade do pecado
seja intensificada pelo fato de que o homem traz a imagem de Deus, numa “dessemelhança―
pecaminosa. A encarnação, que recapitula em Cristo o homem-intencionado-por-Deus, permite que
“a imagem e semelhança de Deus― seja revelada em sua expressão final, eterna. Ser uma
verdadeira pessoa agora significa estar “conforme o Ãcone e a semelhança de Cristo―, “que é
o Ãcone do Deus invisÃvel’l
Â
O Faber Homo, ou a Justificação por Deus?
O “indivÃduo― hoje, autônomo como um tecnocrata moderno, torna-se a medida de todas as coisas,
sem qualquer referência à responsabilidade de mordomia que lhe foi atribuÃda por Deus. O indivÃduo,
na condição de faber homo, o artÃfice humano, decide, sem qualquer referência ao Criador, o que
acontecerá com o mundo. O homem ou a mulher presume que seu próprio ser é constituÃdo de suas
próprias ações. Eberhard Jungel afirma que durante a Reforma essa postura foi claramente contestada
por Lutero, que disse: “O trabalho que faço não me transforma na pessoa que sou; pelo contrário,
é a pessoa que sou que determina o trabalho que faço―. Ele rejeita a Nicomachean Ethics (Ética
Nicomaqueana) de Aristóteles, que diz: “nós nos tornamos justos em virtude dos atos justos que
praticamos―. Não, tudo que sou como pessoa “tornada justa― e “justificada gratuitamente
pela sua graça― resulta da ação de Deus. A pessoa cristã é, acima de tudo, alguém que
recebe, mas não “alcança― o mérito. De fato, como Fénelon nos lembra, eu me recebo a mim
mesmo graças à bondade de Deus.
A liberdade é o desejo fundamental daquilo que a modernidade considera ser humano. Mas se a liberdade
é para o indivÃduo, o que dizer da trÃade “liberdade, igualdade e fraternidade―?É evidente que
quanto mais houver para mim, menos sobrará para você! Na vigência da “livre iniciativa―, os
outros se tornam ainda mais pobres! Desse modo, o que é liberdade para mim pode significar opressão
para você! Além disso, cabe perguntar: quero ser efetivamente liberto de quê? Qual meu propósito para ser ainda mais indivÃduo? Se o objetivo da liberdade é o de alcançar maior autodeterminação,
será que não vou um dia parar para pensar em quando e como poderei precisar de libertação de meu
próprio instinto autodestrutivo e de minhas inclinações? A liberdade, assim autoconstituÃda,
começa a se parecer mais com uma perda e uma escravidão do próprio ser. Há um grande número
de ambigüidades e autocontradições embutidos no conceito de “liberdade para o indivÃduo―.
O Evangelho cristão nos chama ao arrependimento, ao reconhecimento da pecaminosidade e da
autodestrutividade da liberdade autoconstituÃda. A liberdade pessoal reside na “vida justificada―,
onde Deus age a nosso favor, na humanidade de Cristo, de tal maneira que “se o Filho vos libertar, sereis
verdadeiramente livres―. Christoph Schoebel o resumiu sucintamente:
A verdadeira medida da liberdade é o amor como relacionamento que faz do florescimento do outro uma
condição para a auto-realização. A liberdade humana torna-se o Ãcone da liberdade divina, onde a liberdade
da graça divina constitui a graça da liberdade humana.
Â
É a liberdade da escravidão do pecado, libertação da autofundamentação, a libertação dos
filhos de Deus
Â
O DISCIPULADO CRISTÃO É REQUISITO PARA QUE SEJAMOS PESSOAS
O chamado para o discipulado, como deixam claro os Evangelhos, é uma iniciativa de Cristo e não
nossa. Mas exige de nós uma atitude intransigente de “deixar tudo para trás e segui-Lo―. Esse é
um passo fundamental no processo de nos tornarmos pessoalmente “como Cristo―. Transforma a
autonomia, para que estejamos “abertos― para o outro. Implica em renúncia a si mesmo. Lealdade
a Cristo significa “auto-abandono―, conforme enfatizaram escritores franceses cristãos do século
dezessete, como Fénelon. A conformidade com Cristo leva, portanto, à reconstrução de toda a nossa
maneira de “ser― e “fazer―. Então, segundo a definição tão sagaz de Alistair McFadyen,
o discipulado cristão é, tanto intrÃnseca quanto extrinsecamente, “abertura― para Deus, a
aceitação de uma perspectiva de vida completamente nova; verdadeiramente uma nova criação.
Significa também uma renovada transparência de vida, que alimenta a pessoa e a faz crescer em
relacionamentos.
Â
Deus é Nossa Meta
Como esse processo de “nos tornarmos pessoas― permanece sempre incompleto, o que temos é
uma orientação escatológica voltada para o futuro. Deus se torna nossa meta ou telos: deixamos de ser
nossa própria meta. Mas a transformação continua incompleta. Nossa verdadeira humanidade ainda
está a caminho. Mas, deste momento em diante, a “pessoa― se vê orientada para um destino futuro.
“Não como se já o tivesse alcançado―, confessa o apóstolo, “mas o almejo―. O eschaton
de Deus inclui uma “novidade― que ainda está por ser descortinada e revelada. E uma
“novidade― por duas razões: (1) não podemos dar ou alcançá-la por nós mesmos - só Deus
pode; e (2) é um “novo― que transforma o velho em “velho―, deixando-o para morrer. “E
assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já ...
Arquivo da conta:
ACauende
Outros arquivos desta pasta:
NEEMIAS - PAIXÃO PELA FIDELIDADE - J. I. PACKER.pdf (12191 KB)
 Josue A Oliveira - A Excelencia do Ministerio.pdf (4954 KB)
 Ministério Apostólico - Dan Duke(1).pdf (472 KB)
 movimentos-paraeclesiasticos.epub (1414 KB)
UM MINISTÉRIO IDEAL VOL. 2 (CHARLES HADDON SPURGEON).pdf (3272
KB)


Outros arquivos desta conta:

001. BÕBLIAS ELETRONICAS
 Adolescentes e Jovens
 Ana Mendez Ferrell
 Billy Graham
 Biografias
Relatar se os regulamentos foram violados








Página inicial
Contacta-nos
Ajuda
Opções
Termos e condições
PolÃtica de privacidade
Reportar abuso
Copyright © 2012 Minhateca.com.br
Download