UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE – UNESC CENTRO EDUCACIONAL SÃO CAMILO – SUL CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO EM CONDUTAS DE ENFERMAGEM AO PACIENTE CRÍTICO PETISE REINERT BECKHAUSER SENTIMENTOS VIVENCIADOS POR PACIENTES QUE SE SUBMETERÃO À CIRURGIA DE NEOPLASIA CEREBRAL CRICIÚMA, JANEIRO, 2009 PETISE REINERT BECKHAUSER SENTIMENTOS VIVENCIADOS POR PACIENTES QUE SE SUBMETERÃO À CIRURGIA DE NEOPLASIA CEREBRAL Monografia apresentada à Diretoria de PósGraduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC, para a obtenção do título de Especialista em Condutas de Enfermagem ao Paciente Crítico. Orientadora: Profª. MSc. Maria Augusta Fonte CRICIÚMA, JANEIRO, 2009 RESUMO O presente trabalho de conclusão de curso constitui-se em um estudo do tipo convergenteassistencial, de caráter qualitativo, norteada pela teoria de enfermagem transcultural de Madeleine Leininger. Teve como questão norteadora e também como objetivo geral, saber quais os sentimentos vivenciados por pacientes que se submeterão a cirurgia de neoplasia cerebral, tendo como cenário a Unidade Neurológica São Lucas (Setor 12) do Hospital Nossa Senhora da Conceição de Tubarão-SC. Integraram a amostra três pacientes portadores de neoplasia cerebral. Propõe identificar as percepções e expectativas dos pacientes portadores de neoplasia cerebral, no período pré-operatório. A prática assistencial desenvolvida possibilitou o levantamento e registro dos dados por meio de um diário de campo, entrevista com roteiro aberto e semi-estruturado e observação participante. O estudo permitiu conhecer um pouco da vivencia diária de um portador de neoplasia cerebral diante da expectativa de cirurgia, identificando que os sentimentos apresentados têm muito haver com a forma como cada um encara sua doença, seu modo de vida, sua cultura, suas crenças e o conhecimento que tem sobre a doença. Destaca-se os sentimentos de gratidão a Deus, insegurança, incerteza, medo, apreensão, ansiedade e dúvida. Constatou-se a importância de haver uma parceria entre o paciente e a equipe multidisciplinar com o propósito de reduzir os sentimentos vivenciados por eles nesse momento tão delicado. Palavras-chave: Neoplasia cerebral; Portador de neoplasia cerebral; Cuidado transcultural. ABSTRACT The present course completion work consists of an assistance-convergent qualitative character study, based on Madeleine Leininger’s transcultural theory of nursing. The general overview and key issue is to get to know the feelings experienced by the patients who will be undergoing a neoplasia brain surgery at the São Lucas Neurologic Unit (Ward 12), Hospital Nossa Senhora da Conceição, Tubarão-SC. Three patients suffering from cerebral neoplasia joined the sample study. The purpose of the study is to check the perceptions and expectations of the patients suffering from cerebral neoplasia prior to the surgery period. The assistance practice developed has allowed for data readings by means of a field log, open-ended and semi-structured interviews as well as observance of the patient. The study also made possible to get to know a little bit of each and every cerebral neoplasia patient sufferer while facing the expectation towards surgery and learning that the feelings shown have something to do with how each one of them faces the disease, their way of life, their culture, their beliefs and their knowledge on the disease. Among the feelings shown are those related to thankfulness to God, insecurity, uncertainty, fear, aprehension, anxiety and doubt. The importance for a partnership between the patient and the multidisciplinary team was discussed aimed at reducing the feelings experienced by them during such delicate moments. Key Words: Cerebral neoplasia; Cerebral neoplasia patient; Transcultural care. LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Incidência dos tumores intracranianos conforme a faixa etária. ............................. 20 Tabela 2 - Gliomas: seus graus histológicos e freqüência de invasão. ..................................... 20 Tabela 3 - Taxa de sobrevida média para gliomas ................................................................... 22 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Abordagens neurocirúrgicas do crânio ................................................................... 18 Quadro 2 - Identificação da amostra......................................................................................... 39 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 08 2 REVISÃO LITERÁRIA ..................................................................................................... 10 2.1 ANATOMIA DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL ...................................................... 10 2.1.1 Telencéfalo...................................................................................................................... 10 2.1.2 Diencéfalo ....................................................................................................................... 11 2.1.3 Hipotálamo ..................................................................................................................... 11 2.1.4 Subtálamo ....................................................................................................................... 11 2.1.5 Epitálamo ....................................................................................................................... 12 2.1.6 Tálamo ............................................................................................................................ 12 2.1.7 Tronco encéfalo .............................................................................................................. 12 2.1.8 Cerebelo .......................................................................................................................... 13 2.1.9 O sistema ventricular e o líquido cefalorraquidiano .................................................. 13 2.1.10 Medula espinhal e seus envoltórios ............................................................................ 14 2.1.11 Nervos espinhais .......................................................................................................... 15 2.1.12 Nervos cranianos ......................................................................................................... 15 2.1.13 Vascularização ............................................................................................................. 15 2.1.14 Barreiras encefálicas ................................................................................................... 15 2.1.15 Córtex cerebral ............................................................................................................ 16 2.1.16 Núcleos de nervos cranianos no tronco encefálico.................................................... 16 2.2 UMA INTRODUÇÃO À NEUROCIRURGIA ................................................................. 16 2.3 PACIENTE SUBMETIDO À NEUROCIRURGIA INTRACRANIANA ........................ 17 2.4 AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA ........................................................................................ 19 2.5 NEOPLASIA CEREBRAL ................................................................................................ 19 2.6 TRATAMENTO DAS NEOPLASIAS CEREBRAIS ....................................................... 20 2.7 DADOS ESTATÍSTICOS DAS NEOPLASIAS CEREBRAIS NO BRASIL .................. 23 2.8 CUIDADOS PRÉ E PÓS-OPERATÓRIOS AO PACIENTE SUBMETIDO À CIRURGIA NEUROLÓGICA ................................................................................................. 24 2.8.1 Cuidados de Enfermagem Pré-Operatórios ................................................................ 24 2.8.2 Cuidados de Enfermagem Pós-Operatório ................................................................. 25 2.8.3 Sentimentos Vivenciados pelos Pacientes no Pré e Pós-Operatório.......................... 25 2.9 REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................................... 26 2.9.1 Teoria de Enfermagem transcultural de Madeleine Leininger ................................. 26 3 METODOLOGIA................................................................................................................ 31 3.1 TIPO DE ESTUDO ............................................................................................................ 31 3.2 LOCAL DE ESTUDO ........................................................................................................ 32 3.3 AMOSTRA......................................................................................................................... 33 3.4 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS ............................................................................................ 33 3.5 MOMENTOS DO ESTUDO .............................................................................................. 34 3.5.1 Entrando no Campo ...................................................................................................... 34 3.5.2 Ficando no campo .......................................................................................................... 35 3.5.3 Saindo do campo ............................................................................................................ 37 3.6 ANÁLISE DOS DADOS ................................................................................................... 37 4 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS: SENTIMENTOS VIVENCIADOS POR PACIENTES QUE SE SUBMETERÃO À CIRURGIA NEOPLASIA CEREBRAL ..... 39 4.1 IDENTIFICAÇÃO DA AMOSTRA .................................................................................. 39 4.2 INTERFERÊNCIAS PROVOCADAS PELA NEOPLASIA CEREBRAL NO COTIDIANO DOS PACIENTES ............................................................................................ 40 4.3 CONHECIMENTO ACERCA DA DOENÇA E CIRURGIA A QUAL SERÁ SUBMETIDO? ........................................................................................................................ 42 4.4 INFORMAÇÕES NECESSÁRIAS ACERCA DA DOENÇA E DA CIRURGIA QUE SERÁ SUBMETIDO................................................................................................................ 43 4.5 EXPECTATIVAS DO PACIENTE EM RELAÇÃO À CIRURGIA E AO PÓSOPERATÓRIO ......................................................................................................................... 45 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................. 47 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 49 APÊNDICES ........................................................................................................................... 52 APÊNDICE A - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ......................................... 53 APÊNDICE B - Entrevista com os participantes do estudo ............................................... 54 APÊNDICE C - Diário de Campo ......................................................................................... 55 ANEXOS ................................................................................................................................. 56 ANEXO A – Termo de Consentimento Institucional .......................................................... 57 8 1 INTRODUÇÃO Este estudo referiu-se a um projeto de pesquisa exigido pelo Curso de Pósgraduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC, para a obtenção do título de especialista em condutas de enfermagem ao paciente crítico. O tema a pesquisado abordou os sentimentos vivenciados por pacientes que se submeteram à cirurgia de neoplasia cerebral internados no setor 12 do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC) em Tubarão. Compreendeu-se que um estudo desta natureza, contribuirá com a assistência de enfermagem nesta área por elucidar a vivência do paciente portador de neoplasia, em função da vulnerabilidade apresentada por este diante da doença. O cérebro é um órgão complexo e imprescindível para a vida, de modo que qualquer alteração na sua estrutura pode causar lesões irreversíveis. O tratamento das doenças do sistema nervoso tem o objetivo de melhorar as funções neurológicas. A neurocirurgia pode apresentar complicações pós-operatórias, dentre as quais se podem citar hipertensão intracraniana, edema cerebral, meningite, hidrocefalia, crises convulsivas, complicações respiratórias, fístula liquórica, infecção da ferida cirúrgica, déficits neurológicos, diabetes insípidus e edema periocular. (HUDACK; GALLO, 1997 apud CARNEIRO; POMATTI; BERTOLETTI, 2007, p. 228). Em virtude dessas complicações é necessária uma assistência de enfermagem centrada nas orientações pré e pós-operatória ao paciente, visto que a neurocirurgia pode ameaçar e alterar a vida do mesmo. As orientações pré e pós-operatórias ao paciente visa principalmente, reduzir a ansiedade e o estresse gerado pelo evento cirúrgico. A orientação deverá ser abrangente, envolvendo o ambiente em que o paciente permanecerá, a tecnologia avançada que poderá ser utilizada e às condições futuras do paciente. Na visão do paciente este primeiro momento poderá causar estranheza e amedrontar, gerando uma situação de incerteza e insegurança. Contudo com a orientação adequada e assistência multidiciplinar de boa qualidade, essa fase poderá ser vivida de maneira mais amena e garantir a colaboração do mesmo na sua recuperação. (CARNEIRO; POMATTI; BERTOLETTI, 2007, p. 230). Em minha trajetória profissional tenho observado a angústia, a ansiedade, a insegurança e o desconforto dos pacientes submetidos a cirurgia de tumor cerebral, sentimentos estes gerados pelas informações pouco precisas que têm acerca da doença, dos 9 medicamentos cuja ação desconhecem, sobre o procedimento cirúrgico a que será submetido, além do que lhe reserva o pós-operatório. Assim a necessidade de busca de conhecimentos nesta área motivou este estudo, uma vez que se constituiu num foco de interesse de atuação profissional. Para nortear este estudo adotou-se a teoria de enfermagem Transcultural de Madeleine Leininger por acreditar que essa teoria pôde sustentar o estudo, tendo em vista que ela trabalha com crenças, cultura, sentimentos, enfim. Partindo desses pressupostos, traçou-se a questão norteadora da pesquisa: “Quais os sentimentos vivenciados por pacientes que se submeterão à cirurgia de neoplasia cerebral?”. Visando responder a esta questão, estabeleceu-se como objetivo geral: Conhecer os sentimentos vivenciados por pacientes que se submeterão à cirurgia de neoplasia cerebral. E, como objetivos específicos este estudo propôs: 1. Identificar as percepções dos pacientes portadores de neoplasia cerebral, no período préoperatório; 2. Identificar as expectativas dos pacientes portadores de neoplasia cerebral, no período préoperatório; 3. Discutir as expectativas dos pacientes portadores de neoplasia cerebral diante da realização de cirurgia neurológica; 4. Propor assistência de enfermagem ao portador de neoplasia cerebral no período pré e pósoperatório. 10 2 REVISÃO LITERÁRIA 2.1 ANATOMIA DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL O Sistema Nervoso Central (SNC) recebe, analisa e integra informações. É o local onde ocorre a tomada de decisões e o envio de ordens. O Sistema Nervoso Periférico (SNP) carrega informações dos órgãos sensoriais para o sistema nervoso central e do sistema nervoso central para os órgãos efetores (músculos e glândulas). Para Vilela (2007): O Sistema Nervoso Central divide-se em encéfalo e medula. O encéfalo corresponde ao telencéfalo (hemisférios cerebrais), diencéfalo (tálamo e hipotálamo), cerebelo, e tronco cefálico, que se divide em: BULBO, situado caudalmente; MESENCÉFALO, situado cranialmente; e PONTE, situada entre ambos. Vilela (2007) ainda afirma que o sistema nervoso central pode ser classificado de acordo com três níveis principais. O nível da medula espinhal está relacionado não apenas com a transmissão de impulsos do centro para a periferia e desta para o centro, mas, também com a realização de reflexos motores em resposta a um determinado estímulo. O nível cerebral inferior está relacionado com a grande maioria das atividades subconscientes. O nível cerebral superior armazena a grande maioria da nossa memória e é o responsável pelos complexos processos mentais que envolvem o pensamento. Costuma-se dizer que é o córtex que abre o mundo para nossa mente. É importante ressaltar que o córtex não funciona por si, dependendo, por exemplo, do estímulo da formação reticular para a manutenção do estado de vigília. 2.1.1 Telencéfalo O telencéfalo é formado pelos hemisférios cerebrais e por comissuras que se situam próximo ao plano mediano: o corpo caloso, a lâmina terminal, a comissura anterior, o fórnix e a comissura posterior ou comissura epitalâmica. 11 Segundo Machado (2007) o telencéfalo divide-se em lobos frontal, temporal, parietal, occipital e, mais internamente, o lobo da insula. 2.1.2 Diencéfalo Para Machado (2007), o diencéfalo é formado pelo hipotálamo, tálamo, subtálamo e epitálamo. O hipotálamo compreende também o quiasma óptico, o túber cinéreo, o infundíbulo e os corpos mamilares. O sulco hipotalâmico separa o hipotálamo do tálamo, que se situa logo acima. O sulco hipotalâmico estende-se do forame interventricular ao aqueduto cerebral. “O subtálamo está na região de transição entre o diencéfalo e o mesencéfalo. O epitálamo é formado pela comissura posterior, pela glândula pineal e pela comissura das habênulas.” 2.1.3 Hipotálamo De acordo com Machado (2007), afirma quando diz que, o hipotálamo está localizado nas paredes laterais do terceiro ventrículo e sua porção inferior constitui o assoalho da porção anterior do diencéfalo. Está relacionado com o controle dos mecanismos homeostáticos e viscerais, neuroendócrino e do sistema nervoso vegetativo ou autônomo participando também dos fenômenos emocionais. Ele é formado principalmente por substância cinzenta que se agrupa em núcleos, apresentando também fibras mielínicas que estabelecem diversos tipos de conexões, das quais muitas não foram ainda elucidadas. Por suas características estruturais é considerado por alguns autores como sendo a extensão anterior da formação reticular. 2.1.4 Subtálamo 12 Damiani (2007) refere que o subtálamo é uma região de transição entre o diencéfalo e o mesencéfalo. “Apresenta como principal formação exclusiva o núcleo subtalâmico que se liga ao globo pálido através do circuito pálido-subtálamo-palidal, o qual está relacionado com a regulação da motricidade somática.” 2.1.5 Epitálamo O epitálamo está localizado na região póstero-superior do diencéfalo e apresenta formações endócrinas e não endócrinas. Conforme Erhart (2007): A principal formação endócrina é a glândula pineal ou epífise e as não endócrinas são a comissura posterior, através da qual passam fibras que ligam a área pré-tectal ao núcleo de Edinger-Westphal, relacionado com o reflexo consensual, o trígono das habênulas, que contém os núcleos habenulares, a comissura das habênulas e as estrias medulares, que recebem fibras da área septal levando-as aos núcleos habenulares, de onde o impulso segue aos núcleos interpedunculares do mesencéfalo através do fascículo retroflexo estabelecendo, posteriormente, conexões com a formação reticular. 2.1.6 Tálamo Localizado acima do sulco hipotalâmico, o tálamo é constituído de duas massas ovóides com uma extremidade anterior pontuda, o tubérculo anterior do tálamo e, posteriormente, o pulvinar ou tálamo dorsal. Os dois tálamos são unidos pela aderência intertalâmica. A região anterior recebe fibras do fascículo mamilo-talâmico. A porção posterior compreende o pulvinar, o corpo geniculado medial e o corpo geniculado lateral. As fibras tálamo-corticais e córtico-talâmicas juntas constituem as radiações talâmicas que formam grande parte da cápsula interna. (ERHART, 2007). 2.1.7 Tronco encéfalo 13 De acordo com Machado (2007), o tronco encefálico é constituído pelo mesencéfalo, ponte e bulbo. “O mesencéfalo possui uma parte anterior, o tegmento do mesencéfalo, e uma parte posterior, o tecto do mesencéfalo. Posteriormente ao tecto do mesencéfalo encontram-se os corpos quadrigêmeos ou colículos superiores e inferiores.” (ERHART, 2007). Para Guyton (1993, p. 25) a ponte apresenta muitos dos mesmos tipos de estruturas internas que o mesencefálico, como por exemplo, muitas das grandes vias nervosas que transmitem sinais tanto ascedentes como descendentes, ao longo do tronco cerebral, além de múltiplos núcleos que desempenham funções específicas. É dividida em duas partes: a parte viceral e parte dorsal, esta também chamada de segmento pontino, continuo com o segmento mesencefálico. Ainda para esse mesmo autor o bulbo raquidiano, chamado simplesmente de bulbo encontra-se na extremidade inferior do tronco cerebral. Em sua superfície, existem duas características distintas: - Na face anterior do bulbo existem duas colunas longitudinais proeminentes, chamadas pirâmides; - Uma oliva protrai-se de cada uma das superfícies antero-laterais do bulbo, em posição lateral à pirâmide. 2.1.8 Cerebelo Cerebelo é separado dos hemisférios cerebrais por uma dobra da dura-máter, o tentório do cerebelo, o cerebelo possui ações excitatórias e inibitórias, sendo responsável em grande parte pela coordenação dos movimentos. Ele também controla os movimentos finos, equilíbrio, sensação de posição e a integração dos estímulos sensoriais. (SMELTZER; BARE, 2002, p. 1540). 2.1.9 O sistema ventricular e o líquido cefalorraquidiano 14 Durante o desenvolvimento embrionário a luz do tubo neural se dilata em determinadas regiões do prosencéfalo e do rombencéfalo. Essas dilatações determinam a formação de cavidades revestidas de epêndima denominadas ventrículos que contém em seu interior o líquido cefalorraquidiano ou líquor, também encontrado no espaço subaracnóideo. De acordo com Vilela (2007) “Os ventrículos laterais direito e esquerdo encontram-se no telencéfalo e possuem, além de uma parte central, os cornos anterior, posterior e inferior voltados para os pólos frontal, occipital e temporal, respectivamente.” 2.1.10 Medula espinhal e seus envoltórios Conforme Junqueira (2007), a medula espinhal não apresenta diferenciação morfológica significativa em relação à medula primitiva. Salienta ainda que: Seu tamanho no adulto é de aproximadamente 45 centímetros e estende-se do forame magno, nas proximidades da membrana atlanto-occipital onde se continua superiormente no bulbo raquídeo ou medula oblonga, até a segunda vértebra lombar, L2, podendo chegar próximo de L3. Localiza-se no canal vertebral que, juntamente com o crânio que envolve o encéfalo, constitui a porção do esqueleto axial que envolve o sistema nervoso central. Machado (2007) menciona que: Durante o período de desenvolvimento embrionário, a medula apresenta quase que o mesmo tamanho da coluna vertebral. Entretanto, no indivíduo adulto ela não ocupa inteiramente o canal vertebral. Isso se deve ao fato de que após o nascimento a coluna cresce mais rapidamente que a medula, motivo pelo qual as raízes dos nervos abaixo de L2 começam a apresentar uma angulação em relação às vértebras relativas ao segmento medular do qual essas raízes são provenientes. Machado (2007) ressalta ainda que os envoltórios que revestem a medula são a dura máter ou paquimeninge, externamente, e a aracnóide e a pia máter que constituem a leptomeninge, internamente. “A dura máter espinhal é formada por um único folheto, enquanto a dura máter craniana possui dois folhetos. Destes, o folheto interno é o que prevalece no revestimento da medula espinhal.” 15 2.1.11 Nervos espinhais Com base em Vilela (2007) os nervos espinhais são aqueles que estão diretamente relacionados com a medula espinhal. Estão dispostos da seguinte forma: oito cervicais, doze torácicos, cinco lombares, cinco sacrais e um coccígeo. São formados pela união de uma raiz ventral ou motora proveniente do sulco lateral anterior da medula com uma raiz dorsal ou sensitiva proveniente do sulco lateral posterior da medula. 2.1.12 Nervos cranianos Para Vilela (2007), os nervos cranianos, juntamente com os nervos espinhais fazem parte do sistema nervoso periférico, e: São doze os pares de nervos cranianos: I - Nervo Olfatório; II - Nervo Óptico; III Nervo Oculomotor; IV - Nervo Troclear; V - Nervo Trigêmeo; VI - Nervo Abducente; VII - Nervo Facial; VIII - Nervo Vestíbulo-Coclear; IX - Nervo Glossofaríngeo; X - Nervo Vago; XI - Nervo Acessório; XII - Nervo Hipoglosso. 2.1.13 Vascularização A vascularização do encéfalo é realizada pelo sistemas carotídeo interno e vértebro-basilar. A artéria carótida interna penetra no encéfalo pelo canal carotídeo do osso temporal, atravessa o seio cavernoso na região do esfenóide e emite dois ramos terminais e quatro ramos colaterais. Os ramos terminais são as artérias cerebrais anteriores e cerebrais médias. Os ramos colaterais são as artérias oftálmicas, hipofisária, coróidea anterior e comunicante posterior. (VILELA, 2007). 2.1.14 Barreiras encefálicas 16 Para Lorena (2007), as barreiras encefálicas são barreiras que impedem ou dificultam a passagem de certas substâncias para o sistema nervoso central. Lorena (2007) afirma ainda que, “a barreira hemoliquórica impede ou dificulta a passagem de substâncias do sangue para o líquido céfalorraquidiano. A barreira líquorencefálica impede ou dificulta a passagem de substâncias do líquido céfalorraquidiano para os tecidos do sistema nervoso central.” 2.1.15 Córtex cerebral Para Machado (2007) o córtex cerebral, considerado por muitos a estrutura mais complexa do mundo biológico e por mim a estrutura mais complexa do universo, é formado basicamente por corpos de neurônios e fibras mielínicas, as quais estabelecem as mais inimagináveis e intrincadas conexões pelas quais segue o impulso nervoso. É dividido ultraestruturalmente em isocórtex e alocórtex. O isocórtex constitui a grande maioria das áreas corticais, apresentando as camadas moleculares, granular externa, piramidal externa, granular interna, piramidal interna e camada de células fusiformes. O alocórtex é caracterizado por não apresentar, em qualquer parte de sua extensão, as seis camadas encontradas no isocórtex de maneira distinta, estando relacionado com as funções olfativas e apresentando, evolutivamente, uma diminuição relativa ao isocórtex à medida que avançam os degraus da escala zoológica. (MACHADO, 2007). 2.1.16 Núcleos de nervos cranianos no tronco encefálico Os núcleos de nervos cranianos localizam-se no tronco encefálico de maneira mais ou menos ordenada. “O modo pelo qual estão dispostos permitiu delinear os critérios que levaram à atual classificação de seus componentes em colunas longitudinais de acordo com sua funcionalidade e especificidade.” (ERHART, 2007). 2.2 UMA INTRODUÇÃO À NEUROCIRURGIA 17 As patologias neurológicas são as principais doenças crônicas de nossa sociedade e a via final comum a muitos distúrbios neurológicos é a disfunção musculoesquelética. Pacientes com tais distúrbios estão sujeitos a um descondicionamento tal que aumenta as perdas funcionais, decorrentes da fraqueza, imobilidade, comprometimento dos reflexos posturais, dores articulares e da depressão do paciente e seus familiares. Um cérebro lesado jamais pode ser completamente restaurado. Os tecidos nervosos submetidos a traumatismos ou hemorragias não são capazes de suportar a excessiva compressão devida ao desenvolvimento de coágulos ou à presença de edema. A pressão resultante sobre o tecido circunjacente pode deslocar os centros vagais, ou interromper a função dos tecidos mais próximos. É comum o desenvolvimento de paralisa, coma e dor crônica, após lesões do sistema nervoso central. Muitas doenças cerebrais se manifestam através de distúrbios comportamentais e psiquiátricos. A recuperação costuma ser lenta e imprevisível. Os problemas neurológicos variam com o passar do tempo e podem afetar os mais diversos aspectos da vida cotidiana. A enfermagem neurológica tornou-se uma especialidade, demandando conhecimentos de neuroanatomia, neurofisiologia, procedimentos neurodiagnósticos, cuidados especiais de enfermagem e cuidados de reabilitação. Além da contínua avaliação da função neurológica e das necessidades do paciente, o profissional de enfermagem deve identificar eventuais problemas, estabelecer objetivos mútuos, orientar condutas, usar intervenções de enfermagem apropriadas e avaliar os resultados de cada cuidado. É certo que, por vezes, o paciente pode experimentar alterações corporais, comprometimento cognitivo, distúrbios de visão e da fala, e diminuição da auto-estima, não obstante, a enfermeira e a equipe de saúde podem redefinir problemas, sugerir opções, proporcionando otimismo e ajudar o paciente a obter o controle da situação, fornecendo recursos educacionais e de apoio. Assim, podemos ver que a assistência a pacientes neurocirúrgicos exige além de muito conhecimento, equilíbrio emocional para lidar com a recuperação gradativa desses pacientes. (SMELTZER; BARE, 2002). 2.3 PACIENTE SUBMETIDO À NEUROCIRURGIA INTRACRANIANA 18 Segundo Smeltzer; Bare (2002), nos últimos anos, determinados avanços tecnológicos têm ajudado a refinar os procedimentos neurológicos já existentes e a desenvolver novas técnicas. Técnicas neuroradiológicas cada vez mais sofisticadas têm tornado possível localizar lesões intracranianas. A melhora da iluminação e da magnificação durante a cirurgia tornaram possível obter uma visão tridimensional do campo operatório. A utilização de laser capacitou os neurocirurgiões a removerem tumores com maior precisão, acarretando mínimo traumatismo ao tecido circunjacente, este fator é da mais elevada importância em neurocirurgia. Além disso, hoje é possível coagular vasos adjacentes a estruturas nobres sem causar lesões destas referidas estruturas. Os instrumentos de microcirurgia permitem uma dissecção detalhada e delicada, com traumatismo residual mínimo. Os sistemas de dissecção e aspiração ultra-sônica permitem a exérese rápida e delicada de certos tumores cerebrais e medulares, com excepcional grau de precisão. Sondas instaladas profundamente no tecido cerebral podem ser usadas para a aplicação de radioterapia intersticial, hipertermia ou quimioterapia. Supratentorial Local da cirurgia Acima do tentório. Infratentorial Transesfenoidal Abaixo do tentório ou ao Sela túrcica e pequenos nível do tronco cerebral. Local da incisão A incisão é feita sobre a A incisão área a ser operada, via de contornando tumores hipofisários. é feita Abordagem pela cavidade o lobo nasal. regra, localiza-se por sob a occipital, ao nível da porção linha de implantação dos mais alta do pescoço. cabelos. Intervenções de Enfermagem indicadas Manter a cabeceira do leito Manter o pescoço alinhado. elevado 30-45º Manter o tamponamento Evitar a flexão ou rotação nasal, reforçando-o Posicionar o paciente em do pescoço, visando impedir conforme necessário. decúbito dorsal ou lateral a tração sobre a linha de Instruir o paciente para (evitar o decúbito sobre a sutura. linha da sutura). que este não assoe o nariz. Posicionar o paciente em Manter a cabeceira da decúbito lateral. Evitar o leito elevada, a fim de posicionamento do paciente promover em decúbito dorsal, a menos venosa, a e drenagem facilitar a que seja de preferência do drenagem do local da cirurgião. Quadro 1 - Abordagens neurocirúrgicas do crânio. Fonte: Smeltzer e Bare (2002). cirurgia. 19 2.4 AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA Os procedimentos diagnósticos pré-operatórios incluem, dentre outros, a realização de tomografia computadorizada (TC), a fim de demonstrar a lesão e mostrar o grau de edema cerebral circunjacente, bem como revelar as dimensões ventriculares, e a existência de eventuais herniações de estruturas intracranianas. A imagem por ressonância magnética (RM) propicia informações similares às conhecidas pela TC, com a vantagem adicional de possibilitar o exame da lesão em outros planos, e com melhor definição de imagem. A angiografia cerebral pode ser usada para o estudo do aporte sanguíneo de tumores, ou para conhecer informações acerca de lesões vasculares (aneurismas, por exemplo). (SMELTZER; BARE, 2002). 2.5 NEOPLASIA CEREBRAL Os gliomas são os tumores primários mais comuns que afetam o cérebro, representando 50 a 60% dos tumores cerebrais. Eles possuem morfologia e expressão gênica semelhantes à da glia, astrócitos e oligodendrócitos e seus precurssores, que são as células não excitáveis do sistema nervoso central. Para Louis et al. (2000): Os tumores cerebrais representam um desafio ímpar, pois afetam o órgão que é a essência do “ser”. Além disso, como cada área do cérebro serve a uma função diferente, porém vital, a terapia que é mais efetiva para outros cânceres – remoção cirúrgica do órgão inteiro ou do tumor com uma generosa porção de tecido normal ao redor – apresenta grandes limitações para curar cânceres no cérebro. Infelizmente, a maioria dos tumores cerebrais é relativamente insensível a outros tratamentos, incluindo a radioterapia e a quimioterapia. 20 Tabela 1 - Incidência dos tumores intracranianos conforme a faixa etária Infância Tipo de tumor Astrocitoma –glioblastoma Meduloblastoma Ependimoma Craniofaringioma Adulto % 38-46,7 19 12 9 Tipo de tumor Astrocitoma-glioblastoma Metastático Meningioma Schwannoma Ependimoma Adenoma hipofisário Oligodendroglioma % 40 20 15 8 7 7 5 Fonte: Adaptado de Duarte et al. (1994 apud NEVES, 2006, p. 19). Atualmente, o sistema de classificação para tumores cerebrais mais desenvolvido e aceito é o da Organização Mundial da Saúde. (COLLINS, 1998). Os gliomas estão divididos em categorias baseadas no grau de malignidade das células, nas suas características invasivas e na capacidade de necrose. Esta classificação é dividida em graus de I a IV. Grau I é o menos maligno e inclui o astrocitoma pilocítico, bem definido histopatologicamente, os astrocitomas em grau II, os astrocitomas anaplásticos em grau III e os glioblastomas em grau IV. Oligodendrogliomas têm sido classificados com uma divisão primária em variantes anaplásticos e de baixo grau. (LAWS; SHAFFREY, 1999; DAÍ; HOLLAND, 2001; HOLLAND, 2001), como se verifica na Tabela 2 a seguir. Tabela 2 - Gliomas: seus graus histológicos e freqüência de invasão Tumor Astrocitoma grau I Astrocitoma grau II Astrocitoma grau III Astrocitoma grau IV Glioblastoma m. grau IV Oligodendroglioma grau II Oligodendroglioma grau III Outras denominações Pilocítico, juvenil Fibrilar, protoplasmático, Normal, baixo grau Anaplástico, gemistocítico Maligno Normal Anaplásico Fonte: Adaptado de Laws e Shaffrey (1999). 2.6 TRATAMENTO DAS NEOPLASIAS CEREBRAIS Freqüência de invasões Raramente invasivo Muitas vezes invasivo Quase sempre invasivo Sempre invasivo Sempre invasivo Freqüentemente invasivo Quase sempre invasivo 21 De acordo com Torres et al. (2004), na avaliação de novas drogas, ou na comparação de seus resultados com tratamentos clínicos padrão, há três medidas principais: resposta, tempo para progressão e sobrevida. As medidas são efetuadas ao longo do maior diâmetro da parte da lesão intensificada pelo contraste e, em seguida, ao longo da dimensão perpendicular; elas são então multiplicadas para se obter a área em corte transversal. Uma resposta completa significa o desaparecimento de todas as áreas intensificadas do tumor à RNM e TC juntamente com um exame estável ou de melhora. Uma resposta parcial é definida por diminuição de mais de 50% no tamanho do tumor, com um exame estável ou de melhora. Uma resposta menor corresponde a uma diminuição de 25% a 50% no tamanho do tumor, doença estável com uma alteração menor que 25% no tamanho tumoral e doença progressiva com um aumento de mais de 25% no tumor. (TORRES et al., 2004). Torres et al. (2004) ainda afirma quando diz que, estudos recentes colocaram em questão a validade dos critérios de resposta como indicadores de benefício do tratamento e encontraram uma ausência de correlação entre a resposta radiológica e a sobrevida global. Dois outros fatores podem ser mais importantes clinicamente: o tempo para progressão, definido como o tempo do início do tratamento até a progressão radiológica do tumor; e a sobrevida, o tempo do início de tratamento até a morte. Segundo Corrêa (2007) existem vários tipos de tratamentos, alterando conforme a histologia do tumor e de sua localização. Em princípio, todos os tumores cerebrais devem ser tratados cirurgicamente, mesmo os benignos, cuja remoção completa poderá levar a cura da doença. A neurocirurgia tem por objetivo ressecar o tumor, podendo ser guiada por estereotaxia ou neuronavegação. É importante salientar que a biópsia, quando recomendada é feita na sala de cirurgia, analisada pelo patologista presente, permitindo o diagnóstico adequado e o estabelecimento do melhor procedimento terapêutico. Ainda conforme Corrêa (2007): Um dos mais eficientes métodos de tratamento dos tumores malignos é a Braquiterapia, especialmente nos casos de recidiva (volta da doença). Isso porque o método à base de isótopos implantados no interior do tumor utiliza baixa taxa de radiação, distribuída contínua e uniformemente de acordo com o planejamento físico. Os isótopos (o Iodo-125 é o mais apropriado) são importados por clínicas radiológicas em conformidade com a legislação (Conselho Nacional de Energia Nuclear). O tempo do tratamento é variável, dependendo de cada caso e do próprio tipo de tratamento. A Braquiterapia dura de duas a quatro semanas, em média. A Telerradioterapia, em média, 45 dias, em doses fracionadas de 2ª a 6ª com duração de 2 horas cada sessão. A Quimioterapia é feita em ciclos semanais, quinzenais, entre outros. Outra forma eficaz de tratamento é a Radiocirurgia Estereotáxica, feito em dose única, na maioria das vezes. Está indicado em tumores benignos e metástases, quando o diâmetro não ultrapassa 3 cm no seu maior eixo. Há também a Radiocirurgia 22 Estereotáxica Fracionada, uma opção para casos selecionados, geralmente em tumores com diâmetro irregular e superior a 3 cm em alguns eixos de medida. Em tumores malignos é possível prolongar a sobrevida do paciente entre 8 e 18 meses, em média, e em alguns casos até mesmo curá-lo, dependendo do tipo do tumor e da fase em que foi diagnosticado. Nos tumores benignos a recidiva é rara. Corrêa (2007) enfatiza que as possibilidades de êxito do tratamento aumentam quando é realizado por uma equipe multidisciplinar, onde oncologistas, radiologistas, radioterapêuticas, neurocirurgiões, psicólogos, físicos, neurologistas, possam atuar em conjunto na busca da melhor solução para a recuperação da qualidade de vida do paciente. “De 13 a 45% dos pacientes com gliomas retornam ao trabalho no período pósoperatório ou pós-irradiação; até 70% têm um nível satisfatório de funcionamento durante em média 8 meses.” (CORREA, 2007). A descompensação funcional ocorre tardiamente na evolução da doença e precede a deterioração terminal. Esta curta janela de oportunidade é fundamental para se planejar o tratamento. Tabela 3 - Taxa de sobrevida média para gliomas. Tipo Tumoral Glioma de baixo grau1 Astrocitoma cerebelar Glioma óptico Astrocitoma anaplástico Glioblastoma Oligodendroglioma Ependimoma (diferenciado) (anaplástico) Modalidade de tratamento Ressecção total grosseira Biópsia/cirurgia subtotal Cirurgia total + RT2 Cirurgia Cirurgia Cirurgia + RT Cirurgia somente Cirurgia + RT Cirurgia + RT + quimio Cirurgia somente Cirurgia + RT Cirurgia + RT + quimio Cirurgia Cirurgia + RT Cirurgia + RT Fonte: Adaptado de Edmonson (1995). 1 2 A localização e a ressecabilidade ditam a sobrevida. Abreviaturas utilizadas nesta tabela: RT, radioterapia, quimioterapia. Sobrevida Média 5-7 anos 35% em 5 anos 46% em 5 anos Alta taxa de cura microcístico >10 anos >10 anos 1 ano 2-3 anos 3-5 anos 4 meses 9 meses 9-10 meses 30% em 5 anos 85% em 10 anos 55% em 10 anos 10 anos 2-5 anos# 23 Ressalta-se que o ependimoma maligno com ressecção subtotal e invasão do líquor ditam um prognóstico pobre, enquanto a ressecção total grosseira de um ependimoma supratentorial com achados liquóricos negativos dita um prognóstico mais longo. 2.7 DADOS ESTATÍSTICOS DAS NEOPLASIAS CEREBRAIS NO BRASIL Segundo Monteiro; Koifman (2003), a distribuição dos óbitos por tumores de cérebro quanto à sua natureza (neoplasia maligna ou benigna) apresentou grande instabilidade no período estudado. Embora os tumores malignos tenham sido quase sempre mais freqüentes, passaram a representar mais de 80% após a implantação do Código Internacional de Doenças - CID-10. Para eless, os tumores benignos foram pouco freqüentes, variando entre 2,1 e 5,9%, enquanto os classificados como de natureza não especificada chegaram a representar mais da metade dos tumores cerebrais na CID-9, tendo se reduzido para 3,3% quando a CID-10 entrou em vigor. A taxa bruta de mortalidade por tumores do cérebro apresentou um aumento de 59,0% ao longo do período: de 1,78/100 mil (1980/1981) para 2,83/100 mil (1996/1997). Esse incremento foi mantido mesmo após a padronização por idade, sendo da ordem de 2,24/100 mil no primeiro e 3,35/100 mil habitantes no último biênio (aumento de 49,9%). O crescimento médio foi de 2,8% ao ano, apresentando ampla variação nas diferentes faixas etárias, especialmente ao se analisar em separado as décadas de 80 e 90 (Figura 1). Os coeficientes de mortalidade nos grupos etários menores de 50 anos apresentaram declínio na década de 80, mas cresceram no período seguinte. Já as taxas de mortalidade dos maiores de 50 apresentaram crescimento anual importante em toda a série, sendo que o extrato de 70 e mais anos cresceu aproximadamente 6% ao ano nos dois períodos. (MONTEIRO; KOIFMAN, 2003). Ainda para Monteiro; Koifman (2003), este crescimento parece ser explicado apenas parcialmente pela maior disponibilidade de acesso aos cuidados com a saúde, em particular aos meios de diagnóstico por imagem. A elucidação dos fatores relacionados com esse incremento permitiria a elaboração de práticas preventivas com vistas à redução desses tumores que, embora de baixa magnitude, são de grande importância devido à alta letalidade. Segundo eles, novos estudos devem ser desenvolvidos, tanto para dimensionar com melhor precisão a contribuição das novas tecnologias diagnósticas introduzidas nos últimos 30 anos, quanto para estimar a associação da exposição a potenciais fatores de risco para esses tumores na modificação de seu padrão de distribuição observado no Brasil. 24 2.8 CUIDADOS PRÉ E PÓS-OPERATÓRIOS AO PACIENTE SUBMETIDO À CIRURGIA NEUROLÓGICA Adotamos os autores Smeltzer e Bare (2002) e Nettina (1998) para referirmos os principais cuidados de enfermagem no pré e pós-operatório. 2.8.1 Cuidados de Enfermagem Pré-Operatórios - Avaliar o nível de consciência e responsividade aos estímulos; - Identificar quaisquer déficits neurológicos como paralisia, disfunção visual, alterações na personalidade e na fala; - Identificar distúrbios vesicais e intestinais; - Testar a função motora pela força de preensão manual ou pela impulsão com os pés; - Avaliar quanto à compreensão e orientar o paciente e família acerca do procedimento cirúrgico previsto e suas possíveis seqüelas; - Avaliar e amenizar suas reações à cirurgia eminente (aliviando a dor, minimizando a ansiedade, evitando lesões); - Avaliar a disponibilidade de sistemas de suporte para o paciente e para a família; - Trabalhar os estados físicos e emocionais do paciente até o nível ótimo, a fim de reduzir o risco de complicações pós-operatórias (déficits neurológicos e seus impactos potenciais depois da cirurgia); - Utilizar apoios de trocanter e apoiar os pés contra uma prancha de pé quando os braços ou as pernas estiverem paralisados; - Encorajar a deambulação quando o paciente se encontrar em condições de realizá-la; - Utilizar material para escrever e/ou cartões com figuras e palavras, identificando a comadre, copo para água, cobertor e outros itens freqüentemente utilizados, quando o paciente está afásico; - Fornecer informação sobre o que pode esperar depois da cirurgia (curativos, visão limitada devido ao edema, traqueostomia ou tubo orotraqueal). 25 2.8.2 Cuidados de Enfermagem Pós-Operatório - Avaliar padrão e freqüência respiratória revendo os valores gasométricos; - Avaliar e documentar as flutuações nos sinais vitais indicativo de Pressão intracraniana (PIC) elevada; - Medir temperatura a intervalos regulares para avaliar a hipertermia secundária a lesão do hipotálamo; - Observar sinais sutis de déficits neurológicos, como a resposta diminuída aos estímulos, problema da fala, dificuldade na deglutição, fraqueza ou paralisia de um membro, alterações visuais (diplopia, turvação visual) ou parestesias; - Registrar e relatar qualquer atividade convulsiva; - Inspecionar o curativo cirúrgico para evidencia de sangramento e drenagem do Líquor cefaloraquidiano (LCR); - Verificar o tamponamento nasal em paciente que sofre cirurgia transfeinodal para verificação de sangue ou drenagem de LCR; - Fazer controle rigoroso do balanço hidroeletrolítico; - Manter, no caso de lesão cervical alta, o tubo endotraqueal, até que esteja assegurada a função respiratória, devendo ser estimuladas a respiração profunda e a tosse; - Verificar a retenção urinária apalpando a região suprapúbica podendo haver incontinência; - Realizar a higiene oral no mínimo de 4 em 4 horas, uma vez que a mucosa oral fica ressecada e a sede resulta da respiração oral; - Administrar medicação conforme prescrição médica (c.p.m). 2.8.3 Sentimentos Vivenciados pelos Pacientes no Pré e Pós-Operatório A experiência do câncer é sempre difícil, seja qual for à idade dos pacientes, a natureza da doença ou o resultado do tratamento. Muito embora os tratamentos atuais consigam curar um grande número de pacientes, o impacto do diagnóstico, o próprio tratamento e suas implicações são vividos por eles com dor e sofrimento. 26 Considerando-se os tumores cerebrais, esta experiência é ainda mais intensa, pois os tumores cerebrais são de prognóstico desfavorável e geralmente acarretam seqüelas físicas e intelectuais. Por outro lado, a vivência emocional dos pacientes em relação à doença e ao tratamento pode provocar seqüelas psicopatológicas, mesmo na ausência de seqüelas cerebrais e intelectuais importantes, geralmente eles apresentam efeitos psíquicos prejudiciais que podem influenciar muito tempo depois, em suas escolhas, suas idéias e nos seus pensamentos. Para Silva (2002 apud CARNEIRO; POMATTI; BERTOLETTI, 2007, p. 229) “O ser humano existe nos níveis físico, mental, emocional e espiritual. Todos valiosíssimos, nenhum pode ser desprezado na busca da harmonização, portanto, todos devem ser cuidados!.” Por isso a importância de haver uma parceria entre o paciente e a equipe multidisciplinar com o propósito de reduzir os sentimentos vivenciados por eles nesse momento tão delicado. Normalmente os pacientes mostram-se despreparados e ansiosos, devido à falta de conhecimento sobre a doença, compreensão sobre a cirurgia e possíveis complicações pós-operatórias e sua recuperação. Por essa razão deve-se reconhecer a individualidade de cada paciente, pois, mesmo que os diagnósticos se assemelhem, cada um tem características e reações próprias. Com a assistência individualizada, segundo Guido (1994 apud CARNEIRO; POMATTI; BERTOLETTI, 2007, p. 232), valorizando o paciente e familiar, com sentimentos próprios e sensibilidade, o enfermeiro terá condições de compartilhar desse momento gerador de insegurança, medo e desconforto, expressando sua solidariedade. Essa relação de troca é a base da assistência, promovendo uma espera mais tranqüila, com acontecimentos previsíveis e, portanto um planejamento assistencial conveniente tanto para o paciente como para o familiar. 2.9 REFERENCIAL TEÓRICO 2.9.1 Teoria de Enfermagem transcultural de Madeleine Leininger 27 Sendo o objetivo geral deste estudo conhecer os sentimentos e expectativas de pacientes que se submeterão à cirurgia de neoplasia cerebral, optou-se para embasar o mesmo a teoria de enfermagem transcultural de Madeleine M. Leininger. A justificativa para tal escolha foi por concordar com a teorista quando afirma que a cultura influencia no modo de vida das pessoas. Através de sua teoria, promoveu-se uma prática assistencial respeitando as crenças de cada participante desse estudo. Leininger (apud GEORGE, 2000, p. 297), definiu enfermagem transcultural como: Um subcampo ou ramo da enfermagem que enfoca o estudo comparativo e a análise de culturas como respeito à enfermagem e às práticas de cuidados de saúde-doença, às crenças e os valores, com a meta de proporcionar um serviço de enfermagem significativo e eficaz para as pessoas de acordo com seus valores culturais e seu contexto de saúde-doença. Sua primeira percepção em relação a isso foi na década de 50, quando trabalhava como enfermeira clínica, cuidando de crianças problemáticas. Avaliou as diferentes formas comportamentais apresentadas pelas crianças e associou essas diferenças à diversidade cultural. Segundo o Ângelo e Bousso (apud BRASIL, 2001, p. 15): Todas as famílias são portadoras da cultura da sociedade em que vivem e da cultura com a qual se identificam. Estilos de vida, valores, ideais, crenças e práticas estão impregnados em suas definições e são transmitidos de geração para geração afetando o comportamento e, conseqüentemente, o estado de saúde da família. Sabe-se que o cuidado é universal, ou seja, prestado no mundo inteiro, mas existem diferentes formas de cuidar e essas são atribuídas às culturas de cada pessoa. Conforme Leininger (apud GEORGE, 2000, p. 298), “[...] culturas diferentes percebem, conhecem e praticam o cuidado de maneiras diferentes, apesar de haver pontos comuns no cuidado de todas as culturas do mundo.” Leininger (apud GEORGE, 2000, p. 298) observou a falta de conhecimento da enfermagem acerca das diferentes culturas apresentadas, com isso, propôs a se aprofundar na antropologia, tornando-se a primeira doutora em antropologia, em 1959, mais tarde construiu a teoria da enfermagem transcultural. Leininger construiu a sua teoria da enfermagem transcultural sobre a premissa de que as pessoas de cada cultura não apenas podem saber e definir as formas nas quais 28 experimentam e percebem seu mundo de atendimento de enfermagem, mas também podem relacionar essas experiências e percepções com suas crenças e práticas gerais de saúde. Baseado nessa premissa, o atendimento de enfermagem desenvolve-se no contexto cultural no qual será proporcionado. O modelo Sunrise (sol nascente) proposto por Leininger tenta interpretar as relações de mundo e a estrutura cultural e social que envolve os seres humanos, explica as dimensões da diversidade e universalidade do cuidado cultural. O modelo Sunrise, tem por finalidade possibilitar a visualização das diversas dimensões da teoria e o inter-relacionamento dos seus respectivos conceitos, a fim de se compreender o cuidado humanizado e de se obter um conhecimento do cuidado de enfermagem a ser prestado. O nível I, o mais abstrato, é uma visão de mundo-sistema social, estuda o indivíduo dentro de uma determinada cultura, em uma cultura específica e em várias culturas. O nível II – cuidado de saúde – oferece conhecimento sobre os indivíduos, famílias, grupos e instituições, em vários sistemas de saúde. O nível III – sistema profissional e popular – estuda as características de cada sistema, suas semelhanças e diferenças. O nível IV, o menos abstrato, é o nível das decisões e ações de cuidado de enfermagem. Conforme Leininger (apud GEORGE, 2000, p. 302), “a finalidade do modelo é de auxiliar o estudo de como os componentes da teoria influenciam o estado de saúde e o atendimento proporcionado aos indivíduos, famílias, grupos, comunidades e instituições de uma cultura.” Esse modelo baseia-se nas seguintes etapas: a) Investigação: essa etapa implica adquirir conhecimento da cultura e estrutura social do paciente; b) Identificação: a partir da investigação identificam-se as características comuns ou distintas à cultura que está sendo investigada; c) Diagnóstico: após a investigação e identificação é estabelecido um diagnóstico da cultura da pessoa; d) Planejamento e implementação das ações: inclui o planejar e realizar decisões e ações de enfermagem, reverenciando a cultura do paciente. Leininger (apud GEORGE, 2000, p. 300) afirmava que para desenvolver um planejamento e implementação das ações de enfermagem, era necessário estabelecer um diagnóstico a partir da diversidade e universalidade cultural existentes entre o sistema de saúde e o cliente, família, sociedade, grupo ou instituição sócio-cultural. Os três modos de 29 ação são: A conservação/manutenção do cuidado cultural: inclui as ações e decisões profissionais assistenciais, apoiadoras, facilitadoras ou capacitadoras que ajudam as pessoas de uma determinada cultura a reter e/ou preservar valores relevantes de cuidado, de forma que possam manter seu bem-estar, recuperar-se da doença ou encarar as deficiências e/ou a morte. O ajustamento/negociação do cuidado cultural: inclui as ações e decisões profissionais criativas assistenciais, apoiadoras, facilitadoras ou capacitadoras que ajudam as pessoas de uma determinada cultura a adaptar-se ou a negociar com as outras um resultado de saúde benéfico ou satisfatório com prestadores de cuidados profissionais. A repadronização/reestruturação do cuidado cultural: inclui as ações e decisões profissionais assistenciais, apoiadoras, facilitadoras ou capacitadoras que ajudam o cliente a reorganizar, trocar ou modificar grandemente sua forma de vida para um padrão de atendimento de saúde novo, diferente e benéfico enquanto são respeitados os valores culturais e as crenças do cliente e ainda proporcionando um modo de vida benéfico e mais saudável do que o anterior às mudanças co-estabelecidas com o cliente. Avaliação: apesar do modelo Sunrise não ter uma especificidade para a avaliação Leininger (apud GEORGE, 2000, p. 305) destaca que: Ela atribui grande importância sobre a necessidade de o atendimento de enfermagem proporcionar formas que beneficiem o cliente e sobre a necessidade do estudo sistemático dos comportamentos de cuidados de enfermagem, visando determinar quais são os apropriados para obter a cura, a saúde ou o bem-estar naquele modo de vida e padrão comportamental de cultura. O cuidado é um fator primordial na prática assistencial de enfermagem. Para que o enfermeiro preste esse cuidado, é necessário identificar as diferenças culturais existentes entre ele e o cliente. O choque cultural e a imposição cultural podem se fazer presentes quando isso não ocorre. O choque cultural acontece quando uma pessoa de determinada cultura se depara com uma cultura distinta da sua deixando o indivíduo confuso frente às diferenças encontradas. Conhecer previamente a cultura pode minimizar esse choque. A imposição cultural ocorre quando uma pessoa tenta impor sua cultura, seu modo de vida, sua crença e/ou valores para pessoas de uma cultura diferente da sua. Essa imposição cultural pode estar presente de várias maneiras no contexto social. De acordo com Leininger (apud GEORGE, 2000, p. 307), “a meta da teoria é melhorar e proporcionar um cuidado culturalmente congruente para as pessoas que seja benéfico, ajuste-se, e seja útil aos modos de vida saudáveis do cliente, da família ou do grupo familiar.” A teoria de Leininger tem como objetivo enfatizar a realização de um cuidado 30 culturalmente conveniente com a cultura do paciente. A forma de desenvolver esse cuidado depende de fatores influenciadores do cotidiano de vida e cultura dos indivíduos que poderão interferir no processo de saúde/doença das pessoas. 31 3 METODOLOGIA Descrever-se-á neste capitulo, as etapas metodológicas que foram desenvolvidas no estudo em questão. Segundo Minayo (2002, p. 16), “metodologia é o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade. [...] inclui as concepções teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que possibilitam a construção da realidade e o sopro divino do potencial criativo do investigador.” É através da metodologia que se descreve os instrumentos e técnicas que serão utilizadas e a forma que seguirá a pesquisa. A mesma autora cita que, “enquanto conjunto de técnicas, a metodologia deve dispor de um instrumento claro, coerente, elaborado, capaz de caminhar os impasses teóricos para o desafio da prática.” Trata-se de um instrumento norteador, que descreveu o caminho percorrido nos estudos teóricos e na sua aplicação em campo de estágio. 3.1 TIPO DE ESTUDO Estudo do tipo convergente-assistencial com abordagem qualitativa na obtenção, sistematização e análise dos dados relacionados aos sentimentos e expectativas dos pacientes que se submeterão à cirurgia de neoplasia cerebral. De acordo com Trentini e Paim (2004, p. 28): A pesquisa convergente-assistencial é aquela que mantém durante todo o seu processo uma estreita relação com a prática assistencial, com a intencionalidade de encontrar alternativas para solucionar ou minimizar problemas, realizar mudança e introduzir inovações na prática; portanto este tipo de pesquisa está comprometida com a melhoria direta do contexto social pesquisado. Na pesquisa qualitativa, existe a interação com os participantes do estudo, os dados são obtidos através de entrevistas, história de vida, estudo de caso, observação participantes. Em referência à pesquisa qualitativa, Minayo (2002, p. 21) afirma que esta “trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o 32 que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.” Na opinião de Patrício, Casagrande e Araújo (1999, p. 65): Através de métodos qualitativos também é possível desenvolver propriedades para trabalhar (transformar) as questões sociais, as questões de qualidade de vida, seja quando o produto da pesquisa refere-se a conhecimento aplicado, seja quando o próprio estudo origina situações de mudanças em favor dos pesquisados. Diante desses pressupostos, considerou-se ser este tipo de pesquisa o mais adequado para delinear os caminhos no desenvolvimento deste estudo. 3.2 LOCAL DE ESTUDO O local de aplicação do estudo foi a Unidade Neurológica São Lucas (Setor 12) do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), uma entidade filantrópica de direito privado e sem fins lucrativos, fundada em 8 de dezembro de 1904, com sede à Rua Vidal Ramos, número 215, e tem como mantenedora a Sociedade Divina Providência de Florianópolis/SC. O HNSC é considerado uma instituição de grande porte, contando atualmente com 386 leitos para internação e 14 para observação, sendo credenciado como referência hospitalar para atendimento em urgência e emergência, atendimento à gestante de alto risco, alta complexidade em neurocirurgia e ortopedia/traumatologia. Este recebeu em março de 2001, o titulo “Hospital Amigo da Criança”. A Unidade Neurológica São Lucas (Setor 12), está localizada no terceiro pavimento do HNSC. O setor ocupa uma área de 308,93 m2, é composto por oito quartos sendo três destes com banheiro, totalizando vinte três leitos além das seguintes dependências: 01 rouparia; 01 posto de Enfermagem, dividido em área para recepção, prescrição e medicação; 01 sala de curativos; 01 sala de expurgo; 01 sala de equipamentos; 01 sala de resíduos; 01 sala de preparo de materiais; e 03 banheiros. O quadro de funcionários do setor conta com uma equipe multiprofissional composta por uma enfermeira chefe, uma escriturária, treze técnicas de enfermagem (4 no período matutino, 4 no período vespertino, 3 no plantão noturno A e 2 no plantão noturno B) e duas funcionárias para o serviço de limpeza. 33 Os principais motivos das internações de pacientes no setor 12 são: Traumatismo Cranioencefálico (TCE), Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico e hemorrágico, aneurisma cerebral, tumores, hidrocefalia, entre outros. 3.3 AMOSTRA Foram convidados a participar do estudo três pacientes portadores de neoplasia cerebral. Utilizou-se pseudônimo de nomes de pedras preciosas de forma a preservar o anonimato, conforme descrito nas considerações éticas. 3.4 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS Em primeiro lugar foi solicitada autorização do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), para realização do estudo em suas dependências através do Termo de Consentimento Institucional (Anexo A). Para o desenvolvimento desse estudo, de forma a garantir os princípios éticos que envolvem a pesquisa com seres humanos, foi considerada a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde de 10 de outubro de 1996 (BRASIL, 1996) e respeitada a Lei do Exercício Profissional de Enfermagem (SANTA CATARINA, 2003) será dada ênfase aos seguintes aspectos: - A garantia de anonimato dos participantes do estudo: como forma de preservar a identidade dos mesmos, foi usado nomes fictícios, utilizando-se nomes de pedras preciosas; - Sigilo das informações não consentidas: estão sendo divulgadas somente as informações que foram permitidas pelos participantes; - Liberdade de participação: o participante pôde recusar-se a participar ou não do estudo, de permanecer ou desistir em qualquer momento da pesquisa; - Garantia de esclarecimento: antes e durante o estudo foram apresentados os objetivos, as contribuições, o método desenvolvido e a importância de sua participação. - Respeito aos valores culturais, sociais, morais, éticos e religiosos. 34 Os aspectos destacados estão descritos no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido a fim de assegurar os princípios éticos da pesquisa e que foi entregue aos participantes solicitando, destes a assinatura (Apêndice A). 3.5 MOMENTOS DO ESTUDO O estudo foi desenvolvido nos meses de abril a dezembro de 2007.Este processo foi baseado na proposta metodológica de Patrício (1999), que é composta por três momentos interligados e constantes, quais sejam: entrando no campo, ficando no campo e saindo do campo. Conforme Patrício, Casagrande e Araújo (1999, p. 69) “nos estudos que requerem trabalho de campo, é preciso todo um processo exploratório especial para subsidiar a entrada no campo, a permanência no campo e a saída deste.” 3.5.1 Entrando no Campo O processo “entrando no campo”, para Patrício, Casagrande e Araújo (1999, p. 69) “representa os primeiros momentos de interação com o contexto onde será desenvolvido o estudo. Pode ser identificado como o período de pesquisa exploratória, que irá viabilizar o estudo propriamente dito.” A visita ao Setor 12 aconteceu no dia 20 de junho, a qual permitiu um encontro com a enfermeira para interá-la da proposta do projeto, do período de realização da prática assistencial, e obter informalmente seu consentimento para tal. Também através de contato pessoal com a enfermeira do departamento de enfermagem do HNSC, foi apresentada a proposta da pesquisa e solicitado de forma informal, autorização para mencionar nos estudos o nome da referida instituição. Nesta etapa, foram construídos instrumentos para aplicação na prática assistencial, como: o cronograma, o termo de consentimento para participação do estudo, entrevista aplicada com os participantes do estudo (Apêndice B), instrumento de registro e análise de dados da observação participante – Diário de Campo (Apêndice C). 35 A aproximação com a equipe multidiciplinar do setor 12 aconteceu no dia primeiro de novembro, primeiro dia do estágio, onde foram convidados os possíveis participantes da pesquisa, apresentada a proposta do estudo, seus objetivos e técnicas metodológicas, além das questões éticas (assinatura dos termos de consentimentos). Na oportunidade realizou-se o reconhecimento da estrutura física do setor. 3.5.2 Ficando no campo Os momentos caracterizados como “Ficando no Campo”, definido por Patrício, Casagrande e Araújo (1999, p. 70), “processo que representa os diferentes momentos de interação com os sujeitos do estudo, nos tipos de estudo que exigem observação com entrevista no contexto dos sujeitos.” A prática assistencial foi desenvolvida no período de 01/11 à 07/11 onde aconteceu a aplicação do estudo em questão. Nesta etapa realizou-se os seguintes processos: levantamento e registros de dados. a) Levantamento de dados: As atividades para levantamento de dados com os participantes deste estudo foram operacionalizadas por meio de duas técnicas, a da observação participante e a da entrevista. A técnica de observação participante, segundo Minayo (2002, p. 59): Se realiza através do contato direto do pesquisador com o fenômeno observado para obter informações sobre a realidade dos atores sociais em seus próprios contextos. [...] A importância desta técnica reside no fato de podermos captar uma variedade de situações ou fenômenos que não são obtidos por meio de perguntas, uma vez que, observados diretamente na própria realidade, transmitem o que há de mais imponderável e evasivo na vida real. Patrício (1996 apud DELFINO, 2003 p. 49) refere que: Na técnica de observação participante o pesquisador está presente no contexto da pesquisa, prestando atenção a tudo o que acontece, ouvindo, tocando, vendo, sentindo e falando com os sujeitos envolvidos quando houver necessidade de questionar sobre outros temas de interesse para o estudo. Esta técnica ainda 36 possibilita levantar expressões verbais e não verbais do sujeito e identificar seus significados humanos de razão e sensibilidade, seus mitos e metáforas, de tal forma que se consiga chegar mais próximo da realidade que se deseja compreender A observação participante iniciou-se a partir do primeiro dia do estágio no campo de estudo. Outra técnica utilizada para o levantamento dos dados foi a entrevista, que segundo Cruz Neto (2002, p. 57) “é o procedimento mais usual no trabalho de campo. Através dela, o pesquisador busca obter informes contidos na fala dos atores sociais.” Corroborando com esta opinião, Trentini e Paim (2004, p. 76) alegam que “embora a entrevista tenha por objetivo informações, constitui condição social de interação humana, sem a qual não haverá ambiente favorável para produzir informações fidedignas.” As referidas autoras pontuam que a entrevista aberta, realizada de modo informal, é a mais apropriada na pesquisa convergente assistencial. Esta modalidade de entrevista permite ao pesquisador interagir com o entrevistado sem intencionalidade prévia, estimula o diálogo e a realização de novas perguntas. Foi aplicada aos participantes deste estudo a entrevista aberta e semi-estruturada, caracterizada por Cruz Neto (2002), como perguntas previamente formuladas, onde o informante aborda livremente o tema proposto. b) Registro dos dados: Para registro dos dados obtidos, utilizou-se um diário de campo, instrumento elaborado para documentar a observação participante, no mesmo dia da realização da atividade, que contém data, hora, tempo de duração. Neste será contextualizado as expressões verbais e não verbais tanto dos participantes quanto dos profissionais da área da saúde, a postura profissional, o desenvolvimento das técnicas, critérios assépticos, interação da equipe multidiciplinar com o paciente e seus familiares, utilização de registro de enfermagem e aspectos do ambiente do cenário da prática assistencial. Diário de campo na concepção Cruz Neto (2002, p. 63) “é um instrumento ao qual recorreremos em qualquer momento da rotina do trabalho que estamos realizando. [...] podemos colocar nossas percepções, angústias, questionamentos e informações que não são obtidas através da utilização de outras técnicas.” Chizzotti (1998, p. 58) menciona que: 37 A transcrição das informações pode ser feita por meio de notas manuscritas, respeitando-se o vocabulário, o estilo das respostas e as eventuais contradições da fala, ou por meio de gravador ou vídeo, se não houver reticências do entrevistado. Todas as informações transcritas devem ser passíveis de codificações para serem transformadas em indicadores e índices objetivos de variáveis que se pretende explorar. Já as informações obtidas nas entrevistas, foram redigidas pela pesquisadora, em instrumento próprio, respeitando o vocabulário e reproduzindo as respostas em sua íntegra. Para tanto as mesmas foram gravadas e constam no termo de consentimento esclarecido, a autorização para isto. 3.5.3 Saindo do campo Baseado na idéia de Patrício (1999, p. 73), quanto à saída de campo, “[...] estes momentos podem representar apenas despedidas e agradecimentos, ou encaminhamentos futuros, ou mesmo pode representar o encontro, ou encontros, para a apresentação e devolução de dados, se for o caso.” O momento de saída do campo foi realizado no último dia do estágio 31/10, onde aconteceu uma confraternização com a equipe multiprofissional para as despedidas e agradecimentos cabíveis. 3.6 ANÁLISE DOS DADOS “A análise de dados é o processo de busca e de organização sistemática de transcrições de entrevistas, de notas de campo e de outros materiais que foram sendo acumulados, com o objetivo de aumentar a sua própria compreensão.” (BIKLEN; BOGDAN, 1994, p. 2005). De acordo com Minayo (1992 apud GOMES, 2002, p. 69), as finalidades da fase de análise são: “estabelecer uma compreensão dos dados coletados; confirmar ou não os pressupostos da pesquisa e ou responder às questões formuladas; e ampliar o conhecimento sobre o assunto pesquisado, articulando-o ao contexto cultural da qual faz parte.” 38 A análise dos dados obtidos foi realizada por categorias, que se caracterizaram pelo agrupamento de elementos, idéias ou expressões em torno de um conceito podendo abranger tudo isso. (GOMES, 2002). A operacionalização do processo de análise utilizou os registros dos dados obtidos, que foram analisados segundo a proposta de Minayo (1992 apud GOMES, 2002) obedecendo às seguintes fases: ordenação dos dados, classificação dos dados e análise final. Quanto à ordenação, realizou-se um mapeamento de todos os dados obtidos no trabalho de campo, envolvendo a transcrição, organização e observação dos mesmos, bem como a releitura do material. No que tange à classificação, esta compreendeu a construção dos dados a partir de questionamentos, com base em uma fundamentação teórica, incluindo leituras repetidas dos textos e estabelecendo interrogações quanto à sua relevância. Por fim, a análise final estabeleceu articulações entre os dados (percepções dos sujeitos) e os referenciais teóricos da pesquisa, respondendo à questão temática do estudo, qual seja: “Quais os sentimentos vivenciados por pacientes que se submeterão à cirurgia de neoplasia cerebral?” 39 4 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS: SENTIMENTOS VIVENCIADOS POR PACIENTES QUE SE SUBMETERÃO À CIRURGIA DE NEOPLASIA CEREBRAL Para poder responder a questão norteadora do estudo, foi realizado uma entrevista com cada participante para identificar quais os sentimentos vivenciados pelo paciente portador de neoplasia cerebral. Baseando-se em Minayo (2000, p. 78), após a transcrição da entrevista, as respostas dos questionamentos foram ordenadas a fim de organizar os relatos, após foi realizada a classificação dessas por afinidade criando-se temas emergentes relacionados aos sentimentos vivenciados por portadores de neoplasia cerebral, no período pré-operatório e, por fim, os dados foram correlacionados com o referencial teórico de Madeleine Leininger a fim de responder a indagação da pesquisa. Para preservar o anonimato na apresentação dos sujeitos da pesquisa, optou-se pela utilização de nomes de pedras preciosas, para identificação dos mesmos: Rubi, Diamante e Esmeralda. 4.1 IDENTIFICAÇÃO DA AMOSTRA Idade Nome Religião Natural Escolari Profissão Admissão Diagnóstico no setor dade Macro Adenoma 3 Rubi (M ) Diamante 41 51 Católico Católico (M) Esmeralda 4 (F ) 62 Católica Laguna 1º grau Desempre- (SC) incom. gado Laguna 2º grau (SC) incom. Comerciante Laguna 1º grau Aposentada (SC) incom. Quadro 2 – Identificação da amostra Fonte: Elaboração da autora da pesquisa, 2008. 3 4 (M): Masculino (F) Feminino 08/12/08 Hipofisário 20/06/08 Artrocinoma grau II 19/12/08 Neurinoma do acústico 40 Os sujeitos do estudo apresentaram idades entre 41 e 62 anos; sendo que 66,6% eram do sexo masculino e 33,3% do sexo feminino. Dos participantes do estudo, 100% são católicos e moram na cidade de Laguna (SC); 66,6% têm o 1º grau incompleto e 33,3% o 2º grau incompleto. Em relação à profissão dos entrevistados obtivemos três categorias distintas: 33,3% desempregado, 33,3% comerciante e 33,3% aposentada. 4.2 INTERFERÊNCIAS PROVOCADAS PELA NEOPLASIA CEREBRAL NO COTIDIANO DOS PACIENTES Durante a realização das entrevistas com os pacientes, eles afirmaram que a doença interferiu de várias formas em suas vidas, principalmente na execução das atividades diárias, afetando sua rotina de vida e dos seus familiares. De acordo com Smeltzer et al. (2005, p. 106), quando um membro da família fica doente, todos os outros membros são afetados. Dependendo da natureza do problema de saúde, os membros da família podem precisar empreender várias adaptações em seus estilos de vida existentes ou, até mesmo, reestruturar esses estilos. “Minha mãe é viúva e tem Parkinson há dez anos, esta acamada a dois eu e a minha irmã que cuidamos dela, agora é a minha irmã esta cuidando de tudo, esta tão sobrecarregada que tem dia que ela toma pó de guaraná para agüentar, tem dia que nós temos que pagar para uma vizinha ficar com a mãe pra ela poder vir no hospital me ver. É uma situação bem difícil”. (RUBI). Neste aspecto, Miles (1982, p. 111) corrobora e complementa que a doença, física ou psiquiátrica, pode afetar gravemente o grupo familiar: quando alguém adquire o papel de doente, há uma interrupção em suas atividades sociais habituais e várias tarefas precisam ser redistribuídas e desempenhadas por outros. “A permanência no hospital esta insuportável. Meu irmão teve que sair do emprego para cuidar do meu bar e ajudar minha esposa que também trabalha lá. Precisamos do dinheiro, não posso fechar meu negocio. Minha esposa esta muito cansada com as vindas ao hospital, com o trabalho de casa e do bar. Tenho andado muito preocupado com ela. As despesas de casa também me preocupam”. (DIAMANTE). “Estou internada há vinte e um dias e minha maior preocupação e com meu esposo que por causa da minha permanência no hospital tem que ficar na casa da filha”. (ESMERALDA). 41 Os relatos anteriores demonstram que todos os sujeitos do estudo tiveram que se adequar às mudanças antes mesmo de se submeterem a cirurgia de neoplasia cerebral. Antes da ocorrência da doença, os pacientes podiam fazer todas as atividades diárias, considerado normais, a qualquer ser humano adulto, como: trabalhar; ter amigos; lazer; liberdade para ir e vir. Hoje, para sobreviver, precisam contar com auxílio de tratamento medicamentoso e ficam dependendo da ajuda da família para atendimento de necessidades corriqueiras e cotidianas. “Nunca imaginei que a dor de cabeça que eu sentia e que muitos médicos trataram como sinusite poderia ser um câncer na minha cabeça. Cheguei a marcar uma consulta com o oftalmologista pensando que podia ser falta de vista, depois de fazer todos os testes ele me disse que não tinha nada, depois de um tempo comecei a apresentar bastante dificuldade para enxergar e voltei nele daí ele pediu que eu fizesse uma tomografia e marcasse uma consulta com o neurologista, foi quando eu soube que eu tinha isso o médico me internou para tratar. Estou praticamente cego, você imagina o que passa pela cabeça da gente, tem horas que eu choro, mas não perco a esperança que Deus vai me curar.” (RUBI). Conforme relato de “Rubi”, percebe-se que de alguma forma, os sujeitos do estudo consideram motivo de tristeza o fato de alguém que levava uma vida ativa, repentinamente, saber que tem uma doença como a neoplasia cerebral e começar a apresentar alguma dificuldade física em decorrência da mesma e que possivelmente necessitaram da ajuda de outras pessoas para auxiliar em suas atividades diárias. “Sempre que penso na cirurgia fico apreensivo, tenho medo que algo não vá bem”. (DIAMANTE). Nesta questão poderia ter sido feita outra pergunta para esclarecer a expressão “(...) tenho medo que algo não vá bem”. Mas, supõe-se que o paciente tenha medo de morrer ou de ficar com alguma seqüela, pois sabe-se ainda, relativamente pouco da origem, apenas têm-se informações que as taxas de riscos são altíssimas e de diversas procedências. Talvez por isso, o entrevistado tenha se expressado com medo. Sendo assim, ao saber que está doente pode passar um “filme” na sua cabeça de como poderá esta doença limitar sua vida, armazenando mentalmente seus medos e incertezas, podendo desencadear algum distúrbio psicológico também, afetando diretamente sua autoestima entre outros. Para Michelone e Santos (2004), o câncer acarreta profundas alterações no cotidiano da vida da pessoa, principalmente alterações da integridade físico-emocional por desconforto, dor, desfiguração, dependência e perda da auto-estima, levando a uma diminuição da sua qualidade de vida. Atualmente vive-se num período, em que quase tudo pode ser explicado pela ciência, o fato de ainda permanecer desconhecida a causa concreta para o câncer, provoca a criação de fantasias em torno desta patologia. 42 O câncer exerce, muitas vezes, o papel de uma doença devastadora e que consome a vitalidade da pessoa. Por não se conhecer ainda verdadeiramente a etiologia desta patologia e apesar dos avanços tecnológicos e científicos observados para o seu tratamento, verifica-se à perpetuação destas imagens para alguns de seus portadores (SONTAG, 2002). Who (2005) diz que anualmente no mundo morre cerca de 7 milhões de pessoas em conseqüência do câncer. De acordo com Leininger (apud GEORGE, 2000, p. 307), “a meta da teoria é melhorar e proporcionar um cuidado culturalmente congruente para as pessoas que seja benéfico, ajuste-se, e seja útil aos modos de vida saudáveis do cliente, da família ou do grupo familiar.” A teoria de Leininger tem como objetivo enfatizar a realização de um cuidado culturalmente conveniente com a cultura do paciente. A forma de desenvolver esse cuidado depende de fatores influenciadores do cotidiano de vida e cultura dos indivíduos que poderão interferir no processo de saúde/doença das pessoas. 4.3 CONHECIMENTO ACERCA DA DOENÇA E CIRURGIA A QUAL SERÁ SUBMETIDO? As manifestações verbais dos entrevistados demonstram que entendiam pouco ou nada sobre a doença, bem como, sobre a cirurgia e suas prováveis conseqüências, que esta podia trazer as suas vidas. “Não tenho nenhum conhecimento. O médico me falou que é um mioma bem grande próximo do ouvido. Não recebi nenhuma orientação só recebo a medicação e o medico só me diz para esperar pelo dia da cirurgia”. (ESMERALDA). “Sobre a doença eu não tenho nenhum, só sei que é um câncer na cabeça, o médico me falou que se afetou o nervo que cuida da visão, poderei não voltar mais a enxergar. Mas que o meu caso é estável e que ele esta esperando o resultado de mais alguns exames”. (RUBI). “Somente o comentário médico por não ter certeza do grau da doença. Quanto à cirurgia o tumor é frontal e será fácil a retirada”. (DIAMANTE). 43 “Câncer é o nome dado a um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado (maligno) de células que invadem os tecidos e órgãos, podendo espalhar-se (metástase) para outras regiões do corpo”. (INCA, 1996-2009). As causas para o câncer podem ser externas ou internas ao organismo, estando ambas inter-relacionadas. “Quem tem me orientado é minha filha que faz medicina. As informações que são dadas não são diretas e nem precisas”. (DIAMANTE). De acordo com Smeltzer; Bare (2005, p. 107) os familiares só adquirem experiência a partir do momento que passam a conviver com a doença. Com o desenvolvimento técnico-científico cada vez maior, muito tipo de câncer tem capacidade ser curado por meio de procedimentos cirúrgicos, quimioterapia e radioterapia quando diagnosticados em tempo hábil. Contudo, as doenças oncológicas continuam a ser uma das doenças mais temíveis. O câncer desempenha um papel de enfermidade cruel e intratável, pois mostra-se como uma doença misteriosa, na medida em que ainda não se compreende sua etiologia e de seu tratamento não ser totalmente eficaz, numa época em que a premissa básica da medicina é a de que todas as doenças podem ter cura. Assim, é essencial corrigir a concepção da doença, para que seja possível desmistificá-la, uma vez que, enquanto for considerada uma maldição e um destruidor invencível, a pessoa portadora de câncer se sentirá profundamente discriminada, relativamente à doença que é portadora (SONTAG, 2002). Neste contexto, a família desempenha um papel central na vida do paciente e é uma parte importante na sua sobrevivência. É dentro das famílias que as pessoas crescem, se nutrem, obtêm uma sensação de si própria, cultivam crenças e valores a respeito da vida e progridem através dos estágios de desenvolvimento. A família também é a primeira fonte para a socialização e ensino sobre saúde e doença. (SMELTZER; BARE, 2005, p. 106). 4.4 INFORMAÇÕES NECESSÁRIAS ACERCA DA DOENÇA E DA CIRURGIA QUE SERÁ SUBMETIDO 44 As falas abaixo deixam claro que os entrevistados precisam de informações acerca da doença e da cirurgia que serão submetidos, pois na maioria das vezes tem poucas ou mesmo nenhuma informação. “Ah, é bom saber sobre a medicação, como faço pra me recuperar mais rápido, coisas deste tipo, porque é uma doença que a gente tem medo né?”. (ESMERALDA). De acordo com Carneiro; Pomatti; Bertoletti (2007, p. 230), na visão do paciente este momento poderá causar estranheza e amedrontar, gerando uma situação de incerteza e insegurança. Contudo com a orientação adequada e assistência multidiciplinar de boa qualidade, essa fase poderá ser vivida de maneira mais amena e garantir a colaboração do mesmo na sua recuperação. “Sobre a sua evolução, se o tumor cresce muito rápido, se pode passar pro resto do corpo, se posso voltar a enxergar, se a cirurgia é perigosa , se posso morrer, são tantas dúvidas sem respostas, tenho muito medo”. (RUBI). Neste sentido, a enfermagem neurológica tornou-se uma especialidade, demandando conhecimentos de neuroanatomia, neurofisiologia, procedimentos neurodiagnósticos, cuidados especiais de enfermagem e cuidados de reabilitação. Além da contínua avaliação da função neurológica e das necessidades do paciente, o profissional de enfermagem deve identificar eventuais problemas, estabelecer objetivos mútuos, orientar condutas, usar intervenções de enfermagem apropriadas e avaliar os resultados de cada cuidado. É certo que, por vezes, o paciente pode experimentar alterações corporais, comprometimento cognitivo, distúrbios de visão e da fala, e diminuição da auto-estima, não obstante, a enfermeira e a equipe de saúde podem redefinir problemas, sugerir opções, proporcionando otimismo e ajudar o paciente a obter o controle da situação, fornecendo recursos educacionais e de apoio. Desta forma, podemos ver que a assistência a pacientes neurocirúrgicos exige além de muito conhecimento, equilíbrio emocional para lidar com a recuperação gradativa desses pacientes. (SMELTZER; BARE, 2002). Dentro deste contexto, observa-se, muitas vezes, que a angústia, a ansiedade, a insegurança e o desconforto dos pacientes submetidos a cirurgia de tumor cerebral, são os sentimentos gerados pelas informações pouco precisas ou inexistentes que têm acerca da 45 doença, dos medicamentos cuja ação desconhecem, sobre o procedimento cirúrgico a que será submetido, além do que lhe reserva o pós-operatório. 4.5 EXPECTATIVAS DO PACIENTE EM RELAÇÃO À CIRURGIA E AO PÓSOPERATÓRIO Nas entrevistas os pacientes foram questionados a respeito das expectativas em relação à cirurgia e também ao procedimento pós-operatório, e observou-se que o fator religioso está fortemente ligado à vida das pessoas, independente de raça, cultura, valores e crenças. Nota-se também, que os pacientes têm interesse em conhecer mais sobre os cuidados que devem ter após serem submetidos à cirurgia. “Tenho esperança de me curar. Cada dia que passa nesse hospital parece uma eternidade. Mas, tenho que agüentar até quanto Deus quiser. No começo eu não me conformava, não me conformava de jeito nenhum que tinha esta doença e que teria que fazer uma cirurgia. Senti muito medo, fiquei ansioso e até com um pouco de depressão, mas Deus não me deixa desanimar”. (RUBI). Com base no depoimento de “Rubi”, observa-se que existe um sentimento de gratidão à Deus, por não deixá-lo desanimar e se entregar para a depressão; bem como, há uma obediência em “agüentar até quando Deus quiser”. “Que ocorra tudo bem e que a recuperação seja rápida. Não sei como vai ser depois da cirurgia, não me falaram nada sobre os cuidados que tenho que ter depois”. (DIAMANTE). Neste sentido, Grossi (1993, p. 75), refere que a "aprendizagem só existe na circulação de saberes e conhecimentos, entre ensinante e aprendente, entre o sujeito que tenta compreender o mundo e o outro que se interpõe entre ambos". Zampieri (2001) afirma que o educar-se se dá com base em conhecimentos e através de relações com os outros seres humanos, mediante compartilhamento de conhecimentos e ações, sendo que fatores como afetividade, envolvimento, comunicação e alegria são essenciais para que o processo educativo aconteça. Dentro desta perspectiva, a educação é um dos principais componentes no cuidado do pós-operatório de uma cirurgia de neoplasia cerebral, sendo um suporte para a 46 compreensão deste e podendo ser um instrumento de capacitação e de socialização de conhecimentos. O processo educativo contempla a participação ativa dos envolvidos e propicia o crescimento pessoal e a transformação destes e do meio em que estão inseridos. “Estou muito ansiosa esperando pelo dia da cirurgia. Tenho medo do que possa acontecer, mas se Deus quiser vou ficar boa, voltar a trabalhar e poder ajudar os outros”. (ESMERALDA). "A atitude do cuidado também é demonstrada pelo: saber, conhecimento, responsabilidade, respeito, ética, empatia, atenção, dedicação e pela realização do cuidado que vai além do procedimento técnico, ou seja, que interage com o ser cliente e ser enfermeiro". (COSTENARO, 2000 p. 58). E por fim, o estudo mostrou que são inúmeros os sentimentos vivenciados por pacientes que se submeterão a cirurgia de neoplasia cerebral, onde este era o objetivo geral deste estudo: “conhecer os sentimentos vivenciados por pacientes que se submeterão à cirurgia de neoplasia cerebral”. 47 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O cuidado sistematizado dos profissionais da Enfermagem aos pacientes que se submeterão à cirurgia de neoplasia cerebral é de grande importância no processo de cuidar-se antes e pós a esta cirurgia, pois percebe-se uma grande falta de informação a respeito da doença e conseqüentemente desencadeando sentimentos diversos vivenciado pelos mesmo neste período da vida. Os achados do estudo permitem afirmar que os pacientes que se submeterão a cirurgia de neoplasia cerebral, assim como seus familiares sofrem muito com todas as mudanças que afetam a vida familiar pelas experiências e limitações, possivelmente vividas em cada fase da doença. Vivemos num mundo onde as pessoas lutam por uma vida melhor. Quando acometidas por este tipo de doença, as pessoas limitadas de exercer algumas atividades são as que mais sofrem. Todos os participantes do estudo apresentaram necessidades humanas básicas afetadas que precisam ser atendidas pelos profissionais de saúde ou por seus familiares. Entretanto, o acúmulo de atividades no dia a dia das unidades de saúde, acaba fazendo com que estas passem despercebidas aos olhos dos profissionais da área da saúde. Ressalta-se que o referencial teórico permite atender o paciente portador de neoplasia cerebral e seus familiares, tornando-os melhor preparados para o enfrentamento de suas dificuldades cotidianas. Foi evidenciado também o quanto a Enfermagem é importante para facilitar e incluir a família no processo de cuidar dos acometidos por esta doença. Além de todas as questões de interferências causadas pela doença já citadas, percebeu-se, em muitos momentos deste processo, que os pacientes que irão se submeter a cirurgia de neoplasia cerebral apresentavam uma expressão facial triste como se suas vidas estivessem acabadas, ou como é difícil conviver com limitações básicas, quando já se passou por momentos de independência e liberdade, pois, como amplamente citado neste estudo, quase todas as pessoas tem suas atividades diárias e físicas limitadas, necessitando de apoio familiar, de informações, de afeto, de esperança e ajuda profissional. Mesmo com tantas interferências e mudanças ocasionadas pela doença na vida do portador de câncer, acredita-se que o amor dos familiares e a competência da equipe de saúde, podem ajudar a suportar tantas dificuldades e sentimentos, reais ou fantasiosos. Estamos cientes de que a situação destes pacientes pode ser melhorada com auxílio dos serviços de saúde. Precisamos cada vez mais ajudar as pessoas portadoras de câncer, de forma a promover 48 alívio de seu sofrimento, pois tanto antes como depois, eles necessitam de apoio para realizar as algumas atividades da vida diária. Diante do exposto, toma-se a liberdade de fazer as recomendações e/ou sugestões abaixo descritas: - Criação de grupos terapêuticos, cuidados por profissionais da unidade de saúde, preferencialmente equipe interdisciplinar, que possam orientar tanto o paciente quanto os seus familiares no processo de cuidar; - As escolas de Enfermagem podem promover a discussão onde traga os conhecimentos sobre os sentimentos vivenciados por pacientes que se submeterão a cirurgia de neoplasia cerebral, suas limitações, o pós-operatório, entre outros, onde as possibilidades de atendimento se estendam aos seus familiares; Finalizando, esta pesquisa proporcionou além de conhecimentos acerca dos sentimentos vivenciados pelos pacientes que se submeterão a cirurgia de neoplasia cerebral, possibilitou identificar a importância dos profissionais da saúde no atendimento e repasse de informações antes da cirurgia de uma maneira mais adequada, proporcionando uma melhor qualidade de vida aos pacientes e seus familiares. 49 REFERÊNCIAS ÂNGELO, M.; BOUSSO, R.S. 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Geneva: WHO, 2005, 15p. 52 APÊNDICES 53 APÊNDICE A - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UNIVERSIDADE DO EXTREMO OESTE DE SANTA CATARINA – UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO Eu ______________________________________________ declaro que estou esclarecido (a) dos objetivos e dos procedimentos do estudo “Sentimentos e expectativas vivenciados por pacientes que se submeterão à cirurgia de neoplasia cerebral” e que concordo em participar do estudo e com publicação e/ou apresentação dos dados coletados, desde que sejam respeitados os princípios éticos que me foram apresentados pelo pesquisador responsável, a saber: - O participante tem o livre arbítrio para aderir ou desistir, a qualquer momento, do processo da pesquisa; - O anonimato do participante será mantido em todos os registros da pesquisa; - Não serão publicados dados que possam identificar o participante, bem como de pessoas citadas por ele; - A privacidade do participante será respeitada, durante o processo, evitando exposição desnecessária ou situações que possam causar constrangimentos; - Não serão publicados dados que o participante não libere para divulgação; - O participante não será exposto a riscos de nenhuma natureza que possa ferir sua integridade física, mental ou emocional; - Serão respeitadas as expressões culturais e sentimentais dos participantes em relação ao objeto do estudo; - Todos os momentos de interação, pesquisador-pesquisado, serão abordados com antecedência entre ambos; - O estudo será apresentado de forma fidedigna, sem distorções de dados; - Os resultados da pesquisa serão apresentados ao final da mesma, em forma e data acordado entre pesquisador e demais participantes do estudo; - No momento da entrevista será usado um gravador, com o consentimento do entrevistado; - Os dados obtidos poderão ser divulgados em outros meios tais como palestras e/ou publicados em periódicos. __________________________________ Participante da pesquisa ____________________________________ Petise Reinert Beckhauser Pesquisadora Tubarão, ____ de __________ de 2007. Endereço para contato: <[email protected]> (9932 9116) ________________________________________ Orientadora 54 APÊNDICE B - Entrevista com os participantes do estudo 1-Identificação Pseudônimo: Idade: Sexo: Cor: Religião: Naturalidade: Escolaridade: Profissão: Data admissão no setor: 2- Diagnóstico médico: 3- Sentimentos (percepções e expectativas) 3.1 Que problemas esta situação esta gerando para você? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.2 Qual o conhecimento que você tem acerca da doença e cirurgia a qual será submetido? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.3 O que você gostaria de saber acerca da doença que é portador e da e cirurgia a qual será submetido? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3.4 Quais são as suas expectativas em relação à cirurgia e ao pós-operatório? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 55 APÊNDICE C - Diário de Campo Instrumento de registro e análise de dados obtidos na observação participante: NOTAS DE CAMPO Expressões verbais e não verbais do paciente Postura profissional (desenvolvimento das técnicas e interação paciente/familiar) Aspectos do ambiente Registro de enfermagem NOTAS DAS PESQUISADORAS 56 ANEXOS 57 ANEXO – Termo de Consentimento Institucional