ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Setembro/2014 A RELAÇÃO CORPO-VOZ NO DESENVOLVIMENTO PERFORMÁTICO DO CANTOR Diana Magnavita Moura (UFBA)* RESUMO: Esta pesquisa faz parte de uma elaboração para o anteprojeto de mestrado em Dança, na UFBA. Visa investigar os entendimentos corporais, presentes no cotidiano de estudantes de canto a partir de uma reflexão fundamentada nas teorias cognitivas e evolucionistas, também aponta para a emergência de novos entendimentos corporais que superem a dicotomia corpo e voz, tratando-a como relação orgânica e evolutiva do corpo, bem como, evidenciar a necessidade de práticas corporais que ampliem o repertório técnico-criativo de cantores e novas possibilidades para processos de criação transdisciplinar. PALAVRAS-CHAVE: Corpo-voz. Corporeidade. Dramaturgia. Performance. THE BODY-VOICE CONNECTION IN THE PERFORMATIVE DEVELOPMENT OF SINGERS Abstract: This research is part of a development blueprint for the MA, in Dance UFBA, and aims to investigate the body understandings of singers students, and from a grounded point in cognitive and evolutionary emergence of new body understandings reflection theories that overcome the body and voice dichotomy, treating it as organic and evolutionary relationship of the body. And highlight the need of body practices to increase technical and creative repertoire for singers and new possibilities to a process of transdisciplinary creation. KEYWORDS: Body-voice. Corporeality. Dramaturgy. Performance. 1 http://www.portalanda.org.br/anai ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Setembro/2014 Apresentação A pesquisa inicia-se com a necessidade de buscar os significados de três conceitos presentes, como palavras-chave, no processo de elaboração do anteprojeto: corporeidade, dramaturgia e performance. Como estudante e pesquisadora em canto, com formação acadêmica em Dança, sempre desejei conciliar os dois temas. Além do interesse pessoal, ao longo da minha trajetória no treinamento de canto, o trabalho traz também hipóteses aliadas aos estudos corporais da minha formação em dança, ao que observei no desempenho performático de diversos cantores e no meu próprio desempenho enquanto cantora. No campo musical Brasileiro, especialmente em Salvador, ainda se vê um distanciamento do cantor em relação às artes corporais, que podem ser grandes aliadas na formação criativa e performática do cantor. O corpo-cantor não é apenas o emissário passivo da voz e o entendimento deste corpo vai além do trabalho interno fisiológico. O processo do cantor se dá em todo corpo, também está relacionado à técnica vocal, mas não encerra-se nela. Se dá na performance desde o banquinho e violão até shows com forte presença de outras linguagens artísticas, como é o caso de Michael Jackson, bandas de HardRock da década de 80 (Kiss, Aerosmith) e Ney Matogrosso. Tem como base de sustentação teórica os estudos corporais de Laban (1978), dramaturgia em Hércoles (2005), corpomídia em Katz e Greiner (2005), neurociência em Ramachandran (2002), e Teoria da complexidade em Morin (1995). Essas reflexões buscam propor meios de interação de cantores com o universo dos estudos corporais, consciência, expressividade e dramaturgias corporais sem limitarse a apenas servir de base para a técnica e desempenho vocal, mas, também, como motivador do processo artístico transdisciplinar e interação entre cantores com outras artes do corpo, como meio propositor de novas abordagens criativas aliadas a suas produções artísticas. Seus objetivos visam analisar o entendimento de corpo presente no cotidiano de estudantes de canto apontar a emergência de novas concepções de corpo, 2 http://www.portalanda.org.br/anai ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Setembro/2014 ligadas à superação da dicotomia corpo-voz no treinamento do cantor, em interface com os estudos corporais. Por se tratar de uma pesquisa direcionada para a área do canto, porém com ênfase em estudos corporais, a partir da hibridação e transdisciplinaridade presentes nas linguagens artísticas/científicas da contemporaneidade, a pesquisa é elaborada através de um planejamento, onde o método se sustenta em coleta de dados e revisão bibliográfica, além de revisões vídeográficas e pesquisa de campo no contexto artísticos de cantores. A pesquisa de campo parte da técnica de observação e entrevistas com cantores profissionais e estudantes de canto, buscando experimentar a realidade prática e tornar a pesquisa acadêmica verdadeiramente experiencial na elaboração do projeto. A entrevista consta de dados pessoais dos entrevistados, bem como, suas reflexões sobre o entendimento de corpo e a importância desse entendimento para sua prática. Para Morin (1995), o conhecimento se dá quando se é capaz de dar significados ao conjunto complexus. A observação do participante é a capacidade de conhecimento do indivíduo ao relacionar-se com o mundo e vice versa e em consequência disso é produzida a cultura e linguagem. Este estudo contribuirá significativamente para a análise de ganhos conceituais, procedimentais e atitudinais que venham a influenciar positivamente no desenvolvimento artístico de cantores e estudantes de canto e servirá de reflexão para ampliação de estudos corporais para cantores. Esta pesquisa objetiva, também, refletir sobre as corporeidades daqueles que cantam e sobre as dramaturgias do corpo que contribuem para o desenvolvimento performático de cantores, Bem como, buscar um novo entendimento corporal para o cantor e as relações corpo-voz, para além da técnica vocal e do suporte técnico, mas, Também, busca uma estratégia criativa para processos artísticos com características transdisciplinares. Aqui, a hipótese é que o corpo-cantor não é apenas o emissário passivo da voz e que o entendimento deste corpo vai além do trabalho interno fisiológico. O corpo inteiro canta e não serve apenas de receptáculo e sustentação para o produto final, o canto. Segundo a observação de que os cantores ainda criam uma relação dicotômica entre corpo e voz, como se a voz estivesse fora do corpo ou, ainda, que 3 http://www.portalanda.org.br/anai ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Setembro/2014 o canto é o produto final de relações fisiológicas. Apesar da existência de diversas pesquisas sobre o assunto e pareça óbvio que voz é corpo, na prática ainda se vê o corpo estático que funciona apenas do pescoço para cima e quase que minimamente no trabalho técnico do canto. Essa nova proposta de entendimento visa contribuir para uma performance orgânica e evolutiva do cantor. O canto é o produto final realizado pelo corpo? O corpo é o emissário passivo da voz? Essa ideia de corpo-transporte enfatiza o papel de receptáculo, suporte que sustenta algo. Sustento que a maioria dos cantores não racionaliza a sua atividade profissional como uma atividade corporal, distanciando corpo e voz. A escassez de formação em preparação corporal específica para cantores, em Salvador, mostra que os artistas interessados em dialogar canto com artes corporais, costumam ter um treinamento ainda dicotômico e fragmentado. Nesse processo fez-se necessário o entendimento de três conceitos que são fundamentais para a elaboração da pesquisa e como os inserir no contexto aqui destacado. O primeiro é o conceito de corporeidade, termo utilizado pela filosofia, inspirado pela fenomenologia de Merleau Ponty (1993), para designar, a memória corporal, que através das relações corpo-mente cria suas interpelações com o ambiente. Essa retroalimentação corpo-ambiente manifesta-se através de estímulos sensório motores que podem mudar ou reafirmar suas relações/interpretações no/pelo mundo. Como justificativa de utilizar o termo corporeidade no plural, parto do pressuposto de que podem existir muitos entendimentos corporais dentro de muitas áreas de conhecimento, bem como, o próprio entendimento do senso comum, que também pode sofrer variações a partir das interpretações e relações dos indivíduos com o ambiente e como esse ambiente os interfere. O segundo conceito a ser identificado é de dramaturgia, composição de um drama, ou construção de uma ação. A dramaturgia da dança está relacionada à composição coreográfica em relações que vão se estabelecer com a organização e construção de uma cena conectada. Assim como na Dança, a ação do cantor também está no corpo, logo, identificar essa dramaturgia corporal implica em reconhecer a construção dramática pelo movimento, sem que necessariamente exista uma representação teatral, no sentido de tentar traduzir corporalmente o sentido de uma canção com caricaturas e 4 http://www.portalanda.org.br/anai ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Setembro/2014 pantomimas, o gesto fala por si próprio e também relaciona-se com o canto sem que se torne caricato, torna o corpo-cantor a própria ação da dramaturgia-canto, sem manter uma relação de dentro para fora ou fora para dentro, mas relacionar dramaturgia e canto como uma coisa só: Ação do corpo. E o conceito de Performance, uma palavra de origem inglesa, "to perform", que significa executar ou realizar, também está relacionado a desempenho, que é o conjunto de capacidades no rendimento do indivíduo para realizar uma atividade. Ė um conceito matemático, muito utilizado pelas ciências na busca de soluções para uma questão. A Performance aqui utilizada é no sentido de ação artística, mas não se classifica como performance art. O cantor na execução da sua obra, ou seja, o canto. Porém, utilizar o conceito de performance na arte enfatiza a presença da relação corporal no trabalho do cantor. A performance nasceu das Artes Visuais e pode-se considerar que já se pensava numa relação onde se desmanchassem as barreiras entre as linguagens artísticas, já nos anos 20, mas foi nos anos 60 que se firmou como linguagem artística, que embora beba de diversas linguagens se tornou uma linguagem autônoma. A principal característica da performance art pode-se dizer que é o corpo enquanto material artístico, o corpo como obra artística. O cantor passa a ser a própria obra e deixa de ser simplesmente o emissor da obra, no caso o canto. Considerações finais A partir de pesquisa prática-teórica viso criar um arcabouço fundamentado nas teorias cognitiva e evolucionista, para sustentar a ideia de que o canto é uma arte corporal, bem como superar a dicotomia corpo-voz e perceber como esse novo entendimento pode contribuir tecnicamente e no processo criativo de estudantes de canto e demais interessados na área de canto. REFERÊNCIAS GREINER, Christine. Articulações do corpomídia na Dança. In ENSAIO GERAL, n. 3, 2010, Belém. 5 http://www.portalanda.org.br/anai ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Setembro/2014 HÉRCOLES, Rosa Maria. Formas de Comunicação do Corpo – novas cartas sobre a dança. Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica – PUC/SP, São Paulo, 2005. KATZ, Helena Tânia. A dança é o pensamento do corpo. Belo Horizonte: Helena Katz, 2005. 1ed. LEPECKI, André. 9 variações sobre coisas e performance. Urdimento, 2012. MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo, Instituto Piaget, Portugal, 1995. PONTY, Merleau. Fenomelogía de la percepción. Traducción: Jem Cabanes.Traducción cedida por Ediciones Península. Editorial Planeta-De Agostini, S.A., Aribau, 185, 1? - 08021 Barcelona (1993). RAMACHANDRAN, Vilayanur S. Fantasmas no Cérebro: uma investigação dos mistérios da mente humana. São Paulo: Record, 2002. *Professora, Bailarina, intérprete-criadora e pesquisadora de dança, canto, ciberdança e fusões artísticas. Licenciada e bacharelanda em Dança (UFBA),cursa especialização em Arte Educação na Escola de Belas Artes (UFBA). Atualmente é bolsista PIBITI no Grupo de Pesquisa de vídeo dança do Elétrico – Grupo de pesquisa em ciberdança, liderado pela prof. Drª Ludmila Pimentel e coordena o G.E.T.O.M (Grupo de Estudos de Teatro Musical). [email protected] 6 http://www.portalanda.org.br/anai