CIENTISTAS MAPEIAM COMO O VÍRUS DA ZIKA
CAUSA ESTRAGOS
SITUAÇÃO PROBLEMA: Se uma espécie extraterrestre, cujo sistema circulatório fosse composto apenas por
água, chegasse a nosso planeta e entrasse em contato com o vírus da zika, seria contaminado?
Desenvolveria a zika?
Por Reinaldo José Lopes
Ele impede que neurônios maduros surjam, o que pode explicar a
microcefalia. Pesquisadores também listaram os genes e as proteínas
alteradas e que podem ser alvo de intervenções no futuro
Cientistas brasileiros acabam de traçar um mapa detalhado dos efeitos do vírus da zika sobre as
células que dão origem ao cérebro humano.
O invasor microscópico é capaz de travar a multiplicação celular e de impedir que neurônios
maduros apareçam, o que provavelmente explica o tamanho reduzido do cérebro dos recém-nascidos
afetados pelo zika quando estavam na barriga da mãe.
Ao fim do trabalho, a equipe coordenada por Patrícia Garcez e Stevens Rehen, da UFRJ
(Universidade Federal do Rio de Janeiro) e do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, conseguiu uma biblioteca
de mais de 500 proteínas e genes das células humanas que parecem ser manipulados ou alterados
indiretamente pela presença do vírus.
Algumas dessas moléculas podem se revelar alvos promissores para medicamentos que bloqueiem
a ação do vírus de modo específico –algo que não existe hoje.
Garcez, Rehen e companhia estão tentando desvendar os aspectos básicos da biologia do vírus da
zika desde que o patógeno foi ligado à epidemia de microcefalia em bebês do Nordeste. A principal
ferramenta usada é o cultivo, em laboratório, das chamadas neuroesferas.
Essas pequenas massas esféricas de células se formam quando as precursoras dos neurônios são
cultivadas juntas, e sua estrutura simula alguns aspectos do desenvolvimento cerebral dos fetos humanos.
Após expor células-tronco neurais (precursoras dos componentes do cérebro) ao zika durante duas
horas, os cientistas esperaram que elas formassem neuroesferas e compararam o desenvolvimento
subsequente das estruturas com o de neuroesferas formadas sem o contato das células com o vírus
PEQUENAS E MORIBUNDAS
Os primeiros resultados foram similares aos que a equipe já tinha observado em estudos anteriores:
as neuroesferas infectadas com o zika eram menores que as não infectadas e, com o passar do tempo,
começaram a sumir (veja infográfico).
Depois os pesquisadores usaram técnicas que lhes permitem enxergar detalhadamente os efeitos
do vírus sobre as células. Com a ajuda de uma espécie de balança molecular, que diferencia os vários tipos
de proteínas com base em seu "peso", identificaram as moléculas presentes nas neuroesferas afetadas.
Mapearam ainda as moléculas de mRNA (RNA mensageiro) nas células. Para cada gene no DNA há
pelo menos uma molécula de mRNA, que transmite ao maquinário celular as instruções para produzir a
molécula cuja receita está contida no gene.
Na prática, isso significa que a quantidade de cópias de mRNA correspondentes a determinado gene
que estão circulando pela célula pode ser usada para medir o quanto aquele gene está ativo –quanto mais
cópias de mRNA, mais acionado ele está.
Com essas ferramentas, foi possível enxergar os detalhes dos efeitos do zika sobre as células
humanas.
Em primeiro lugar, não é só que o vírus saia matando indiscriminadamente as precursoras dos
neurônios. A presença dele leva a uma interrupção no chamado ciclo celular -o processo delicadamente
programado pelo qual as células fazem novas cópias do seu material genético e depois se dividem, dando
origem a outras células. "A parada no ciclo é uma resposta da célula aos danos em seu DNA", disse Rehen à
Folha.
Outro processo complexo, a chamada neurogênese – na qual as células – tronco neurais dão origem
a diferentes formas especializadas de neurônios–, também é derrubado pelo zika, a julgar pelos genes
ligados a esse mecanismo que ficaram menos ativos nas neuroesferas infectadas.
Alguns genes parecem estar diretamente associados à capacidade de multiplicação do vírus. "Penso
que o DDX6 é um bom alvo", afirma Rehen, referindo-se a um desses genes, que, quando fica menos ativo,
leva a uma menor replicação do vírus da dengue. Em tese, portanto, alguma intervenção envolvendo o
DDX6 poderia ter efeito contra o vírus da zika.
FINANCIAMENTO
Com laboratórios no Rio, Rehen e Garcez têm sido afetados pela crise financeira do Estado e pelos
problemas mais gerais de financiamento que têm preocupado a comunidade científica brasileira. A situação
deles é um pouco menos grave por causa da prioridade que tem sido dada aos estudos sobre o zika.
"Boa parte dos recursos federais para zika tem sido repassada, com cortes. Infelizmente, no caso da
Faperj [órgão estadual de fomento à pesquisa], nem isso. A porcentagem repassada até agora foi mínima e
não permite o andamento das pesquisas", diz Rehen.
Também assinam o estudo pesquisadores da Unicamp, da Fiocruz, do Instituto Evandro Chagas e da
Universidade Federal do Pará. Os dados estão em artigo na revista especializada "Scientific Reports".
(Publicado em: Folha de S. Paulo (Ciência e Saúde) em 25 de Janeiro de 2017)
Fonte: http://www.bv.fapesp.br/namidia/noticia/130421/cientistas-mapeiam-como-o-virus-da-zikacausa-estragos/ . Acesso: 01/02/2017.
INDIVIDUAL
1 - Faça a leitura do texto “Cientistas mapeiam como o vírus da zika causa estragos. ”
2 - O que é o vírus da zika?
3 - Qual a relação que existe entre você e o vírus da zika?
GRUPO
1 – Zika, Chikungunya, Febre Amarela e Dengue são a mesma coisa? Mostre as diferenças e semelhanças.
2 - A reportagem acima, nos traz a expressão “vírus da zika”. Por que não utiliza a expressão “vírus zika”?
3 - Além das colocações sobre os vírus, temos referências aos neurônios, que são células componentes do
sistema nervoso da maioria dos animais. Quais as diferenças entre os vírus e as células?
4 - Qual a relação entre neurônicos e o sistema nervoso?
5 – O texto nos trás em vários momentos a relação entre DNA e proteínas. Que relação é essa?