Orientação para o Professor – História – 9.o Ano do Ensino

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Orientação para o Professor – História – 9.o Ano do Ensino Fundamental – 3.o Bimestre
ORIENTANDO O TRABALHO EM CLASSE
EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
Nesse bimestre nos concentraremos no estudo das relações políticas internacionais e da política brasileira após 1930. Quanto à política internacional, enfocaremos a construção da hegemonia americana na Europa, América, Ásia e África; a experiência socialista chinesa; a Guerra Fria e suas repercussões junto aos movimentos de emancipação na Ásia e na África. Quanto à política brasileira, nos concentraremos tanto no jogo político presente na sucessão de governos
quanto nos projetos econômicos e sociais de cada um dos governos.
O pano de fundo do cenário político apresentado é a indústria cultural e o desenvolvimento das possibilidades de comunicação anteriormente inexistente, como o rádio, por exemplo, que transformaram
o cotidiano de populações e, também, as possibilidades de propaganda política.
– A discussão realizada em classe sobre os diferentes aspectos da
cultura de massa é o subsídio para o aluno elaborar uma redação.
– O aluno deverá realizar minipesquisas sobre as tentativas de
integração político-econômica na América Latina. A classe deverá
ser incentivada a consultar o professor de Geografia.
– Trabalho de análise e interpretação de texto, a partir de uma
matéria jornalística acerca da atual situação da população cubana.
CAPÍTULO 12
– Nesse capítulo, salientaremos:
• O retorno de Getúlio Vargas à presidência.
• O modelo desenvolvimentista do governo JK.
• O breve governo de Jânio Quadros.
• A renúncia e a instalação de uma grave crise política.
• João Goulart e as Reformas de Base.
• O fortalecimento das oposições e o caminho ao golpe Militar.
– A partir de uma discussão sobre a importância do rádio como veículo de comunicação, desde a década de 1930, e sob a orientação
do professor, a classe deverá recriar um programa de rádio.
CAPÍTULO 10
– As relações políticas internacionais, após a Segunda Guerra
Mundial, são temas em destaque neste capítulo. As Guerras da
Coreia e do Vietnã e as tensões decorrentes da Guerra Fria colocam-se como grandes desdobramentos desse período histórico.
– Nesse capítulo, salientaremos:
• A implantação da via socialista chinesa e os desdobramentos da
política maoísta.
• A discussão do conceito de descolonização.
• os movimentos de libertação nacional.
• A presença dos Estados Unidos e da União Soviética nas lutas de
independência.
• A atual situação das antigas colônias.
• O projeto político de Gandhi para a emancipação da Índia.
• A descolonização da África e a fragmentação do Império Português.
• O poderio norte-americano no pós-guerra e suas relações hegemônicas com a América Latina.
EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
– O aluno deverá realizar uma minipesquisa sobre a Bossa Nova e
analisar a música “Presidente Bossa Nova” de autoria de Juca
Chaves, respondendo as questões propostas.
– Atividade em que o aluno irá fixar os principais conceitos
trabalhados nesse capítulo.
GABARITO
EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
CAPÍTULO 10 – O MUNDO NO
PÓS-GUERRA
– Atividade em que o aluno irá trabalhar o desenvolvimento dos
processos revolucionários da Coreia e do Vietnã, a partir dos
conceitos desenvolvidos em aula.
– Trabalho de análise e interpretação de texto cujo pano de fundo é
a Revolução Chinesa.
– Ao escrever frases com sentido histórico, a partir de expressões
propostas no exercício, o aluno estará fixando conceitos trabalhados em aula.
– O aluno deverá realizar uma pequena pesquisa sobre a Revolução
Portuguesa de 1974 e, em seguida, interpretar um texto jornalístico.
– O aluno irá trabalhar com um texto jornalístico, sobre o sequestro
de crianças em Angola, pela Unita, em 2001.
1. O antagonismo entre as potências
Você é o historiador
1. Qual o regime político defendido pelo presidente dos
Estados Unidos no documento?
Democracia, regime político fundamentado na soberania
popular, na liberdade eleitoral, na divisão de poderes e no
controle da autoridade.
2. De que forma o presidente americano em seu
discurso justifica a intervenção de seu país na
política de outras nações?
CAPÍTULO 11
– Sob a mediação do professor, a classe deverá discutir a indústria
cultural e seus desdobramentos na sociedade brasileira.
– A presença norte-americana na América Latina e o surgimento de
regimes populistas a partir da década de 1930 poderão ser
contextualizados pelo professor.
– A análise de processos revolucionários e as revoluções em Cuba e
na Nicarágua serão discutidos em classe sob a mediação do professor.
Como forma de garantir a liberdade e a soberania das nações
ante as pressões do bloco socialista.
3. Como o líder soviético Stálin caracteriza no documento 2 a política norte-americana?
Uma política direcionada ao fortalecimento do imperialismo
e a anulação da democracia.
I
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Verificando se você aprendeu
4. Discuta o uso do conceito de democracia pelos líderes dos dois países nos documentos mencionados,
enfocando:
a) o significado apresentado para o conceito por cada
um deles.
1. Grife nos dois documentos contidos neste item frases
que representem a argumentação usada pela ONU e
pelos países participantes de Bandung para defender
a descolonização.
O líder norte-americano defende a democracia como
vontade da maioria de seu povo e o líder soviético se diz
defensor da democracia por combater o imperialismo,
embora o stalinismo fosse um governo autoritário.
Resposta pessoal.
2. Houve diferenças no processo de independência das
nações colonizadas. Sobre isso, responda:
a) Por que os países colonizadores buscavam a “via
pacífica” para a libertação de suas colônias?
b) o objetivo político de cada um ao usar esse conceito.
Os dois líderes se apropriam do conceito de democracia
como forma de combater seu opositor, embora isso não
correspondesse à realidade da URSS.
Grande parte dos países colonizadores, no quadro do pósguerra, preferiu conceder a indepedência formal e
conservar o controle de setores importantes da economia
de suas antigas colônias.
2. A Revolução Chinesa
Verificando se você aprendeu
b) Em que contexto surgiram as lutas de libertação
colonial?
1. Mao Tsé-Tung, no ano de 1966, estabeleceu as bases
da Revolução Cultural na China. Caracterize-a.
Nas décadas de 1950 e 1960, no quadro da tese de autodeterminação dos povos, defendida pelo bloco socialista,
das tensões da Guerra Fria e do surgimento de movimentos de libertação nacional nas áreas colonizadas.
A Revolução Cultural, iniciada por Mao Tsé-Tung,
objetivava retirar dos cargos políticos todos aqueles que se
opunham a ele. Para isso foi criada a Guarda Vermelha,
constituída de jovens que obedeciam rigorosamente aos
preceitos maoístas.
3. Discuta os efeitos da descolonização para os países
então libertados e escreva sua conclusão.
2. Como pode ser caracterizada a Longa Marcha empreendida por Mao Tsé-Tung?
O aluno poderá considerar em sua discussão que, apesar da
liberdade conquistada, as décadas de dominação e espoliação
deixaram profundas marcas nesses países. A miséria e
conflitos étnicos perduram até hoje, em muitas regiões.
O líder nacionalista chinês, Chiang Kai-Shek, com o apoio
político de ingleses e norte-americanos, passou a atacar
violentamente os membros do Partido Comunista. Mao e
seus seguidores decidem deixar o sul do país e percorrem
9600 km em direção às províncias do norte. Durante a
Marcha o grupo foi organizando os camponeses, preparando-os para a Revolução Socialista.
4. Em busca da autodeterminação
Verificando se você aprendeu
1. Como pode ser caracterizado o princípio da desobediência civil proposto por Gandhi?
3. A via socialista chinesa, de inspiração maoísta, realizou importantes reformas nas áreas da educação e
dos direitos da mulher. Justifique a afirmação, exemplificando-a.
Gandhi convenceu o povo indiano a pôr em prática a tática
da não cooperação, isto é, boicotar escolas, roupas e tribunais
ingleses. A desobediência civil aliada à não violência
acabaram por colocar o Império Britânico em situação de
impasse no território indiano.
Ao assumir o poder, Mao Tsé-Tung iniciou um movimento da
educação popular, alfabetizando inclusive os adultos chineses. A poligamia e os casamentos forçados pelos pais foram
proibidos. As mulheres foram incorporadas ao mundo do
trabalho.
2. Escreva sobre a questão religiosa que se instaurou na
Índia após o processo de independência.
O temor de uma guerra civil envolvendo grupos religiosos
hindu e muçulmanos levou à divisão da Índia em dois países.
O Paquistão, com Estado muçulmano, e a União Indiana,
que, inicialmente sob a influência de Gandhi, propunha a
convivência pacífica com os muçulmanos.
3. A descolonização da Ásia e da África
Texto Complementar
A ideia de “descolonizar” as regiões que estiveram sob
o domínio dos países colonialistas europeus no século XIX é produto de uma visão eurocêntrica da História. Discuta o conceito de “descolonização”, tomando como referência o texto complementar da página.
3. Em que medida a Revolução dos Cravos se relaciona
com o processo de descolonização da África?
A classe deverá discutir o conceito de “descolonização” sob a
perspectiva do texto complementar, do qual se depreende que
os movimentos de libertação nacional sobre os colonialistas
forçaram o processo das independências, que resultaram das
pressões dos povos oprimidos.
A Revolução Portuguesa de 1974 colocou fim aos últimos
traços do salazarismo no país, reconhecendo a independência
das colônias africanas o que, por conseguinte, acarretou o
término do Império Colonial Português.
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5. Os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial
Vamos diferenciar os conceitos?
vietnamitas no combate à guerrilha comunista. Os Estados
Unidos foram derrotados e deixaram o país, que, em 1976, foi
reunificado sob o regime socialista.
Preconceito racial: ideia pré-concebida sobre uma deter-
C. Como pode ser entendida a participação dos Estados
Unidos nesse conflito?
minada raça. Opinião adotada sem exame, somente imposta
pelo meio, pela educação, ou formada a partir da aparência.
Resposta Pessoal do Aluno.
2. Trabalhando com texto
Discriminação racial: tratamento diferenciado, para
pior, dado a pessoas de outra raça.
A. Sublinhe as palavras desconhecidas e registre o seu
significado.
Segregação racial: discriminação racial acompanhada de
separação espacial.
B. Qual foi o significado histórico do “Grande Salto
para a Frente”?
Trabalhando com texto
Projeto idealizado por Mao Tsé-Tung para acelerar o desenvolvimento da China, através da industrialização e da
implementação tecnológica, não atingiu, entretanto, os
resultados previstos, especialmente após o rompimento da
China com a União Soviética.
1. Você estudou anteriormente a Doutrina Monroe.
Explique o momento histórico de sua criação.
Criada em 1823 pelo presidente norte-americano James
Monroe, proibia os países europeus de estabelecerem novas
colônias na América e de intervirem diretamente nos assuntos
internos do continente americano. A Doutrina Monroe foi
sintetizada no slogan: “A América para os Americanos”.
C. Discuta a frase que dá título ao texto: “A mulher
capaz pode preparar uma refeição sem alimentos”.
O aluno poderá considerar em sua discussão aspectos
ideológicos do Grande Salto para a Frente e do malogrado
projeto maoísta de desenvolver a China no espaço de uma
década.
2. Que relação histórica pode ser estabelecida entre a
Doutrina Monroe, a “big stick policy” e a “good
neighbour policy”?
A Doutrina Monroe também estabeleceu as bases para a
posterior dominação dos Estados Unidos em áreas latinoamericanas, principalmente no México e países centroamericanos. Em 1904, o presidente Roosevelt ampliou essa
ideia com a criação do “big stick”, política que justificava a
intervenção armada dos Estados Unidos em alguns países da
América, em nome da manutenção da ordem democrática e
do estabelecimento de uma política de “boa vizinhança”.
3. Verificando se você aprendeu
Forme frases, com sentido histórico, utilizando as
seguintes palavras ou expressões.
Conferência de Bandung:
Realizada em 1955 na Indonésia, estabeleceu o princípio da
autodeterminação, que consiste no direito dos povos e das
nações de disporem de si próprios. Também definiu o
princípio da igualdade entre os seres humanos, no direito de
se verem livres da segregação e discriminação racial.
3. Qual a base ideológica que definiu a criação da
Aliança para o Progresso, em 1961?
A política externa do presidente John F. Kennedy, denominada Nova Fronteira, orientada no sentido de conter a União
Soviética através do aumento do potencial militar norteamericano e da ajuda técnica econômica aos países aliados.
Essa Aliança estabeleceu uma cota de ajuda de dois bilhões de
dólares anuais por um período de dez anos.
Império Colonial Português:
Formado a partir do expansionismo marítimo português nos
séculos XV e XVI, refere-se, na primeira metade do século
XX, às colônias portuguesas na África.
Terceiro Mundo:
Bloco de países que, originariamente, não estariam alinhados
à ideologia capitalista ou socialista. O conceito ampliou-se ao
longo do tempo, passando a designar países pobres do
mundo.
EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
AMPLIANDO A DISCUSSÃO
Lutas de Libertação Nacional:
Movimentos nacionalistas, muitas vezes apoiados pela União
Soviética, que lutaram pela emancipação dos territórios
controlados pelas potências europeias.
A. Faça um levantamento das palavras desconhecidas e
registre seu significado.
Resposta Pessoal do Aluno.
4. Desafio Histórico – Minipesquisa.
B. Relacione a Guerra do Vietnna ao contexto da Guerra
Fria.
1. Por que razão o movimento revolucionário de 25 de
abril de 1974, em Portugal, recebeu o nome de
Revolução dos Cravos?
Conflito travado entre 1961 e 1975, no contexto da Guerra
Fria. No Vietnã do Sul, surgiu a Frente de Libertação
Nacional, de tendência comunista, cujo braço armado, o
exército vietcongue, pretendia reunificar o país.
O exército dos Estados Unidos apoiou as tropas sul-
Abril é o mês dos cravos em Portugal. Quando a rádio de
Lisboa tocou a música “Grandola, terra morena”, senha para
III
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Considere em sua discussão:
a) Influência estrangeira.
b) Os papel dos meios de comunicação (rádio, TV,
cinema)
c) O caráter de “crítica” ou “alienação” dos produtos
culturais.
d) A adequação social das mensagens veiculadas
(erotização, incentivo ao consumo, valores etc).
o início da Revolução, as floristas lisboetas, em um gesto de
solidariedade, distribuíram cravos aos revolucionários. Os
homens usavam-no na lapela do paletó e as mulheres
atiravam cravos nas armas dos soldados do ditador Marcelo
Caetano.
5. Ampliando a Discussão
Trabalho de pesquisa feito pelo aluno.
Resposta pessoal.
CAPÍTULO 11 – BUSCANDO NOVAS
ALTERNATIVAS
AMPLIANDO A DISCUSSÃO
1. Discutindo a História: A indústria cultural
Vamos discutir esse assunto?
1. De acordo com o texto a mundialização do capital
produziu efeitos na indústria cultural tradicional. Que
exemplos ele aponta?
Indústria cultural: representada pelos meios de comuni-
O autor exemplifica com o processo de fusão dos estúdios
tradicionais de cinema de Hollywood que foram comprados
por grupos predominantemente japoneses e com relação ao
cinema e a TV a cabo.
cação de massa – rádio, cinema e televisão –, que servem de
suporte à crescente industrialização e à absorção de seus
produtos, cuja característica principal é a tecnologia.
Sociedade de consumo: é o efeito resultante do novo padrão de vida imposto pela industrialização, através da indústria cultural. É a mudança de hábitos sociais refletidos na
necessidade de adquirir bens que traduzam esses novos
valores.
2. Lê-se no texto: “a consolidação dos Estados Unidos
como o grande produtor mundial e todos os outros
países majoritamente como meros consumidores
dessa produção”.
Você concorda com a frase? Cite exemplos para
justificar sua opinião.
Cultura de massa: é a expansão do fenômeno da comunicação dentro da sociedade. Os novos meios propagam uma
padronização de hábitos, que acaba por neutralizar as
manifestações culturais espontâneas.
Reificação: é a redução à qualidade de coisa, que no
homem leva à mecanização do cotidiano e sua identificação
crescente com os produtos da indústria cultural.
O aluno pode citar os filmes e séries norte-americanos de
grande penetração no Brasil seja pelo cinema ou pela TV.
Pode também ressaltar algum exemplo de produção local
reutilizando a afirmação.
3. Vivemos atualmente a convivência de vários mídias:
TV, Internet, cinema, rádio, jornais e revistas. Do seu
ponto de vista, qual o papel desses meios de comunicação na produção e difusão de produtos culturais?
Alienação: é a perda de senso crítico frente aos apelos da
comunicação de massa.
2. De acordo com o texto:
a) A industrialização teria trazido a reificação do
homem e sua alienação. Discuta essa ideia e escreva sua conclusão.
Resposta pessoal do aluno.
2. Os caminhos políticos da América Latina
Verificando se você aprendeu
Seria como que a perda da identidade cultural, formada
no próprio interior da sociedade.
1. Relacione o crescimento das cidades com o surgimento do populismo na América Latina.
b) Que características são assumidas pela cultura na
sociedade industrial?
A partir de 1930 surgiram, na América Latina, regimes populistas com líderes carismáticos, autoritários e com grande apoio
popular. Essa nova força política apresentou-se como alternativa para o controle das massas urbanas que se fortaleceram a partir do desenvolvimento industrial e urbano.
Estar vinculada à propaganda, que representa a grande
estratégia da indústria para escoar sua grande produção,
gerando até falsas necessidades.
2. Aponte pontos em comum entre o governo de Vargas
no Brasil e o de Perón na Argentina, no contexto do
populismo latino-americano.
c) Por que os traços da cultura de massa das
sociedades industrializadas podem servir para
discutir também a cultura do Terceiro Mundo?
Criação de uma política de conciliação entre as classes
sociais, adoção de uma legislação trabalhista e apoio entre as
camadas populares. Perón foi a figura protetora dos
“descamisados” e Vargas personificou o “pai dos pobres”.
Embora no Terceiro Mundo o “consumo” seria ainda um
valor a ser alcançado plenamente, orienta a organização
da sociedade que se espelha no Primeiro Mundo.
3. Discuta a política de Perón em relação aos “descamisados” argentinos.
3. Para discutir com seus colegas:
Como se apresenta a cultura de massa no Brasil hoje?
O aluno deverá discutir a política paternalista de Juan Perón
IV
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3. Aponte vantagens e desvantagens do modelo econômico brasileiro assumido a partir do governo JK.
em relação às massas populares da Argentina e à atuação da
primeira-dama como “porta-voz dos humildes e descamisados”, no quadro do populismo argentino.
Pode ser entendida como um desenvolvimentismo associado.
O governo visava à obtenção de investimentos estrangeiros e,
nesse período, diversas empresas multinacionais instalaramse no Brasil. Ao mesmo tempo o governo adotava medidas
protecionistas a favor das empresas nacionais e apresentava
projetos de criação de novas empresas estatais.
EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
1. Ampliando a discussão
Você participou de uma atividade em classe - sob a
orientação do professor - na qual vários aspectos da
cultura de massa foram abordados:
– influência estrangeira.
– o papel dos meios de comunicação.
– o caráter de “crítica” ou “alienação” dos produtos
culturais.
– adequação social das mensagens veiculadas.
Escolha um desses itens e elabore uma redação,
ampliando o trabalho de sala de aula.
O nacionalismo econômico em face da globalização.
O aluno poderá considerar os seguintes pontos:
• O surgimento de uma Nova Ordem Mundial, a globalização, no início da década de 1990, caracterizada pela
expansão do capitalismo e pela intensificação do comércio
internacional.
• A tecnologia que diminuiu as fronteiras e possibilitou a
comunicação entre pessoas de diferentes países.
• Alguns estudiosos afirmam que a aceleração desse
processo poderia levar à perda da soberania nacional.
Essa posição, no entanto, é polêmica, pois o Estado
continua sendo responsável pela regulamentação de
inúmeras esferas da sociedade.
A leitura do texto complementar – a Indústria Cultural – e as
discussões feitas em sala de aula serão importantes subsídios
para o aluno escrever um pequeno texto sobre um
determinado aspecto da cultura de massa.
2. A caminho do golpe
2. Trabalhando com o texto
Essa foto é um registro histórico de uma grande
manifestação política ocorrida seis dias após o
Comício da Central do Brasil. Observe os slogans
das faixas que os manifestantes carregavam, e a partir
das colocações de seu professor e das discussões em
classe, avalie o significado político dessa Marcha da
Família com Deus pela Liberdade.
1. Justifique com exemplos do texto, a afirmação:
“blogueira cubana relata cotidiano inacessível a
estrangeiros.”
Resposta pessoal do aluno.
2. Encontre um artigo de jornal ou revista que traga uma
notícia sobre Cuba, cole-a no espaço reservado e
escreva um comentário sobre o assunto.
Organizada pela União Cívica Feminina e pela Campanha da
Mulher pela Democracia – com o apoio do governo de São
Paulo – a Marcha da Família reuniu aproximadamente 500
mil pessoas, que ao chegarem em caminhada à Praça da Sé
(SP) rezaram uma missa em nome da democracia e da saída
de Jango da presidência. Muitos historiadores afirmam que
essa gigantesca manifestação foi o “aval civil para o golpe
militar”.
Trabalho de pesquisa em periódicos e analise do aluno.
CAPÍTULO 12 – ENQUANTO ISSO,
NO BRASIL…
1. O Brasil do pós-guerra
Vamos entender melhor?
3. Atividade: A era do rádio
Vamos reproduzir um programa de auditório?
1. Comente a perspectiva nacionalista de desenvolvimento econômico.
•
Os defensores de uma postura nacionalista delegavam ao
Estado o controle sobre a indústria de base, transportes,
comunicações e energia, enquanto os outros setores da
atividade econômica ficariam nas mãos de empresas privadas
nacionais.
•
•
2. Explique a proposta nacional-desenvolvimentista de
Juscelino.
•
Pode ser entendida como um desenvolvimentismo associado.
O governo visava à obtenção de investimentos estrangeiros e,
nesse período, diversas empresas multinacionais instalaramse no Brasil. Ao mesmo tempo o governo adotava medidas
protecionistas a favor das empresas nacionais e apresentava
projetos de criação de novas empresas estatais.
Faça uma pesquisa sobre a música, os cantores, os
programas de rádio da década de 1950.
Pesquise também sobre as roupas usadas, os
penteados, e outros componentes do visual das
pessoas na época.
Procure descobrir gírias e expressões usadas naquele
tempo junto a pessoas mais velhas de sua família, assim
como hábitos, comportamento e valores da época.
Defina personagens e funções para os elementos de
seu grupo. Finalmente, monte uma apresentação de
um programa de rádio. Você pode escolher entre
programas de auditório (musicais ou humorísticos),
rádio-novelas e noticiário.
Trabalho do aluno.
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4. Revisão
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EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
4. Reescreva, com suas palavras, o significado do
Golpe de 64 quanto às mudanças sociais e econômicas em curso. (Recorra ao texto complementar O
significado do Golpe como subsídio para sua
resposta.)
1. Trabalhando com texto
Minipesquisa
1. O que foi a Bossa Nova?
As discussões feitas em sala de aula, as explicações do
professor e a leitura do texto complementar serão o suporte
necessário para o aluno produzir um pequeno texto sobre o
assunto proposto.
Criada na zona sul do Rio de Janeiro, no final da década de
1950, por jovens músicos de classe média, a bossa nova
surgiu como uma nova maneira de tratar o samba. Era uma
nova cadência, que nasceu sob a influência do jazz, presente
no violão de João Gilberto e no piano de Tom Jobim. A bossa
nova era a integração de melodia e ritmo com poesias de
tema intimista e do cotidiano.
3. Resolução de testes
A. Resposta: B
2. Por que razão Juscelino Kubitschek é chamado
presidente bossa-nova?
B. Resposta: D
Juscelino contagiou o país com seu arrojado projeto
desenvolvimentista. O presidente, mesmo que sob influência
populista, acenava com a modernização. A música de Juca
Chaves fala-nos de um presidente que tomava aulas de violão
com um grande músico, Dilermando Reis.
C. Resposta: E
D. Resposta: E
E. Resposta: D
3. Que críticas a música faz ao presidente bossa-nova?
F. Resposta: E
As viagens feitas pelo presidente e a política clientelista,
segundo a qual era válido, por exemplo, “mandar parente a
jato para o dentista”.
G. Resposta: E
H. Resposta: C
2. Vamos entender melhor?
I.
1. Comente a renúncia de Jânio Quadros, enfocando:
a) razões alegadas pelo presidente.
Resposta: A
J. Resposta: E
Em seu documento de renúncia o presidente citou “forças
terríveis” e a vitória de uma “reação”. Em nenhum
momento ele explicitou esses termos.
b) efeitos políticos.
A renúncia abriu espaço para uma grave crise política,
pois uma grande parcela do Congresso Nacional queria
inviabilizar a posse do vice-presidente João Goulart.
2. Discuta as razões que levaram à instalação do parlamentarismo no início do governo de João Goulart.
Diminuir os poderes políticos do presidente, tentando
neutralizar aquilo que a oposição a Jango chamava de
“atitudes esquerdizantes”.
3. Leia o texto complementar O comício da Central
do Brasil e discuta o impacto político do anúncio de
reformas feito por João Goulart.
O anúncio das Reformas de Base e a política de nacionalização de algumas empresas aumentou a tensão nos setores
mais conservadores da sociedade nacional. Os Estados Unidos temiam que a experiência cubana se repetisse no Brasil.
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VIII
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CAPÍTULO
10
O mundo no pós-guerra
1. O antagonismo entre as
potências
capitalista, ameaçada em sua hegemonia apenas pela
União Soviética. Sob a influência desses países, formaram-se dois blocos ideologicamente diferenciados e antagônicos, que marcaram o período conhecido como Guerra Fria. De um lado, o mundo capitalista, vivendo sob a
liderança dos Estados Unidos, que exerceu forte influência
na América Latina. De outro, as nações comunistas. Ao
redor da União Soviética, gravitavam países do Leste
Europeu, que depois da Segunda Guerra passaram a viver
sob governos socialistas, aliados de Moscou.
As duas posições eram inconciliáveis. O advento do
comunismo pressupunha a destruição do capitalismo. Na
década de 1950, depois da Revolução Chinesa (1949)
que implantou o regime comunista naquele país, e após a
Revolução Cubana (1959), as ideias socialistas
firmaram-se no panorama político, sendo temidas como
uma ameaça real aos governos capitalistas.
De um lado e do outro foram celebradas alianças
político-militares visando demonstrar o poder ofensivo
de cada bloco e assegurar sua defesa. Em 1949 foi criada
a Organização do Tratado do Atlântico Norte
(OTAN), formada por Estados Unidos, Inglaterra, França
e Alemanha, entre outros países capitalistas. Em contrapartida, os países comunistas formaram o Pacto de
Varsóvia, do qual participavam a União Soviética,
Albânia, Bulgária, Tchecoslováquia, Hungria, Polônia,
Romênia e Alemanha Oriental.
Durante a Guerra Fria, os países
líderes, URSS e Estados Unidos,
lançaram-se em uma corrida armamentista que incluía a formação de
exércitos
numerosos,
equipamentos bélicos, desenvolvimento de técnicas militares e a
posse de poderosas armas
nucleares. O arsenal reunido pelos
dois países e seus satélites seriam
capazes de destruir toda a
humanidade caso se confrontassem
diretamente em uma guerra. O
mundo viveu sob a ameaça da
deflagração de um conflito entre
aqueles países. Imaginava-se que
apenas o aperto de um “botão
vermelho” daria início a um ataque
nuclear cujo poder de devastação
seria fatal para a humanidade.
Durante aproximadamente as cinco décadas que se
seguiram ao término da Segunda Guerra Mundial (19391945), viveu-se em um contexto de Guerra Fria, no qual
houve a formação de dois blocos políticos: um, liderado
pelos Estados Unidos, e outro, pela URSS, países que se
firmaram como as duas potências mundiais da época.
Do ponto de vista econômico, assistiu-se ao isolamento dos países comunistas e à proliferação das
empresas multinacionais, intensificando a internacionalização do capital.
Nesse período, o Brasil viveu um intenso processo
político. Logo após a guerra vivemos uma normalização
das instituições democráticas com a elaboração de uma
nova Constituição e assistimos ao surgimento de
governos eleitos diretamente pela população. Começava
a fase das democracias populistas em nosso país. No
jogo de forças internacionais, estivemos alinhados
ideologicamente ao capitalismo e sob forte influência
econômica e política dos Estados Unidos.
A ameaça de uma guerra impossível
Após o conflito mundial, os Estados Unidos transformaram-se na mais rica e poderosa nação do mundo
A OTAN e o Pacto de Varsóvia
53
C3_9o Ano_Historia_SOME_Tony_2012 21/06/12 09:26 Page 54
Você sabia?
Trabalho de
fotojornalismo de Huynn
Cong Ut mostrando
menina atingida por
bomba de napalm devido
a um erro cometido
durante a
Guerra do Vietnã
Guerra da Coreia
•
•
TEXTO COMPLEMENTAR
•
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
A dança no gelo
“Durante os tempos da guerra fria, o planeta era encarado como uma espécie de enorme tabuleiro de xadrez. A
partida era disputada por dois jogadores, Estados Unidos
e União Soviética, empenhados em manter as posições que
já haviam conquistado — suas áreas de influência política,
consolidadas depois da Segunda Guerra Mundial — e,
tanto quanto possível, tomar novas áreas ao adversário.
Nenhum país ou região do globo era considerado fora dos
limites do jogo: cada casa do tabuleiro estaria, forçosamente, sob domínio de um ou de outro competidor.
Tratava-se, porém, de um partida com características
muito especiais. Ao contrário do xadrez comum, era
inimaginável um ataque direto ao núcleo das forças adversárias. O confronto aberto entre as superpotências, como
já vimos, provavelmente faria voar pelos ares todas as
peças e o próprio tabuleiro. Essa curiosa partida devia ser
jogada com decisão, mas também com certa cautela. A
estratégia a ser adotada recomendava limitar o jogo às
regiões em disputa. Pacientemente, ano a ano, norteamericanos e soviéticos moviam seus peões em diversas
partes do globo, atacando ou defendendo governos nacionais e grupos em disputa pelo poder local. Submetido à
mera condição de cenário dessa disputa, o mundo assistia
aos lances de um jogo que parecia interminável — e que se
arrastaria angustiosamente por décadas.”
•
•
•
•
A Conferência de Yalta (1945) oficializou a divisão do
território coreano: Coreia do Norte (socialista) e Coreia do
Sul (capitalista).
Na região da linha que dividia as duas Coreias – paralelo 38°
N –, eram constantes os conflitos armados.
A vitória de Mao Tsé-Tung à frente da Revolução Socialista
Chinesa (1949) encorajou os norte-coreanos a avançarem
militarmente para o sul.
A ONU considerou a Coreia do Norte agressora e em 1950
eclode um perigoso conflito armado.
As tropas da ONU e o exército norte-americano, comandados
pelo general Joseph MacCarthy, avançam em direção à China.
O general MacCarthy queria fazer uso do arsenal nuclear para
destruir a Coreia do Norte e atingir a China. Porém, desde 1949
a União Soviética já dispunha da bomba atômica.
Em 27 de junho de 1953, os líderes das duas grandes potências
mundiais assinaram o Armistício de Pan Munjon, que
decretou o cessar-fogo e manteve a divisão anterior da Coreia.
Guerra do Vietnã
•
•
•
•
•
DIAS Jr., José Augusto e ROUBICEK, Rafael. Guerra Fria.
A era do medo. São Paulo, Ática, 1996, p. 37.
•
Lutando de forma indireta
•
Ainda que não tivessem chegado a se defrontar,
Estados Unidos e URSS se opuseram de forma indireta,
através do apoio dado a grupos diferentes, em guerras
como a da Coreia (1950-1953) ou a do Vietnã (19591975) e em movimentos de libertação colonial. Tais
conflitos acabaram assumido um caráter de confronto
ideológico, entre o capitalismo e o comunismo.
•
•
•
54
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Indochina – região de
domínio francês, formada pelo Vietnã, Laos e Camboja – foi
ocupada pelos japoneses, que isolaram a administração
francesa.
1941: o Viet-Minh (Liga para a Independência do Vietnã), órgão
ligado ao Partido Comunista local, lidera movimento de
resistência antifrancês e antijaponês.
Em 1945, na Conferência de Postdam, o Vietnã é dividido.
em 1954, na Conferência de Genebra, é reconhecida a
Independência do Vietnã, que foi dividido temporariamente
pelo Paralelo 17, linha fronteiriça, não militarizada: Vietnã do
Norte – República Democrática do Vietnã (pró-soviética) e
Vietnã do Sul – República do Vietnã (pró-Ocidente).
1960: criação da Frente de Libertação Nacional, no Vietnã do
Sul, de tendência comunista e cujo braço armado era o exército
vietcongue.
Em 1961 o presidente John Kennedy (EUA) autoriza o envio
da primeira leva de militares norte-americanos ao Vietnã do
Sul.
1964: início dos bombardeiros norte-americanos ao Vietnã do
Norte.
1973: acordo de paz, assinado em Paris. Os norte-americanos
deixam o Vietnã.
1975: avanço dos exércitos norte-vietnamitas e vietcongues
sobre o Vietnã do Sul. Guerrilheiros comunistas tomam o
poder no Laos e no Camboja. Saigon (Sul) é dominada pelas
tropas comunistas. Fim da Guerra do Vietnã.
1976: O Vietnã é oficialmente unificado sob domínio
comunista.
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De uma forma mais ampla, é possível considerar que
se confrontavam duas visões de mundo, duas propostas
de felicidade coletiva a partir da escolha política entre
socialismo e capitalismo. A busca da hegemonia mundial
levava as duas potências à tentativa de se suplantarem
nos mais diversos campos, incluindo a corrida espacial e
os esportes. Jogos de xadrez e medalhas olímpicas eram
disputados como forma de demonstrar a superioridade de
um país sobre o outro!
A Apolo 11 e a chegada do
homem à Lua
Yuri Gagárin, astronauta soviético que foi o
primeiro ser humano no espaço
Você sabia?
Nikita Kruschev – da União Soviética – e John
Kennedy – dos Estados Unidos –, conscientes do
perigo que uma guerra nuclear representava,
depois de uma série de encontros, combinaram a
instalação do “TELEFONE VERMELHO”, em
agosto de 1963. Obviamente não se tratava de
uma linha telefônica, mas sim de um
teleprocessamento via satélite que permitia a
troca de textos e gráficos. Sabe-se que foi
instalado em Washington e em Moscou, e ao que
parece o local permanece até hoje em segredo.
Prisioneiros na Guerra do Vietnã
Novos rumos para a disputa
Em meados da década de 1950, percebe-se uma
alteração no discurso político. Em 1959, Nikita
Kruschev, o novo líder soviético após a morte de Stálin
(1953), defende publicamente a ideia da necessidade do
estabelecimento de uma “coexistência pacífica”, frente
ao poderio bélico dos dois países. Começava uma ênfase
na competição econômica e tecnológica entre eles.
Os antagonismos políticos não foram afastados totalmente. Houve a ocorrência de crises que por pouco não
levaram ao confronto direto entre aqueles países. As duas
potências intervieram também na vida política de outras
nações apoiando grupos revolucionários, no caso da
URSS, ou governos conservadores, por parte dos Estados
Unidos. A espionagem internacional
assumiu grande importância nesse
contexto, celebrizando a KGB
(iniciais em russo de Comitê
para Segurança do Estado) dos
soviéticos e a CIA (iniciais em
inglês de Agência Central de
Inteligência) norte-americana.
Cronologia da Guerra Fria
1945 – Conferência de Yalta. Lançamento da bomba atômica em
Hiroshima. Conferência de Postdam. Discurso do
presidente norte-americano iniciando a Doutrina Truman.
1949 – URSS declara ter a bomba atômica. Divisão da Alemanha
em Ocidental e Oriental. Criação da OTAN.
1950 – Início da Guerra da Coreia.
1952 – Estados Unidos lançam a primeira bomba de hidrogênio.
1955 – Criação do Pacto de Varsóvia.
1957 – Lançamento do Sputnik 1 pelos soviéticos, primeiro
satélite artificial.
1959 – Início da Guerra do Vietnã.
1961 – Lançamento do Vostok pelos soviéticos, primeira nave
espacial pilotada por um ser humano, Yúri Gagárin.
1969 – Chegada da nave americana Apolo 11 à Lua.
1972 – Assinatura do Salt-1, acordo de limitação de armas
nucleares firmado pelos EUA e URSS.
1989 – Queda do Muro de Berlim.
1991 – Guerra do Golfo.
1991 – Dissolução da URSS e criação da CEI – Comunidade dos
Estados Independentes.
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TEXTO COMPLEMENTAR
DOCUMENTO 2
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–––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
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–––––––––––
“Dois campos opostos se formaram: de um lado a política da
União Soviética e dos países democráticos direcionada a anular o
imperialismo e fortalecer a democracia; do outro lado a política
dos Estados Unidos e da Inglaterra, direcionada ao fortalecimento do imperialismo e anulação da democracia.”
Disputa de superpotências leva
a conflitos regionais
“Na metade do século 20, o mundo viu-se às voltas com os
conflitos ideológicos. Frutos da guerra fria, as disputas bélicas
deslocaram-se para países-chave no complicado jogo da
geopolítica internacional. Eram capitalistas contra comunistas e
vice-versa. Envolviam, direta ou indiretamente, as
superpotências Estados Unidos e União Soviética.
A Coreia, depois da 2.ª Guerra Mundial, viu-se dividida em
duas partes. Ao norte do paralelo 38, ficaram os coreanos
protegidos por soviéticos e chineses. Ao sul, os coreanos que
eram defendidos pelos americanos. Em 1950, o lado comunista
invadiu o capitalista e as hostilidades perduraram por três anos,
matando cerca de 4 milhões de pessoas. A guerra, oficialmente,
não terminou. Até hoje eles continuam separados por uma cerca
da arame e ódio. O lado do Norte passa fome e o do Sul vive em
meio à prosperidade.
No Vietnã, a guerra começou em 1959. Dois anos depois, os
Estados Unidos decidem apoiar o governo do Vietnã do Sul
contra a guerrilha dos vietcongues, estes apoiados pelo lado do
Norte. Apesar de enviar tropas e pesado equipamento bélico, os
soldados americanos viram-se obrigados a abandonar o país em
1975 e os vietcongues assumiram o poder, instituindo um regime
comunista. Cerca de 50 mil americanos e 2 milhões de
vietnamitas morreram no sangrento combate.
Com o declínio do comunismo, os conflitos ganharam outros
contornos. Em 1991, na Guerra do Golfo, os americanos
mostraram o seu potencial armamentista em apenas três meses
de combate, mas cada manobra militar em território iraquiano
era custeada por dólares enviados por países aliados.
Apesar da superioridade bélica, o Primeiro Mundo
descobriu que não poderia mais controlar facilmente os países
do Terceiro. O ditador Saddam Hussein continua dono do
Iraque. Mas sua expulsão do Kuwait não impediu que os preços
do petróleo disparassem no fim da década, lembrando o choque
dos anos 70.”
Discurso do líder soviético Joseph Stálin –
citado em: FENELON, Déa R. op. cit., p. 90.
Os dois documentos acima representam fragmentos
de discurso dos líderes dos dois países que se rivalizavam durante a Guerra Fria, nos quais cada um deles
critica o regime político do bloco ao qual se opunha.
Vamos analisá-los?
1. Qual o regime político defendido pelo presidente
dos Estados Unidos no documento?
2. De que forma o presidente americano em seu
discurso justifica a intervenção de seu país na
política de outras nações?
3. Como o líder soviético Stálin caracteriza no
documento 2 a política norte-americana?
4. Discuta o uso do conceito de democracia pelos
líderes dos dois países nos documentos mencionados, enfocando:
a) o significado apresentado para o conceito por
cada um deles.
Notícias do século, edição especial de
O Estado de São Paulo, 31/12/2000.
b) o objetivo político de cada um ao usar esse
conceito.
Você é o historiador
DOCUMENTO 1
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
“Uma maneira de viver é baseada na vontade da maioria e
distingue-se pela existência de instituições livres, governo
representativo, eleições livres, garantias de liberdade individual,
liberdade de opinião e de religião e ausência de opressão política. O segundo modo de vida baseia-se na vontade de uma minoria imposta pela força a uma maioria. Ele repousa no terror e na
opressão, no controle da imprensa e do rádio, em eleições
fraudadas e na supressão das liberdades pessoais. Acredito que
deva ser a política dos Estados Unidos apoiar os povos livres que
estão resistindo à tentativa de subjugação por minorias armadas
ou por pressões externas.”
No Portal Objetivo
Para saber mais sobre o assunto, acesse o PORTAL
OBJETIVO (www.portal.objetivo.br) e, em “localizar”,
digite HIST9F301 e HIST9F302
Discurso do presidente norte-americano Harry Truman – citado em:
FENELON, Déa R. A guerra fria. São Paulo, Ed. Brasiliense, p. 87.
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2. A Revolução Chinesa
A longa marcha
Introdução
Após o Massacre de Xangai, os comunistas refugiaram-se nas montanhas de Kwangsi, onde fundaram em
1931 a República Soviética da China, e Mao Tsé-Tung
deu início a um processo de desapropriação de latifúndios, organizando grupos guerrilheiros e ligas camponesas. Com a retomada da campanha de libertação, reacendia-se o espírito de guerra civil contra os nacionalistas.
Chiang Kai-Shek passou a contar com o apoio dos governos da Inglaterra e Estados Unidos, e a organizar novas
ofensivas contra os comunistas. Estes, para evitar o cerco
das tropas nacionalistas, empreenderam a Longa Marcha.
Atravessando desertos e montanhas, cerca de cem
mil comunistas, sob o comando de Mao Tsé-Tung, denominado o Grande Timoneiro, percorreram 9600
quilômetros em direção ao extremo norte da China.
Os nacionalistas do Kuomintang foram derrotados
em 1949 a partir de ofensivas bem estruturadas do exército maoista. Chiang Kai-Shek fugiu para a ilha de
Taiwan (Formosa), onde criou a República Nacionalista
da China.
Enquanto isso, em primeiro de outubro de 1949, Mao
Tsé-Tung proclamava a República Popular da China.
O médico Sun Yat-Sen fundou em 1905 o
Kuomintang – Partido Nacionalista – com um programa
político de reformas econômicas, e incitou a expulsão de
todos os estrangeiros do território chinês. À frente de um
processo revolucionário, o Kuomintang proclamou a República chinesa em 1912, levando à abdicação de Pu-Yi,
o último imperador da dinastia Manchu. Era o fim de um
grande império que havia sido retalhado pelo imperialismo europeu.
O Partido Comunista Chinês (PCC) foi fundado em
1921 e, seguindo as instruções do Komintern, faria uma
aliança com o Kuomintang na luta por reformas democráticas.
Após a morte de Sun Yat-Sen, em 1925, o comandante militar das tropas nacionalistas, Chiang Kai-Shek,
assumiu a liderança das províncias do sul. Em um
processo de lutas que durou dois anos, as províncias do
norte foram conquistadas e Chiang Kai-Shek teve em
suas mãos o território chinês unificado.
As relações entre o Kuomintang e o Partido Comunista ficaram comprometidas em função do apoio financeiro que Chiang Kai-Shek recebia da burguesia. Em
1927 ele ordenou o Massacre de Xangai, no qual
milhares de pessoas ligadas ao Partido Comunista foram
mortas pelos soldados do Kuomintang. Uma nova onda
revolucionária iria assolar o território chinês.
Você sabia?
Após a chegada de Mao Tsé-Tung ao poder, a
ONU reconheceu o governo de Chiang Kai-Shek,
em Formosa, como o único representante do povo
chinês. Foi somente em 1971, com a
aproximação diplomática entre a China e os
Estados Unidos, que a ONU reconheceu
oficialmente e admitiu a China no quadro de
seus países membros.
57
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Os caminhos do socialismo chinês
Mao Tsé-Tung
Ao criar as bases da República Popular da China,
Mao Tsé-Tung ignorou as determinações de Moscou que
vetavam a ascensão dos comunistas chineses ao poder.
Stálin, líder soviético, temia um enfrentamento com o
bloco ocidental. Para você conhecer o processo de construção do socialismo chinês, leia atentamente o quadro:
Nasceu em 1893, filho de um rico proprietário de
terras. Foi um dedicado estudante dos pensadores ocidentais e da história da China. Durante algum tempo, Mao foi
professor, profissão que valorizava muito, chegando a
escrever que “um professor vale por cem guerrilheiros”.
Em 1921, após um detalhado estudo das obras de Marx e
Lênin, aderiu ao Partido Comunista. Sua primeira mulher
e seu filho foram assassinados pelo Kuomintang de Chiang
Kai-Shek. Mao foi poeta e escreveu livros sobre política,
filosofia e economia. Destacou-se como militar e chefe de
Estado, vindo a falecer em 1976.
1949-1952
1953-1957
1958-1962
• Reforma Agrária,
a partir de propriedades
rurais
confiscadas pelo
Estado.
• Estado controla
todas as empresas,
bancos e indústrias.
• “Grande Salto para a
Frente”, projeto de desenvolver a China em
uma década.
• Movimento de
educação popular,
alfabetização de
adultos.
• China adotou o
modelo socialista
soviético,
com
apoio total à indústria pesada e a
• Poligamia e casa- economia dirigida
mentos forçados por Planos Quinpelos pais foram quenais.
proibidos.
• A União Sovié• Mulheres deixa- tica passou a auxiram de ser tratadas liar a China atracomo “servas do- vés da remessa de
mésticas” e foram dinheiro, tecnoincorporadas ao logia e profissiomundo do trabalho. nais de diferentes
setores.
Mao Tsé-Tung quando jovem
• Camponeses organizados em grandes cooperativas chamadas
comunas rurais.
• Não havia recursos
suficientes para que as
comunas rurais desenvolvessem todos os
seus projetos.
• Grandes enchentes
destruíram plantações
e provocaram fome.
• A fome dizimou milhares de pessoas. O
Grande Salto para a
Frente revelou-se um
grande fracasso.
TEXTO COMPLEMENTAR
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
As mudanças na China Comunista
“Três grandes reformas foram promovidas [na China]
em 1950. A Reforma Agrária, que confiscou a terra dos
grandes proprietários, dividindo-a entre os camponeses; a
Reforma dos Casamentos, que proibiu os casamentos
contratados pelos pais sem a vontade dos noivos; a Reforma Sindical urbana, que regulamentou a participação dos
trabalhadores na gestão das empresas e o seguro-desemprego, assegurando ao mesmo tempo os direitos dos capitalistas na organização do trabalho e na auferição dos
seus lucros. Seguindo o modelo soviético, os chineses
elaboraram seu Plano Quinquenal para 1953-1957.
Em 1956, produziram-se algumas greves operárias,
reclamações camponesas e críticas de intelectuais. Esse,
aliás, foi um ano particularmente inquietante no mundo
comunista. No XX Congresso do PC da URSS, Kruschev
apresentou seu relatório denunciando as ‘violações da
legalidade socialista’ cometidas por Stalin. […] Na
Hungria, um levante popular ameaçou o regime.”
O jovem Mao explicando ao povo os motivos para a luta comunista
A Revolução Cultural
A década de 1960 trouxe para o governo maoista a
derrocada do Grande Salto para a Frente e o rompimento
das relações diplomáticas com a União Soviética.
Nikita Kruschev, líder soviético e sucessor de Stálin,
defendia a distensão mundial, enquanto a China pregava a permanência da Guerra Fria e o apoio incondicional à internacionalização da revolução socialista.
SADER, Eder. Mao Tse-Tung. São Paulo, Ática, 1982. p. 21-2.
58
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Nesse contexto de crise política, Mao decidiu
mobilizar a juventude a seu favor. Em 1966 teve início a
Revolução Cultural, na qual os jovens chineses foram
estimulados a participar das mudanças revolucionárias.
Grandes cartazes murais denominados “dazibaos”
abriram espaço para que o povo expressasse seu pensamento e suas críticas. Velhos administradores foram
substituídos por jovens. Universitários eram enviados ao
campo para unir o trabalho intelectual ao manual.
Porém, aconteceram desvios e exageros. Obras de
arte, livros e músicas foram proibidos sob o título de
“cultura burguesa”. Cientistas interromperam suas
pesquisas e foram obrigados a trabalhar no campo.
Mao organizou a Guarda Vermelha, formada por
jovens comunistas que perseguiam e humilhavam as
pessoas que não seguiam integralmente a ideologia
expressa no Livro Vermelho.
A morte de Mao, em 1976, determinou o fim da
Revolução Cultural. Seu sucessor, Deng Xiaoping,
afastou do poder os políticos maoistas mais radicais,
denominados de “Camarilha dos Quatro”, entre os quais
estava Jiang Qing, esposa de Mao. O novo governo
apresentou como prioridades a modernização do país e a
ampliação das relações político-econômicas com os
países capitalistas.
Fotografia de Mao Tsé-Tung
em cartaz de rua na China
Jovem em frente a tanques em Pequim. Maio de 1989
VOC ABU L ÁR I O
Auferição = obtenção.
Comunas rurais = fazendas coletivas, onde milhares de famílias
camponesas trabalhavam em regime de cooperação.
Distensão mundial = política de afrouxamento das relações entre
os blocos capitalista e socialista, a partir da década de 1970.
Dizimou = acabou, extinguiu.
Komintern = denominação da Terceira Internacional Comunista,
fundada em Moscou em 1919, com o objetivo de coordenar a luta
dos comunistas no mundo inteiro, a partir do apoio da União
Soviética.
Livro Vermelho = escrito por Mao Tsé-Tung, constituía-se em
uma síntese do pensamento político do autor e lançava as bases
para a Revolução Cultural.
Planos Quinquenais = o planejamento econômico era feito para
um espaço de cinco anos. O primeiro plano quinquenal chinês
dava prioridade à reforma agrária.
Timoneiro = guia, líder; aquele que governa o timão das
embarcações.
Gravura de 1951 mostrando os chineses aprendendo a manejar um trator
Você sabia?
Em maio de 1989, um grupo de estudantes
chineses iniciou uma série de manifestações na
Praça da Paz Celestial, reivindicando o fim da
corrupção do governo e dos privilégios dos altos
funcionários do Partido Comunista Chinês.
Os jovens clamavam por maior liberdade
política. O governo chinês agiu com grande
violência, reprimindo as manifestações com
tropas do Exército. Várias prisões foram
efetuadas e muitas pessoas morreram em um
triste episódio que passou para a História com o
nome de Primavera de Pequim.
V Í D E O
O último imperador, 1987 (direção de Bernardo Bertolucci)
No Portal Objetivo
Para saber mais sobre o assunto, acesse o PORTAL
OBJETIVO (www.portal.objetivo.br) e, em “localizar”,
digite HIST9F303
59
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Verificando se você aprendeu
comunismo. A tensão entre os dois blocos, o comunista e o
capitalista, alcança os continentes africano e asiático, que
se tornam alvo estratégico de disputa.
Para os países colonizados, a luta pelo direito à autodeterminação significou também um esforço no sentido de
se tornarem sujeitos de sua própria história, depois de permanecerem por séculos submetidos ao domínio europeu.
Entretanto, a colonização teve efeitos profundos sobre os
povos colonizados, em múltiplos aspectos. Afetou a cultura dos povos submetidos e estabeleceu elos de dependência econômica que persistiram após a descolonização.
O imperialismo colonial chegou ao fim na década de
1980, mas permanece ainda a questão: isso trouxe efetivamente o fim da dominação dos países “ricos” sobre as
nações pobres dos continentes asiático e africano?
1. Mao Tsé-Tung, no ano de 1966, estabeleceu as bases
da Revolução Cultural na China. Caracterize-a.
2. Como pode ser caracterizada a Longa Marcha
empreendida por Mao Tsé-Tung?
Os caminhos da descolonização
A libertação das colônias africanas e asiáticas resultou
de uma conjugação de fatores externos, já apontados, e de
condições internas particulares de cada país. Configuramse, dessa forma, diferenças no processo de conquista da
independência.
Alguns países, de acordo com condições específicas,
viram-se obrigados a conceder uma autonomia políticoadministrativa progressiva para suas colônias, de forma
a orientar o processo e garantir o controle econômico do
país independente. Foi o caso, por exemplo, de algumas
colônias francesas, como o Marrocos e a Tunísia, que obtiveram de sua metrópole a independência em 1956. A ONU
oferecia seu apoio a essas iniciativas, pressionando os
países colonizadores para que concedessem autonomia a
suas colônias.
Em outros casos, como o dos países pertencentes ao
Império Colonial Português, o processo de libertação
resultou em lutas de independência cujos desdobramentos podem ser sentidos até hoje. Nesses países, o
grande temor dos países capitalistas se concretizou. A
conquista da autonomia se fez a partir de movimentos
revolucionários inspirados nas ideias comunistas, na esfera
de influência de Moscou.
Em 1955, foi realizada na Indonésia, sob a liderança do
presidente Ahmed Sukarno, a Conferência de Bandung,
nome de importante cidade daquele país recém-libertado.
Da reunião participaram os também independentes Índia,
Pasquistão, Ceilão e Birmânia, além de mais 29 países da
África e da Ásia. Nessa ocasião, defendeu-se a soberania de
cada país participante em suas questões internas. Selava-se,
também, um compromisso de ajuda mútua dos países
envolvidos no processo de descolonização.
A Conferência dos Povos da África, realizada em
Acra, capital de Gana, em 1958, reforçou as solidariedades
nacionalistas e contribuiu para acelerar o movimento de
libertação colonial.
3. A via socialista chinesa, de inspiração maoista,
realizou importantes reformas nas áreas da
educação e dos direitos da mulher. Justifique a
afirmação, exemplificando-a.
3. A descolonização da Ásia e da
África
Nos anos que se seguiram ao segundo conflito
mundial, chegou ao fim o longo processo de dominação
colonial europeia na Ásia e na África. Nas décadas de 1950
e 1960, assistimos à ocorrência de uma grande onda
descolonizadora nesses continentes. Somente na década de
1960, dezessete colônias que haviam pertencido à
Inglaterra e à França conseguiram sua independência.
Alguns fatores contribuíram para isso. Durante o
conflito mundial, os países colonizados foram chamados a
lutar ao lado de suas metrópoles, recebendo promessas de
autonomia como recompensa. Ao final da guerra, com a
Europa enfraquecida, movimentos nacionalistas que
visavam à libertação do jugo colonial se fortaleceram.
Concorreram também para a força dos movimentos
nacionalistas e de libertação: a difusão da doutrina
socialista que pregava a autodeterminação dos povos, o
clima de Guerra Fria entre as potências mundiais e
sentimentos de solidariedade entre os países colonizados.
Manter a dominação colonial poderia significar um
risco para o capitalismo mundial caso os países africanos e
asiáticos, como forma de conquistar a independência,
viessem engrossar o número de nações que aderiam ao
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TEXTO COMPLEMENTAR
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Esperanças e frustrações
“Ora por meios pacíficos, ora por intermédio de longas e cruéis lutas internas, por vezes até mesmo com o caráter de guerras
civis, como foi o caso no Congo Belga e em Angola, por exemplo, os velhos impérios coloniais chegaram ao fim. Na Ásia, na África,
nas Antilhas e nas Guianas, nas ilhas do Pacífico, onde quer que se tivesse estabelecido o poder do império, criado e multiplicado
a partir da Europa, foi profunda e devastadora a dominação para as culturas locais e seus sistemas sociais. Por onde o homem
branco passou, ficaram suas marcas como um rastro indelével, e de tal forma que quando foi embora quase nada restava a ser
conservado nem desenvolvido pelos que foram vítimas da sua dominação. Restaram, na maioria, povos amedrontados, arriscados
a perder até a própria memória impressa, quase imperceptivelmente, no que lhe restava como identidade.
(…) A descolonização foi uma conquista dos povos dominados, resultado de uma resistência longa e nem sempre de aparência
espetacular, por vezes silenciosa. Foi o que aconteceu na Ásia, no Norte da África, no Sul da África, em qualquer parte por onde a Europa
e, mais tarde, os Estados Unidos passaram, exibindo a sua superioridade de civilizados e as suas convincentes armas de fogo. Se, por
um lado, o imperialismo ampliou seu raio de influência, por outro, cresceu a capacidade do ser humano de resistir à dominação.
Na Índia, no Egito, na Argélia, em Gana, e assim por diante, a instalação do dominador se fez com violência e igualmente violenta
foi a resistência local. O ato final de independência foi sempre precedido de prolongados distúrbios, quando não de longas e cruentas
guerras de libertação (na Indochina-Vietnã, a guerra contra a França durou de 1946 a 1954; na Argélia, além da grande resistência
armada ao estabelecimento da França, no século XIX, a guerra final de libertação durou seis anos, de 1954 a 1962). (…)
Conquistada a independência, alguns desses novos Estados entraram no reino das guerras civis fratricidas e sem retorno. Restalhes agora encontrar o seu próprio caminho e construí-lo, grão por grão, pedra por pedra.”
LINHARES, Maria Yedda Leite. “Descolonização e lutas de libertação nacional” in: O século XX. Rio Janeiro, Civilização Brasileira, 2000, p. 61-63.
TEXTO 1
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Descolonização
“A tomada de consciência dos povos colonizados em relação aos processos de expropriação, de negação e de desumanização que
lhes foram impostos pela força desencadeou os movimentos de revolta e finalmente de ruptura com o sistema colonial. Essa ruptura,
coroada pelas independências, é o que se chama de descolonização, termo equivocado que merece aqui alguns esclarecimentos.
Na visão de algumas pessoas, houve uma vontade deliberada das potências coloniais de abrir mão de seus direitos adquiridos, ou
seja, de desfazer-se de seus impérios coloniais por livre iniciativa. O que significaria que as independências africanas e asiáticas não
foram conquistadas, mas sim concedidas. No entanto, a história de lutas, às vezes violentas e trágicas, das antigas colônias desmente
essa visão eurocêntrica da descolonização, substituindo-a por uma visão africana e asiática, mais fiel aos acontecimentos históricos.
Desse ponto de vista, a descolonização é produto dos movimentos nacionais que encurralaram o colonialismo, obrigando-o pela força
a abrir mão daquilo que tinha tomado pela força. Mesmo nos países onde não houve guerras de libertação, os colonialistas foram
obrigados a ceder pelas negociações políticas resultantes da pressão dos povos oprimidos. É nesse último sentido que utilizamos o
conceito de descolonização.”
SERRANO, Carlos e MUNANGA, Kabengele. A Revolta dos Colonizados. São Paulo, Atual Editora, p. 10.
A ideia de “descolonizar” as regiões que estiveram sob o domínio dos países colonialistas europeus no século XIX
é produto de uma visão eurocêntrica da História. Discuta o conceito de “descolonização”, tomando como referência
o texto complementar ao lado.
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DOCUMENTO 1
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A Resolução 1514 da ONU
1. A sujeição dos povos à dominação e à exploração estrangeira constitui uma negação dos direitos fundamentais do homem,
e contrário à Carta das Nações Unidas, compromete a causa da paz e da cooperação mundial.
2. A falta de preparação nos domínios político, econômico e social ou educativo não deve jamais ser tomada como pretexto
para retardar a independência.
3. Todos os povos têm direito à livre determinação; em virtude desse direito, eles determinam livremente o seu estatuto político
e buscam livremente o seu desenvolvimento econômico, social e cultural.
4. Será posto fim a todas as ações armadas e a todas as medidas de repressão, de qualquer tipo, que sejam dirigidas contra os
povos dependentes, para permitir à sua população exercer pacífica e livremente o direito à independência completa e o
respeito à integridade do seu território.
5. Serão tomadas medidas imediatamente nos territórios sob tutela, nos territórios não autônomos e em todos os outros
territórios que ainda não tiveram acesso à independência, para transferir todo o poder aos povos desses territórios, sem
nenhuma condição ou reserva, conforme sua vontade e seu voto livremente expresso, sem nenhum distinção de raça, de
crença ou de cor, a fim de permitir-lhes o gozo de uma independência ou liberdade completas.
6. Toda tentativa visando destruir parcial ou totalmente a unidade nacional e a integridade territorial de um país é incompatível
com as metas e os princípios da Carta das Nações Unidas. Todos os Estados devem observar fiel e estritamente as disposições
da Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a presente Declaração sobre a base da
igualdade, da não ingerência nos assuntos internos dos Estados e do respeito aos direitos soberanos e à integridade
territorial a todos os povos.
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Cronologia da descolonização
na África
Ano
A África durante o neocolonialismo dos séculos XIX-XX
Países
1951
Líbia
1956
Marrocos, Sudão e Tunísia
1957
Gana (ex-Costa do Ouro)
1958
Guiné
1960
Burkina Fasso (ex-Alto Volta), Benin (exDaomé), Camarões, Chade, Congo (exCongo Francês), Costa do Marfim, Gabão,
Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, República
Centro-Africana, República Malgaxe (exMadagascar), Senegal, Somália, Togo e Rep.
Dem. do Congo (ex-Zaire e ex-Congo Belga)
196
Tanzânia e Serra Leoa
1962
Argélia, Burundi, Ruanda e Uganda
1963
Quênia
1964
Zâmbia (ex-Rodésia do Norte) e Malavi
(ex-Niassalândia)
1965
Gâmbia
1966
Botsuana (ex-Bechuanalândia) e Lesoto
(ex-Basutolândia)
1968
Guiné Equatorial (ex-Guiné Espanhola),
Ilhas Maurício e Suazilândia
1973
Guiné-Bissau
1975
Angola e Moçambique
1977
Djibuti (ex-Somália Francesa)
1980
Zimbábue (ex-Rodésia do Sul)
A África independente
DOCUMENTO 2
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A Declaração de Bandung
A Conferência Afro-Asiática discutiu os problemas dos povos dependentes, do colonialismo e dos males resultantes da submissão
dos povos ao jugo do estrangeiro, à sua dominação e à sua exploração por este último. A Conferência está de acordo: 1) Em declarar
que o colonialismo, em todas as suas manifestações, é um mal a que deve ser posto fim imediatamente; 2) Em declarar que a questão
dos povos submetidos ao jugo do estrangeiro, ao seu domínio e à sua exploração constitui uma negação dos direitos fundamentais do
homem, é contrário à Carta das Nações Unidas e impede favorecer a paz e a cooperação mundiais; 3) Em declarar que apoia a causa
da libertação e independência desses povos; 4) Em apelar para as potências interessadas para que elas concedam a liberdade e a
independência a esses povos…
(Declaração de Bandung) In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos da história. v. III. Lisboa, Plátano, 1976, p. 348
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Surge o “terceiro mundo”
nações que disputavam a hegemonia mundial – Estados
Unidos e União Soviética –, como em Angola. Em seu
conjunto, foram processos complexos, de acordo com as
características de cada país, inseridos no contexto mais
amplo da descolonização, analisado na aula anterior.
Nesta aula estudaremos dois casos: o processo
peculiar de emancipação indiana e as lutas de libertação
colonial na África, com especial atenção para o
desmoronamento do Império Colonial Português.
Na Conferência de Bandung, as nações ali reunidas
pronunciaram-se a favor do socialismo e da neutralidade,
manifestando seu distanciamento tanto da União
Soviética quanto dos Estados Unidos. Estava cunhada a
expressão “terceiro mundo”, como uma alternativa aos
dois blocos políticos hegemônicos. Ainda que esse
“espírito de Bandung” anunciasse uma esperança para
um futuro construído em bases democráticas e positivas
para esses países, a realidade que se seguiu foi diferente.
Os países africanos e asiáticos que haviam pertencido
aos impérios coloniais europeus enfrentaram uma
sequência de lutas internas e governos ditatoriais. Apesar
de independentes politicamente, continuaram sob uma
situação de dependência econômica.
Com o passar do tempo, a noção de “terceiro mundo”
se ampliou. No contexto internacional, passou a designar os
países pobres do mundo, considerados “subdesenvolvidos”, aos quais se juntaram as nações latino-americanas.
A emancipação da Índia
Desde a Revolta dos Cipaios (1858), a Índia passou
a fazer parte do Império Colonial inglês, tendo sagrado a
rainha Vitória como sua imperatriz. A dominação
britânica na Índia apregoava a missão civilizadora do
homem branco. A Inglaterra era então grande potência
marítima, detentora de imenso império colonial. Às
vésperas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), seu
extraordinário império englobava 1/4 do planeta, com
cerca de 500 milhões de habitantes. Dessa população,
80% era composta de negros, indianos e orientais.
O cenário se altera após a Segunda Guerra (19391945). A situação econômica da Inglaterra foi afetada no
conflito e seu poder, diminuído, repercutindo em sua
política colonial. Em 1947, logo após o final da guerra, o
primeiro-ministro britânico, Clement Attlee, anunciou
que a Inglaterra concederia a independência à Índia até
junho de 1948.
Tratava-se, na verdade, de uma resposta ao forte
movimento de reivindicação liderado pelas elites locais.
Na década de 1920, havia começado um movimento
de independência, que cresceu nos anos seguintes, liderado por Jawaharlal Nehru e Mahatma Gandhi, a partir do
Partido do Congresso, que tinha o apoio da burguesia local. Gandhi destacou-se na liderança do movimento propondo a desobediência civil como caminho de recusa à
situação colonial, de acordo com um princípio de não violência. Suas ideias encontraram ampla repercussão na opinião pública de seu país e também internacionalmente, contribuindo para o avanço do processo de descolonização.
A Índia compreendia dois grupos religiosos diferentes:
hindus e muçulmanos. Com a independência, foram
criados dois países: o Paquistão, de maioria muçulmana,
incluindo territórios distantes entre si cerca de 2 mil
quilômetros, e a União Indiana, hindu. A divisão levou a
conflitos entre os dois grupos. Gandhi, coerente com suas
ideias de não violência, defendia a paz com os muçulmanos. O grande líder pacifista acabou de maneira trágica,
assassinado a tiros em Nova Délhi (1948) por um fanático
hindu que não aceitava a convivência com os muçulmanos.
A Índia teve Nehru como primeiro-ministro, que
empreendeu reformas sociais, como a nacionalização dos
bancos e a reforma agrária e incentivou a indústria do
país. O Paquistão Oriental separou-se do Ocidental em
1971, dando origem à República de Bangladesh.
Verificando se você aprendeu
1. Grife nos dois documentos contidos neste item
frases que representem a argumentação usada pela
ONU e pelos países participantes de Bandung para
defender a descolonização.
2. Houve diferenças no processo de independência
das nações colonizadas. Sobre isso, responda:
a) Por que os países colonizadores buscavam a “via
pacífica” para a libertação de suas colônias?
b) Em que contexto surgiram as lutas de libertação
colonial?
3. Discuta os efeitos da descolonização para os países
então libertados e escreva sua conclusão.
4. Em busca da autodeterminação
A conquista da independência das nações afro-asiáticas percorreu vários caminhos, de acordo com a situação específica de cada colônia e suas relações com a
metrópole. Deu origem a
guerras de ampla repercussão, como a do Vietnã e da
Argélia. Levou a lutas internas de emancipação com
interferência direta das
Cartaz conclamando as colônias britânicas a auxiliarem a Inglaterra na
Segunda Guerra Mundial
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DOCUMENTO
“(…) A primeira coisa, portanto, é dizer-vos a vós
mesmos: não aceitarei mais o papel de escravo. Não
obedecerei às ordens só porque são a lei, pois
desobedecerei sempre que estiverem em conflito com
minha consciência. O vosso opressor poderá até vos dar
uma surra para forçar-vos a servi-lo. Direis a ele: Não
obedecerei nem por dinheiro nem por ameaça. Isso poderá
trazer sofrimentos. Mas vossa coragem em sofrer acenderá
a tocha da liberdade que não poderá mais ser apagada.”
Gandhi lutava pela independência da
Índia seguindo o princípio da não
violência
Mahatma Gandhi
DOCUMENTO
Gandhi, o líder da independência da Índia
“Nascido na Índia Ocidental no ano de 1869, Gandhi
formou-se advogado na Inglaterra no final do primeiro
semestre de 1891. Regressando à Índia, tentou sem sucesso
advogar em vários tribunais, sobretudo na cidade de Bombaim. Desiludido, buscou nova oportunidade na África do
Sul, para onde embarcou em abril de 1893. Gandhi previa
uma viagem de curta duração, de alguns meses, mas sua
permanência na África do Sul estendeu-se por 22 anos.
Em 1896 esteve na Índia para buscar a esposa e os
filhos, logo depois retornando à África. Envolvendo-se
cada vez mais em movimentos de desobediência civil
contra a desigualdade e contra outras formas de violência
impostas aos indianos que viviam naquela região, Gandhi
só voltou definitivamente para a Índia em 1915. Através da
não violência, ele auxiliou os indianos da África do Sul na
eliminação quase total da injustiça exercida contra eles.
Ao desembarcar em Bombaim, lugar onde fracassara
como advogado, Gandhi encontrou o reconhecimento
popular por suas atividades de desobediência desarmada,
em favor da dignidade humana dos indianos na África.”
Gandhi e Nehru
VIERA, Evaldo. O que é desobediência civil. São Paulo,
Ed. Brasiliense, 1983, p. 49-50.
Você sabia?
O governo inglês proibia que os indianos
produzissem sal. Eles tinham que comprar dos
comerciantes britânicos. Em 1930 Gandhi
organizou a célebre Marcha do Sal, na qual ele e
seus seguidores caminharam 400 quilômetros
até o mar para obter sal.
Quando os militares ingleses chegaram, Gandhi
e os membros da marcha se entregaram
pacificamente. “O punho que encerrou esse sal
poderá ser cortado, mas não largará o sal”, teria
dito Gandhi pouco antes de ser preso.
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A África procura a liberdade
Foi longo e doloroso o processo de libertação do
continente africano, coroando uma história marcada pela
violência. A África foi submetida a séculos de domínio
europeu e à violência da escravidão, que deslocou grandes contingentes de africanos de suas terras para a América. Enfrentou governos ditatoriais e lutas relacionadas
ao processo de descolonização. Nesse processo, vidas
foram exterminadas e a cultura local atingida. Algumas
regiões do continente ainda vivem os efeitos de sua história, mergulhado na mais profunda miséria e na
desorganização social.
No início do século XX, mais de 90% do continente
africano se encontrava sob o domínio colonial europeu.
Eram livres apenas a África do Sul, a Libéria e a Etiópia.
Entre 1957 e 1962, mais 29 países africanos tornaram-se
livres!
Após 1945 toma corpo um movimento nacionalista
africano que pretendia romper com a dependência colonial. As diversas nações seguiram caminhos diferentes,
de acordo com dois modelos principais. Um era o modelo soviético com apoio da Internacional Comunista às lutas de emancipação dos povos dominados. O outro, oferecido pelas elites coloniais, geralmente educadas na
Europa, propunha reagrupamento político das diferentes
etnias, arbitrariamente divididas durante a partilha da
África pelas potências coloniais.
O Império Colonial Português foi o último a se
dissolver. Formado a partir da Expansão Marítima do
século XV, havia diminuído bastante a partir do século
XVII, perdendo suas colônias para espanhóis, holandeses
e ingleses, além de o Brasil ter-se tornado independente.
Conservava apenas Angola, Moçambique, Guiné-Bissau
e os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Na década de 1950, grupos nacionalistas e guerrilheiros
levaram adiante um movimento de libertação colonial
que contou com o apoio dos países comunistas.
A miséria na África resultado
de séculos de dominação
colonial
Angolanos com retrato de Agostinho Neto
Você sabia?
Localizado nas proximidades da Indonésia, o Timor Leste foi
colonizado por Portugal no século XVI. Em 1975 os
portugueses retiraram-se da região, deixando uma sociedade
mergulhada na miséria e na guerra civil. Entre 1975 e 1999 o
Timor viveu sob uma ditadura indonésia, que tentou impor
seu idioma e a religião muçulmana a uma população de
maioria católica.
Em 1999 o Timor Leste tornou-se um território autônomo
administrado pela ONU, sob a chefia do brasileiro Sérgio
Vieira de Mello. Em agosto desse mesmo ano a maioria dos
timorenses votou pela separação da Indonésia.
A independência do Timor efetivou-se em 20 de maio de 2002,
e atualmente o país está passando por um processo de
reconstrução com apoio da comunidade internacional.
Em 1974 ocorreu em Portugal a Revolução dos Cravos, que pôs fim ao governo autoritário de Marcelo Caetano, que havia sucedido o ditador Oliveira Salazar, morto
alguns anos antes. O novo governo reconheceu a independência das colônias africanas, pondo fim ao Império Colonial Português.
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Principais zonas de conflito no processo de descolonização da África
Conflito
Revolta dos Mau-Mau
Período
1952-1960
Regiões envolvidas
Consequências
Membros da Tribo Kikuyu, os Mau-Mau 1960: as tropas inglesas deixam o Quênia.
do Quênia contra a Inglaterra.
1963: independência do Quênia.
Guerra de Independência
Grupos nacionalistas tunisianos contra a
1952-1955
1956: independência da Tunísia.
da Tunísia
França.
Guerra de Independência
Grupos nacionalistas marroquinos contra a
1953-1956
1956: independência do Marrocos.
do Marrocos
França.
Crise de Suez
1956
Egito contra a Inglarerra e França.
O Canal de Suez é nacionalizado pelo Egito e, a partir da
intervenção norte-americana, as tropas anglo-francesas
deixam a região.
1957: Batalha de Argel, um dos mais violentos conflitos
Guerra de Independência
Grupos nacionalistas argelinos contra a entre o exército francês e a guerrilha argelina.
1954-1962
da Argélia
França.
1963: independência da Argélia, após a retirada francesa da
região.
Guerra do Congo (Congo
Belga, atual Rep. Dem. do 1960-1967 Lutas entre facções nacionalistas.
Congo)
1960: Bélgica concede a independência ao Congo, após um
violento processo de lutas tribais e regionais.
1967: golpe militar do general Mobutu põe fim ao conflito.
Biafra, província nigeriana rica em petróleo, é atingida por
Guerra civil na Nigéria a partir de lutas um bloqueio imposto pelo governo da Nigéria.
Guerra de Independência
1967-1970 pela independência da província de 1970: impedida de receber alimentos e remédios do exterior,
de Biafra
a população de Biafra se rendeu, colocando fim à guerra
Biafra.
civil.
Guerra de Independência
Grupos nacionalistas angolanos, apoia1961-1975
1975: independência de Angola.
de Angola
dos pela URSS e China, contra Portugal.
Guerra de Independência
Portugal contra grupos nacionalistas
1964-1975
1975: independência de Moçambique.
de Moçambique
apoiados pela União Soviética e China.
Guerra Civil de Angola
MPLA (Movimento Popular para a
Libertação de Angola) lutou contra O MPLA, movimento com reconhecimento político da ONU,
1975-2002 FNLA (Frente Nacional de Libertação de enfrentou a Guerrilha da UNITA, apoiada pela África do Sul
Angola) e UNITA (União Nacional para e Estados Unidos.
a Independência Total de Angola).
TEXTO COMPLEMENTAR
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O fim do Império Colonial Português
“Na década de 1960, os últimos da Guerra Fria, verificaram-se alterações e mudanças importantes no estatuto político de Angola, Moçambique,
São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e o Arquipélago do Cabo Verde, que vêem sua independência reconhecida, após vinte anos de guerras coloniais
(sob a liderança de suas respectivas organizações nacionalistas) e a ocorrência da revolução democrática portuguesa em 1974. Até então, Portugal
fazia figura de último baluarte do colonialismo, tal qual fora concebido e praticado – ultracolonialista, assim intitulado, na época, por autores
radicais, expoente do colonialismo dependente e subdesenvolvido, na medida em que jamais aceitara fazer qualquer concessão ou mesmo sentar à
mesa de reunião com os líderes nacionalistas autênticos. Entre os mais notáveis, distinguiram-se Agostinho Neto, Mario de Andrade e Viriato Cruz
do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), Amilcar Cabral, PAIGC (Partido Africano pela Independência da Guiné e de Cabo Verde).
Nesse período, a condenação a Portugal vinha de todas as partes. Na ONU, restavam-lhe raros aliados, a Espanha (então franquista) e,
obviamente, a África do Sul, tristemente notabilizada pelo cruel regime de dominação, baseado no racismo e na separação absoluta entre brancos
(minoria) e negros (grande maioria), o apartheid; este somente foi abolido em 1992, em plebiscito, graças à política de Frederik de Klerk, seguido
da eleição de Nelson Mandela como presidente da República da África do Sul (1994).
Apesar da reprovação geral, Portugal continuava a receber suprimentos em armas pela OTAN, que eram enviadas aos seus exércitos
sediados na África.
(…) Finalmente, em 25 de abril de 1974, jovens oficiais das Forças Armadas de Portugal derrubam a ditadura, apoiados no povo, cujas
armas eram os cravos que levavam e a alegria estampada nos rostos. Era a democracia em marcha e a decretação do fim do colonialismo.
O exército colonial fora derrotado e voltava-se contra a metrópole, em nome da liberdade.
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Economicamente, as colônias eram importantes para Portugal, sobretudo o potencial de Angola — petróleo de Cabinda, minérios e
recursos agrícolas. Daí serem muitos os interesses em jogo, durante a dominação portuguesa e as duas décadas seguintes à declaração de
independência. A nova era, no entanto, não foi de paz. A intransigência do colonialismo português teve como sucessores os participantes da
guerra civil que, mais uma vez, trará o caos ao país, agora transformado em mais um cenário da competição internacional, manipulando
rivalidades intertribais. A própria divisão do movimento anticolonialista — os três grupos que lideravam a libertação — torna-se crucial após
1974, que marca o fim da dominação portuguesa: o MPLA, multirracial e marxista (URSS), com o predomínio da nação quibundo; a Frente
de Libertação Nacional de Angola, anticomunista, apoiada pelos Estados Unidos e pelo ex-Zaire (Congo), no norte do país; a União Nacional
pela Independência Total de Angola, inicialmente maoista e que, mais tarde, recebe o apoio da África do Sul, tornando-se anticomunista e
mantendo como base de atuação a região centro-sul.
Alastra-se a guerra civil, a partir de 1975, com as diferentes facções em luta recebendo apoio de potências estrangeiras. Daí por diante,
predomina o caos. A maioria maciça de brancos angolanos (350 mil) emigra, uma parte chega ao Brasil. Tropas sul-africanas invadem Angola,
dando suporte ao UNITA no ataque a Luanda. Cuba passa a apoiar militarmente o MPLA. Com a retirada de Portugal, Agostinho Neto, líder do
MPLA, é proclamado presidente da República Popular de Angola, cujo regime foi reconhecido como sendo socialista. Com sua morte, em 1979,
a presidência passou a seu sucessor, José Eduardo dos Santos, sem vislumbre de paz para a região nem a satisfação dos interesses em jogo.”
LINHARES, Maria Yedda Leite.“Descolonização e lutas de libertação nacional” in: O século XX. Rio Janeiro, Civilização Brasileira, 2000.
Verificando se você aprendeu
1. Como pode ser caracterizado o princípio da
desobediência civil proposto por Gandhi?
2. Escreva sobre a questão religiosa que se instaurou
na Índia após o processo de independência.
3. Em que medida a Revolução dos Cravos se relaciona com o processo de descolonização da África?
VO C A B U L Á R I O
Apartheid = política de segregação racial, adotada pela República
Sul-Africana, de 1948 a 1995, entre seus habitantes, a qual
objetivava o predomínio pleno dos brancos sobre negros, mestiços
e minorias de origem asiática.
Baluarte = bastião, poderoso líder de ideias ou ação.
Franquista = relativo ao período da ditadura do General
Francisco Franco na Espanha (1939-1975).
Nova York, o monumento do poder dos EUA
Também contribuíram para essa prosperidade um
conjunto de medidas econômicas implantadas internamente
que visavam eliminar problemas de desemprego ocasionados
pela volta de milhares de soldados norte-americanos que
retornavam da guerra para a vida civil. Foram também
tomadas medidas para fazer a reconversão da poderosa
indústria bélica para a de bens de consumo.
A partir da ajuda financeira para a reconstrução
europeia — Plano Marshall —, os mercados europeus
puderam exportar produtos norte-americanos.
Ao mesmo tempo em que o padrão de vida das
camadas médias elevava-se, crescia dentro da sociedade
norte-americana um forte sentimento anticomunista que
foi reforçado após a Revolução Chinesa e a explosão da
primeira bomba atômica soviética em 1949.
5. Os Estados Unidos após a
Segunda Guerra Mundial
A prosperidade econômica dos Estados Unidos
cresceu após a Segunda Guerra Mundial. Este país haviase beneficiado do fato de não ter que enfrentar combates
em seu próprio território, apesar de ter-se envolvido no
conflito. O declínio europeu levou a uma desorganização
dos mercados internacionais, o que ampliou as possibilidades de negócios para os Estados Unidos. Da mesma
forma, o processo de libertação das antigas colônias
europeias abriu novos mercados. A América Latina também se firmou como importante área de atuação econômica para os americanos do norte. A Guerra Fria contribuiu para abrir espaço para o imperialismo norte-americano. Com tudo isso, os Estados Unidos tomaram a dianteira, figurando como a principal potência econômica,
política e militar do mundo capitalista.
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país envolvendo negros e brancos. Em 1954 foram promulgadas leis para integrar os negros na sociedade
americana, proibindo, entre outras coisas, a segregação
nas escolas. Isso não serviu para acalmar os ânimos,
mesmo porque o Congresso americano recusou, na
mesma época, um projeto de lei para estender o direito de
voto aos negros. Isso ensejou a criação da Comissão dos
Direitos Civis que investigaria as violações ao direito de
voto baseadas na cor, raça, religião e nacionalidade.
Você sabia?
Ethel e Julius Rosemberg, um casal de cientistas norte-americanos, foram acusados de
revelar segredos da bomba atômica para os
soviéticos. Apesar de provas inconsistentes,
ambos foram julgados culpados e executados na
cadeira elétrica em 1953. Até hoje, seus dois
filhos lutam pela sua reabilitação e pelo
reconhecimento de um erro judicial por parte do
governo dos Estados Unidos.
Vamos diferenciar os conceitos?
O "macarthismo"
Preconceito racial: __________________________
Na década de 1950, no auge da Guerra Fria, os
Estados Unidos são atingidos por uma violenta onda
anti-comunista notadamente após a criação do Comitê
de Atividades Americanas, sob a inspiração do senador
republicano Joseph MacCarthy, que desencadeou uma
verdadeira “caça às bruxas”. O macarthismo ocasionou
intensa perseguição aos intelectuais, artistas e funcionários do governo, e sua prisão, a partir da acusação de
serem simpatizantes do movimento comunista.
O macarthismo foi neutralizado quando figuras de
destaque do exército norte-americano foram acusadas de
envolvimento com atividades comunistas. O Senado, em
dezembro de 1954, censurou publicamente seu membro
Joseph MacCarthy, que renunciou à vida pública.
___________________________________________
___________________________________________
___________________________________________
Discriminação racial: ________________________
___________________________________________
___________________________________________
___________________________________________
Você sabia?
Os escritores Dashiel Hammet e Henry Miller
eram alguns dos artistas perseguidos pelo macarthismo. Assim como Charles Chaplin, que chegou
a ser impedido de desembarcar nos Estados Unidos após uma viagem à Europa. A perseguição
também
atingiu
os
cientistas, como
Oppenheimer, criador da primeira bomba
atômica.
Segregação racial: ___________________________
___________________________________________
___________________________________________
___________________________________________
A questão racial
A segregação racial nos Estados Unidos vinha desde
o final da Guerra de Secessão (1861-1865), depois da
qual foram promulgadas leis que restringiam a
participação dos negros na sociedade norte-americana.
Pelas chamadas Leis Jim Crow, negros no sul do país
não podiam frequentar as mesmas escolas que os
brancos, viajar nos mesmos ônibus ou utilizar os mesmos
locais públicos. A segregação se expandiu por outros
setores chegando até mesmo às Forças Armadas.
Durante o governo do presidente norte-americano
Dwight Eisenhower (1953-1961), do Partido Republicano, houve a eclosão de violentos conflitos raciais no
O presidente democrata John F. Kennedy (19611963) apoiou a organização do Movimento pelos
Direitos Civis dos Negros, que lutava contra a
segregação racial nos Estados Unidos. Conseguiu
aprovar no Congresso a Lei dos Direitos Civis,
sancionada no governo de Lyndon Johnson (1964-1968).
Com isso assegurou-se, entre outras medidas, que os
negros tivessem a mesma condição que os brancos para
votar e não fossem alvo de restrições de locomoção em
transporte coletivo.
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anexação da zona do canal do Panamá em 1903.
As pretensões imperialistas dos Estados Unidos com
relação à América Latina, que vinham desde os fins do
século XIX, intensificaram-se após o conflito mundial no
contexto da Guerra Fria. Combinavam-se interesses econômicos relativos ao importante mercado que a região
significava para os produtos americanos e interesses
políticos relativos ao temor norte-americano de que o
comunismo se alastrasse pelo continente. Os Estados
Unidos intervieram diversas vezes, direta e indiretamente, na política interna dos países latino-americanos.
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos – o
Pentágono – criou em 1949, em Fort Gulick, na zona do
Canal do Panamá, uma escola militar destinada a formar
especialistas em assuntos latino-americanos. A “Escola das
Américas”, como ficou conhecida, ensinava aos militares
técnicas de contraguerrilha, combates na selva e luta contra
a subversão. Uma grande parte da elite militar latinoamericana formou-se segundo os princípios dessa
instituição.
MARTIN LUTHER KING
Nasceu em Atlanta no ano de 1929,
filho de um pastor protestante.
Chegou à universidade, onde se
tornou doutor em 1955. O Dr. King
foi o grande líder do movimento
dos negros pelos direitos
civis. Admirador de Gandhi,
ele defendia ações pacíficas
contra a discriminação
racial. Em 1963, após uma gigantesca manifestação em
Washington contra o racismo, Martin Luther King recebeu o
Prêmio Nobel da Paz. Ele colocou-se contra a Guerra do Vietnã e
incitou o povo norte-americano a pressionar os congressistas pelo
fim do conflito.
Violentamente perseguido, o Dr. Martin Luther King foi
assassinado em 1968.
Você sabia?
Você sabia?
Em setembro de 1957 o governador do estado de
Arkansas, Orval Faubus, não acatou a legislação
que visava à integração racial e mandou tropas
estaduais para impedir que estudantes negros da
cidade de Little Rock entrassem em uma escola de
brancos. Seguiu-se intensa onda de conflitos
raciais. Mesmo sob ordem judicial, grupos de
brancos, que chegavam a cerca de 1500 pessoas,
tentavam impedir que negros entrassem no
estabelecimento. Foi preciso haver intervenção
federal e que tropas fossem enviadas de
Washington para garantir a entrada dos negros
na escola!
Na “Escola das Américas” surgiu a Doutrina da
Segurança Nacional, que propunha o combate ao
comunismo através de uma guerra total:
econômica, militar, política, social e psicológica.
A política externa do presidente John F. Kennedy,
denominada Nova Fronteira, era orientada no sentido de
conter a União Soviética por meio do aumento do arsenal
bélico norte-americano e do fortalecimento dos laços
com países aliados. Nesse contexto, a criação da Aliança
para o Progresso, em 1961, representou a tentativa
norte-americana de fortalecer os laços capitalistas na
América Latina, impedindo que a ideologia comunista se
alastrasse nessa região. Em seu governo, ocorreu o
episódio da Baía dos Porcos, no qual exilados cubanos
treinados nos Estados Unidos tentaram derrubar o
governo de Fidel Castro em Cuba.
A interferência na vida política interna dos países
latino-americanos continuou para além da década de
1960. A participação dos norte-americanos foi feita pelos
meios diplomáticos, mas também de outras maneiras. As
forças armadas de diferentes países latino-americanos,
por exemplo, contaram com o auxílio norte-americano
para o treinamento militar e também é sabido que a CIA
contribuiu para a instalação de ditaduras no continente,
As relações com a América Latina
Após a ocupação da porção territorial do Oeste, os
Estados Unidos voltaram-se para a América Latina,
apossando-se, em 1848, da metade do território mexicano. No final do século XIX, a América Central passa
por sucessivas intervenções militares, culminando com a
Guerra Hispano-Americana, que colocou Cuba e Porto
Rico sob o domínio de Washington.
A presidência de Theodore Roosevelt (1901-1909)
definiu a política do Big Stick (grande porrete), também
conhecida como a “diplomacia do dólar”, que proclamava os Estados Unidos como o “guardião do continente americano”. Nesse contexto podemos entender a
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TEXTO 1
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
A hegemonia dos EUA
“Em terceiro lugar, por fim, à medida que as “fronteiras” econômicas e políticas dos Estados Unidos se estendiam para o sul (desde a
anexação do Texas, em 1845, separado do território do México), tanto as economias como os sistemas políticos latino-americanos
comprometeram-se cada vez mais com a hegemonia norte-americana. Assim, sempre que a primazia dos Estados Unidos se armava ou
expandia, reduzia-se ou eliminava-se a presença inglesa (e, em menor escala, a presença alemã e francesa) na América Latina.
Paulatinamente, a Doutrina Monroe foi imposta ou assimilada pelos grupos dirigentes dos países latino-americanos, seja por intermédio da
big stick policy, seja por meio da good neighbour policy. Em síntese, a concretização da primazia absoluta dos Estados Unidos sobre as
nações da América Latina desenrolou-se ao longo de cerca de pouco mais de cem anos (desde a anexação do Texas, em 1845, até a deposição
de Perón, em 1955). É claro que a supremacia crescente dos Estados Unidos na América Latina e em outros continentes se beneficiou bastante
da posição geográfica privilegiada daquele país, em face dos centros mais críticos do próprio sistema capitalista mundial. Nas duas guerras
mundiais, países latino-americanos, sem sentido dominante daquele país beneficiaria tanto dos resultados da "economia de guerra" como dos
"despojos" de guerra.
É óbvio que esse processo de "conquista" da América Latina não se desenrolou sem contratempos, para os Estados Unidos. Exigiu
manobras políticas, lutas armadas, compromissos econômicos, refinamentos diplomáticos, sofisticação intelectual etc. Exigiu tanto o estímulo
à adoção de processos políticos eleitorais (de estilo democrático) como o incentivo ou a preparação de
golpes de Estado. Além disso, a "conquista" da América Latina sofreu contratempos ainda mais graves.
À medida que se instaurava, geravam-se reações locais, ou acentuavam-se contradições preexistentes.
Nesse contexto, por exemplo, surgiu a vitória do socialismo em Cuba. E nesse contexto, também, Porto
Rico vem sendo paulatinamente incorporado pelos Estados Unidos. Aliás, talvez o destino dos povos
dessas duas ilhas simbolizem os limites das possibilidades históricas reservadas aos povos da América
Latina.
É nesses termos, em síntese, que as estruturas de dependência que caracterizam as sociedades latinoamericanas foram instauradas e desenvolveram-se. Por esses motivos é que se pode afirmar que essas
sociedades se defrontam com a dependência enquanto um processo histórico, constitutivo, como algo que
lhes define a essência. É claro que essas sociedades são capitalistas, antes de mais nada. Mas este é o John Kennedy, o criador da Aliança
seu caráter geral. O que lhes é particular é a dependência estrutural, que revela a feição específica do para o Progresso, em 1961, um procapitalismo na América Latina.”
grama voltado para a América Latina
IANNI, Octavio, Imperialismo na América Latina, Rio de Janeiro, 1974.
Trabalhando com texto
A partir da leitura do texto “A Hegemonia dos Estados Unidos”, responda às questões:
1. Você estudou anteriormente a Doutrina Monroe. Explique o momento histórico de sua criação.
______________________________________________________________________________________________
2. Que relação histórica pode ser estabelecida entre a Doutrina Monroe, a “big stick policy” e a “good neighbour policy”?
______________________________________________________________________________________________
3. Qual a base ideológica que definiu a criação da Aliança para o Progresso, em 1961?
______________________________________________________________________________________________
VO C A B U L Á R I O
americanos.
Hegemonia = dominação.
Paulatinamente = lentamente, vagarosamente.
Primazia = prioridade, aquilo ou aquele que ocupa o
primeiro lugar.
“Good neighbour policy” = política da boa vizinhança.
Expressão utilizada para designar a relação de dominação e
dependência entre os Estados Unidos e os países latino-
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EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
1. Ampliando a Discussão
O grande poder de fogo das Forças Armadas norte-americanas sobre um território exíguo como o do Vietnã criava
problemas novos. A estratégia revolucionária teria de ser
diferente da empregada pelos chineses, adaptada pelos próprios vietnamitas contra os franceses, que, apesar da superioridade numérica e material sobre o Viet Minh, estava longe da
assimetria do poder norte-americano contra a FNL. Além
disso, o espaço de luta era menor, abarcando de início apenas
o Sul e parte do Laos, zonas pouco povoadas, ao contrário da
guerra franco-indochinesa, teve seu principal teatro de operações no Norte, mas que abarcava toda a Indochina.
Além disso, houve um fenômeno de urbanização forçada no
Sul, em virtude da expulsão, dos bombardeios ou do próprio
combate nas zonas rurais. A cidade de Saigon passou de 500 mil
habitantes no início da intervenção americana para 4 milhões na
época da unificação. A cidade das cem mil prostitutas era assim
caracterizada pelo Time: A melhor maneira de ganharmos esta
guerra seria convidar Ho Chi Minh para visitar a cidade. Depois
de uma rápida olhada e cheirada, ele declararia: ‘Nós não queremos nenhum pedaço disto!’. Em contrapartida, os constantes
bombardeios às indústrias e aos transportes no Norte obrigaram
a RDV a descentralizar as fábricas, enviar parte da população
das cidades (sobretudo velhos e crianças) para o campo, distribuir armas para a população reagir aos ataques aéreos e organizar uma economia de guerra.
Vo Nguyen Giap e os outros membros do comando
estratégico revolucionário decidiram desencadear a guerra total
do povo inteiro, mobilizando toda a população no esforço militar
e produtivo. Mas Giap sabia que isso não era suficiente, pois
precisava de uma organização técnico-científica (segundo Giap,
parafraseando Marx, isso correspondia à passagem do artesanato
à mecanização no combate). Formaram-se tropas de elite fortes,
com preparo técnico e organização moderna (os “capacetes
duros” já mencionados). A modernização das tropas foi possível
graças ao auxílio dos países socialistas. Em 1961, a FNL ainda
contava com armamento antiquado. Os guerrilheiros tiveram de
aprender a técnica do inimigo e adaptá-la à guerra popular, para
tornar eficaz o uso das armas modernas soviéticas, chinesas e
tchecoslovacas que passaram a receber: fuzis AK-47, lançafoguetes portáteis de 109, 122 e 140 milímetros (com precisão
de 9 a 14 quilômetros) e os tanques PT76 e T34.
A tática de guerra popular concentrava-se nos ataques à
retaguarda inimiga, fazendo com que a frente de combate se
encontrasse em todos os lugares, nas montanhas, nos deltas e nas
cidades. Pequenas unidades móveis com morteiros e foguetes,
além de armas leves, atacavam os postos do inimigo incessantemente. Só assim era possível empregar “poucos contra muitos”,
isto é, ataques com efetivos limitados a pontos estratégicos.
Tratava-se de uma guerra prolongada com economia máxima de
forças, apoiando-se nas “três retaguardas”: as montanhas no Sul,
a RDV no Norte e os países socialistas. Na verdade, a estratégia
baseava-se no desgaste psicológico das tropas do adversário: a
Infantaria norte-americana já havia mostrado suas limitações na
Segunda Guerra Mundial1. A longa “guerra suja” destruiria o
moral e a combatividade do Exército norte-americano.
Saiba mais sobre a Guerra do Vietnã lendo o texto abaixo
e respondendo às questões.
A Guerra de Libertação Nacional
(1965-1975)
A escalada norte-americana altera as bases da guerra. A
maior potência militar, econômica e tecnológica do planeta
confronta-se diretamente com o povo de um pequeno país subdesenvolvido (ainda que apoiado pelos países socialistas). Uma
década de grandes transformações no mundo, uma década de
violência total contra a população vietnamita, década de uma
guerra desigual, mas que terminará com a derrota do mais forte.
Uma guerra revolucionária, com profundas repercussões políticas, e um evento que simboliza a nova realidade internacional.
Uma guerra com um significado tão importante que, mal
terminada, começa a ser abafada pelo silêncio ou, quando tal não
é possível, deturpada pela astúcia de políticos, historiadores,
jornalistas, romancistas e cineastas.
A ESTRATÉGIA DA CONTRA-INSURGÊNCIA
(1965-1968)
Os norte-americanos jogaram no Vietnã meios de destruição poderosíssimos. Os GIs (soldados norte-americanos), que
em 1965 somavam 25 mil no país, atingiram 600 mil em 1968.
A 1.a Divisão de Cavalaria Aerotransportada tinha 15 mil
soldados de elite e quinhentos helicópteros ultramodernos.
Para ela, foi construido o maior heliporto do mundo, An Khe,
com 5 quilômetros de largura por 7 quilômetros de extensão.
Os superbombardeiros B-52 foram instalados em várias bases
do Vietnã do Sul e da Tailândia, além de outros tipos de
aparelhos no porta-aviões da 7.a frota e no Laos. Além disso, o
Exército e as milícias do governo de Saigon atingiram um
milhão de efetivos bem armados pelos Estados Unidos.
(...) O objetivo norte-americano é o de uma guerra clássica
geograficamente limitada (como as do século XVIII); embora
devesse ser rápida e intensa, não poderia ameaçar o equilíbrio
internacional nem causar problemas internos. Além dos
objetivos geopolíticos de Washington na Ásia e do “combate ao
comunismo”, a guerra visava a neutralizar as revoluções do
Terceiro Mundo, reforçar a hegemonia norte-americana sobre
seus próprios aliados (que começavam a se preocupar mais com
os negócios que com a Guerra Fria), além de dar vazão à indústria armamentista e estimular a economia dos Estados Unidos.
O uso de grandes meios para a consecução de objetivos
limitados contrastava com a política francesa da Primeira
Guerra da Indochina, em que se dispunham de meios limitados
para um objetivo mais amplo. Apesar das vantagens norte-americanas, a situação produzia seus próprios limites. A presença
norte-americana desmoralizava o governo de Saigon, tal como
o de Bao Dai o fora pelos franceses. Além disso, o prolongamento da guerra obrigava os Estados Unidos a um envolvimento cada vez mais arriscado. Em contrapartida, o fato de não
haver soldados soviéticos ou chineses auxiliando a RDV
reforçava a legitimidade internacional de Hanói como nação
agredida, além de reforçar a causa nacional no plano doméstico.
VISENTINI, Paulo Fagundes. A Revolução Vietnamita. SP, Editora UNESP,
2007, pp. 71-74.
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1 O Exército terrestre dos Estados Unidos, burocrático e integrado
especialmente por minorias étnicas (“buchas de canhão”), sempre
dependeu de apoio aéreo e superioridade de meios para lutar de modo
satisfatório. Revelando desempenho limitado, ao contrário da
Marinha e da Força Aérea.
2. Trabalhando com texto
O texto a seguir foi extraído do livro autobiográfico de
Jung Chang, Cisnes Selvagens. Nele você pode encontrar a
história vivida pela autora e sua família na China, à época da
instalação do comunismo, em um relato carregado de emoção.
Após ler o texto, responda às questões propostas.
1. Faça um levantamento das palavras desconhecidas
e registre seu significado.
“A mulher capaz consegue preparar uma refeição sem
alimentos”
“No outono de 1958, quando eu tinha seis anos, comecei
a estudar numa escola primária que ficava a uns vinte minutos
a pé de minha casa, passando sobretudo por becos lamacentos
calçados de pedra. Todo dia, na ida e na volta da escola, eu
apurava os olhos sobre cada centímetro do chão, em busca de
pregos quebrados, parafusos enferrujados e quaisquer outros
objetos de metal enfiados na lama entre as pedras. Destinavam-se a alimentar os altos-fornos para produzir aço, que era
minha grande ocupação. É, aos seis anos, eu estava metida na
produção de aço, e tinha de concorrer com os colegas de escola
para ver quem entregava mais ferro-velho. Em toda minha
volta, música edificante estrondava dos alto-falantes, e havia
faixas, cartazes e imensos slogans pintados nas paredes
proclamando: “Viva o Grande o Salto para a Frente!” e “Vocês
Todos, Produzam Aço!”. Embora eu não entendesse inteiramente o motivo, sabia que o presidente Mao tinha ordenado ao
país que produzisse muito aço. Em minha escola, tachos
parecendo cadinhos haviam substituído alguns de nossos woks
sobre os gigantescos fogões da cozinha. Despejávamos neles
todo o nosso ferro-velho, incluindo os velhos woks, que
haviam sido despedaçados. Os fogões eram mantidos sempre
acesos – até o ferro derreter. Nossos professores se revezavam
para alimentá-los vinte e quatro horas por dia, mexendo os
pedaços de ferro nos tachos com uma colher enorme. Não
tínhamos muitas aulas, pois os professores preocupavam-se
apenas com os tachos. E também as crianças maiores,
adolescentes. As outras eram organizadas para fazer a faxina
nos apartamentos dos professores e servir de babá para os
filhos deles.
Lembro-me de que certa vez fui a um hospital com outras
crianças, para visitar uma de nossas professoras, que se
queimara seriamente quando o ferro derretido salpicara em seus
braços. Médicos e enfermeiros de bata branca corriam frenéticos
de um lado para outro. Havia um forno nas instalações no
hospital, e eles tinham de pôr achas de lenha o tempo todo,
mesmo quando realizavam operações, e pela noite adentro. (…)
Foi nessa época que Mao deu plena expressão ao seu
sonho meio cru de transformar a China numa potência
moderna de primeira classe. Chamava o aço de “marechal” da
indústria, e ordenou que a produção duplicasse em um ano —
passando de 5,35 milhões de toneladas em 1957 para 10,7
milhões em 1958. Mas em vez de tentar expandir a indústria
siderúrgica propriamente dita com trabalhadores qualificados,
decidiu fazer toda a população participar. Havia uma cota de
aço para toda unidade, e durante meses as pessoas paralisaram
suas atividades normais para preenchê-la. O desenvolvimento
econômico do país foi reduzido à questão simplista de quantas
toneladas de aço se podia produzir, e todo o país foi lançado
2. Relacione a Guerra do Vietnã ao contexto da Guerra
Fria.
3. Como pode ser entendida a participação dos
Estados Unidos nesse conflito?
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nesse ato único. Estimou-se oficialmente que quase 100
milhões de camponeses foram retirados do trabalho agrícola
para a produção de aço. Eram a força de trabalho que produzia
grande parte dos alimentos do país. (…)
Essa situação absurda refletiu não apenas a ignorância de
Mao quanto ao funcionamento da economia, mas também uma
desconsideração quase metafísica pela realidade, o que embora
pudesse ser interessante num poeta, num líder político com
poder absoluto era trágico. Um de seus principais componentes
era um enraizado desprezo pela vida humana. Não muito antes
disso, ele dissera ao embaixador finlandês: “Mesmo que os
Estados Unidos tivessem bombas atômicas mais potentes e as
lançassem sobre a China, abrissem um buraco na terra ou a
fizessem em pedaços, embora isso pudesse ser muito
importante para o sistema solar, ainda seria algo insignificante
para o universo como um todo”.
O voluntarismo de Mao fora alimentado por sua recente
experiência na Rússia. Cada vez mais desiludido com Kruchev
após a denúncia que este fizera de Stalin em 1956, Mao foi a
Moscou em fins de 1957 participar de uma conferência de
cúpula comunista. Voltou convencido de que a Rússia e seus
aliados estavam abandonando o socialismo e tornando-se
“revisionistas”. Via a China como o único bastião autêntico.
Tinha de abrir a fogo um novo caminho. Megalomania e
voluntarismo fundiam-se facilmente na cabeça de Mao.
A fixação dele com o aço, em grande parte, não foi
questionada, como não o foram suas outras obsessões. Tomouse de antipatia pelos pardais — eles devoram os grãos. Por
isso, toda família foi mobilizada. Nós ficávamos sentados
batendo furiosamente em qualquer objeto de metal, de
címbalos a frigideiras, a fim de espantar os pardais das árvores,
de modo que acabassem morrendo de exaustão. Até hoje posso
ouvir com nitidez a barulheira feita por meus irmãos e por
mim, e também por autoridades do governo, sentados debaixo
de uma gigantesca árvore em nosso pátio.
Havia também metas econômicas fantásticas. Mao dizia
que a produção industrial da China poderia ultrapassar a dos
Estados Unidos e da Grã-Bretanha dentro de quinze anos. Para
os chineses, esses países representavam o mundo capitalista.
Superá-los seria visto como um triunfo contra seus inimigos.
Evocou-se, assim, o orgulho das pessoas, inflando-se enormemente o entusiasmo delas. Elas haviam se sentindo humilhadas
com a recusa dos Estados Unidos e de outros grandes países do
Ocidente a conceder reconhecimento diplomático, e estavam
tão ávidas para mostrar ao mundo que podiam vencer sozinhas
que não hesitavam em acreditar em milagres. Mao deu a
inspiração. A energia da população estava ávida para encontrar
uma saída. E ela estava ali. O espiríto de vamos-lá superou a
cautela, assim como a ignorância triunfou sobre a razão.
No início de 1958, pouco depois de voltar de Moscou,
Mao visitou Chengdu por cerca de um mês. Estava aceso com
a ideia de que a China podia fazer qualquer coisa, sobretudo
tomar dos russos a liderança do socialismo. Foi em Chengdu
que ele esboçou seu Grande Salto para a Frente. A cidade
organizou um grande desfile para ele, mas os participantes não
tinham a menor ideia de que Mao estava ali. Ele ficou
escondido. Nesse desfile, criou-se um slogan: “A mulher capaz
pode preparar uma refeição sem alimentos”, uma inversão de
um antigo e pragmático ditado chinês: “Por mais capaz que
seja, uma mulher não pode preparar uma refeição sem
alimentos”. A retórica exagerada transformara-se em exigências concretas. Esperava-se que fantasias impossíveis se
tornassem realidade.”
CHANG, Jung. Cisnes Selvagens. São Paulo,
Companhia das Letras, 1994, pp. 203-205.
A. Sublinhe as palavras desconhecidas e registre o seu
significado.
B. Qual foi o significado histórico do “Grande Salto para
a Frente”?
C. Discuta a frase que dá título ao texto: “A mulher capaz
pode preparar uma refeição sem alimentos”.
3. Verificando se você aprendeu
Forme frases, com sentido histórico, utilizando as
seguintes palavras ou expressões.
Conferência de Bandung: ______________________
_______________________________________________
_______________________________________________
_______________________________________________
_______________________________________________
Império Colonial Português: ____________________
_______________________________________________
_______________________________________________
_______________________________________________
Terceiro Mundo: _____________________________
_______________________________________________
_______________________________________________
_______________________________________________
_______________________________________________
Lutas de Libertação Nacional: ___________________
_______________________________________________
_______________________________________________
_______________________________________________
_______________________________________________
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4. Desafio Histórico – Minipesquisa.
1. Por que razão o movimento revolucionário de 25 de abril de 1974, em Portugal, recebeu o nome de Revolução dos Cravos?
5. Ampliando a Discussão
Vamos entender melhor o processo de reconstrução e de relações internacionais das antigas colônias portuguesas
em África!
Utilize diferentes fontes de pesquisa, inclusive a página oficial dos seguintes países na Internet: Angola, Cabo
Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe.
Escolha um país para pesquisar, compartilhe suas descobertas em sala de aula.
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CAPÍTULO
11
Buscando Novas Alternativas
Vamos discutir esse assunto?
Leia o texto abaixo sobre a indústria cultural e siga o
roteiro proposto.
TEXTO COMPLEMENTAR
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
A indústria cultural
“(…) A indústria cultural, os meios de comunicação de massa
e a cultura surgem como funções do fenômeno da industrialização. É esta, através das alterações que produz no modo de
produção e na forma do trabalho humano, que determina um tipo
particular de indústria (a cultural) e de cultura (a de massa),
implantando numa e noutra os mesmo princípios em vigor na
produção econômica em geral: o uso crescente da máquina e a
submissão do ritmo humano de trabalho ao ritmo da máquina; a
exploração do trabalhador; a divisão do trabalho. Estes são
alguns dos traços marcantes da sociedade capitalista liberal, onde
é nítida a oposição de classes e em cujo interior começa a surgir
a cultura de massa. Dois desses traços merecem uma atenção
especial: a reificação (ou transformação em coisa: a coisificação)
e a alienação. Para essa sociedade, o padrão maior (ou único) de
avaliação tende a ser a coisa, o bem, o produto, a propriedade:
tudo é julgado como coisa, portanto tudo se transforma em coisa
— inclusive o homem. E esse homem reificado só pode ser um
homem alienado; alienado de seu trabalho, trocado por um valor
em moeda inferior às forças por ele gastas; alienado do produto
de seu trabalho, que ele mesmo não pode comprar, pois seu
trabalho não é remunerado à altura do produzido; alienado de
seus projetos, da vida do país, de sua própria vida, uma vez que
não dispõe de tempo livre, nem de instrumentos teóricos capazes
de permitir-lhe a crítica de si mesmo e da sociedade.
Nesse quadro, também a cultura — feita em série,
industrialmente, para o grande número — passa a ser vista não
como instrumento de crítica e conhecimento, mas como produto
trocável por dinheiro e que deve ser consumido como se consome
qualquer outra coisa. E produto feito de acordo com as normas
gerais em vigor: produto padronizado, como uma espécie de kit para
montar, um tipo de pré-confecção feito para atender necessidades e
gostos médios de um público que não tem tempo de questionar o que
consome. Uma cultura perecível, como qualquer peça de vestuário.
Uma cultura que não vale mais como algo a ser usado pelo indivíduo
ou grupo que a produziu e que funciona, quase exclusivamente, como
valor de troca (por dinheiro) para quem a produz.
Esse é o quadro caracterizador da indústria cultural:
revolução industrial, capitalismo liberal, economia de mercado,
sociedade de consumo. É esse o momento histórico do aparecimento de uma cultura de massa — ou, pelo menos, o momento préhistórico. É que, de um lado, surgem como grandes instantes
históricos dessa cultura os períodos marcados pela Era da
Eletricidade (fim do século XIX) e pela Era da Eletrônica (a
partir da terceira década do século XX) — quando o poder de
penetração dos meios de comunicação se torna praticamente
irrefreável. E, por outro lado, na medida em que a cultura de
massa está ligada ao fenômeno do consumo, o momento de
A televisão altera a vida das famílias, que se reúnem ao seu redor na sala de
visitas
1. Discutindo a História:
A indústria cultural
O surgimento da indústria cultural e dos meios de
comunicação de massa, como o rádio, o cinema e a
televisão, constitui-se num dos mais importantes
fenômenos característicos do século XX. Relaciona-se à
expansão do capitalismo industrial que levou à consolidação da sociedade de consumo em que vivemos. A
cultura de massa, daí advinda, tornou-se um bem de
consumo, condicionada pelas regras de mercado e sujeita
à dinâmica do capitalismo.
Em meados daquele século esse fenômeno já estava
consolidado. O cinema popularizou-se em escala mundial nos anos de 1940. O rádio, bastante difundido mesmo antes, tornou-se o meio mais acessível para as populações mais pobres. A televisão chegou um pouco depois
em partes mais distantes do planeta, mas já na década de
1950 alterava os hábitos cotidianos da população urbana
dos países desenvolvidos. Jornais, revistas e livros, embora já fossem produtos culturais mais antigos, conheceram uma expansão inédita devido aos novos meios de
reprodução e às possibilidades de distribuição que os
levaram a pontos antes inatingíveis.
É certo que nem todas as pessoas têm as mesmas
oportunidades de acesso a esses bens culturais, devido às
desigualdades sociais que limitam as chances de obtêlos. Entretanto, não há como negar, os meios de comunicação de massas e a indústria cultural produziram transformações profundas nas formas de viver das sociedades
humanas em seu conjunto.
76
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instalação definitiva dessa cultura seria mesmo o século XX, onde
o capitalismo não mais dito liberal mas, agora, um capitalismo de
organização (ou monopolista) criará as condições para uma
efetiva sociedade de consumo cimentada, em ampla medida, por
veículos como a TV. Está claro que essa sociedade de consumo se
realiza mais no Primeiro Mundo (EUA, Alemanha, Japão,
Inglaterra etc.) do que no Segundo (os países socialistas) e no
Terceiro Mundo (os subdesenvolvidos). Nestes dois últimos, o
consumo existe antes como valor ainda a alcançar, como meta
ainda irrealizada; mesmo assim, ele orienta a organização da
sociedade, tendendo a fazê-lo segundo os moldes das sociedades
do Primeiro Mundo — razão pela qual todos esses traços típicos
da indústria cultural (e seu produto, a cultura de massa) nos
países desenvolvidos acabam por ser válidos, em linhas gerais, na
análise do mesmo fenômeno nas demais regiões.”
Alienação: _________________________________
_
___________________________________________
___________________________________________
2. De acordo com o texto:
a) A industrialização teria trazido a reificação do
homem e sua alienação. Discuta essa ideia e
escreva sua conclusão.
COELHO, Teixeira – O que é indústria cultural. S. Paulo, Brasiliense,
1985, p. 10-13.
1. O texto que você leu apresenta conceitos importantes
que você precisa conhecer. Com o auxílio de seu
professor, complete os quadros abaixo:
b) Que características são assumidas pela cultura
na sociedade industrial?
Indústria cultural: __________________________
___________________________________________
c) Por que os traços da cultura de massa das
sociedades industrializadas podem servir para
discutir também a cultura do Terceiro Mundo?
___________________________________________
___________________________________________
Sociedade de consumo: ______________________
___________________________________________
___________________________________________
___________________________________________
3. Para discutir com seus colegas:
Como se apresenta a cultura de massa no Brasil
hoje?
Considere em sua discussão:
a) Influência estrangeira.
b) Os papel dos meios de comunicação (rádio, TV,
cinema)
c) O caráter de “crítica” ou “alienação” dos
produtos culturais.
d) A adequação social das mensagens veiculadas
(erotização, incentivo ao consumo, valores etc).
___________________________________________
Cultura de massa: __________________________
___________________________________________
___________________________________________
___________________________________________
VO C A B U L Á R I O
Reificação: _________________________________
___________________________________________
Irrefreável = que não pode ser contido, irreprimível.
Mensagens veiculadas = transmitidas, propagadas. Os
meios de comunicação são também conhecidos como
veículos de comunicação.
Perecível = que pode ser extinto, destruído ou esgotado.
___________________________________________
___________________________________________
77
C3_9o Ano_Historia_SOME_Tony_2016 12/05/16 11:23 Página 78
Ampliando a discussão
Bell Atlantic (atualmente Verizon Communications) foi,
a partir de 1995, uma das primeiras empresas norteamericanas de telefonia a atuar no mercado de TV a cabo
(1994, elas eram proibidas de atuar nesse ramo, sob a
alegação de que isso facilitaria a formação de monopólios. Nesse ano foi aprovada nos EUA uma lei que
revogou o impedimento legal).
Além das aquisições de alguns antigos estúdios de
Hollywood por firmas de hardware (eletrônicos e
campanhias telefônicas), há também a compra de outros
deles por empresas de comunicação que haviam
rapidamente se adaptado ao mercado da comunicação
globalizada: a supramencionada Time-Life adquiriu, em
1989, a Warner e em 2001 encerrou o processo de fusão
com a AOL – provedor mundial de internet –, criando o
maior conglomerado licenciador de direitos de produtos
audiovisuais do mundo e havia comprado a MTV da
Warner em 1985, criando, logo após, o canal infantil
Nickelodeon, comprou em 1994 o legendário estúdio
Paramount.
Leia o texto abaixo que trata do panorama mais
recente na indústria cultural e responda às questões prospostas.
A indústria cultural hoje
Uma das constatações mais evidentes no tocante à
comparação entre a indústria cultural de hoje e a de setenta
anos atrás é que a nova mundialização do capitalismo
internacional, iniciada a partir da virada dos anos 1980 para
os 1990 e consolidada após o fim do bloco soviético.
No entanto, essa globalização dos meios de
comunicação não se dá em termos recíprocos entre os
participantes do mercado mundial de comunicações, já
que representa, na verdade, um reforço na “estadunização” da cultura de massa em todo o planeta, o que pode
ser demonstrado por fatos como os que se seguem: em
1991, 30% da transmissão televisiva na Europa eram de
produtos estadunidenses; na Alemanha o índice chegava
a 67%. Por outro lado, a esmagadora maioria de toda
produção européia de televisão dessa época – cerca de
90% – nunca deixou seus países de origem, não havendo,
no presente, dados que desmintam esse quadro do início
da globalização.
Se a situação é essa em relação a países ricos, como
os mais desenvolvidos da Europa, pode-se imaginar o
que ocorre no resto do mundo: a consolidação dos
Estados Unidos como o grande produtor mundial e todos
os outros países majoritariamente como meros consumidores dessa produção. Mesmo considerando o grande
crescimento da produção cinematográfica de vários
países asiáticos ou mesmo da América Latina, o quadro
permanece de inquestionável hegemonia norte-americana.
Outro fenômeno (...) é a tendência, desde o início da
globalização, ao predomínio de oligopólios de hardware
(muitos deles de origem japonesa) na aquisição dos
antigos estúdios, que se estabeleceram em Hollywood,
no início da década de 1910, e se tornaram, ao lado do
século XX, megaprodutores do cinema. A Sony, por
exemplo, que já em 1988 comprara a CBS, adquiriu, no
início da década de 1990, a Columbia Pictures e possui,
desde 1996, o seu próprio canal de televisão (Sony
Television). A Matsushita, proprietária de marcas como a
Panasonic e a JVC assumiu à mesma época o controle da
MCA Universal. A Toshiba se associou em meados da
década de 1990 à Time Warner (...) para desenvolverem
conjuntamente o hoje tão popular DVD.
Além desses conglomerados de indústria eletrônica,
destaca-se o papel que companhias telefônicas norteamericanas tiveram no surgimento da “indústria cultural
global, como, por exemplo, a AT&T, que desenvolveu
videogames juntamente com a Silicon Graphics – autora
dos efeitos especiais de O Parque dos Dinossauros. A
DURÃO, Fábio A., ZUIN, Antônio e VAZ, Alexandre F.
A indústria cultural hoje. São Paulo, Boitempo Editorial, 2008.
1. De acordo com o texto a mundialização do capital
produziu efeitos na indústria cultural tradicional.
Que exemplos ele aponta?
2. Lê-se no texto: “a consolidação dos Estados
Unidos como o grande produtor mundial e todos
os outros países majoritamente como meros
consumidores dessa produção”.
Você concorda com a frase? Cite exemplos para
justificar sua opinião.
3. Vivemos atualmente a convivência de várias
mídias: TV, Internet, cinema, rádio, jornais e
revistas. Do seu ponto de vista, qual o papel
desses meios de comunicação na produção e
difusão de produtos culturais?
78
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2. Os caminhos políticos da
América Latina
lização. No século XX esse processo se intensificou,
sobretudo nos períodos das duas guerras mundiais.
Deve-se ressaltar que a industrialização alcançou mais
alguns países que outros e ficou
restrita a algumas regiões. Após a
Segunda Guerra os Estados Unidos
voltam-se para a América Latina
como investidores, exportadores de
capitais e de tecnologia, agindo na
estimulação das atividades industriais. Nesse processo, a industrialização latino-americana acentuou a
dependência econômica, ao contar
com uma intensa participação do
capital estrangeiro sem que houvesse transferência de tecnologia. Vale
lembrar que as iniciativas de industrialização ocorreram, em grande
medida, em modelos econômicos
estatizantes.
A industrialização foi acompanhada do crescimento das cidades.
Houve um aumento dos setores sociais urbanos. As classes médias e o
operariado passaram a significar
uma força política de peso. Nesse
contexto, surge o populismo na
América Latina, que se apresenta
como uma forma de absorver e
controlar a força política das
massas urbanas.
A divisão histórico – cultural e social das Américas
Para entender melhor…
Introdução
“Teoria da Dependência: esta teoria explica o
subdesenvolvimento como resultado de forças
externas. Ou seja, da dominação dos países ricos
que extraem excedentes dos países pobres, na área
capitalista. A apropriação desse excedente (produto,
na era colonial; remessa de lucros, atualmente)
gera, por sua vez, o desenvolvimento dos países
ricos. Entre seus pensadores mais destacados estão
Paul Baran e André Gunder Frank. Essa teoria tem
sido criticada por minimizar, em sua explicação do
subdesenvolvimento, tanto as análises do modo e
das relações de produção quanto os conflitos de
classe; uma vez que entende a exploração não como
uma exploração de classe, mas dos países ricos
sobre os pobres.”
O continente americano não se define apenas pelas
fronteiras e pela divisão política. O Rio Grande, entre os
Estados Unidos e o México, é um marco divisor entre a
América Anglo-Saxônica e a América Latina.
Cenário de três séculos de dominação colonial, os
países latino-americanos desenvolveram-se, historicamente, dentro de um processo de dependência dos
grandes polos econômicos mundiais. Ao imperialismo
britânico seguiu-se, no início do século XX, a dominação
norte-americana na América Latina.
A presença norte-americana
Os países latino-americanos figuram no mercado
mundial, de acordo com a divisão internacional do
trabalho, como tradicionais produtores de matériasprimas e consumidores de bens industrializados importados. Entretanto, desde o final do século XIX a América
Latina já vinha encaminhando um processo de industria-
PAES, Maria Helena – A década de 60. São Paulo,
Ática, 1992, p. 91.
79
C3_9o Ano_Historia_SOME_Tony_2012 21/06/12 09:26 Page 80
O populismo na América Latina
Desde a década de 1930 surgiram na América Latina
regimes populistas. Getúlio Vargas no Brasil (19301945), Juan Domingo Perón na Argentina (1946-1955) e
Lázaro Cárdenas no México (1934-1940) foram seus
principais representares políticos. O populismo foi um
sistema de dominação política latino-americana, típico
da passagem de uma sociedade rural para a urbanoindustrial. Os líderes populistas conquistavam ou
mantinham seu poder manipulando o eleitorado e as
massas populares urbanas.
O Estado populista criou uma política de conciliação
de classes sociais e defendia reformas sociais limitadas,
para manter o apoio popular. O populismo foi
responsável por reformas importantes, como a legislação
trabalhista no Brasil.
Lázaro Cárdenas – presidente
mexicano (1934 a 1940)
Lázaro Cárdenas foi eleito presidente do México
em 1934, dando início a um processo de nacionalização
e distribuição de milhões de hectares de terras aos
camponeses, retomando o projeto de reforma agrária do
ejido, da época da Revolução Mexicana, e de apoio
financeiro aos camponeses.
As greves operárias deixaram de ser reprimidas, e
várias leis ampliando os direitos sociais foram
aprovadas. Em 1938 o governo Cárdenas criou a Pemex
– Petróleo Mexicano – que oficilizava o monopólio
estatal sobre a extração e distribuição de petróleo.
O governo Cárdenas colocou-se na ótica do
populismo, na medida em que atrelou os movimentos
populares ao Estado, neutralizando-os politicamente.
Empreendendo reformas importantes, esse governo,
todavia, fortaleceu a burguesia mexicana, que se tornou
parceira e aliada dos Estados Unidos.
O governo de Lázaro Cárdenas
O populismo de Perón
Em junho de 1943, o argentino Ramón Castillo foi
deposto da presidência por um golpe militar, articulado
por jovens oficiais portenhos de ideias próximas ao
nazi-fascismo. Com Castillo foram afastados do poder
políticos ligados aos grandes proprietários de terra, que
mantinham a economia atrelada ao capital estrangeiro.
Um desses oficiais era Juan Domingo Perón – filho
de um dos mais importantes criadores de gado da Argentina – que de 1939 a 1941 atuou junto ao exército italiano,
conhecendo os princípios ideológicos do fascismo.
Participando do novo governo, Perón tornou-se uma
espécie de eminência parda, acumulando os cargos de
Vice-Presidente, Secretário do Trabalho e Bem-Estar
Social e Ministro da Guerra. Em seus discursos pregava o
fim da luta de classes e a conciliação entre patrões e
empregados. Criou uma Confederação Geral do Trabalho (CGT), neutralizou a participação de grupos socialistas e comunistas nos sindicatos e passou a reprimir
violentamente toda e qualquer oposição política.
O governo peronista foi consolidado junto a uma
sólida base de apoio na classe operária, através da
implantação da legislação trabalhista e previdenciária:
pensão para os aposentados, férias remuneradas,
aumentos salariais.
“A Trincheira” – referência à Revolução Mexicana – tela do mexicano José
Clemente Orozco
Você sabia?
A Revolução Mexicana, considerada como a
primeira revolução camponesa da América, teve
início em 1910 sob a liderança de Francisco
Madero que, refugiado no Texas, pregava a
devolução de terras aos camponeses e reformas
eleitorais. O movimento ganha adesão dos
líderes camponeses Emiliano Zapata e Pancho
Villa. Os Estados Unidos pressionavam o país,
ameaçando-o com possíveis intervenções
armadas. A década de 1920 marcou, no México,
um período de paralisação das lutas sociais.
Zapata foi morto em uma emboscada em 1919 e
Pancho Villa foi assassinado em 1923.
80
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A morte de Evita, em 1952, aprofundou a crise
argentina, agravada por denúncias de corrupção e pelo
rompimento do governo com a Igreja, acusada de
intervir nos assuntos de Estado.
A aliança de forças políticas de oposição desencadeou um golpe militar que, em setembro de 1955, retirou
Juan Domingo Perón da presidência. Perón exilou-se no
Paraguai e depois na Espanha.
Perón retornou do exílio em 1973, elegendo-se
presidente da Argentina. Com idade bastante avançada,
veio a falecer em 1974. Sua mulher, Isabel de Perón –
Isabelita –, assumiu a função de chefe de Estado. O país
vivia uma violenta crise político-econômica e, em 1976,
o general Jorge Videla assumiu a presidência por um
golpe militar. Após a guerra das Malvinas (1982),
travada com a Inglaterra, começou o processo de
transferência de poder aos civis.
Nas eleições presidenciais de 1946, a vitória
peronista definiu o início de um novo período na história
da Argentina, o Justicialismo, que se apresentava como
alternativa entre o socialismo e o capitalismo. Através de
leis sociais, o Estado Justicialista promoveria a justiça e
atenderia tanto a patrões quanto a empregados.
Juan Domingo Perón nacionalizou os serviços
públicos e estabeleceu as bases da intervenção do Estado
na economia, sindicatos e meios de comunicação. Sua
esposa, Eva Perón, tornou-se uma poderosa aliada em
sua política paternalista, e esteve associada à imagem de
porta-voz das reivindicações operárias.
Você sabia?
“Em todas as casas simples da Argentina havia
um retrato de Perón, considerado ‘alma e
defensor do povo argentino’. Era a mitificação
do líder para encobrir a necessidade de luta
popular. O homem que modernizava o
capitalismo argentino apresentava-se como o
maior defensor dos trabalhadores”.
Eva Perón
Eva Duarte, filha de rico estancieiro argentino, ex-atriz
radiofônica, casou-se com Perón em 1945. Era uma mulher
sofisticada e muito bonita, que assumiu o papel de Evita, a
“mãe dos descamisados”. Ela adorava distribuir brinquedos
e doces para as crianças pobres, que a chamavam de
“Senhora da Esperança”. Sua popularidade não parou de
crescer, rivalizando mesmo com a de Perón. Em decorrência
de um câncer, Evita faleceu em 1952.
CÁCERES, Florival – História da América – SP,
Ed. Moderna, 1992, p. 286.
VO C A B U L Á R I O
Atrelou = ligou ou uniu por vínculos muitos fortes, dominou,
subordinou.
Descamisados = denominação dada às massas populares, aos
despossuídos argentinos à época do peronismo.
Ejido = (pronuncia-se “Errído”) – originalmente eram as
comunidades rurais indígenas mexicanas. Após a Reforma
Agrária, designava as terras distribuídas a pessoas que só
poderiam utilizá-las enquanto fossem membros de uma
coletividade.
Eminência parda = conselheiro íntimo que, nos bastidores,
manobra uma autoridade, um governante ou um partido político.
Estancieiro = proprietário de estância ou fazenda.
Odisseia póstuma = a grande viagem após a morte, no texto referese ao “exílio” do corpo de Evita que acompanhou Perón na Espanha.
Portenho = relativo a ou natural de Buenos Aires, capital da
República Argentina.
Uma grave crise econômica assolou a Argentina em
1951. A adoção de medidas austeras, como congelamento de salários e aumento de preços, aliadas a
negociações do governo em contratos de exploração de
petróleo e gás com empresas norte-americanas, afetaram
as bases do peronismo.
No Portal Objetivo
Evita e Juan Perón – o primeirocasal argentino
Para saber mais sobre o assunto, acesse o PORTAL
OBJETIVO (www.portal.objetivo.br) e, em “localizar”,
digite HIST9F306
O Justicialismo, base da política
peronista
81
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TEXTO COMPLEMENTAR
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
A morte de Eva Perón
“A morte prematura sacralizou o mito Eva e conduziu-o à santidade. Na fase terminal de sua doença, recebeu o título, dado pelo Congresso,
de “Chefe espiritual da Nação”. Seu confessor, padre Hernam Benitez, em discurso público, proclamou-a mártir dos descamisados e exemplo
de autossacrifício.
O episódio da morte de Eva representou um dos fenômenos de massa mais importantes da época contemporânea. Faleceu em 26 de julho
de 1952, às 22h25. Desde então, os noticiários noturnos tinham início com a seguinte frase: “São 22h25, hora em que Eva entrou para a
imortalidade.”
Pedro Ara, famoso embalsamador espanhol, preparou o cadáver para a exposição pública que durou até meados de agosto. Com a
procissão que acompanhou o corpo do Ministério do Trabalho, teve início a odisseia póstuma de Eva, que só terminou com a volta do cadáver
à Argentina, nos anos 70. Isabelita, a segunda mulher de Perón e presidente da Argentina após a morte do líder, providenciou o translado do
corpo em 1968.
O grande funeral de 1952 deixou marcas profundas na memória argentina em virtude das pompas extremas do luto público imposto
oficialmente e das manifestações espontâneas. Numerosa massa, em constante circulação, manteve vigília junto ao corpo de Eva. Fora do
edifício, filas quilométricas formavam-se entre paredes de flores. O número de pessoas aumentava dia a dia, obrigando os serviços de Saúde
Pública, a Fundação Eva Perón e o Exército a providenciar mantas, alimentos e serviços de higiene. Por toda a Argentina foram celebradas
missas e realizadas cerimônias fúnebres.
Com o intuito de manter viva a lembrança da líder, o governo construiu caixas postais para que fossem depositadas cartas a Eva morta.
Logo após sua morte, um sindicato de trabalhadores enviou telegrama ao Papa pedindo sua beatificação. Meses depois, trabalhadores
latino-americanos sindicalizados repetiram o pedido,sugerindo que Eva se tornasse a santa de todos os trabalhadores americanos.”
CAPELATO, Maria Helena R. – Multidões em Cena – Propaganda Política no Varguismo e no Peronismo, São Paulo. Fapesp / Papirus, 1998, p. 272
Verificando se você aprendeu
1. Relacione o crescimento das cidades com o surgimento do populismo na América Latina.
2. Aponte pontos em comum entre o governo de Vargas no Brasil e o de Perón na Argentina, no contexto do
populismo latino-americano.
3. Discuta a política de Perón em relação aos “descamisados” argentinos.
3. Análise de processos
revolucionários
A América Latina atravessou o século XX como
parceira menor do mundo capitalista, situando-se na área de
influência econômica dos Estados Unidos. Os laços
capitalistas pressupunham um
alinhamento político ao lado daquele
país no contexto da Guerra Fria. Essa
foi a posição assumida preponderantemente pelos governos latinoamericanos. Entretanto, as ideias
comunistas alcançaram diferentes
países a partir de setores sociais
insatisfeitos com a forte presença no
continente dos interesses econômicos
vinculados ao capitalismo internacional. Somava-se o fato de que a
situação dependente da economia
latino-americana passava a ser
apontada por diferentes teóricos como
a principal responsável pela pobreza e
pelas desigualdades sociais existentes.
O capitalismo e o imperialismo norte-americanos tornam-se os principais alvos das críticas formuladas por grupos
políticos de esquerda. Essas ideias se concretizavam em ações políticas que visavam levar os comunistas ou partidários
de outras ideologias de esquerda ao poder. A forte repressão aos grupos de esquerda no período, em diferentes países
da América Latina, acabou originando movimentos que passaram a utilizar guerrilhas como estratégia revolucionária.
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A experiência cubana
A revolução socialista chega por essa forma a Cuba.
Grupos guerrilheiros atuaram também, sem alcançar o
mesmo sucesso, em outros países latino-americanos. Em
El Salvador, por exemplo, diferentes grupos
revolucionários deram origem à Frente Farabundo
Martí de Libertação Nacional, que realizou uma
tentativa fracassada de golpe em 1980 naquele país. Na
Nicarágua foi instalado o governo constitucional
sandinista, pró-socialista.
Os grupos de esquerda foram, no seu conjunto, alvos
de grande repressão pelos governos latino-americanos,
com o apoio dos Estados Unidos. A CIA – Agência
Central de Informações – teve atuação direta no combate
ao comunismo no continente e na instalação de governos
favoráveis aos interesses norte-americanos. A “ameaça
comunista”, em muitos casos mais ilusória que real,
serviu como justificativa para o crescimento do número
de ditaduras no período.
A última colônia latino-americana a conquistar sua
independência foi Cuba, em 1898, no contexto de uma
guerra entre Espanha e Estados Unidos, dando início a
um intervencionismo norte-americano que se prolongou
pelo século XX. A ingerência norte-americana foi
institucionalizada pela Emenda Platt, que garantia
legalmente sua intervenção no país.
Não apenas na política a influência norte-americana
se fazia sentir. Na economia cubana a participação do
capital estrangeiro, especialmente dos Estados Unidos,
era gigantesca. Atividades fundamentais como transportes, energia e serviços públicos eram controladas por
empresas estrangeiras. Da mesma forma a vigorosa
indústria de tabaco. No campo, onde se desenvolvia a
produção açucareira, principal atividade econômica do
país, a situação não era diferente. A posse da terra estava
concentrada nas mãos de poucos, na sua maioria
estrangeiros, e dentre esses, muitos norte-americanos. A
cidade de Havana era conhecida internacionalmente
pelos seus cassinos, casas noturnas e de prostituição
explorados por empresários norte-americanos.
Em 1934 chegou ao poder Fulgêncio Batista, que se
tornou ditador sangrento, líder de um governo corrupto,
responsável por permitir que seu país se transformasse em
um verdadeiro bordel de luxo. Contra ele, forças oposicionistas organizaram-se e algumas se encaminharam para
a ação armada. Fidel Castro surge como líder revolucionário nesse momento. Nascido em 1926 na Província
de Mayari, estudou direito em Havana e atuou na política
estudantil. Em julho de 1953 Fidel Castro, seu irmão Raul
e mais de uma centena de pessoas atacaram o quartel de
Moncada como tentativa frustrada de derrubar o governo
de Fulgêncio Batista. Foram mortos 65 dos participantes
do ataque, depois do qual Fidel foi preso. Beneficiário de
uma anistia em 1955, exilou-se no México, deixando a
frase que usara em sua própria defesa, depois tornada
título de panfleto: “a história me absolverá”.
Guerrilheiro em El Salvador preparando-se para a luta
Você sabia?
O grupo guerrilheiro Sendero Luminoso foi
fundado no Peru em 1970, por facções
dissidentes do partido comunista peruano
(Bandeira Vermelha) e praticou uma intensa
ação armada, principalmente, nas décadas de
1980 e 1990.
Um grupo de guerrilheiros, dentre os quais
o médico Che Guevara,
Camilo Cienfuegos e José
Antonio Echeverria, além
de Fidel Castro, foi
treinado para desembarcar em Cuba. Entendendo
que a sociedade cubana
estava preparada para
uma revolução, desembarcaram, em um grupo
de 81 pessoas, mas foram
reprimidos, indo refugiarse em Sierra Maestra. Dali, saíam colunas guerrilheiras para desestabilizar o governo de Batista.
83
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O apoio aos guerrilheiros cubanos contou com
grupos radicais na cidade e com a aproximação de setores
da burguesia açucareira descontentes com a ditadura de
Batista. Em 1958 uma forte ofensiva foi preparada: dois
grupos de guerrilheiros, comandados por Che Guevara e
Cienfuegos, dirigiram-se à capital. Fidel liderou outro
grupo para Santiago. O exército em vários locais se
recusou a lutar e Fulgêncio Batista, isolado, fugiu para a
República Dominicana. Em janeiro de 1959, Havana
estava tomada pelos revolucionários cubanos. Fidel
Castro chegava ao comando do país.
A Revolução de Cuba
1902 – Emenda Platt - inserida na Constituição de Cuba,
permitia aos Estados Unidos intervir militarmente
nesse país para garantir sua independência política.
1933 – Movimento popular coloca no poder Ramón Grou de
San Martin, que revogou a Emenda Platt, concedeu
direito de voto às mulheres e fez reformas trabalhistas.
1934 – Início do governo de Fulgêncio Batista, ditador,
governo favorável aos Estados Unidos.
1953 – Manifestações de estudantes contra Fulgêncio Batista.
Fidel Castro lidera tentativa frustrada de derrubar
Fulgêncio Batista em ataque ao quartel de Moncada,
sendo preso em seguida.
1957 – Invasão frustrada de Cuba por guerrilheiros, com a
presença de Fidel Castro e Che Guevara.
1958 – Assinatura do Manifesto de Sierra Maestra, contra o
governo de Fulgêncio Batista, com apoio da
burguesia açucareira.
1959 – Final da “Marcha sobre Havana”, que é tomada pelos
revolucionários, assim como outras cidades, dando-se
início a um governo nacionalista de esquerda.
1961 – Fidel Castro declara seu regime socialista, Cuba
sofre tentativa de invasão na Baía dos Porcos,
comandada pela CIA, e as relações com os Estados
Unidos são rompidas.
1962 – Crise dos Mísseis e alinhamento de Cuba com os
soviéticos, início do bloqueio econômico norteamericano sobre a ilha.
1963 – Criado o Partido Unido da Revolução Socialista,
substituído em 1965 pelo Partido Comunista Cubano.
Cuba é socialista
O governo de Fidel Castro a princípio não se
caracterizava como socialista. Entretanto, as reformas e
nacionalizações realizadas apontavam nessa direção. Em
1961 houve a declaração formal do líder cubano de que
se instalava em Cuba um governo socialista.
A presença do socialismo em área de influência
norte-americana preocupou severamente Washington, que
passou a apoiar a contrarrevolução. Em abril de 1961 a
CIA organizou uma invasão à Baía dos Porcos em Cuba,
que se revelou um fiasco do ponto de vista estratégico.
Fidel saía fortalecido do episódio. Em 1962, após a Crise
dos Mísseis, Cuba foi expulsa da OEA – Organização dos
Estados Americanos – e os Estados Unidos deram início
ao bloqueio naval e econômico contra Cuba.
A reorganização da economia cubana, sob o socialismo, levou à coletivização e à nacionalização de empresas
estrangeiras. O Estado assumiu o controle da economia
planificada pela Junta Central de Planificação.
Cassinos e bordéis foram fechados e os hotéis, abertos à
população. Especial atenção foi dedicada à medicina e à
educação. Grupos de jovens foram espalhados por toda a
ilha numa gigantesca campanha da alfabetização. Em
tempo recorde foi extinto o analfabetismo no país, causa
de orgulho nacional para os cubanos até hoje.
A Revolução Cubana teve grande repercussão
política por toda a América Latina, contribuindo para
aumentar a adesão aos ideais socialistas especialmente
entre as camadas médias urbanas. Criava-se um novo
modelo revolucionário. O modelo cubano destacava a
importância do camponês como classe revolucionária e a
tática de guerrilhas móveis como estratégia de luta. Com
essa tática os focos revolucionários seriam multiplicados,
não havendo a necessidade de se esperar que as condições
estivessem “maduras” na sociedade para dar início à luta,
como vinha sendo habitualmente defendido pelos
movimentos revolucionários. A existência de uma
“vanguarda revolucionária” para encaminhar a luta
armada passou a ser defendida como uma necessidade
para assegurar o êxito de movimentos revolucionários.
Fidel Castro, comandante
maior da Revolução Cubana –
Veja.
Che Guevara, um dos líderes da
Revolução Cubana –
Folha de S. Paulo.
Revolucionários entrando em
cidade cubana
84
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Em 1917, o general Emiliano Chamorro Vargas, presidente nicaraguense, concedeu aos Estados Unidos o direito de construir o canal. Washington pagaria à Nicarágua a quantia de três milhões de doláres, e apesar de o Canal do Panamá estar concluído desde 1914, o governo
norte-americano pretendia obter mais uma ligação entre
os dois oceanos.
Um movimento de resistência ao intervencionismo
norte-americano despontou no país em 1927. Atuando
principalmente nas montanhas, com tática de guerrilha, o
grupo liderado por Augusto César Sandino propunha a
ação armada dos camponeses contra o tratado de
concessão do canal assinado pelo presidente Chamorro.
Após um processo de lutas, os Estados Unidos abandonaram o país em 1933, levando consigo a certeza de
que não construiriam o canal interoceânico.
Em 1934, Anastácio Somoza Garcia assumiu a presidência por um golpe de Estado. Uma de suas primeiras
deliberações foi planejar o assassínio de Sandino, que a
partir de então teve seu nome ligado aos movimentos de
luta pela emancipação da Nicarágua.
Você sabia?
Ernesto Guevara de la Sierna, mais conhecido
como Che Guevara, nasceu na Argentina e não
em Cuba, como se poderia pensar. Formou-se
médico em sua terra natal e, usando uma
bicicleta adaptada com um motor de moto,
invenção sua, viajou por toda a América do Sul,
sempre lutando contra uma asma brônquica,
enfermidade crônica que o obrigava a tomar
injeções constantemente. Conheceu Fidel Castro
na Guatemala, incorporando-se à Revolução
Cubana, na qual tornou-se figura fundamental.
Foi assassinado em 8 de outubro de 1967 na
Bolívia, quando tentava expandir a revolução
comunista para toda a América do Sul. Foi
executado por um general boliviano, embriagado,
em cilada provavelmente organizada pela CIA.
Che Guevara tornou-se um ícone revolucionário
ainda hoje celebrado em camisetas, bandeiras e
em frases famosas como: “hay que endurecerse,
pero sin perder la ternura jamás...”.
O processo revolucionário
nicaraguense
DOCUMENTO
–––––––––––
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Augusto César Sandino
“Os grandes dirão que sou muito pequeno para a obra que
empreendi. Mas minha insignificância é superada pela altivez de
meu coração de patriota, e assim juro perante a pátria e perante
a história que minha espada defenderá a honra nacional e que
será redenção para os oprimidos. Aceito o convite à luta e eu
mesmo a provoco, e ao desafio do invasor covarde e dos traidores
da pátria, respondo com meu grito de combate, e meu peito e os
dos meus soldados formarão muralhas onde as legiões dos
inimigos da Nicarágua serão derrotados. Poderá morrer o último
dos meus soldados, que são os soldados da liberdade da
Nicarágua, mas antes, mais de um batalhão dos vossos, invasor
loiro, terá mordido o pó das minhas agrestes montanhas.
Não serei Madalena, implorando de joelhos o perdão de meus
inimigos, que são os inimigos da Nicarágua, porque creio que
ninguém tem o direito de ser um semideus na terra. Quero convencer
os nicaraguenses frios, os centro-americanos indiferentes e a raça
indo-hispana, que numa ladeira da cordilheira andina, há um grupo
de patriotas que saberão lutar e morrer como homens.
País da América Central, banhado pelos oceanos Pacífico e Atlântico, a Nicaraguá teve seu nome associado
ao povo Nicarao, uma civilização pré-colombiana que
recebeu influência dos Astecas, e que se localizava na
região do lago de Manágua.
Em função de uma estratégica localização geográfica, o país tornou-se alvo de dispustas pela construção de
um canal interoceânico. Incialmente a Espanha, depois
Inglaterra e Estados Unidos disputavam o controle sobre
essa empreitada.
SELSER, Gregório – Sandino, o general dos homens livres – SP,
Global Editora, 1979, p. 59.
Anastácio Somoza deu início a uma era de tirania e
arbitrariedades que atingiu o povo nicaraguense por
quarenta e cinco anos. Para você enteder melhor esse
período histórico, leia atentamente o quadro abaixo:
Você sabia?
William Walker foi um pirata norte-americano
que desembarcou na Nicarágua em 1855, a
serviço do Partido Liberal. À frente de um
exército mercenário, tirou Fruto Chamorro da
presidência e proclamou-se líder político dos
nicaraguenses, restabelecendo a escravidão no
país. Em 1857 foi expulso e reembarcado para
os Estados Unidos, onde foi recebido como herói
nacional. Após outras tentativas de conquistas,
acabou sendo fuzilado em 1860 pelo governo de
Honduras.
1956 – Somoza é assassinado e o poder é dividido entre
seus filhos, Luís Somoza Debayle e Anastácio
Somoza Debayle.
1961 – Fundação da Frente Sandinista de Libertação
Nacional, que inicia a guerrilha contra os
somozistas.
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mesmo assim, as taxas de inflação e desemprego
diminuíram significativamente.
Durante a realização da primeira eleição livre, após a
era somozista, os sandinistas, liderados por Daniel
Ortega, foram vitoriosos. O governo cubano passou a dar
apoio técnico, científico e financeiro ao governo
sandinista. A esse auxílio seguiu-se um bloqueio
econômico imposto pelos Estados Unidos à Nicarágua.
1967 – Anastácio Somoza Debayle é eleito presidente.
1971 – O presidente dissolve o Congresso, suspende a
Constituição e, com o apoio da Guarda Nacional,
inicia violenta perseguição à oposição política.
1978 – Pedro Joaquim Chamorro, diretor do jornal “La
Prensa”, que fazia oposição ao governo, foi
assassinado.
1979 – A FSLN entra em Manágua, vencendo os últimos
redutos da Guarda Nacional somozista. Anastácio Somoza refugia-se na Paraguai, onde morre,
vítima de um atentado, em 1980.
A participação das
mulheres na guerrilha
nicaraguense
O governo norte-americano passou a incentivar e
patrocinar a ação dos “contra”, que passaram a solapar o
governo de Reconstrução Nacional.
Os “contra” eram políticos da Nicarágua que fugiram para Miami, onde organizaram grupos guerrilheiros
de direita, que ao promover ataques a escolas,
cooperativas agrícolas e centrais elétricas, tentaram
impedir a recuperação econômica de seu país.
A pressão norte-americana, que chegou até a minar
portos nicaraguenses, fez com que Daniel Ortega
convocasse eleições para fevereiro de 1990, em troca da
desmobilização dos “contra” por noventa dias.
O líder sandinista concorreu com a empresária
Violeta Chamorro, que vitoriosa, tornou-se presidente da
Nicarágua. Os Estados Unidos acabaram com o embargo
econômico, na certeza de que a experiência revolucionária de Cuba não se havia repetido.
Anastácio, o último Somoza no
poder na Nicarágua
Em junho de 1979 instalou-se no país um Governo
de Reconstrução Nacional, com a participação de
representantes de diversas correntes oposicionistas, entre
eles a empresária Violeta Chamorro, viúva do jornalista
assassinado em 1978. A junta de governo era chefiada por
Daniel Ortega, líder sandinista. Um dos primeiros
decretos do novo governo foi a expropriação dos bens da
família Somoza, que representavam 40% da economia
nacional.
Na década de 1980, mais da metade do orçamento
nicaraguense foi canalizado para o setor de defesa, e
Você sabia?
Em 1970, Salvador Allende foi eleito presidente do Chile pela
Unidade Popular, uma aliança de partidos políticos de
esquerda. Ao assumir o poder, o presidente nacionalizou as
minas de cobre e as telecomunicações, que até então eram
exploradas por grandes empresas norte-americanas, e
intensificou a reforma agrária.
Empresários nacionais e estrangeiros, sentindo-se
prejudicados, começaram a reduzir seus investimentos no
Chile. O governo dos EUA passou a apoiar financeiramente os
movimentos de oposição ao governo.
No dia 11 de setembro de 1973, as Forças Armadas chilenas
sob o comando do general Augusto Pinochet deram um golpe
de Estado, instaurando uma ditadura militar que se estendeu
até 1988.
86
VO C A B U L Á R I O
Arenga = discurso.
Guerrilha = luta armada realizada por meio de
pequenos grupos constituídos irregularmente,
sem obediência às normas estabelecidas nas
convenções internacionais.
Ingerência = influência, intervenção.
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TEXTO COMPLEMENTAR
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
Solidariedade revolucionária
“Fidel Castro conseguiu, ao ocupar a tribuna da Praça da Revolução, que as seiscentas mil pessoas presentes — quase toda
Manágua — fizessem completo silêncio. Queriam ouvir o mais importante convidado às comemorações do primeiro aniversário
da Revolução sandinista. O uniforme verde-oliva do primeiro-ministro de Cuba colava-se à sua pele que transpirava sob o forte
calor da manhã. Seu rosto, emoldurado pela barba de fios crespos, aparecia a todos como o mais conhecido símbolo da ilha
socialista do Caribe. Faltava-lhe apenas o charuto.
— Talvez alguns pensem que vou pronunciar um longo discurso. Outros imaginam que minhas palavras serão polêmicas. E
não faltará quem considere a possibilidade de que eu pronuncie aqui uma arenga incendiária e revolucionária. Porém, nem serei
longo, nem trarei polêmicas a esta cerimônia, nem pronunciarei arengas incendiárias.
A voz rouca e suave de Fidel contrapunha-se à sua corpulência. Não falava à multidão que naquele sábado, 19 de julho de
1980, comemorava alegre seu primeiro ano de liberdade. Falava confidencialmente a cada um dos nicaraguenses.
Ritmava suas expressões alternando gestos pausados e contundentes. Mantinha os olhos miúdos fixos em seus ouvintes e
discursava de improviso. Não tinha pressa. Parecia arrumar as ideias em frases antes de pronunciá-las. E ele próprio constatou
o efeito de sua oratória ao exprimir sua admiração ‘pelo silêncio impressionante desta praça, onde nem sequer se escuta o
zumbido de um mosquito’.
Era um silêncio de gratidão, de admiração, mas também de temor. Cuba não mede esforços para colaborar na reconstrução
da Nicarágua: enviou ao país mais de mil médicos que já atenderam um milhão de consultas. Os alfabetizadores cubanos
embrenharam-se por regiões montanhosas que os próprios nicaraguenses não se arriscaram a penetrar. Como mostra o filme El
Brigadista – em exibição nos cinemas de Manágua durante as festas do triunfo -os cubanos ensinam às brigadas de alfabetização
da Nicarágua uma lição tão simples quanto difícil: ao povo, só se ensina a ler depois de aprender com ele. Por que razão teriam
os lenhadores de Sierra Madre, entre Estelí e Matagalpa, interesse em aprender a ler? Sabem manejar o machado e o serrote e
isso lhes basta. Daí a desconfiança e até mesmo a repulsa com que recebem o jovem alfabetizador que chega às montanhas como
alguém que vai ensinar latim a um grupo de camponeses. El Brigadista mostra o jovem aprendendo com os lenhadores antes de
convidá-los às primeiras lições da cartilha. Conquistada a confiança pela prática comum, surge nos lenhadores o interesse em
aprender a ler e escrever.
— Muitos tinham e ainda têm receios quanto à Revolução sandinista .
As palavras de Fidel constrangiam a burguesia nicaraguense e as delegações dos países imperialistas. Elas esperavam que,
após a queda de Somoza, pudessem implantar no país um regime liberal-burguês, de exploração da mão de obra assalariada.
Sessenta por cento do setor industrial nicaraguense está sob controle da iniciativa privada, bem como 80% do setor
agropecuário. No entanto, o poder concentra-se na FSLN e alguns de seus comandantes não escondem sua visão marxista da
história. Querem tornar realidade no país esta expressão que o povo repete em suas reuniões: poder popular. Um poder capaz
de erradicar do país o antagonismo de classes e de realizar uma política administrativa voltada para os interesses coletivos.
BETTO, Frei. Nicarágua Livre: o primeiro passo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980, p. 20-22.
EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
1. Ampliando a discussão
2. Trabalhando com o texto
Você participou de uma atividade em classe - sob a
orientação do professor - na qual vários aspectos da
cultura de massa foram abordados:
– influência estrangeira.
– o papel dos meios de comunicação.
– o caráter de “crítica” ou “alienação” dos produtos
culturais.
– adequação social das mensagens veiculadas.
A cubana Yoani Sánchez é autora de um dos blogs
mais lidos do mundo, o “Generación Y”. A Internet é a
ferrramenta utilizada pela autora para denunciar os
desmandos do regime cubano, posto que a livre
manifestação de idéias e opiniões ainda é cerceada ali.
Uma coletânea dos posts de Yoani Sánchez resultou
no livro De Cuba Com Carinho. Vamos conhecê-lo?
Leia o post, reflita sobre as discussões em sala de
aula e responda às questões.
Escolha um desses itens e elabore uma redação,
ampliando o trabalho de sala de aula.
A anatomia de uma “Y”
Foi a partir de hotéis onde eu não podia entrar
legalmente que coloquei meus primeiros textos na rede.
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Minha pele branquela – herdada de dois avôs espanhóis –
me permitiu burlar os seguranças, que pensavam que eu
era estrangeira. Se por acaso me perguntavam aonde eu ia,
eu respondia com um germânico “Entschuldigung, ich
spreche keinen Spanish” (desculpe, eu não falo espanhol).
Levava o pen-drive com os últimos posts e o relógio me
alertava que dali a quinze minutos não poderia mais pagar
o alto preço da conexão à internet. Seria uma facada no
bolso, caso eu demorasse demais entre um clique e outro.
Tantos atropelos para infiltrar-me nos segregados
enclaves turísticos, e alguns meses depois o governo de
Raúl Castro anunciaria que terminava o Apartheid.
Teríamos permissão para comprar computadores e
hospedar-nos em hotéis, mas não ficou claro com que
salário pagaríamos os preços excessivos desses serviços
em moeda conversível. Apesar dessa flexibilização, nós
cubanos continuamos a ser internautas sem documentos,
já que nossas incursões no terreno da internet estão
marcadas pela ilegalidade. As transgressões acontecem
quando alguém compra uma senha no mercado negro para
acessar a rede, ou usa uma conexão oficial para entrar em
páginas bloqueadas. Se em vez disso pagamos o preço
exorbitante da conexão num hotel, automaticamente
delatamos a fonte ilegal de nossos recursos materiais. Eu
pertenço a esse último grupelho de criminosos, pois há dez
anos me dedico a ganhar a vida como professora de
espanhol e guia turística, sem ter licença para isso.
Quando ainda não era permitida a venda de
computadores, eu já havia tido que afirmar diante de
dezenas de jornalistas que possuía um laptop. Todos
sabiam que eu não poderia tê-lo adquirido legalmente nas
lojas de meu país e esse era um risco que pressagiava
confiscos. Não obstante, minhas declarações exibicionistas pareciam proteger-me em vez de comprometer-me.
Compreendi então que o fenômeno blogger era novo
também para os censores; não sabiam ainda como lidar
com ele. Cada tentativa de silenciar meus escritos, geraria
mais e mais hits no servidor onde estava hospedado meu
blog. Os tempos tinham mudado e os métodos de coação
não tinham conseguido se adaptar à velocidade que a
tecnologia tinha imposto.
Por outro lado, o mecanismo de uma antiga máquina
de lavar soviética sustenta cada post que consigo publicar.
O processo de disponibilizar textos no mundo virtual é
esquisito demais para ser compreendido por qualquer um
que não viva em Cuba. Nada de imediatez ou de pretender ser informativa: meu acesso à rede só me permite
apelar à reflexão ou à crônica que não envelhecem
rapidamente. O estilo de meus textos e seu enfoque estão
condicionados pela indigência informática que os cerca e
pela evasiva internet, tão escassa aqui como a tolerância.
Para aumentar as dificuldades, em março de 2008 o
governo cubano instalou um filtro tecnológico para
impedir meu blog de chegar ao interior de Cuba. Por
sorte, a própria comunidade de leitores que havia sido
criada impediu que se colocasse uma placa de “fechado”
na minha página web. Mãos virtuais e amigas me
ajudaram a manter meu espaço, apesar de eu ter me
convertido numa blogueira às cegas.
Um texto de Andrew Sullivan intitulado “Por que
blogo?” caiu em minhas mãos quando Generación Y
estava há meses na rede e já haviam me outorgado o
prêmio Ortega y Gasset de jornalismo. Ao lê-lo, acabei
entendendo que meu espaço não cabia no conceito de um
blog. Para mim era impossível atualizar todo dia, ou
narrar a imediatez do que acontecia na outra esquina.
Tampouco podia tomar parte nos comentários que cada
texto gerava ou responder as perguntas que os leitores
faziam. Entretanto, as carências tecnológicas foram
compensadas pelo surgimento de outros inventores de
criaturas peculiares como a minha. Já não estava tão
sozinha na blogosfera da Ilha, pois surgiram sites como
Octavo Cerco, de Claudia Cadelo, Desde Aquí, mantido
por Reinaldo Escobar, Habanemia, da jovem Lía Villares,
e Sin Evasión, que Miriam Celaya administra com
agudeza. Foi rara a semana em que não tomei
conhecimento da aparição de um novo espaço virtual e
pessoal, feito em Cuba e marcado pelas mesmas dificuldades tecnológicas que eu tinha. A proximidade de temáticas e a necessidade de transmitir experiências uns aos
outros fizeram com que nos encontrássemos frequentemente, naquilo que batizamos de “jornada blogueira”.
Criamos cópias de nossos blogs para leitores que nunca poderiam conectar-se à grande teia de aranha mundial.
Em shows, exposições e praças públicas distribuímos
nossos textos, sabendo que essa pequena difusão tem como
contrapartida um desejo oficial de nos silenciar. Cada cópia
entregue é como a inoculação de um vírus de consequências
imprevisíveis: o bacilo da opinião livre, a infecção que
contraem uns ao ver outros se expressando sem máscaras.
SÁNCHEZ, Yoani. De Cuba Com Carinho. SP,
Editora Contexto, 2009, pp. 26-28.
1. Justifique com exemplos do texto, a afirmação:
“blogueira cubana relata cotidiano inacessível a
estrangeiros.”
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______________________________________________
______________________________________________
2. Encontre um artigo de jornal ou revista que traga
uma notícia sobre Cuba, cole-a no espaço reservado e escreva um comentário sobre o assunto.
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CAPÍTULO
12
Enquanto isso, no Brasil…
1. O Brasil do pós-guerra
Getúlio volta ao poder nos braços
do povo ...
De 1945, ano da saída de Getúlio Vargas da presidência, ao início da ditadura militar em 1964, vivemos
um período de normalidade democrática. Ainda que com
limites, é certo que desfrutamos de um clima de liberdade
política contrastante com as duas ditaduras entre as quais
esse momento está compreendido.
Em 1946 foi promulgada a nova Constituição,
elaborada a partir de uma Assembleia Nacional
Constituinte, que restaurou a normalidade e possibilitou
a reorganização das forças políticas em partidos. Até
mesmo ao Partido Comunista, tão perseguido até aquele
momento, foi permitido ter existência legal ainda que por
um breve período. Os partidos políticos assumiram
caráter nacional, com destaque para o PSD – Partido
Social Democrático; o PTB – Partido Trabalhista
Brasileiro; e a UDN – União Democrática Nacional.
No contexto da guerra fria o Brasil definiu-se pelo
mundo capitalista e rompeu as relações diplomáticas com
a União Soviética em 1947. A perseguição aos
comunistas havia-se reiniciado, seus deputados foram
cassados e os comunistas novamente relegados à
clandestinidade.
Afastado temporariamente da política, Getúlio
Vargas retornou à presidência através de eleições diretas.
Seu retorno ao poder firmou o populismo na política
brasileira como forma de governo das massas.
A política econômica do período oscilou entre as
propostas nacionalistas de Getúlio e as pressões pela
abertura ao capital internacional. Com o governo de
Juscelino Kubitschek a abertura da economia tomou a
dianteira. Desde então, a entrada maciça de empresas
multinacionais combinou-se a uma forte presença do
Estado na economia, caracterizando um modelo
econômico que se prolongou pelo governo militar.
Getúlio na campanha
presidencial de 1950
O retrato do velho
Bota o retrato do velho outra vez,
Bota no mesmo lugar.
O sorriso do velhinho
Faz a gente trabalhar, oi!
Eu já botei o meu
E tu não vais botar?
Já enfeitei o meu
E tu vais enfeitar?
(bis)
O sorriso do velhinho
Faz a gente se animar, oi!
Durante o período em que esteve afastado da
presidência, Getúlio Vargas preparou o seu retorno. A
partir de uma coligação do PTB como PSP, venceu as
eleições de 1950 com maioria absoluta: 48% dos votos.
Cumpria-se a promessa do presidente de retornar “nos
braços do povo”.
O segundo governo de Getúlio fundamentou-se em
um nacionalismo populista que se dirigiu para o
incremento da industrialização através da criação de
estatais como a Eletrobrás, o BNDE -Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e a Petrobrás. Para a
criação desta última, houve forte campanha nacionalista,
que envolveu amplos setores sociais, cujo lema era: “o
petróleo é nosso”.
Presidentes do Brasil
Você sabia?
Eurico Gaspar Dutra (1946-1950)
“O Estado Novo determinou que as repartições
públicas pendurassem um retrato do presidente
da República na parede. Em 1945, Getúlio
Vargas foi deposto, e seus retratos foram
retirados. Quando ele foi eleito em 1950, os
retratos voltaram. Isso inspirou uma música de
muito sucesso em 1951. “Retrato do velho”, de
Haroldo Lobo e Marino Pinto, foi interpretada
pelo cantor Francisco Alves.”
Getúlio Vargas (1951-1954)
Café Filho (1954-1955)
Juscelino Kubitschek (1956-1961)
Jânio Quadros (1961)
João Goulart (1961-1964)
DUARTE, Marcelo – O guia dos curiosos. Brasil. São Paulo,
Cia das Letras, 1999, pp.142-143.
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TEXTO COMPLEMENTAR
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
A criação da Petrobrás
“Entre a data da primeira tentativa de exploração de petróleo em solo brasileiro – isto é, em 1858 – e a formação da Petrobrás,
em 1953, transcorre quase um século de duros combates pela preservação de uma das maiores riquezas naturais do País. A rigor, a
luta pelo estabelecimento do monopólio estatal do Petróleo ganhava corpo na mesma proporção em que o produto se apresentava
como fonte básica de energia no processo de industrialização. Nessa ótica, a primeira metade do século XX (em particular as décadas
de 40 e 50) é marcada pelos debates travados em torno da questão petrolífera, mormente na imprensa e no parlamento. São. sem
exagero algum, as décadas do petróleo. Dois grandes grupos se formam então. De um lado, se situam os partidários do monopólio
estatal, os nacionalistas: de outro, alinham-se os defensores da participação do capital privado, das grandes companhias
transnacionais na pesquisa, lavra e refino do produto. Esses eram quase sempre denominados entreguistas por seus adversários.
Os embates pela criação da Petrobrás adquiriram, nesse contexto, foros de uma autêntica questão nacional, da mesma forma
que a causa abolicionista ou o engajamento do país na guerra contra as forças do Eixo em um passado não muito distante.
Praticamente todas as instituições de peso na vida da Nação – Congresso, Imprensa, Sindicatos de patrões e trabalhadores, Forças
Armadas –, assim como o povo nas ruas e praças públicas, foram mobilizadas pela campanha de O Petróleo é nosso. Intelectuais,
artistas, jornalistas e figuras públicas como Oscar Niemeyer, Monteiro Lobato, Henrique Teixeira Lott, Horta Barbosa, Eusébio
Rocha, Felicíssimo Cardoso, Matos Pimenta, Barbosa Lima Sobrinho, Nelson Werneck Sodré, entre muitos outros, tiveram
destacada participação nesse processo. Assim, apesar de toda a repressão que utilizou contra os segmentos mais combativos do
movimento nacionalista e das ambiguidades de seu posicionamento político – dezenas de pessoas foram assassinadas pela polícia
de seu Governo e por aquele de seu antecessor, Eurico Gaspar Dutra, nos quatro cantos do país –, Getúlio Vargas finalmente cria
a Petrobrás, modificando assim os seus propósitos iniciais, provavelmente sob a pressão da sociedade organizada.”
ALVES, Fº., Ivan – Brasil, 500 anos em documentos. RJ, Mauad, 1998, p. 511.
A intenção do presidente seria atrair capitais
estrangeiros para associá-lo ao nacional, como forma de
impulsionar a industrialização. Impunha condições para
essa associação, de forma a não comprometer o que via
como interesses nacionais. Acabou perdendo o apoio de
setores da burguesia, especialmente após o movimento
operário mostrar-se organizado e ativo na “greve dos 300
mil”, realizada em 1953 em São Paulo.
Buscando o equilíbrio da sociedade, chamou João
Goulart para o Ministério do Trabalho, o que acabou
descontentando os setores mais conservadores que
consideraram isso uma guinada à esquerda do presidente.
Com isso perdeu também o apoio das forças armadas.
enterro foi acompanhado por milhares de pessoas que
queriam dar seu último adeus ao presidente.
Antes de morrer, Getúlio havia escrito uma cartatestamento, na qual ressaltava que seu ato deveria ser
entendido como seu sacrifício final em prol do povo
brasileiro. O inesperado suicídio de Getúlio Vargas
reforçou o mito construído durante o Estado Novo e
contribuiu para apagar da memória nacional as
lembranças da ditadura. Com tal gesto perpetuou-se a
imagem do presidente que alcançou a imortalidade
pretendida, desejo manifesto nas palavras finais de sua
carta-testamento: “saio da vida para entrar na história”.
Getúlio Vargas com Gregório Fortunato à
esquerda e João Goulart à direita
...e sai da vida para entrar na História
Seguiu-se uma intensa campanha difamatória sobre
o presidente a partir de jornais oposicionistas, com forte
participação de Carlos Lacerda, da UDN, dono do jornal
Tribuna da Imprensa. As acusações de corrupção
somavam-se às de cunho político, que acusavam o
presidente, desde “entreguismo”, até de ser esquerdista!
Getúlio estava completamente isolado.
No início de agosto de 1954 ocorreu um atentado que
foi depois atribuído a Gregório Fortunato, o “anjo
negro”, chefe da guarda presidencial. No “atentado da
rua Toneleros” morreu o major da aeronáutica Rubens
Florentino Vaz, ficando ferido também Carlos Lacerda.
A crise tornava-se insustentável. O exército pedia a
renúncia de Getúlio. Numa atitude inesperada, Getúlio
Vargas suicidou-se com um tiro no coração, em 24 de
agosto de 1954. A morte trágica do presidente comoveu
a população, que ganhou as ruas em manifestações
espontâneas em diversas cidades e capitais do país. Seu
Carlos Lacerda sendo
carregado por amigos após o
atentado da rua Toneleros
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O “presidente bossa-nova”
DOCUMENTO
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
Carta-Testamento de Vargas
“...Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo
coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.
Não me acusam; não me combatem, caluniam e não me dão
o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a
minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre
defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino
que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação
dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me
chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação
social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do
povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais
revoltados contra o regime de garantia de trabalho. A lei de
lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a
justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os
ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das
nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a
funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi
obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador
seja livre. Não querem que o povo seja independente.
Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que
destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas
estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de
valores do que importávamos existiam fraudes constantes de
mais de 100 milhões de dó1ares por ano. Veio a crise do café,
valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu
preço e a resposta foi violenta pressão sobre a nossa economia,
a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a
uma pressão constante, incessante, tudo suportando em
silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para
defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais
vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina
querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo
brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este
meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem,
sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome
bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para
lutar por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem,
sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício
vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta.
Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa
consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência.
Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me
derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo
e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui
escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício fica
para sempre em sua alma e meu sangue seja preço do seu
resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a
espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as
infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a
minha vida.
Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente
dou o primeiro passo a caminho da eternidade, e saio da vida
para entrar na história.”
Juscelino e a nova capital
Ao suicídio de Getúlio Vargas seguiu-se um período
de transição política que terminou nas eleições
presidenciais de janeiro de 1956. Através da aliança PSDPTB, Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956-1961) e
seu vice, João Goulart, chegaram ao poder.
O pleito aconteceu em meio a tensões e supostos
preparativos de golpe militar. O general Henrique Teixeira
Lott, Ministro da Guerra, fez uma intervenção garantindo
a continuidade democrática e a posse dos eleitos.
Juscelino Kubitscheck, ou simplesmente JK, figura
na memória popular como um político dinâmico,
empreendedor, responsável por um estilo de governar
marcadamente conciliatório. Seu governo transcorreu
em meio a amplas liberdades públicas. Contagiou o país
com uma onda de otimismo, afirmando que em seu
governo o Brasil cresceria “50 anos em 5”. Carinhosamente chamado de “Nonô” por seus conterrâneos mineiros, entrou para a história como o “presidente bossa-nova”.
O programa do governo JK definia um conjunto de
estratégias para o desenvolvimento nacional denominado
Plano de Metas, que privilegiaria os seguintes setores:
• Energia;
• Transporte; • Indústria de base;
• Alimentação • Educação.
O Plano de Metas foi o instrumento do governo para
estimular e coordenar a iniciativa dos empresários
brasileiros e atrair capitais e tecnologia estrangeiros,
dentro de uma política desenvolvimentista.
Duas realizações do governo JK destacaram-se entre
as outras: a implantação da indústria automobilística e a
construção de Brasília, apontada no discurso político de
Juscelino como a “síntese de todas as metas”.
Por meio de um conjunto de incentivos fiscais,
atraíram-se montadoras para o país, e empresas como a
Ford e a General Motors, que estavam no Brasil desde o
início do século XX, tornaram-se mais competitivas e
passaram a fabricar veículos utilitários.
Na região do ABC paulista formou-se um enorme
parque industrial automobilístico. A ênfase na indústria
automobilística e nos transportes rodoviários levou à
construção de estradas de rodagem, marca registrada do
nosso sistema de transportes até hoje.
(Getúlio Vargas – 24 de agosto de 1954)
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Linha de montagem do
“fusca” em 1958, na cidade
do ABC paulista de São
Bernardo do Campo
Você sabia?
Projeto de Brasília.
JK com os arquitetos Lúcio Costa e
Oscar Niemeyer
O ano de 1959 marcou o lançamento do
primeiro fusca montado no Brasil pela empresa
alemã Volkswagen. No mesmo ano foi lançado o
Simca Chambord, um dos carros de maior
sucesso da empresa francesa Simca, o qual se
tornou um emblema do governo JK. Estima-se
que, entre 1957 e 1961, mais de 320 mil veículos
foram produzidos no país.
A política desenvolvimentista trouxe resultados
significativos, contribuindo para consolidar o processo de
industrialização brasileiro. Seus frutos garantiram uma
alta popularidade para o presidente. De 1955 a 1961,
quando JK deixou a presidência, o valor da produção
industrial crescera 80%, descontando-se a inflação, com
maior intensidade nos setores do aço, da indústria
mecânica, transportes, eletricidade e comunicações.
O custo social desse avanço, no entanto, não tardou a
aparecer sob a forma do endividamento externo e da alta
da inflação. A abertura ao capital internacional, embora
tenha levado à industrialização, aumentou os mecanismos
de dependência econômica do país. Após a saída de
Juscelino do governo, diferentes setores da sociedade
passaram a expressar-se contra as consequências dessa opção,
por meio de manifestações operárias, estudantis e sindicais. A
crise política que se seguiu culminou na instalação de uma
ditadura militar, como veremos na próxima aula.
Brasília, símbolo do desenvolvimentismo do governo J.K
O crescimento das cidades e a
vida moderna
Brasília, a nova capital
O arquiteto Oscar Niemeyer e o urbanista Lúcio Costa foram
encarregados de projetar uma nova cidade no planalto central do
país. Para justificar tão ousado projeto, apontava-se a necessidade
de levar o desenvolvimento para o interior; fazer da Região CentroOeste uma porta de entrada para a Amazônia; ampliar a fronteira
agrícola, abrindo novas estradas, e gerar empregos. A construção da
nova capital, Brasília, teve início em fevereiro de 1957. Um ano
depois, já havia cerca de 12 mil pessoas morando e trabalhando nas
obras, dentre eles os candangos, nome dado aos operários que
trabalhavam na construção da “novacap”. Inaugurada em 21 de
abril de 1960, tornou-se símbolo da arquitetura moderna de alto
nível realizada no país e passou a desfrutar de prestígio
internacional. Em 1987 o conjunto arquitetônico de Brasília obteve
reconhecimento de seu valor como patrimônio cultural da
humanidade ao ser tombado pela UNESCO, sendo o único
monumento com menos de cem anos a conseguir tal distinção.
Migrantes nordestinos recém-chegados a São Paulo, em meados dos anos 40,
quando tem início intenso movimento migratório para o Sudeste
A intensificação do processo de industrialização dos
anos da década de 1950 foi acompanhada de um
crescimento significativo das cidades e do modo de vida
urbano. Se no começo daquela década 36% das pessoas
viviam nas cidades, em 1960 já atingíamos o índice de
45% de população urbana.
As cidades cresceram especialmente na Região
Sudeste, onde se concentrou a industrialização. Os
maiores centros urbanos, São Paulo e Rio de Janeiro,
“incharam” em decorrência do grande afluxo de
migrantes que vinham do campo em busca de melhores
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condições de vida e de trabalho. Nordestinos que fugiam
da seca dirigiram-se em massa para a região. O
crescimento desordenado das cidades trouxe inúmeros
problemas que se têm agravado desde então, como o
surgimento de favelas, a falta de infraestrutura urbana e a
carência de moradias.
Tabela – Distribuição da população brasileira, em %
1950
1960
1991
2000
2010
Pop. Rural
63,84
55,32
24,53
18,77
15,65
Pop. Urbana
36,15
44,67
75,46
81,23
84,35
Fonte: IBGE
Os meios de comunicação de massas – rádio,
imprensa, cinema e televisão – tiveram uma expansão
extraordinária, contribuindo para difundir o modo de vida
urbano. Os hábitos de consumo estimulados pela
propaganda tornaram indispensáveis eletrodomésticos
como geladeiras, aspiradores de pó e liquidificadores,
transformados em símbolos da vida moderna. Os
automóveis, um pouco mais acessíveis para a classe
média, já que produzidos no país, tornaram-se ícones
destacados e símbolos de ascensão social. Entretanto,
estes padrões de consumo e comportamento não
deixavam de ter alcance limitado pelas diferenças
regionais e sociais existentes no país.
Jogadores da Seleção Brasileira de Futebol de 1958.
Em pé: da esquerda para a direita: Vicente Feola (Técnico), Djalma Santos,
Zito, Belline, Nilton Santos, Orlando, Gilmar (goleiro).
Agachados: da esquerda para a direita: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo,
Paulo Amaral (preparador físico).
Discutindo a História
Nem sempre há concordância entre todos os grupos
sociais e econômicos do país quanto às formas de se
alcançar o desenvolvimento econômico. Neste item você
tomou contato com as alternativas propostas por dois
governos diferentes com esse objetivo.
Você sabia?
Vamos entender melhor?
A cidade de São Paulo assumiu nos anos 1950 a
posição de “maior parque industrial da América
Latina”. Viviam na cidade 2,2 milhões de
pessoas, sendo que mais da metade era composta
de migrantes mineiros e nordestinos. A eles
somavam-se cerca de 1 milhão de estrangeiros e
seus descendentes que viviam na cidade,
contribuindo para torná-la um verdadeiro
mosaico de culturas.
Leia o texto abaixo e responda às questões propostas:
TEXTO 1
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
Os rumos da política econômica
“Os pressupostos do Programa de Metas mostram que, no
governo JK, ocorreu uma definição nacional-desenvolvimentista
de política econômica. O que queremos dizer com essa expressão?
Como distinguir entre “nacionalismo” e “nacional-desenvolvimentismo”?
Para responder a essa pergunta, precisamos retroceder um
pouco no tempo. Vimos como o processo de substituição de
importações ocorreu no governo Dutra após a mudança de rumos
da política econômica. De uma forma deliberada, Getúlio Vargas
acentuou esse processo. A ampliação da receita das exportações em
consequência da Guerra da Coreia permitiu ao governo, através do
mecanismo do confisco cambial, concentrar em suas mãos recursos
que foram destinados a incentivar a industrialização.
Com frequência, a política de substituição de importações estava
associada a uma postura nacionalista. Seus defensores viam nela um
instrumento essencial para que o Brasil superasse o
subdesenvolvimento e se tornasse uma potência autônoma. Os
nacionalistas sustentavam a necessidade de controle pelo Estado da
infraestrutura (transportes, comunicações, energia) e da indústria
básica, ficando as outras áreas da atividade econômica nas mãos da
empresa privada nacional. Sem chegar a recusar em princípio o
capital estrangeiro, insistiam na necessidade de só aceitá-lo com
muitas restrições, seja quanto à área dos investimentos, seja quanto
aos limites à remessa de lucros para o exterior.
O governo JK promoveu uma ampla atividade do Estado, tanto
RODRIGUES, Marly – A década de 50,
São Paulo, Ática, 1992.
Propaganda de
enceradeira, na revista
O Cruzeiro de 11 de
julho de 1959
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no setor de infraestrutura como no incentivo direto à industrialização, mas assumiu também abertamente a necessidade de atrair capitais
estrangeiros, concedendo-lhes inclusive grandes facilidades. Assim, o governo permitiu uma larga utilização da Instrução 113 da Sumoc,
baixada no governo Café Filho. Essa instrução autorizava as empresas a importar equipamentos estrangeiros sem cobertura cambial, ou seja,
sem depositar moeda estrangeira para pagamento dessas importações. A condição para gozar da regalia era possuir, no exterior, os
equipamentos a serem transferidos para o Brasil ou recursos para pagá-los. As empresas estrangeiras, que podiam preencher esses requisitos
com facilidade, ficaram em condições vantajosas para transferir equipamentos de suas matrizes e integrá-los a seu capital no Brasil. A
Instrução 113 facilitou os investimentos estrangeiros em áreas consideradas prioritárias pelo governo: indústria automobilística, transportes
aéreos e estradas de ferro, eletricidade e aço.
A expressão nacional-desenvolvimentismo, em vez de nacionalismo, sintetiza pois uma política econômica que tratava de combinar o Estado,
a empresa privada nacional e o capital estrangeiro para promover o desenvolvimento, com ênfase na industrialização. Sob esse aspecto, o
governo JK prenunciou os rumos da política econômica realizada, em outro contexto, pelos governos militares após 1964.”
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo, EDUSP/FDE, 1997, p. 426-427.
1. Comente a perspectiva nacionalista de desenvolvimento econômico.
2. Explique a proposta nacional-desenvolvimentista de Juscelino.
3. Aponte vantagens e desvantagens do modelo econômico brasileiro assumido a partir do governo JK.
De acordo com o que você já estudou, leu ou ouviu sobre o assunto, tente defender uma posição sobre ele escrevendo
um ou mais parágrafos nos quais discuta as alternativas de desenvolvimento econômico no contexto atual, usado o título
a seguir:
O nacionalismo econômico em face da globalização.
VO C A B U L Á R I O
No Portal Objetivo
Ambiguidade = característica do que pode ser tomado em
mais de um sentido.
Conciliatório = em política, atitude de fazer alianças com
vistas e garantir a ordem.
Difamatória = causa difamação, abala a reputação de
alguém, desacreditando-o publicamente.
Embates = resistências, oposições, choques.
Entreguista = atitude de entregar a exploração dos recursos
naturais a capitais estrangeiros.
Espoliação = ação de despojar, privar, roubar.
Obstaculada = que recebeu ou sofreu impedimento.
Retroceder = recuar, voltar para trás.
Sumoc = Superintendência da Moeda e do Crédito.
Vilipendiarem = desprezarem, repelirem, tratarem como
vil.
Para saber mais sobre o assunto, acesse o PORTAL
OBJETIVO (www.portal.objetivo.br) e, em “localizar”,
digite HIST9F307
de 1960. Porém, a inflação crescente e o saldo da dívida
externa, frutos da política desenvolvimentista e do Plano
de Metas, levaram à ascensão política de uma das figuras
mais controversas da vida pública nacional, o governador
do estado de São Paulo, Jânio da Silva Quadros.
“Varre, varre vassourinha”
Jânio Quadros, uma imagem popular
2. A caminho do golpe
A composição da candidatura de Jânio foi feita em
torno de vários partidos políticos, tendo à frente Carlos
Lacerda, o influente líder da
União Democrática Nacional (UDN).
Apresentando-se como o
“homem do tostão contra o
A experiência democrática começada em 1945 teria
breve duração no país. Após o governo de Juscelino
Kubitschek vivemos uma sucessão de crises políticas e
econômicas que abriram caminho para a instalação de
uma ditadura militar a partir de 1964.
Na tentativa de estabelecer um sucessor político,
Juscelino Kubitschek decidiu apoiar a candidatura do
general Henrique Teixeira Lott para as eleições de outubro
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milhão, que iria sanear a nação”, Jânio Quadros venceu o
candidato de JK com 48% dos votos. Com o apoio de
setores militares, recebeu a faixa presidencial de
Juscelino em 1961.
As medidas de austeridade e moralismo adotadas pelo
governo janista em nada influenciaram a espiral
inflacionária do país. Carlos Lacerda e a UDN colocaramse em oposição ao governo, posto que o presidente não
ouvia as bases udenistas em suas decisões políticas.
A condecoração dada pelo presidente do Brasil ao
guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara acelerou uma crise
política em andamento, colocando também o país em rota
de colisão com os Estados Unidos.
Em 24 de agosto de 1961, em um discurso
radiofônico, Carlos Lacerda denunciou uma suposta
tentativa de golpe de Estado articulada pelo presidente.
No dia seguinte, Jânio Quadros surpreendeu a nação e o
mundo ao anunciar sua renúncia apenas sete meses após
assumir o cargo. O presidente citou “forças terríveis” e
muito se falou em “forças ocultas”. Cogitou-se em blefe
e jogada política do presidente. Na verdade, a renúncia
abriu espaço para uma grave crise que atingiria o país.
Jânio e a vassoura,
símbolo de sua
campanha
Você sabia?
A imagem que se formou em torno do político
Jânio Quadros era a de um homem vestido com
simplicidade, tendo o cabelo sempre desalinhado.
Fazendo promessas de “renovação social”, era
hábil em ouvir as reclamações da população
carente, esperto ao alimentar-se de sanduíches de
mortadela em meio aos seus comícios políticos. A
vassoura foi o emblema do combate à
“bandalheira” nacional.
TEXTO 1
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
A Renúncia
“Fui vencido pela reação e, assim, deixo o governo.
Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido
dia e noite, trabalhando infatigavelmente sem prevenções
nem rancores. Mas baldaram-se os meus esforços para
conduzir esta nação pelo caminho de sua verdadeira
libertação política e econômica, o único que possibilitaria
progresso efetivo e a justiça social a que tem direito o seu
generoso povo. Desejei um Brasil para os brasileiros,
afrontando neste sonho a corrupção, a mentira e a
covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e
às ambições de grupos ou indivíduos, inclusive do exterior.
Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se
contra mim e me intrigam ou infamam até com a desculpa
da colaboração. Se permanecesse, não manteria a
confiança e a tranquilidade
ora quebradas e
indispensáveis ao exercício da minha autoridade. Creio,
mesmo, não manteria a própria paz pública. Encerro assim
com o pensamento voltado para a nossa gente, para os
estudantes e para os operários, para a grande família do
país, esta página de minha vida e da vida nacional. A mim
não falta a coragem da renúncia. Saio com um
agradecimento e um apelo. O agradecimento é aos
companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro
e fora do governo, e de forma especial às Forças Armadas,
cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo
nesta oportunidade. O apelo no sentido da ordem, do
congraçamento, do respeito e da estima de cada um dos
meus patrícios, para todos, de todos, para cada um.
Somente assim seremos dignos da nossa herança e da nossa
predestinação cristã. Retorno agora ao meu trabalho de
advogado e professor. Trabalharemos juntos. Há muitas
formas de servir nossa pátria. Brasília, 25 de agosto de
1961. Jânio Quadros.”
Jânio em comício na Vila Maria
Durante seu governo, Jânio Quadros estabeleceu uma
política de combate à corrupção e, no plano externo, de
não alinhamento aos Estados Unidos.
Proibiu a propaganda em cinemas e a participação de
crianças em programas de rádio e televisão. Estabeleceu
normas para os jogos de cartas em clubes e associações.
Utilizou-se dos famosos “bilhetinhos” para comunicar-se
com ministros e assessores políticos.
Jânio e “Che” Guevara. Surpreendendo
a opinião pública
Folha de S. Paulo, 25/8/1961.
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João Goulart – o herdeiro político
de Getúlio
um pleno poder político a João Goulart.
Ao fortalecimento político do presidente seguiu-se a
execução do Plano Trienal, um arrojado programa
econômico de autoria do Ministro do Planejamento e
Coordenação Econômica, Celso Furtado. Elaborado para
vigorar entre 1963 e 1965, apresentava em sua pauta:
• o combate à inflação.
• a continuidade do desenvolvimento econômico.
• o incentivo à industrialização.
• a renegociação da dívida externa.
• o início de um processo de reforma agrária.
As medidas anti-inflacionárias adotadas pelo governo
– restrições ao crédito e contenção salarial – não se mostraram eficientes, e tanto empresários quanto sindicalistas
passaram a fazer oposição a Jango.
O governo passou a defender a ideia de que a saída
para a crise inflacionária passava necessariamente pela
modernização das relações econômicas de produção, na
extensão de benefícios aos setores de baixa renda, na
política de geração de empregos. João Goulart sinalizava
a adoção de uma política externa independente dos
Estados Unidos e da instauração das “reformas de base”.
A reforma agrária, que promoveria uma distribuição
mais justa das terras e da renda agrícola; a progressiva
nacionalização das indústrias; a extensão do direito ao
voto ao analfabeto e o controle do envio de lucros ao
exterior compunham o conjunto de medidas políticosociais que João Goulart pretendia implantar no país sob
a denominação de “reformas de base”.
Um novo processo de crise política instaurou-se no
país após a renúncia de Jânio Quadros. Enquanto a nação,
ainda aturdida, ansiava por respostas, o vice-presidente
João Goulart encontrava-se em viagem oficial à China
Comunista. Jango, como era também chamado, não tinha
livre trânsito entre os políticos brasileiros. Por muitos era
visto como um “comunista travestido de democrata”.
Carlos Lacerda, governador do antigo estado da
Guanabara, em conjunto com facções políticas ligadas à
UDN e setores militares, tentaram impedir a posse de
João Goulart, temerosos de que ele adotasse uma política
“antiamericana” e “esquerdista”.
A resposta a esse movimento veio do Rio Grande do
Sul. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul,
casado com a irmã de João Goulart e articulista da
campanha de Vargas à presidência, tornou-se o grande
líder nacional em defesa da posse de Jango.
Em Porto Alegre surgiu a Rede pela Legalidade que
passou a atuar na defesa da posse de João Goulart. Várias
rádios foram ocupadas pelos brizolistas que veiculavam
apenas notícias sobre a volta de Jango ao Brasil.
Você sabia?
“No Nordeste do Brasil organizaram-se Ligas
Camponesas, que exigiam do governo uma
reforma agrária. No início dos anos 60, Robert
Kennedy – irmão do presidente dos Estados
Unidos – veio ao Brasil e esteve no Nordeste. Os
Estados Unidos estavam preocupados com o
surgimento de uma nova Cuba, que fez uma
revolução socialista em 1959”.
João Goulart e Leonel Brizola, em 1961
A iminência de uma guerra civil levou o grupo de
Carlos Lacerda a recuar. A posse oficial do presidente João
Goulart deu-se em 7 de setembro de 1961. Porém, o
mandato presidencial foi condicionado a um Ato Adicional
à Constituição de 1946, o qual estabelecia o parlamentarismo no país. O objetivo era muito claro: limitar o poder
do presidente Goulart e ampliar os poderes do Congresso.
Ao iniciar seu mandato presidencial, João Goulart
buscou apoio político em diferentes segmentos sociais,
chegando mesmo a nomear ministros ligados à UDN, sua
grande e tradicional opositora. Em abril de 1962 realizou
uma viagem oficial aos Estados Unidos, onde foi recebido
pelo presidente John Kennedy.
A consolidação de alianças políticas, o apoio do
Congresso e de organizações trabalhistas permitiram a
vitória do presidente em um plebiscito, realizado em 6 de
janeiro de 1963. O fim da experiência parlamentarista e o
retorno do presidencialismo asseguraram o exercício de
adaptado de: MOTA, Carlos Guilherme – História e
Civilização – SP, Ed. Ática, 1995, p. 144.
O agravamento das tensões
O crescimento de setores de oposição ao governo
João Goulart era bastante evidente desde fins de 1963.
Sem base de apoio no Congresso e enfrentando críticas
constantes na imprensa, o presidente passou a priorizar a
questão da reforma agrária, no quadro das reformas de
base. Seus discursos sobre a questão da terra acabaram
por colocá-lo em um situação política insustentável.
Em comício realizado no dia 13 de março de 1964 na
estação ferroviária Central do Brasil, no Rio de Janeiro,
dezenas de milhares de pessoas ouviram-no discursar em
tom desafiador. O presidente assumia o compromisso
público de realizar as reformas de base e anunciar a
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revisão da Constituição, com o objetivo de conferir
maiores poderes ao Executivo.
Essa inflamada manifestação desencadeou a reação
imediata de setores que faziam oposição ao governo. A
grande imprensa veiculava notícias sobre a “cubanização”
do regime político brasileiro e alertava para a instauração
de um “estado de ilegalidade”, contrário às regras
constitucionais.
TEXTO COMPLEMENTAR
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
O comício da Central do Brasil
“Na história da chamada “democracia populista” brasileira,
poucos atos públicos tiveram tanto impacto e repercussão política
quanto o comício daquela sexta-feira 13. Com amplo apoio oficial e
sob a proteção dum rigoroso esquema de segurança montado pelo I
Exército, cerca de 200 mil pessoas demonstraram de forma muito
significativa o elevado grau de politização que começava a atingir
diferentes setores da sociedade brasileira. No extenso mar de
cartazes e de faixas empunhados pela massa popular, liam-se alguns
slogans que inquietariam as classes dominantes e atemorizariam as
classes médias: “Reformas ou Revolução”; “Forca para os
gorilas!”; “Yankee, go home”; “Defenderemos as Reformas a
bala!”; “Legalidade para o PCB”; “Reeleição de Jango!”. No
palanque, ministros de Estado, militares, governadores de Estado,
deputados, dirigentes sindicais, líderes estudantis comprimiam-se ao
lado do presidente da República. Após 3 horas de inflamados
discursos, Goulart encerrou o ato anunciando a promulgação de dois
decretos: o da nacionalização das refinarias particulares de petró1eo
e o da desapropriação das propriedades de terras (com mais de 100 Maria Teresa e João Goulart no comício da Central do Brasil.
hectares) que ladeavam as rodovias e ferrovias federais e os açudes públicos federais. Prometeu também enviar ao Congresso
outros projetos de reforma (agrária, eleitoral, universitária e constitucional); anunciou ainda que nos próximos dias decretaria
algumas medidas urgentes “em defesa do povo e das classes populares” (tabelamento de aluguéis, controle dos preços, etc.). No
seu discurso, Goulart atacou a “democracia dos monopó1ios nacionais e internacionais”, as “associações de classes
conservadoras”, a “mistificação do anticomunismo”, a campanha dos “rosários da fé contra o povo”, os “privilégios das
minorias proprietárias de terras”, etc.
De fato, 13 de março de 1964 pode ser considerado um marco decisivo na recente história política brasileira. Para grande
decepção das esquerdas, o dia 13 significaria não a emergência de um governo nacionalista, democrático e popular, mas, sim,
o último ato da chamada “democracia populista”. A partir do dia 13 de março — enquanto as esquerdas se dividiam em
discussões acerca da composição da frente ampla —, a direita passava inteiramente à ofensiva do movimento social.”
‘
TOLEDO, Caio Navarro de – O governo Goulart e o golpe de 64. São Paulo, Brasiliense, 1984, p. 94-99.
O Golpe de 1964
O agravamento das tensões sociais possibilitou um golpe de Estado em 31 de março de 1964. O general Mourão Filho
partiu de Minas Gerais com o apoio de amplos setores das Forças Armadas e dos governadores de São Paulo, Minas
Gerais e Guanabara. O destino era a Capital Federal e também salvaguardar a soberania nacional.
João Goulart não reagiu ao golpe e buscou asilo político no Uruguai. O comando revolucionário cassou deputados,
senadores, governadores, prefeitos, militares, desembargadores, embaixadores e outros ocupantes de funções públicas.
Ranieri Mazzilli, líder da Câmara dos Deputados, ocupou a presidência até a posse do general Humberto de Alencar
Castelo Branco, eleito pelo Congresso Nacional em 11 de abril de 1964.
O golpe havia colocado fim ao regime constitucional brasileiro. Os militares assumiam o poder.
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TEXTO COMPLEMENTAR
–––––––––––
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––-–––––––––
O significado do Golpe
“No final de março de 1964, o governo constitucional de João Goulart estava espremido entre a mobilização golpista, que reunia a maior
parte da cúpula militar unida aos setores mais conservadores da sociedade, e o crescente movimento de massas que exigia a implantação de
reformas estruturais. Em si mesmas, as chamadas “reformas de base” não tinham propriamente caráter revolucionário e muito menos
socialista. O desenvolvimento econômico nacional necessitava urgentemente de um conjunto de medidas capazes de reprogramar o país,
permitindo o enfrentamento de questões sérias como a inflação, a distribuição de renda e a propriedade rural. O problema para as elites
conservadoras, entretanto, era o caráter nacionalista e mais abrangente das reivindicações sociais, que ameaçavam a perda de parte de alguns
lucros mais fabulosos e explicitavam a possibilidade de alargamento dos direitos de cidadania restritos a uma pequena parte da população.
A alternativa dos golpistas para as reformas sociais era uma modernização conservadora, que afastasse a pressão das massas e permitisse
a expansão da economia associada a maiores liberdades para o capital externo e para a grande propriedade em geral. Como definiu um líder
político perseguido após 64, a ideia dos conspiradores, influenciados pelo programa norte-americano da “Aliança para o Progresso”, era a
de que “a senzala seria caiada, teria o seu play-ground, e os negrinhos receberiam mais comida. Mas permaneceria senzala”.”
BARROS, Edgard Luiz – Os governos militares. São Paulo, Contexto, 1994, p. 17.
Trabalhando com imagem
Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
Essa foto é um registro histórico de uma grande
manifestação política ocorrida seis dias após o Comício
da Central do Brasil. Observe os slogans das faixas que
os manifestantes carregavam, e a partir das discussões
em classe, avalie o significado político dessa Marcha
da Família com Deus pela Liberdade.
VO C A B U L Á R I O
Afrontar = colocar-se contra, enfrentar.
Baldar = frustrar.
Caiada = de cor branca, pintada com tinta à base de cal,
água e cola.
Congraçamento = reunião harmônica, reconciliação, reatar
relação de amizade.
Modernização conservadora = conjunto de medidas que
buscam o desenvolvimento econômico, sem alteração na
ordem social.
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3. Atividade: A era do rádio
O rádio e o cinema foram as mais importantes
manifestações da indústria cultural na década de 1950 no
Brasil. O fenômeno da urbanização intensificava o
desenvolvimento de uma cultura urbana. O cinema,
especialmente a partir das companhias Cinédia e Atlântida,
assumiu um caráter bastante popular. As “chanchadas”,
comédias musicais que tinham no carnaval uma temática
constante, marcaram época. Consagraram-se, através do
cinema, personagens simples e muitas vezes ingênuos,
vividos por atores em sua maioria vindos do teatro de
revista. Foi a época em que brilharam Oscarito, Dercy
Gonçalves, Mazzaropi, Grande Otelo, entre outros.
Câmera da antiga TV
Tupi, primeira
emissora de televisão
brasileira, fundada em
setembro de 1950
As chanchadas da Atlântida. Cartaz do filme: Massagista de Madame
O rádio atingia um público ainda maior, pois estava em
praticamente todos os lares! Esse meio de comunicação
vinha-se firmando como fenômeno de massas desde a
década de 1930. Começou um pouco sisudo, veículo de
mensagens oficiais e transmissor de notícias, mas foi, ao
longo do tempo, firmando-se como o principal recurso da
cultura popular urbana da época. A década de 1950 foi,
sobretudo, a Era do rádio no Brasil. A programação
radiofônica era bastante variada. Além de noticiários, havia
rádionovelas, uma intensa programação humorística e
musical. Os programas de auditório, especialmente os
produzidos pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a maior
emissora então existente, foram a marca registrada do
período.
Toda uma cultura popular desenvolveu-se em torno do
rádio. A música popular brasileira teve ali um extraordinário
meio de divulgação, dando origem à organização de
numerosos fãs-clubes de cantores, como os de Ângela Maria
e Cauby Peixoto. As eleições da “Rainha do Rádio”
causavam disputas acaloradas. Emilinha Borba e Marlene
protagonizaram as mais célebres, numa rivalidade que
continuou por mais de uma eleição, mobilizando seus
grandes e apaixonados fãs-clubes. A participação ruidosa das
fãs, oriundas sobretudo das camadas populares, deu origem
à preconceituosa denominação de “macacas de auditório”
para designá-las.
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Ângela Maria e Emilinha Borba na capa da Revista do Rádio
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Vamos reproduzir um programa de auditório?
Para isso é necessário que sejam seguidos alguns passos:
•
Faça uma pesquisa sobre a música, os cantores, os programas de rádio da década de 1950.
•
Pesquise também sobre as roupas usadas, os penteados, e outros componentes do visual das pessoas na época.
•
Procure descobrir gírias e expressões usadas naquele tempo junto a pessoas mais velhas de sua família, assim como
hábitos, comportamento e valores da época.
•
Defina personagens e funções para os elementos de seu grupo. Finalmente, monte uma apresentação de um
programa de rádio. Você pode escolher entre programas de auditório (musicais ou humorísticos), rádionovelas e
noticiário.
Atenção: quanto maior for a quantidade de informações reunidas pelo seu grupo, melhor será sua apresentação.
Bom trabalho!
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4. Revisão
P
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S
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O
1. Líder camponês e figura de grande destaque na Revolução Mexicana de 1910.
2. Braço armado da Frente de Libertação Nacional, de tendência comunista, no Vietnã do Sul.
3. País centro-americano que passou para o domínio dos EUA após a guerra Hispano-Americana.
4. Sigla da principal nação do bloco socialista.
5. Acordo de limitação de armas nucleares firmado entre EUA e URSS.
6. Denominação dada à Liga para a Independência do Vietnã.
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7. primeiro satélite artificial, lançado pelos soviéticos.
8. denominação atribuída ao grande líder chinês Mao Tsé-Tung.
9. denominação da Terceira Internacional Comunista, fundada em Moscou em 1919.
10. Revolução portuguesa de 1974 que colocou fim ao governo autoritário de Marcelo Caetano.
11. presidente norte-americano que autorizou o envio da primeira leva de militares ao Vietnã.
12. denominação dada ao princípio da não violência proposto por Mahatma Gandhi.
13. conflito ideológico entre Estados Unidos e União Soviética, iniciado após a Segunda Guerra Mundial.
14. armistício que determinou o fim da guerra da Coreia, mantendo porém a divisão do país.
15. um dos líderes da Revolução Cubana, nascido na Argentina e assassinado na Bolívia em 1967.
16. em sua origem designavam as comunidades rurais indígenas do México.
17. grande líder norte-americano do movimento dos negros pelos direitos civis, assassinado em 1968.
18. tornou-se um emblema do programa político de Jânio Quadros, pautado no combate à corrupção e à “bandalheira
nacional”.
19. violenta onda anticomunista que atingiu os EUA na década de 1950.
20. definiu as bases de um novo período histórico na Argentina, com a ascensão de Perón à presidência em 1946.
21. grupo guerrilheiro peruano fundado na década de 1970.
22. massacre ordenado por Chiang Kai-Shek, no qual milhares de pessoas ligadas ao Partido Comunista foram mortas.
23. sigla da Organização do Tratado do Atlântico Norte.
24. iniciais da Agência Central de Inteligência norte-americana.
25. sucessor político de Stálin, na União Soviética.
26. Partido Nacionalista Chinês, que proclamou a República em 1912.
27. pacto formado pelos países do bloco socialista em contrapartida à criação da OTAN.
EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES
Valsinhas, dançam como debutantes
Interessante.
Mandar parente a jato pro dentista
Almoçar com o tenista campeão
Também pode ser um bom artista
Exclusiva
Tomando, com Dilermando, umas aulinhas de violão.
Isso é viver como se aprova
É ser um presidente bossa-nova
Bossa-nova
Muito nova
Nova mesmo
Ultra nova.”
1. Trabalhando com texto
Juca Chaves é um compositor brasileiro cujo trabalho
é marcado por um tom de sátira e irreverência à vida
política nacional. Você irá conhecer uma de suas músicas
e responder às questões.
Presidente Bossa-Nova
“Bossa-nova mesmo é ser presidente
Desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original.
Depois, desfrutar da maravilha
De ser o Presidente do Brasil
Voar da “velhacap” [Rio de Janeiro] pra Brasília
Ver a alvorada e voar de volta ao Rio.
Voar, voar, voar
Voar, voar pra bem distante
Até Versalhes, onde duas mineirinhas
(Fonte: CHAVES, Juca. “Presidente bossa-nova”. In: História
da música popular brasileira. São Paulo, Abril Cultural,
fascículo e LP n° 41.
citado em – Del Priore, Mary (org.) – Documentos de História
do Brasil, de Cabral aos anos 90 – SP,
Ed. Scipione, 1997, pp. 99-100.
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Minipesquisa
4. Reescreva, com suas palavras, o significado do
Golpe de 64 quanto às mudanças sociais e econômicas em curso. (Recorra ao texto complementar
O significado do Golpe como subsídio para sua
resposta.)
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________________________________________
________________________________________
________________________________________
1. O que foi a Bossa-Nova?
________________________________________
________________________________________
2. Por que razão Juscelino Kubitschek é chamado
Presidente Bossa-Nova?
________________________________________
________________________________________
3. Resolução de testes
3. Que críticas a música faz ao presidente bossanova?
A. Denominação atribuída aos trabalhadores da
construção civil, à época da fundação de Brasília:
a) simca
b) candangos
c) pedreiros
d) obreiros
e) vietcongues
________________________________________
________________________________________
2. Vamos entender melhor?
De acordo com o que você estudou neste capítulo,
responda às questões:
B. Representam as principais forças políticas nacionais
que se aglutinaram em torno da candidatura de Jânio
Quadros à presidência:
a) o político Carlos Lacerda.
b) o presidente Juscelino Kubitschek.
c) as lideranças da União Democrática Nacional
(UDN).
d) alternativas A e C estão corretas.
e) alternativas A e B estão corretas.
1. Comente a renúncia de Jânio Quadros, enfocando:
a) razões alegadas pelo presidente.
______________________________________
______________________________________
b) efeitos políticos.
______________________________________
______________________________________
C. A posse do vice-presidente João Goulart, após a
renúncia de Jânio Quadros, foi viabilizada pela:
a) atuação política de Leonel Brizola, governador do
Rio Grande do Sul.
b) criação da Rede pela Legalidade.
c) apoio de Carlos Lacerda e da UDN a Jango.
d) alternativas B e C estão corretas.
e) alternativas A e B estão corretas.
2. Discuta as razões que levaram à instalação do
parlamentarismo no início do governo de João
Goulart.
________________________________________
________________________________________
________________________________________
________________________________________
D. Sobre a instalação do governo de Reconstrução
Nacional na Nicarágua, após a vitória sandinista,
pode-se afirmar que:
a) contou com a participação de diversas correntes
oposicionistas.
b) era chefiado por Daniel Ortega, líder sandinista.
c) a empresária Violeta Chamorro integrava esse
governo.
d) os bens da família Somoza foram expropriados.
e) todas as alternativas estão corretas.
3. Leia o texto complementar O comício da Central
do Brasil e discuta o impacto político do anúncio
de reformas feito por João Goulart.
________________________________________
________________________________________
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E. Em abril de 1961 a CIA organizou uma invasão à ilha
de Cuba. Sobre esse fato histórico, é correto afirmar
que:
a) a invasão à Baía dos Porcos foi um fiasco do ponto
de vista estratégico.
b) a invasão à Baía dos Porcos foi uma grande vitória
do governo norte-americano.
c) O líder cubano Fidel Castro saiu fortalecido desse
episódio.
d) alternativas A e C estão corretas.
e) alternativas B e C estão corretas.
F. O programa do governo JK definiu um conjunto de
estratégias para o desenvolvimento nacional
denominado Plano de Metas. Sobre ele, pode-se
afirmar que:
a) privilegiava apenas a indústria de base.
b) privilegiava os setores de energia, alimentação,
transporte, educação e indústria de base.
c) foi o instrumento governamental que coordenou a
iniciativa de empresários brasileiros e capitais e
tecnologia estrangeiros.
d) alternativas A e C estão corretas.
e) alternativas B e C estão corretas.
c) foi inaugurada em 21 de abril de 1960.
d) em 1987 foi tombada como patrimônio cultural da
humanidade pela UNESCO.
e) todas as alternativas estão corretas.
H. Símbolo utilizado pelo político Jânio Quadros para
combater a corrupção e a “bandalheira nacional”.
a) foice e martelo
b) caça aos corruptos
c) vassoura
d) operação limpeza
e) liga anticorrupção
I.
Governador do estado da Guanabara, líder da UDN e
grande opositor de João Goulart.
a) Carlos Lacerda
b) Ademar de Barros
c) Mourão Filho
d) Henrique Teixeira Lott
e) Magalhães Pinto
J. Grande manifestação popular, na qual milhares de
pessoas exigiam o fim do governo Goulart e
expressavam o temor de uma possível via socialista
no Brasil. Referimo-nos a/ao:
a) Plano Trienal.
b) Comício da Central do Brasil.
c) Reformas de Base.
d) Comício dos Cem Mil.
e) Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
G. Sobre a construção de Brasília, a nova capital
federal, pode-se afirmar que:
a) Oscar Niemeyer e Lúcio Costa foram os
responsáveis pelo projeto arquitetônico e
urbanístico da novacap.
b) os operários da construção civil da novacap eram
chamados de candangos.
Sugestões Bibliográficas
Para uso do aluno:
ALVES, Rubem – Gandhi, política dos gestos poéticos.
São Paulo, FTD, 1994.
DIAS Jr., José Augusto Dias e ROUBICEK, Rafael –
Guerra Fria: a era do medo. São Paulo, Ática, 1996.
DORATIOTO, Francisco F. DANTAS F., José – De
Getúlio a Getúlio. São Paulo, Atual, 1991.
POMAR, Wladimir – China. O dragão do século XXI.
São Paulo, Ática, 1996.
SÁNCHEZ, Yoani. De Cuba Com Carinho. São Paulo,
Editora Contexto, 2009.
Para uso do professor:
ARBEX Jr., José – Guerra Fria: Terror de Estado,
política e cultura. São Paulo, Moderna, 1997.
BARROS, Edgard Luiz de – Os governos militares.
São Paulo, Contexto, 1994.
CAPELATO, Maria Helena – Multidões em cena:
Propaganda política no varguismo e no peronismo.
Campinas / SP, FAPESP/Papirus, 1998.
DURÃO, Fábio A., ZUIN, Antonio e VAZ, Alexandre F.
A indústria cultural hoje. São Paulo, Boitempo
Editorial, 2008.
REIS F., Daniel Aarão, FERREIRA, Jorge e ZENHA,
Celeste (org.) – O século XX. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 2000, vol. 3 – Do declínio das
utopias à globalização.
RODRIGUES, Marly – A década de 50: populismo e
desenvolvimentismo. São Paulo, Ática, 1992.
VISENTINI, Paulo Fagundes. A Revolução Vietnamita.
São Paulo, Editora UNESP, 2007.
104
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