Hinduísmo - lição 1 - Carlos João Correia

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HINDUÍSMO 1
MARK W. MUESSE
Hinduísmo no Mundo e o Mundo do Hinduísmo
Objectivo
O estudo de qualquer tradição religiosa implica uma reflexão inicial sobre a natureza do seu tema,
assim como sobre os métodos do próprio exame. Estas considerações prévias são especialmente
importantes quando alguém começa o estudo do Hinduísmo, uma religião muito antiga e
complexa. Começamos por examinar as palavras “Hinduísmo”, “religião” e “Índia”, discutindo a
razão pela qual estes termos são problemáticos, embora úteis.
I.
O estudo do Hinduísmo é mais complexo e desafiador do que pode parecer numa primeira análise.
Isso torna-se evidente quando examinamos cuidadosamente os termos “Hinduísmo”, “religião” e
“Índia”.
A. Estes três termos não provêm da linguagens indígenas da Índia. Cada conceito é uma construção
linguística cuja raiz se encontra em vocabulários exteriores à Índia. Aqueles que falavam da
“Índia” e dos “Hindus” eram frequentemente aqueles mesmos que procuravam conquistar e
dominar o subcontinente do Sul da Ásia e os seus habitantes.
B. Estes conceitos também sugerem uma uniformidade de sentido que não se aplica à realidade que
eles nomeiam.
II.
Os conceitos de “Hindu” e “Hinduísmo” são problemáticos por várias razões.
A. “Hindu” e “Hinduísmo” são palavras de origem persa do século XII da nossa era; deste modo, não
são nativas da Índia. Inicialmente referiam-se simplesmente aos “Indianos” e não eram utilizados
para designar uma religião.
B. A expressão que se aproxima mais do que os Ocidentais chamavam Hinduísmo é “sanātana
dharma”, expressão que pode ser traduzida como “religião eterna”.
C. Embora os académicos tenham debatido a sua precisão e utilidade, no entanto, o termo
“Hinduísmo” pode ser um conceito útil se for empregue com precaução.
III.
O conceito de religião é um conceito ocidental relativamente recente, derivado do termo latino
“religio” cujo sentido variou de uma forma significativa ao longo dos séculos em que foi usado.
A. No princípio da história europeia, “religião” significava algo como piedade ou fé num deus; era
outras vezes utilizado para designar cerimónias rituais, especialmente daqueles cujas crenças
eram diferentes das suas. O sentido estável da palavra enquanto sistema de crenças e doutrinas
só aparece no século XVII.
B. Mesmo no século XXI, falta à palavra “religião” precisão na medida em que não existe suficiente
consenso sobre o que constitui uma religião.
C. Embora não possa ser facilmente descartado, o termo “religião” deve ser usado cuidadosamente,
com a consciência das suas limitações. Estas limitações associadas ao estudo do Hinduísmo
incluem uma compreensão ocidental do conceito de religião como um aspecto da vida que ocorre
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num tempo e lugares específicos ou algo centrado num conjunto de doutrinas e crenças ou ainda
associado a instituições religiosas.
D. O Hinduísmo não é uma parte da vida da vida indiana e da sua cultura; é muito mais englobante
do que isso. Estrutura e influencia cada aspecto da vida hindu, incluindo arte, música, medicina,
entre outras coisas semelhantes, o que pode explicar a falta de um termo específico autóctone
[auto-referential].
IV.
A concepção da “Índia” é igualmente problemática.
A. Precisamos reconhecer que corremos o risco de percepcioná-la com os preconceitos recebidos da
cultura ocidental. Índia é vista como exótica, rica e diferente, uma terra de profunda
espiritualidade e de misticismo. Tais noções românticas não se adequam à realidade da Índia.
B. A ideia de “Índia” sugere igualmente uma grande coesão e unidade, o que não é propriamente o
caso. A Índia é uma terra de grande diversidade, de extremos, tanto do ponto de vista social,
religioso, económico e geográfico. É um dos poucos locais da Terra em que a diversidade é
preservada e apreciada.
C. A Índia tem mais de um bilião de habitantes, derivados de uma plêiade de raízes étnicas e
populacionais, onde se falam 16 línguas principais e centenas de dialectos, permitindo estimar
que cerca de 850 línguas têm um uso diário.
D. A Índia é também um dos locais mais plurais, em termos religiosos, no mundo. Para lá dos
hindus, que constituem a grande maioria, existem muçulmanos no Norte da Índia (e no
Paquistão e no Bangladesh) compreendendo cerca de 10% da população indiana; o Siquismo,
uma tradição religiosa concentrada na região conhecida como o Punjab constitui cerca de 2%; os
Cristãos são também cerca de 2%; os Budistas são uma pequena minoria, embora esta tradição
tenha as suas origens na Índia e tenha aí florescido durante séculos; outros grupos pequenos
incluem os Jainas, os Judeus e os Parsis, i.e. os praticantes da antiga religião da Pérsia, o
Zoroastrismo.
E. Estas várias etnicidades, línguas e religiões devem fazer sobressair o contexto profundamente
plural no qual o Hinduísmo está enraizado, o que permite defender a tese de que a “Índia” não é
um conceito facilmente inteligível.
Mark W. Muesse é Professor Associado de Estudos Religiosos no “Rhodes College” em Memphis
(Tennessee). Natural do Texas fez os seus estudos pós-graduados na Universidade de Harvard,
onde obteve os graus de Mestre e de Doutoramento. É igualmente Professor Visitante do
Seminário de Tamilnadu em Madurai na Índia.
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