Mundo.GPI.A nº 0/2001

Propaganda
Geografia e
Política
Internacional
FUNDAMENTALISMO
CONVULSIONA O ISLÃ
Da Argélia à Índia, uma vasta faixa do mundo vive o impacto do fundamentalismo islâmico. O Islã
convulsiona os povos do Oriente Médio e norte da África, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia central e o labirinto étnico e religioso indiano. Assumido a forma de Estado teológico -Irã-, de grupos
armados – Hamas palestino
e Hezbollah libanês-, ou de
movimentos de oposição política – a FIS argelina e a Irmandade Mulçumana egípcia -, o fundamentalismo
rejeita os modelos políticos
ocidentais. O desafio posto
pelo radicalismo islâmico
perfura o tecido político e
atinge o domínio da ética e
valores filosóficos. Os
integristas mulçumanos contestam a separação entre Estado e religião, a pluralidade
ideológica, a representação
parlamentar, o individualismo na esfera da política e da
economia. A Razão desenvolvida no Ocidente, filha do
Iluminismo e do liberalismo,
é subordinada à Fé. A irrupção integrista desenvolve-se sobre as desilusões do 3º Mundo
mulçumano. Por décadas, essa parte do mundo acreditou no progresso e perseguiu essa miragem
via ocidentalização (Irã), não-alinhamento (Egito), nacionalismo anti-imperialista (Argélia) ou
socialismo (repúblicas da Ásia central). A revolução xiita no Irã (1979) assinalou o começo da
reviravolta –ruptura com o futuro e retorno às certezas de um glorioso passado imaginário. A
depressão econômica internacional da última década dissipou as ilusões que restavam, empurrando multidões empobrecidas na direção do Islã. No mundo mulçumano –e nas faixas de contato
com a Europa cristã e a Ásia hinduísta, budista e confucionista – o integrismo detona a frágil
estabilidade política do pós-Guerra.
(Leia mais sobre a geopolítica do Islã nas págs. 4 e 5)
AS REVOLTAS DE 1968, 25 ANOS DEPOIS.
ANO 1 - No3
MAIO
1993
ITÁLIA
✁
Escândalos de corrupção
provocam o colapso do
regime criado no
pós-Guerra e levam
o país à beira do abismo.
Ironicamente, os excomunistas
são hoje a grande
chance
De salvar a unidade
nacional.
Esta pichação, uma das
favoritas dos estudantes
de Paris, em 1968,
traduzia as aspirações
democráticas de um movimento social que desembocou numa séria crise do
Estado francês. Ao mesmo
tempo, em Praga, jovens
intelectuais e operários
exigiam o “socialismo de
face humana” – um
conjunto de reformas do
sistema que pretendia abolir a subordinação de seu
país a Moscou. O movimento seria esmagado, em
outubro, pelas tropas do Pacto de Varsóvia. Em outros
países europeus, nos Estados Unidos e no Brasil,
milhões exigiram, nas
ruas, o respeito aos
direitos civis, o fim da
discriminação sexual e racial, melhores salários e
condições de vida. Hoje, o
fim das ditaduras, a leste
e a oeste, reforçou a
causa dos direitos civis.
Mas o racismo, mais do
que qualquer outro fator,
resistiu às reformas e
tornou-se um dos pilares
da desigualdade no mundo. O racismo ameaça a
democracia, em particular nos estados Unidos, países
ricos da Europa e a África do Sul.
PÁGs. 6 e 7
MAIO DE 1993
EXPEDIENTE
MUNDO - Geografia e Política
Internacional é uma publicação de PANGEA
- EDIÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DE
MATERIAL DIDÁTICO LTDA. Distribuída
para as escolas conveniadas
Redação: Demétrio Magnoli, José Arbex Jr.,
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2
Um branco repleto de preconceito e ódio veio para nosso país e praticou um ato tão
infame que toda a nossa nação agora oscila à beira do desastre.
(Nelson Mandela, dirigente do Congresso Nacional Africano, sobre o assassinato do líder negro
sul-africano Chris Hani, na véspera da Páscoa, supostamente por um polonês de ultra-direita – O
Estado de S. Paulo, 15/4/1993, pág. 14).
A frase era parte de um apelo à calma no país, sacudido por manifestações negras e repressão
policial. Mas Mandela destila preconceito, ao ressaltar o fato do suposto assassino ser imigrante.
MUNDO NO VESTIBULAR
1) (Fuvest - modificada) Discuta os principais conflitos no subcontinente indiano.
2) (UFAL) A região sul da Itália constitui verdadeira “reserva de mão de obra” tanto
para a região norte do próprio país como para outros países do Mercado Comum Europeu. Tal característica só relaciona ao fato de:
a) haver acentuado desequilíbrio regional entre o norte industrializado e o sul basicamente
agrícola e densamente povoado.
b) todo o país ser essencialmente agrícola e a existência de clima com invernos rigorosos,
no sul, criar condições de migração para o norte italiano.
c) que dentro do país há vastas áreas a serem colonizadas e a ausência de política migrató
ria leva a população a emigrar.
d) o sul da Itália possuir a maior massa de mão-de-obra qualificada do país.
e) o norte da Itália ter população em fase de envelhecimento e o sul ter população jovem.
3) (CESGRANRIO) Examine as seguintes informações, que dizem respeito a uma região
do mundo subdesenvolvido:
l - A partilha colonial não respeitou os limites entre as etnias existentes e deixou
marcas profundas na luta de alguns povos pela autonomia e pelo estabelecimento
de um território onde possam viver.
II - Um dos países mais importantes proclamou-se uma República Islâmica e passou a ser governado por uma elite religiosa, que rompeu com o processo de modernização em moldes ocidentais e se voltou para a recuperação dos valores
tradicionais do islamismo.
Ill - É de fundamental interesse estratégico, já que está localizada entre três continentes e nela se encontram riquezas minerais básicas para a economia contemporânea.
O conjunto de três caracterizações define uma região muito importante para o mundo
atual. Qual é ela?
a) Oriente Médio
b) Mundo Indiano
c) Sudeste Asiático
d) África Oriental
e) África do Sul
4) ( FUND.CARLOS CHAGAS) A expressão Magreb é dada pêlos africanos:
a) à área coberta pela densa floresta tropical semelhante à Amazônia
b) às áreas litorâneas que recebem alternadamente ventos secos ou úmidos denominados
monções.
c) à vasta região centro-africana arenosa, caracterizada por grande aridez e fortes amplitu
des térmicas diárias.
d) ao vale do Nilo que, com suas cheias, traz abundância de água e detritos orgânicos que
enriquecem o solo.
e) ao conjunto de terras situadas ao norte do Saara, compreendendo o Marrocos, a Argélia e
a Tunísia.
5) (U.E.MARINGÁ) A Índia tornou-se independente do domínio inglês em 1947. A região
que compreendia a antiga colônia britânica da Índia ficou parcelada entre dois Estados
independentes. Foram eles:
a) o Camboja e o Laos.
b) o Camboja e a Índia.
c) o Paquistão e o Vietnã.
d) a índia e o Laos.
e) o Paquistão e a Índia.
6) (UFJF-MG) O islamismo, religião fundada por Maomé e de grande importância na
unidade árabe tem como fundamento:
a) o monoteísmo, influência do cristianismo e judaísmo, observado por Maomé entre povos
que seguiam essas religiões.
b) o culto dos santos e profetas, através de imagens e ídolos.
c) o politeísmo, isto é, a crença em muitos deuses, dos quais o principal é Alá.
d) o princípio da aceitação dos desígnios de Alá em vida e a negação de uma vida pós-morte,
e) a concepção do islamismo vinculado exclusivamente aos árabes, não podendo ser profes
sado pêlos povos inferiores.
SEÇÃO PAPO CABEÇA
Tenho em mim todos os sonhos do mundo
(Fernando Pessoa,1888-1935)
Respostas:
1) Os conflitos, especialmente entre hindus e paquistaneses têm sua origem na independência da
antiga colônia britânica da Índia. Dois países foram formados, a Índia (hinduísta) e o Paquistão
(muçulmano). Desde então vêm ocorrendo conflitos não só entre os dois países, mas também
entre as maiorias e minorias religiosas abrigadas em cada um deles. O ressurgimento do
fundamentalismo islâmico tornou mais problemático o conflito religioso, e acabou reforçando o
radicalismo hinduísta.
Esta seção acolherá cartas de alunos e professores
contendo opiniões e críticas e não apenas a respeito dos
assuntos tratados no boletim, mas também sugestão
sobre sua forma e conteúdo. Só serão aceitas cartas
portando o nome completo, endereço, telefone e identidade (RG) do remetente. A Redação reserva-se o direito de
não publicar cartas, assim como o de editá-las para sua
eventual publicação.
A Escola Estadual de Segundo Grau
Brasílio Machado (SP) criou um Centro de
Informação e Criação (CIC), dinamizando o
uso de nossa biblioteca. Os dados revelam o
interesse dos alunos. Apenas no mês de
março, mais de 1.750 alunos freqüentaram a
biblioteca, e só neste ano fizemos 1.210 carteiras para consultas. Neste quadro, achamos
que as informações veiculadas pelo boletim
Mundo são de fundamental importância,
como subsídio à cultura e atualização de nosso corpo docente e discente.
(Neuza Mercadante, coordenadora do
CIC da EESG Brasílio Machado)
(NR - A dinamização da biblioteca, um dado
realmente exemplar, demonstra, mais uma
vez, que se os alunos têm oportunidade, eles
se interessam, lêem e estudam. Nossos parabéns ao CIC por suas atividades).
***
Mundo nos ampliou os limites impostos por cadernos e livros. Com uma linguagem fácil, o boletim aborda assuntos que ocorrem à nossa volta
e que às vezes passam desapercebidos. Através
dele podemos abrir os olhos para certas situações
importantes, sendo perfeitamente possível
entendê-las.
(Daniele Guílhermino, 2a Colegial C do Colégio Mopyatã, SP)
***
Nos últimos 5 ou 6 anos, o mundo transformouse violentamente, modificando conceitos políticos, sociais e econômicos que julgávamos definitivos e imutáveis. Para as escolas e alunos, à parte essa revolução mundial, restou a dificuldade
de trabalhar com a ‘nova geografia”, problema que
estamos resolvendo com a assinatura do boletim
Mundo. As primeiras experiências com o boletim
revelaram-se plenamente satisfatórias. Esperamos que os próximos números mantenham o alto
nível.
(Professor Úmile Calasso, Diretor da Escola
Drummond-Quarup de São Caetano do Sul)
***
Aspiramos conhecimentos que preenchem os
poros do viver dos dias. Perfumes que nos
circundam a gotejar de frascos diversos
satisfazem-nos por suas essência e nos
completam por sua beleza. No andar das horas
da vida, nos deparamos com boticas de sensações
inúmeras: lições do mundo que se prendem a nós
eternamente.
(Eneida Mioshí, aluna do curso de Redação
Tantas Palavras de Ribeirão Prato)
2)A; 3)A; 4)E; 5)E; 6)A
SEM FRONTEIRAS
MUNDO
PANGEA
MAIO DE 1993
SEPARATISMO RONDA ITÁLIA
Crise na unidade italiana pode levar ex-comunistas ao poder
A Itália realizou, em abril, um plebiscito que selou a sentença de morte do regime político vigente no pós-Guerra. A consulta foi precipitada pela “Operação Mãos
Limpas”, que revelou prática de corrupção
de quase 1.400 políticos e administradores. O plebiscito aprovou, por vasta maioria, a reforma do sistema eleitoral, e causou a renúncia do gabinete de coalizão
liderado por Giuliano Amato. O governo
transitório deve preparar as próximas eleições gerais, que fecharão o ciclo aberto
em 1947, quando o Partido DemocrataCristão (PDC) assumiu a hegemonia política, relegando o Partido Comunista (PCI)
à oposição.
O Estado italiano do pós-Guerra foi
moldado pela hegemonia do PDC. Esse
partido foi o eixo de todos os gabinetes
que, durante a Guerra Fria, mantiveram o
PCI fora do poder. Formação ligada por
misteriosos laços ao Estado do Vaticano,
a DC evoluiu como vértice de um regime
clientelista, apoiado nos votos do
Mezzogiorno (sul do país). Manipulando verbas públicas, a DC ligou-se às
máfias sulistas e institucionalIzou a
corrupção.
A dinâmica desse regime começou a
esgotar-se há mais de 20 anos. O PCI
SERVIÇO
Vídeos sobre a Unificação e o Mezzogiorno:
• A Árvore dos Tamancos, Ermano Olmi
• Juízo Final, Elio Petri
• O Leopardo, Luchino Visconti
• 1900, Bernardo Bertolucci
• Pai Patrão, Paolo e Vittorio Taviani
• Rocco e seus Irmãos, Luchino Visconti
• O Siciliano, de Michael Cimino
Recomenda-se, ainda, a série O Poderoso
Chefão (Francis Copolla), entre a longa lista
de filmes sobre a Máfia e ramificações.
rompeu com Moscou e adotou o
eurocomunismo, tornando-se alternativa
“moderada” de poder. Incapaz de manter maioria estável, a DC passou a governar à frente de coalizões
multipartidárias. Em 1978, o assassinato
do democrata-cristão Aldo Moro, pelo
grupo terrorista Brigadas Vermelhas, liquidou a idéia, por ele encarnada, de
uma sólida maioria DC-PCI (o “compromisso histórico”).
Nos anos 80, a Itália tornou-se a terceira maior economia da Europa, mas agravou-se a desigualdade norte-sul. Ao norte, grupos como a Liga Lombarda- mistura de neofacismo, racismo e populismocresceram denunciando a corrupção dos
políticos e propagando o ódio aos imigrantes pobres do sul. A “questão meridional” italiana (veja matéria abaixo)
gerava a sua imagem simétrica- uma
“questão setentrional”.
A crise precipitou-se em 1989, com o fim
da Guerra Fria. O PCI abandonou o comunismo, transformando-se em PDC (Partido
Democrático da Esquerda). A DC, minada
pelas investigações sobre a corrupção, viu
abalada a sua hegemonia. As eleições parlamentares de abril de 1992 evidenciaram
o crescimento do separatismo setentrional.
Depois, a cúpula da DC (incluindo Giulio
Andreotti, sete vezes premiê) e aliados do
Partido Socialista (entre eles, o líder Bettino
EDITORIAL
Em 19 de abril, agentes do FBI (Polícia
Federal americana) usaram tanques
contra uma seita se fanáticos armados
com pistolas e granadas, numa fazenda
em Waco, Texas. Por razões ainda obscuras, a casa ocupada pela seita pegou fogo.
Morreram 87 das 95 pessoas, incluindo 17
crianças e o líder David Koresh. O governo tentou explicar-se, lançando até a
versão de um suposto “suicídio coletivo”
da seita. Em vão: nada justifica lançar
tanque contra cidadãos.
Em Waco, uma polícia embriagada de
poder espalhou morte e destruição. Nesse
sentido, há forte semelhança com o
massacre praticado na Casa de Detenção
de Carandiru, SP, onde 111 seres humanos
foram fuzilados pela PM, enquanto candidatos à Prefeitura prometiam, na TV, o
melhor dos mundos.
O choque entre os direitos dos cidadãos e o poder de Estado é uma das
características centrais da história moderna –nada de “novo”, portanto, em Waco e
Carandiru. O trágico –para além da contabilidade dos corpos-, é o fato de que o fim
da Guerra Fria e o das ditaduras não
eliminou o fantasma da barbárie, como
imaginavam os otimistas.
Mas o terror de Estado não é externo
ao Homem, não vem de Marte. Apóia-se,
por exemplo, nos partidários do
neonazismo, da “purificação étnica” na
ex-Iugoslávia, do racismo. Não basta
“culpar” o Estado. É preciso rejeitar a
barbárie –como em 1968, ou como os
carapintadas contra Collor. É uma História sem fim, feita –como os seres humanos- de tragédias e de seu oposto, a
busca da paz
Craxi) seriam derrubados pela “Operação
Mãos Limpas”. Era o colapso do regime. Só
a eventual vitória do PDS nas próximas eleições abre uma perspectiva de salvar a unidade italiana. Fina ironia da história.
POBREZA MEREDIONAL RESISTIU À UNIFICAÇÃO
O Mezzogiorno é a parte meridional da
Itália, que corresponde aos limites do antigo Reino das Duas Sicílias. Ali, onde a pobreza atinge 26% da população (contra
menos de 10% no centro e norte do país)
oculta-se o poder das máfias.
Nos anos 20, ao escrever sobre a “questão meridional”, o comunista Antonio
Gramsci lançou tese de que o atraso do
Mezzogiorno era fruto da Unificação
elitista da Itália. Ele propunha um novo
Risorgimento –a aliança entre operários
do norte e camponeses do sul para fazer a
unidade socialista da nação Mussolini, que
jogou no cárcere onde morreria, buscava
a unidade à sombra do Estado totalitário e
expansionista.
O Risorgimento fora o prelúdio da Unificação. Em 1848-49, eclodiam lutas nos Estados do Norte, dominados pela Áustria
desde o Congresso de Viena (1815). Quando a revolta radicalizou-se, ganhou substância popular e ameaçou os Estados
Pontifícios, as elites do Piemonte abandonaram o movimento e permitiram sua liquidação. Na Unificação (1860-71), os nacionalistas dividiam-se em duas vertentes:
os monarquistas, liderados pelo rei do
Piemonte, Vitório Emanuel II, e os republicanos, organizados por Garibaldi e Mazzini.
Os monarquistas lutaram contra a Áustria,
no norte e no centro, recorrendo à ajuda
primeiro da França e depois da Prússia. Os
republicanos apelaram ao povo das Duas
Sicílias, onde conduziram a insurreição vitoriosa. Em Aspromonte, no extremo sul,
os piemonteses atacaram Garibaldi, em
1862. A Unificação completou-se em 1871,
com a tomada dos Estados Pontifícios e a
proclamação de Roma a nova capital.
Garibaldi afastara-se, para não dividir o
movimento. As elites do Piemonte negociaram a unidade do país com os poderosos
do sul. As terras do Mezzogiorno, parceladas e leiloadas, foram adquiridas pelos
ricos, recompondo os latifúndios. Como escreveu Tomaso di Lampedusa, “para que
tudo permaneça como está, é preciso antes que tudo se transforme”.
A natureza elitista da unidade italiana alargou a fenda entre o norte e o sul.
A miséria meridional gerou a última
grande leva migratória do século XIX,
dirigida ao Brasil e Estados Unidos, e
redefiniu o caráter da Máfia, Camorra e
Cosa Nostra, que criaram um poder paralelo. O Mezzogiorno tornou-se fonte
de mão de obra barata e de votos para
os políticos de Roma. O fascismo enraizou-se no sul, enquanto o norte organizava a Resistência. O desembarque aliado na Sicília (1943) não encontrou apoio
popular, mas teve nos grupos mafiosos
uma azeitada rede logística. Em 1946, no
referendo que criou a República (12,7
milhões de votos contra 10,7 milhões
para a Monarquia), o Mezzogiorno preferiu o lado derrotado.
3
MAIO DE 1993
MUNDO
PANGEA
MAIO DE 1993
TENSÕES NO MUNDO ISLÃMICO DESAFIAM O EQUILÍBRIO GEOPOLÍTICO DAS NAÇÕES
ORIENTE MÉDIO E ÁSIA CENTRAL
Em
1979,
uma
revolução derrubava a
monarquia do Irã e
implantava em seu lugar
uma república islâmica.
Desde então, o Irã, o
Oriente Médio e o mundo
mulçumano nunca mais
foram os mesmos. O Irã é
o que tem a maior
população xiita entre os
países islâmicos. Na era
do aiatolá Khomeini, líder
de 1979, seus líderes
atacavam os “satânicos
EUA”, a “demoníaca
URSS”, Israel, o Ocidente
em geral e todos os países
mulçumanos não regidos
pelo Corão. No começo de
1989, Khomeini chegou a
oferecer US$ 1 milhão de
recompensa pela morte do
escritor Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, obra considerada blasfema. O
radicalismo isolou o Irã. Não foi surpresa, portanto, que durante a guerra Irã-Iraque,
Bagdá tenha recebido apoio das mais variadas origens.
Contudo, a revolução iraniana lançou sementes que floresceram junto a muitas
populações do mundo islâmico. O fundamentalismo pregado pelos iranianos passou
a seduzir também os sunitas, historicamente mais moderados. Um dos exemplos dessa
influência é a milícia xiita libanesa Hesbollah, que participou ativamente da guerra
civil do Líbano e que deu origem a vários pequenos grupos igualmente radicais. Outro
exemplo é o Hamas, que aposta na radicalização da Intifada (revolta das pedras, em
árabe), movimento que começou espontaneamente, em dezembro de 1987, pelos
palestinos que se opõe à ocupação, por Israel, dos territórios da Cisjordânia e Faixa
de Gaza. Mas a morte de Khomeini, em junho de 1989, permitiu que o novo governo
assumisse uma política mais “pragmática” –o país pagava um preço muito alto por
seu isolamento. Durante a Guerra do Golfo (1991), o Irã criticou tanto a invasão
iraquiana do Kuait como a interferência das forças da coalizão anti-Iraque. A derrota
iraquiana transformou o Irã na mais forte potência do Golfo, só equiparável à feudal
monarquia saudita, sustentada pelos EUA.
O Irã alçou-se à condição de potência geopolítica, com capacidade de interferir
não apenas no Golfo, mas também nos processos em curso nas repúblicas islâmicas
da antiga União Soviética. Teerã (capital iraniana) ora apresenta planos de cooperação
econômica, ora atua como mediador nos conflitos que ali ocorrem. Nessa ofensiva
econômico-diplomática, o único país islâmico a disputar áreas de influência com o Irã
é a Turquia, que forma, com o Egito e a Arábia Saudita o tripé islâmico de sustentação
dos EUA no Oriente Médio. Em qualquer hipótese, não haverá solução para os
intrincados problemas geopolíticos dessa região sem o aval de Teerã.
Se um Exército luta “em nome de Deus”, a decorrência é que seus inimigos são “inimigos de
Deus”, legiões do demônio cuja liquidação fornece a chave redentora (...) Mas a exclusão radical
do “outro” sob a forma da condenação mitológica não é propriedade do Islã, e sim de todas as
ideologias ou credos que dão origem a partidos, grupos e seitas. A peculiaridade do Islã –pedra
angular e eixo de seu edifício- é o fato de que o Estado identifica-se com a religião ou, na
metáfora cristã, César e Deus são um (...) Os fanáticos do Islã –estejam no deserto iraniano ou no
metrô de Nova York- são uma expressão contemporânea da mesma intolerância que a Igreja
Católica erigiu em método com a Santa Inquisição.
(José Arbex Jr., Folha de S. Paulo, 02 de novembro de 1990, caderno especial Islã, pág.1)
Fundamentalismo: vê nos fundamentos
da religião a base para a tomada de
decisões na vida cotidiana e política. O
termo integrismo é muitas vezes utilizado
como sinônimo.
Xiísmo: um dos ramos da religião
islâmica. Crê em Maomé e segue o Corão.
Possue guias espirituais (ímãs) que têm a
função de interpretar as palavras divinas.
Não separa Igreja e Estado. É a maioria da
população em poucos países.
Sunismo: outra vertente do Islã. Crê em
Maomé e segue o Corão, e que a relação
entre Deus e o fiel deve ser feita sem
intermediários. Admite certa separação
Ao moment
o de def
ecar ou urinar
, é
preciso seachar
ag de modo a não
ficar de
ent
fr
e nem de as
cost
a Meca.
O vinho e asasoutr
bebidas
ue q
embriag
am são pur
imas, mas o ópio
e o haxix
e não o são.
A mulherueq deseja continuar seus
estudos comimo de
f anhar
g
a vida
por meio de abalho
um tr decent
e, e
que enha
t
um homem como
professor
, poder
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se cobrir
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r o e se não
er tiv
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ato com os
homens. Mas, se or
isso
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e contr
ariar os princípios
eligiosos,
r
ele ver
deá enunciar
r
aos estudos.
Não se ve
deabat
er um animal numa
5º eir
f a à noit
e ou numa 6ºesant
do
meio-dia.
É muit
o epr
r ovável barbear
-se, seja
com barbeador
es de lâmina ou
elétricos.
(Em
princípios
políticos,
filosóficos, sociais e religiosos do
Aiatolá Khomeini, Record, Rio,
1981).
NORTE DA ÁFRICA E MAGBRED
Em 22 de abril, sete fundamentalistas
egípcios foram condenados à morte,
acusados de atacar ônibus de turistas.
Doze anos antes, fundamentalistas do
grupo Irmandade Mulçumana haviam
assassinado o presidente Anuar al Sadat.
Na Tunísia, desde 1987 estão ocorrendo
atentados de fundamentalistas do
Movimento
da
Renascença
(Ennahda). Vários de seus membros
foram condenados e executados. Na
Argélia, a fundamentalista Frente
Islâmica de Salvação (FIS) reivindica
que o país seja regido pelas leis do Corão.
No norte da África e Magreb (região
formada por Marrocos, Argélia eTunísia),
apenas Líbia e Marrocos parecem menos
4
vulneráveis
ao
crescimento
do
fundamentalismo.
No Egito, as décadas de 50 e 60 foram
marcadas pelo nasserismo, doutrina
desenvolvida por Gamal Abdel Nasser. Seu
governo (1954-70) foi marcado por um forte
nacionalismo. No plano externo, Nasser, um
dos líderes do bloco de países não alinhados,
encarnou mais do que ninguém a causa do
pan-arabismo (união dos povos árabes). Seus
sucessores não deram continuidade aos
projetos nem resolveram a grave crise que há
muito aflige o país.
A Argélia tornou-se independente em 1962,
após uma sangrenta guerra com a França. O
poder foi assumido pela Frente de
Libertação Nacional (FLN), marcadamente
SUBCONTINENTE INDIANO
anti-imperialista e simpática à URSS. A
situação do país começou a se complicar
no final dos anos 80, quando, também
como reflexo da crise na URSS –seu
principal parceiro político e militar-, a FLN,
o único partido legal, não conseguia conter
a insatisfação da população. A FIS tornouse cada vez mais ousada, desafiando
abertamente a FLN, que mantém o país sob
leis de exceção.
O fundamentalismo cresce como
resposta à incapacidade de modelos
estranhos ao Islã promoverem o fim da
miséria. Líbia e Marrocos, as exceções, são
ferozes ditaduras em que a oposição ainda
teve chance de se expressar.
Em dezembro de 1992, fanáticos
hindus invadiram a cidade de Ayodhya,
no norte da Índia e, demoliram uma
mesquita mulçumana. Desde então
explodiram conflitos entre fanáticos e
forças policiais, que causaram mais de
2000 mortes. Em março, uma série de
atentados à bomba em Bombaim, o
centro financeiro do país, causaram 200
mortes e mais de 1000 feridos. Embora
nenhum grupo tenha assumido a autoria
dos atentados, políticos hindus sugeriram
que eles teriam sido executados por
mulçumanos “monitorados do exterior”
(entenda-se o Paquistão). Dos 850
milhões de habitantes da Índia, cerca de
83% são hinduístas, enquanto os
mulçumanos chegam a 100 milhões.
Os fatos descritos acima fizeram
crescer os temores de um novo confronto
militar entre Índia e Paquistão, onde a
imensa maioria da população é
mulçumana. A rivalidade entre os dois
países é antiga e remonta à época de suas
independências, em 1947. Desde esta
data, os dois países se envolveram em
três conflitos (1948,65 e71). Nos dois
primeiros disputava-se a
região da Cashemira (veja
o mapa ao lado): em 71, o
conflito resultou na
separação do antigo
Paquistão Oriental, que deu
origem a um novo país,
Bangladesh.
A rivalidade entre
hindus e mulçumanos é só
um aspecto dos surtos de
violência étnica e religiosa
que, periodicamente,
explodem na Índia. Em
1984, a primeira-ministra
Indira Ghandi foi morta por
dois de seus guardas que
eram de origem sikh. Os
sikhs correspondem a
apenas 2% da população
da Índia, mas perfazem
mais de 90% da população
da região de Punjab, no
noroeste do país (veja mapa ao lado).
Desde há muito eles lutam para a criação
de um país próprio, o Calistão. A violenta
repressão do governo hindu contra os
anseios de liberdade dos sikhs teriam sido
a causa do assassinato de Indira.
Nos últimos 5 anos, uma nova força
política surgiu na Índia. O Partido
Bharatiya Janata (BJP), radical em seu
“fundamentalismo” hinduísta, vem
crescendo de forma espetacular a cada
nova eleição. Ele surgiu para se contrapor
ao Partido do Congresso, no poder desde
a independência e, que defende a
neutralidade do Estado perante às
religiões professadas na Índia. O
crescimento do BJP foi também uma
espécie de resposta ao aumento do fervor
islâmico nos países vizinhos.
O BJP esteve à frente dos fanáticos de
Ayodhya e, se seu discurso radical
continuar arregimentando mais adeptos,
o sub-continente indiano poderá se
transformar num dos maiores campos de
batalha entre o secularismo e o
fundamentalismo. Quadro nada tranqüilo
para um país com arsenal nuclear.
SERVIÇO
•Oriente Médio, de Maomé à
Guerra do Golfo, Jurandir Soares,
Ed. Universidade, RS.
•Oriente Médio e o Mundo
Árabe, Maria Y. Linhares,
Brasiliense, SP, 1982.
•O Vôo da Águia (ficção política),
Ken Follet, Círculo do Livro, SP,
1985.
•Inshallah (ficção política), Oriana
Fallaci, Best Seller, SP, 1990
Vídeos:
•O Vôo da Águia, Andrew Mc
Laglen, Estados Unidos, 1986.
•RAS –Regimento de Artilharia
Especial,Yves Boisset, França, 1978.
•Ghandi, Richard Attenborough,
Inglaterra, 1982.
5
MAIO DE 1993
MUNDO
maio de 1968, 25 anos depois
RACISMO RESISTE À DEMOCRACIA...
O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS
EUROPA - 93
Luta pelos direitos civis, contra o racismo e a guerra, liberação sexual,
“boom” das drogas e rock n”roll inauguram o modo de vida atual.
Convenção de Schengen
discrimnina estrangeiros da CE
22 de março: em
Nanterre (bairro de
Paris),
estudantes
exigem
melhores
condições de ensino e
tomam a universidade.
O reitor convoca a
polícia. Há luta, presos e
feridos. Daniel CohnBendit apela à esquerda
para organizar a luta
contra
o
Estado
opressor. Com o apoio
de gente do porte de
Jean-Paul Sartre, o
Movimento 22 de Março,
liderado por Bendit,
toma as ruas de Paris,
em abril e maio,
desafiando o governo e
gerando uma forte crise.
Em Praga, jovens liberados pelo
As ruas de Paris são
“socialismo de face humana” do então
cenário de grandes
secretário-geral do Partido Comunista
batalhas, com centenas
Tcheco, Alexander Dubceck, alegremente
de feridos e vários
queimam jornais soviéticos. A “festa” seria
mortos. Em 17 de abril,
interrompida em outubro, com a invasão
os operários da Renault
de 500 mil soldados do Pacto de Varsóvia.
ocupam a fábrica, em
solidariedade
aos
estudantes
e
por
melhores salários. As
greves se alastram, a
França pára. O Partido
Comunista perde o
Não foi 1968. Foi todo um período dos fins
controle do movimento. Em 29 de abril,
dos
anos 50 ao início dos anos 70. 68
80 0 mil apoiadores do presidente,
sobreveio
como espasmo, catalizando a
general Charles de Gaulle, fazem um
dramática
metamorfose
cultural. Afinal, antes
gigantesco ato pró-governo. De Gaulle
desse
“annus
terribilis”
,
o time do Santos já
decreta aumento salarial de 35%
havia transformado o futebol em balé;
(inflação anual de 5%), dissolve o
Cassius Clay, o ringue numa arena política;
Parlamento e antecipa as eleições gerais.
Elvis Presley, a música negra num atentado
A esquerda é derrotada. Os socialistas
ao bom-senso; Andy Warhol, a alta cultura em
perdem 61 cadeiras e os comunistas 39.
cultura popular e vice-versa; a guerra da
Em 18 de junho, a polícia retoma a
Nigéria, a atrocidade em espetáculo
Universidade de Sorbonne, no Quarier
televisivo; Samuel Beckett, o teatro em
Latin, coração de Paris e do movimento.
incomunicação ritualizada; a “nouvelle
Enquanto isso, estudantes e
vague” francesa, o cinema; e Brigitte Bardot
trabalhadores desafiavam seus
fizera do estrelato um atentado aos costumes,
governos na Tcheco-Eslováquia –contra
Norman Mailer já havia proclamado a
a opressão soviética; nos Estados Unidos
revolução juvenil. Em 68, o pessoal só pôs
–contra a Guerra do Vietnã e o racismo;
fogo no cenário, tendo o cuidado de bloquear
na Alemanha Ocidental –contra uma
a saída.
universidade fossilizada, autoritária e
(Nicolau Sevcenko, Folha de S.Paulo,
obsoleta; na Espanha –contra a ditadura
especial-5, 02 de maio de 1993).
sanguinária franquista, que completava
29 anos; no México –contra a pobreza e
universitários –alguns deles, brilhantes
por melhores condições de ensino; no
intelectuais- aderiram à guerrilha e
Japão –contra a sociedade hierarquizada
terminaram torturados e assassinados.
e corrupta; no Brasil –contra a ditadura.
1968 foi também o ano da liberação
Paris tornou-se símbolo de 1968 por
sexual
e cultural. Em 29 de abril, Nova
causa de seu lugar histórico e cultural.
Iorque estreou a peça Hair, em que, pela
Mas as batalhas mais sangrentas
primeira
vez, atores mostravam-se nus.
aconteceram em países como o México,
Hippies
pregavam paz e amor.
onde dezenas foram mortos numa única
Intelectuais
da contracultura e da arte
noite, em setembro, e Brasil, onde
pop denunciavam mitos e a hipocrisia
por
trás da “civilização”. No Brasil, a
A mobilização dos “carapintadas” foi decisiva
Tropicália
de Caetano Veloso e Gilberto
para precipitar o impeachment do presidente
Gil
colocava
o país na vanguarda estética
Fernado Collor de Mello. O Brasil tornou-se o
mundial. Mais que um “sonho utópico”,
único país do 3º Mundo a derrubar um presidente
1968 não acabou, mas inaugurou a idade
por corrupção e transgressão da ética. Nesse
contemporânea. Foi, nesse sentido, o
sentido, os jovens brasileiros renovaram, em 92,
o espírito de 68.
primeiro ano do resto de nossas vidas.
A comunidade Européia (CE) declara
apoiar-se sobre “quatro liberdades” em
seu espaço territorial: livre circulação de
capitais, mercadorias, serviços e
pessoas. As três primeiras beneficiam
empresas. A última, que representaria
uma conquista dos povos, tende a se
transformar em fonte de discriminação
contra residentes estrangeiros.
Ao criar a
comunidade, em
1957, o Tratado de
R
o
m
a
estabeleceu a
meta da livre
circulação
de
pessoas
sem
distinção
de
nacionalidade,
raça ou religião. O Ato Único Europeu
(1986), que definiu a Europa-93,
reproduzia a meta. Assim, enquanto
erguia muralhas contra a imigração
estrangeira (ampliando a lista de países
dos quais se exigem vistos, elitizando a
sua concessão e reforçando o controle
policial dos portos), a CE comprometiase a remover entraves ao deslocamento
de residentes.
E
s
s
e
compromisso foi
rompido
pela
Convenção de
S c h e n g e n
(Luxemburgo),
firmada em junho
de 1990 pelo
Benelux, França e
Alemanha, à qual aderiram Espanha e
Portugal. A convenção sobre o controle da
liberdade de circulação, da imigração e
criminalidade, revela no título suas bases
discriminatórias. Ao equiparar imigração e
criminalidade, dá ao racismo um caráter
institucional.
A carta de Schengen define um duplo
tratamento para os residentes da CE.
Aos naturais da comunidade ficam
assegurados
todos os direitos.
Já os demais
ficam impedidos
de mudar de país
no interior da CE.
Mesmo para a
t r a v e s s i a
temporária das
fronteiras eles
devem estar em situação legal perante
a Imigração de seu país de residência e
revelar o objetivo do deslocamento. A
Convenção prevê a criação de um
sistema de registro das personas non
gratas, que teriam vedado o direito à
circulação. Finalmente, estabelece a
perda do direito de residência aos não
naturais acusados de fraudar
documentos de deslocamento. A CE
criou, assim, a figura do “residente de
segunda classe”, estabelecendo
fronteiras invisíveis entre os cidadãos
europeus.
6
PANGEA
MAIO DE 1993
maio de 1968, 25 anos depois
... E DESAFIA OS DIREITOS CIVIS
AFRICA DO SUL
voto continua sendo um
privilégio da minoria branca
A América ainda festejava a vitória na Guerra
Fria quando a revolta de Los Angeles, em
maio de 1992, mostrou que a miséria e a
tensão racial criam uma situação de conflito
latente no país. Mais dramático, não há lideres
negros com o carisma do pastor Martin Luther
King (acima, à dir.), assassinado em 1968,
ao passo que o radical Malcon X foi
transformado em sucesso de bilheteria, usado
para vender camisetas e produtos de
consumo (acima, à esq.).
ESTADOS UNIDOS
Contra a Constituição, prática discriminatória transforma americanos
negros e hispânicos em cidadãos de segunda classe.
Para conter a revolta de Los Angeles,
de 29 de abril a 2 de maio de 1992, o
governo americano mobilizou 14 mil
soldados, mais do que para invadir o
Panamá (dezembro de 1989). A revolta
foi causada por um veredicto que
inocentava quatro policiais brancos que,
um ano antes, haviam espancado um
motorista negro, Rodney King, que dirigia
em alta velocidade. A cena, filmada por
um amador, foi transmitida pela TV.
A revolta causou 50 mortes, dezenas
de feridos e 12 mil prisões, mas foi só a
parte mais visível do drama que milhões
de negros e hispânicos sofrem no país,
graças à segregação racial. Dados oficiais
indicavam que, em 1991, o índice de
pobreza entre negros americanos
chegava a 33%, o triplo do verificado entre
brancos (11%) e próximo ao de hispânicos
(29%). Mas o racismo não é visível só nos
dados econômicos. Segundo a Anistia
Internacional (Informe de 1991), a
chance de um assassino ser condenado
à morte é 82% maior se a vítima for
branca ou se o suposto criminoso for
negro.
A tensão racial agravou-se nos anos
80, por uma razão bastante precisa. A luta
pelos direitos civis ganhara um grande
impulso em 28 de agosto de 1963, quando
200 mil pessoas fizeram uma marcha em
Washington, liderada por Luther King. Em
1964, o presidente democrata Lyndon
Johnson lançou o programa Grande
Sociedade contra a pobreza. Em 1968,
combinaram-se as ações contra a Guerra
do Vietnã e pelos direitos civis. O
assassinato de King, em 4 de abril
daquele ano, gerou uma onda de
violência que reforçava a convicção sobre
a necessidade de programas contra a
pobreza. Mas nos anos 80, os presidentes
neoliberais Ronald Reagan e George Bush
cortaram os gastos federais com serviços
sociais e públicos. O principal impacto foi
sobre os pobres, de maioria negra e
hispânica. Los Angeles foi o apito da
panela de pressão.
Serviço
Filmes (recentes e/ou em vídeo):
Faça a Coisa Certa, Mais e Melhores Blues e
Malcom X, de Spike Lee, EUA
Livros:
Os Ciclos da História Americana, Arthur
Schlesinger Jr., Civilização Brasileira, Rio, 92.
Breve História dos Estados Unidos, Allan
Nevins e Henry Steele, Alfa Omega,SP, 86.
A Outra América – Auge, Decadência e Crise
nos Estados Unidos, José Arbex Jr., Moderna,
SP, 93 (no prelo)
Há quinze meses, no dia 17 de março
de 1992, um plebiscito organizado pelo
governo da África do Sul, restrito ao
eleitorado branco, assestou um golpe
letal no segregacionismo. Quase 70%
votaram pelo fim do apartheid,
apoiando o presidente Frederik De Klerk
e seu Partido Nacional Africano (CNA)
Chris Hani, deflagrando nova onda de
violência.
Entre esses dois momentos, a
esperança de uma transição pacífica
rumo ‘a democracia foi golpeada pelo
crescimento da tensão racial e étnica,
enquanto patinavam as negociações
entre o governo e o CNA. A expectativa
de convocações de eleições gerais,
baseadas no voto universal, foi adiada
para 94. O conflito entre CNA e o
Inkhata (grupo étnico apoiado na
população zulu), estimulado por
milícias paramilitares brancas, mantém
violência nos subúrbios negros. As
negociações com o governo esbarram
na falta de acordo sobre a futura divisão
do poder no país.
O apartheid, estabelecido a partir de
48, visava perpetuar a África do Sul
branca, contra a maioria de 25 milhões
de negros (para 6,6 milhões de brancos
e 4,7 milhões de mestiços e asiáticos).
Nos anos 70, foram criados
bantustões independentes, reservas
etno-tribais, transformadas em microEstados e declaradas soberanas pelo
governo visando desnacionalizar a
INDICADORE SOCIAIS
maioria negra.A liquidação do
apartheid – fruto da nova realidade
mundial e do espectro da guerra racial
– começou com a chegada ao poder de
De Klerk, em 1989. O novo governo
optou pelo desmantelamento gradual
do segregacionismo, e negociar uma
partilha do poder capaz de preservar
privilégios dos brancos. Um dos pilares
dessa política é a divisão dos negros.
Um abismo continua a separar o
governo e o CNA. Os líderes negros
exigem a aplicação do princípio um
homem, um voto – o que resultaria
na formação de um governo da maioria
negra. Esse princípio democrático
continua a ser rejeitado pelos brancos.
Serviço:
O Negro e o Outro, Anthony Sampson,
Companhia das Letras, SP, 1998.
África do Sul, Demétrio Magnoli, Contexto,
SP, 1992.
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