Daniel Castillo Soto 2

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O corpo é necessário? A transferência na condução de tratamentos por meios virtuais1.
Daniel Castillo Soto 2.
Partindo das circunstâncias que implicam mudanças no estilo de vida e da comunicação, por causa da
tecnologia e dos novos comportamentos sociais, questiona-se a pertinência da condução de tratamentos
psicanalíticos através da web, especificamente mediante chamadas de vídeo, como uma maneira
alternativa na hora de iniciar novos tratamentos ou de manter os já existentes. Dá-se importância à
presença do corpo do analista e do paciente dentro do mesmo espaço, tanto desde o físico, como desde o
simbólico, assim como a noção de campo dinâmico. Também se argumenta sobre a possibilidade de
instalação da transferência, indagando-se se ela ocorreria de um modo distinto de quando está mediada
pelo virtual, sendo este um dos fatores a considerar em relação à utilização desse tipo de recurso
tecnológico. Finalmente, considera-se a situação de cada paciente de maneira independente e o critério de
cada profissional no momento de decidir o emprego desse tipo de ferramentas relativamente inovadoras,
que implicam utilidade, mas também igualmente controvérsia.
Palavras-chave: corpo, chamadas de vídeo, internet, presença, psicanálise, transferência.
¿Es necesario el cuerpo? La transferencia en la conducción de tratamientos por medios
virtuales1.
Resumen: partiendo de las circunstancias que implican cambios en el estilo de vida y de la
comunicación, a causa de la tecnología y los nuevos comportamientos sociales, se cuestiona la pertinencia
de la conducción de tratamientos psicoanalíticos a través de la web, específicamente mediante video
llamadas, como una manera alternativa a la hora de iniciar nuevos tratamientos o de mantener los ya
existentes. Se da importancia a la presencia del cuerpo de analista y paciente dentro del mismo espacio,
tanto desde lo físico como desde lo simbólico, así como a la noción de campo dinámico. También se
argumenta sobre la posibilidad que la instalación de la transferencia ocurra de un modo distinto cuando
está mediada por lo virtual, siendo éste uno de los factores a considerar en relación a la utilización de este
tipo de recursos tecnológicos. Finalmente, se considera el caso por caso individual y el criterio de cada
profesional al momento de decidir el empleo de este tipo de herramientas relativamente novedosas, que
implican utilidad pero también controversia por igual.
Palabras Clave: cuerpo, internet, presencia, psicoanálisis, transferencia, video llamadas.
À medida que o ritmo de vida de nossas cidades foi se tornando cada vez mais agitado e
influenciado pelos rápidos avanços da tecnologia, parece que as formas clássicas de
comunicação entre os seres humanos foram se modificando em todo nível. Os espaços antes
reservados ao intercâmbio direto, face a face, e importantes reuniões que não encontravam lugar
fora do espaço interpessoal “ao vivo”, vêm sendo substituídos ou complementados pela presença
1. Trabalho livre individual para ser considerado para pré-congresso OCAL. Linhas: O corpo fora do consultório: corpo virtual/
Corpos em transferência: os corpos no campo do encontro analítico. Ou bem Congresso FEPAL Eixo: O corpo na clínica.
2. Psicólogo Clínico. Aspirante à formação no Instituto da Sociedade Psicanalítica de Caracas; participante do Congresso FEPAL
2014.
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do virtual. Com isso, embora esses encontros, muitas vezes, venham acontecendo em maior
quantidade ou de forma mais rápida, sem dúvida, a qualidade dos mesmos fora afetada, fazendo
com que eles ocorram de um modo diferente. A comunicação epistolar clássica foi totalmente
substituída por sua versão eletrônica e imediata; uma reunião pouco formal para discutir aspectos
diversos ou simplesmente conversar já não é tão necessária se existe um grupo de bate-papo.
Inclusive, as chamadas com tom, nas quais se tornava possível se aproximar das tonalidades
afetivas presentes na voz durante o diálogo, são menos frequentes do que antes. Essas
modificações, com seus matizes positivos e negativos, vêm permeando diferentes espaços,
conseguindo abarcar desde o mais privado até os profissionais e públicos; assim, amizades,
família, casal e trabalho são alguns dos elementos da sociedade que foram alterados pela
presença da virtualidade, configurando-se um mundo em que tudo é cada vez mais imediato e, ao
mesmo tempo, mais impessoal, embora esteja cheio de abundantes dispositivos digitais e de
redes sociais.
Nos espaços humanos de intercâmbio, entre o pessoal e o profissional, a psicanálise não
escapa disso. Assim, o virtual pode servir como uma ferramenta muito proveitosa para o contato
entre colegas, a difusão maciça de eventos relacionados ao pensamento psicanalítico e, em geral,
como uma via de comunicação alternativa que permite se relacionar quando medeia a distância
ou é impossível a reunião interpessoal direta por uma causa de força maior. Isto aplicado, por
exemplo, a um contexto de ensino, como o de transmitir um seminário ou realizar uma
supervisão, parece não revestir maior problema. No entanto, caberia se perguntar, o que acontece
quando se demanda uma análise ou uma psicoterapia psicanalítica à distância, fazendo uso de
mecanismos virtuais, em específico, mediante chamadas de vídeo? Um encontro assim, sem
dúvida, seria perfeitamente possível pelas ferramentas e oportunidades cada vez maiores que
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brinda a internet, mas, apesar disso, considerando questões para além do tecnológico, isso seria
uma possibilidade? Ou seria, simplesmente, uma tentativa forçada de adaptação de uma situação
que foi concebida para se dar dentro de um funcionamento radicalmente diferente? Não há
dúvida de que a análise foi desenhada classicamente para se dar entre duas pessoas, através de
um encontro real, que é mediado pela presença dos corpos, com seu consequente conteúdo
simbólico, e que implica olhares, cumprimentos e interações ao mesmo tempo em que permite,
em um contexto de proximidade, um tratamento psicológico profundo no qual é fundamental o
devir da transferência. É possível imaginá-lo fora desse contexto?
São muitas as interrogações possíveis de se formular a respeito, não obstante, é uma
realidade que, a cada momento, são muitos os analistas que incorporam a comunicação virtual,
através da chamada de vídeo, como uma ferramenta de trabalho útil que permite estabelecer ou
manter um tratamento quando não é possível fazê-lo de modo tradicional. As causas que
poderiam determinar a necessidade e pertinência de seu uso são diversas, assim como a
consideração que é feita em cada situação: poder-se-ia estar diante de uma demanda de ajuda que
choca com a impossibilidade do paciente em iniciar tratamento com outro profissional, por
dificuldades de adaptação sociocultural, ou pelo desejo de manter o vínculo do tratamento
presencial, por exemplo, no caso de migrações. Do mesmo modo, poder-se-ia argumentar a
recomendação direta do analista, embora este se encontre em uma cidade diferente, ou a
dificuldade para se aproximar do consultório de seu analista por causa de sua própria
psicopatologia, tal como no caso de uma agorafobia.
Mesmo que se converta em uma prática de uso frequente, existem posições encontradas a
respeito, como aqueles que negam qualquer utilidade dessa ferramenta para manter ou iniciar
tratamentos novos, ou aqueles que lhe dão igual valor ao que teria um tratamento convencional,
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passando por quem costuma empregá-la só para continuar tratamentos previamente iniciados no
consultório, ou os que alternam sessões virtuais com outras presenciais (Gallego-Díaz, 2009;
Grosz, 2011; Rodríguez, 2014; Zabalza, 2014). Seja como for, deve-se ter em conta que a
abertura a essas novas modalidades na terapia de abordagem psicanalítica acarreta, entre outros
aspectos, o dilema diante da presença ou ausência do corpo, assim como as considerações a
respeito do processo de instalação ou manutenção da transferência e sua comparação em relação
ao modo como aconteceria em um tratamento habitual.
O corpo e sua presença
Em sua obra, Freud manteve, ao longo dos anos, a importância da corporeidade enquanto
sustentava a evolução de suas teorias. Inclusive, em um momento chega a afirmar que “o ego é
primeira e fundamentalmente corporal (...), surge como diferenciação do id no interjogo
perceptivo” (Freud, 1923 p. 60); assim nunca desligou, por completo, o inconsciente dos
processos orgânicos. Ahumada (1999) menciona que Freud dá, ao longo de sua obra, mostras do
papel de fundamento do sentido que concede ao psiquismo inconsciente e, neste, ao corporal,
recordando que os elementos de base do inconsciente, as pulsões, são corporais em sua essência,
ao passo que a interação entre o somático e o psíquico, ao invés de apresentar contradição, define
a corporeidade de base do psiquismo na concepção freudiana. Deve-se ter presente que Freud se
formou como médico neurologista e que iniciou seus postulados sobre a psicanálise estudando
fortes reações corporais de pacientes histéricas, em que notou que a topografia do corpo erógeno
não coincidia com os delineamentos do corpo anatômico, algo que posteriormente o levaria a
pensar também na corporeidade do vincular. Além disso, impulsionado pela forte tendência da
época e sua ênfase em manter a psicanálise como uma disciplina e um conhecimento válido
dentro da comunidade científica, apesar de todas as críticas que deveria enfrentar no princípio,
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foi-lhe impossível se separar totalmente de um modo de pensar médico em relação à sua
concepção da mente e do biológico. Chiozza (1998) critica a distinção entre o corpo físico,
biológico e erógeno que seguiu tendo peso em alguns estudos sobre medicina psicossomática e
faz referência à qualidade psíquica, a sua faculdade simbólica que vem dada pela capacidade de
significar e que, de uma ou outra forma, marca um contínuo entre instâncias. Dessa forma,
enfatiza que não deve se levar em consideração corpo e alma como elementos diferentes que
exigem uma terceira via que lhes vincule, mas que, pelo contrário, são duas formas de olhar uma
mesma realidade incognoscível, que, quando ignoramos seu verdadeiro significado inconsciente,
percebemos como corpo, sendo este, em si mesmo, psiquismo inconsciente.
Se nos embasarmos nisso, poderíamos afirmar que o psiquismo inconsciente percebido
como corpo aparece na sessão, pela via de fato, por falar sobre ele, ou pela percepção que
paciente e analista têm sobre si mesmo e sobre o outro. O corpo aparece quando se fala dele, mas
também está presente quando não se o nomeia, pois, muitas vezes, será suficiente fazer presença.
No entanto, para além de todo discurso, a presença real e direta do corpo trará uma série de
elementos fundamentais, de grande peso, que frequentemente terminam sendo complemento da
linguagem falada. Gestos, expressões, movimentos e até a forma de se sentar na poltrona ou de
se deitar no divã transmitem uma mensagem.
São estes elementos de grande valor que resultam acessíveis fundamentalmente através do
presencial e cujo significado pode chegar a ter grande peso no transcorrer de uma sessão. Tornase difícil imaginar concepções amplamente aceitas na psicanálise latino-americana como as de
“campo dinâmico”, introduzidas por Willy e Madeleine Baranger (1961-62), e noções como
espacialidade, temporalidade, o contato profundo, a participação do analista e o trabalho
conjunto entre ambos membros da dupla analítica, assim como na importância que cobra a
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transferência e o uso da contratransferência (Goijman, 1999; Goldstein, 1999; León 2009) fora
da atmosfera de uma sessão dada no mesmo recinto. Essa dificuldade se dá não apenas porque
alguns dos aspectos apresentados por essas noções não pudessem existir através da web, mas
também porque as circunstâncias e observações que inspiraram o conceito de campo dinâmico, o
seu posterior estudo e desenvolvimento, desde a clínica à teoria, provavelmente, seriam muito
diferentes se fossem aplicados ou estudados em um contexto tão distinto como o virtual.
Corpo, transferência e processo
Conforme se pode notar nas páginas precedentes, procurou-se argumentar favoravelmente
acerca da importância da presença do corpo no espaço da sessão, corpo que cobra maior peso
com a significação simbólica que lhe dá cada membro da dupla analítica, pois é a representação
do outro com quem se trabalha, e que adquire sentido no espaço criado por ambos. Da parte do
analista, a presença de seu analisando representa, entre outras coisas, a presença do outro
comprometido com seu processo de autodescobrimento profundo, mas que, muitas vezes,
demanda uma companhia e uma presença próxima e continente. Da parte do analisando, a
presença de seu analista implica uma escuta compreensiva, sem juízos e preconceitos, a
existência de um outro que está disposto a entendê-lo e acompanhá-lo em seu transitar pelos
próprios caminhos de sua vida anímica.
Sendo assim, é então indispensável a presença física de ambos no mesmo espaço para que se
instale a transferência e desenvolva como tal o processo analítico? Não totalmente. O corpo do
analista como receptor e depositário da transferência de seu paciente o será na medida em que
este transcenda a sua qualidade unicamente física e se instale como representante simbólico das
características que lhe sejam atribuídas. Isto permite que a transferência se dê não somente em
um trabalho mediado pela presença real de paciente e analista, mas que também poderia se
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instalar através do virtual e dos meios eletrônicos. Por conseguinte, assim como se instalaria a
transferência, seriam feitas também a leitura e a interpretação desta, assim como sua resposta
contratransferencial.
No entanto, no caso daqueles tratamentos que são iniciados totalmente desde o virtual, sem
que medeiem encontros pessoais, é provável que a transferência tarde mais em se instalar ou o
faça de um modo diferente. Poder-se-ia pensar que o encontro através da internet é mais frio e
impessoal do que um encontro presencial, algo que poderia retardar o processo, fazendo com que
a confiança e a abertura necessárias, que permitem a quem consulta se mostrar livremente,
tardassem um pouco mais a surgir. Contudo, nos casos de tratamentos iniciados de modo
presencial e onde a transferência já se estabeleceu, a necessidade de continuar via web, devido a
circunstâncias de força maior, pode levar à manutenção do vínculo previamente criado e permitir
a ambas as partes continuar a análise que se vinha dando. Uma vez superada a modificação do
enquadre, poder-se-ia continuar os encontros de um modo fluido e, embora seja possível que a
nova forma de trabalho perdure, às vezes, esses encontros por via virtual têm um caráter
temporal (diante de uma viagem ou uma situação de saúde que impede o paciente dirigir-se ao
consultório), ao passo que, outras vezes, marcam o princípio do término da análise diante da
adaptação forçada por migrações ou outras circunstâncias que implicam um processo de ajuste
maior que se termina completando em poucos meses.
Por, ultimo, não deve se deixar de lado o problema do aprofundamento no tratamento
psicanalítico; é sabido que não existe uma equação linear na qual análise seja igual ao divã ou
que seu uso necessariamente implique um trabalho maior, mas em parte, é o que se procura, além
de fomentar a regressão transferencial e permitir ao paciente uma maior associação livre para
assim ir podendo captar alguns lampejos do inconsciente. Ao trabalhar por via virtual, é algo que
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de entrada se perde e, longe de fomentar uma revisão mais profunda, às vezes, o relato pode se
ver interrompido por leves falhas técnicas, ou pela queda da chamada de vídeo, o que, ao invés
de ajudá-lo a associar, de imediato lhe traz ao consciente, ao atual, e à necessidade de resolver
esse problema para poder continuar trabalhando, dando-se assim um vai e vem que, em uma
sessão tradicional, normalmente não existiria.
Considerações finais
Deve se levar em consideração a validade das chamadas de vídeo como ferramenta de
trabalho último que, em algumas circunstâncias, pode ajudar a continuar processos que, de outro
modo, estariam condenados à extinção. É uma alternativa que não necessariamente implica uma
adaptação forçada do contexto analítico fora de seu entorno natural. No entanto, dada a presença
de modificações indiscutíveis, é provável que a sua utilização se torne mais útil e que o devir da
transferência seja menos afetado naqueles casos nos quais já existe uma história de encontros
presenciais e onde a modalidade de trabalho seja mais parecida com uma psicoterapia
psicanalítica do que com uma psicanálise propriamente dita. O uso de ferramentas virtuais, em
particular chamadas de vídeo, torna-se, pois, uma questão de casuística, em que cada profissional
deverá considerar a pertinência do método e as necessidades e características de seu paciente, tal
como ocorre com a frequência das sessões e o emprego ou não do divã, sem deixar de se guiar
por uma indicação ou crença estrita sobre a utilização ou não dessa variante técnica tão peculiar e
não isenta de controvérsias.
Referências:
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Chioza,
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La
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psicoanalítica
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¿Psicosomática o directamente psicoanálisis? Acheronta, 8.
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Buenos Aires: Lumen.
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http://www.elsigma.com/columnas/se-juega-la-transferencia-por-skype/12672
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