Texto 10: Boécio e o problema dos universais (Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius)
(ca. 475/480-524)
“Que dizer da “atualidade” de Boécio no nosso
século, em que a ferocidade dos tiranos, os sofrimentos dos
mártires estão mais espalhados e são mais insolentes ainda
que no ´seuclo V de Teodorico?” (Marc Fumaroli,1998)
Leituras complementares
BOÉCIO. A consolação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998
BOÉCIO. Escritos (Opuscula Sacra). Tradução e notas de Juvenal Savian Filho. São Paulo: Matins
Fontes, 2005.
DE BONI, Luis Alberto. Anício Severino Boécio. In: ____. Filosofia Medieval. Textos. Porto Alegre:
EdipucRS, 2000, p. 53-67
LEITE JUNIOR, Pedro. O problema dos universais. A perspectiva de Boécio, Abelardo e Ockham.
Porto Alegre: Edipucrs, 2001 (Filosofia, 125)
PEDRO ABELARDO. Lógica para principiantes. Tradução de Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento.
Petrópolis: Vozes, 1994. p. 5-32: Introdução.
REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. A grande controvérsia dos universais. In:____. História da
Filosofia Antigüidade e Idade Média. São Paulo, Paulinas, 1990. p. 519-526.
REALE, Giovanni;ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Patrística e Escolástica. São Paulo: Paulus,
2003. cap. 8. p. 129-134.
Texto
“ Sendo mister, Crisaórios para aprender a doutrina das categorias de Aristóteles, conhecer o
que é gênero, o que é diferença, o que é espécie, o que é próprio (a propriedade), e o acidente, e
que este conhecimento também é necessário para dar as definições, e de maneira geral para tudo
quanto concerne à divisão e à demonstração, cuja teoria é de grande utilidade, farei para ti uma breve
exposição, e tentarei em poucas palavras, como numa espécie de introdução, examinar o que
disseram os antigos filósofos, abstendo-me de pesquisas muito aprofundadas e, tocando apenas com
certa medida as que são mais simples.
De início, quanto ao que concerne aos gêneros e às espécies o problema de saber se são
realidades subsistentes em si mesmas, ou apenas simples concepções de espírito, e, admitindo
serem realidades substanciais, se são corpóreas ou incorpóreas, se enfim, estão separadas ou se
subsistentes apenas nas coisas sensíveis, e justo a elas, evitarei de falar em tais coisas: eis um
problema muito profundo, e que exige uma pesquisa totalmente diferente e mais extensa. Tentarei
mostrar-te aqui o que os antigos, e, entre eles, sobretudo os peripatéticos, conceberam de mais
racional sobre esses últimos pontos e sobre os que me propus estudar” .
Extraído de:
PORFÍRIO. Isagoge. Introdução às Categorias de Aristóteles. Tradução de Mário Ferreira dos
Santos. São Paulo: Matise. s/d.
Texto 10(a) – O ‘De consolatione Philosophiae’ de Boécio
1.Boécio na Filosofia Medieval
Boécio marca o princípio da especulação medieval. É, em outras palavras, o primeiro dos filósofos
medievais (1). Eminente humanista, transformou-se, no tempo que os bárbaros dominavam o
Ocidente Europeu, num dos principais baluartes da transmissão da sabedoria antiga e num dos
preceptores da humanidade. Educado em Roma, continuou seus estudos em Atenas e talvez em
Alexandria, tendo-se transformado em 520 em mestre do palácio do rei godo Teodorico.
2.Natureza da obra filosófica de Boécio
Boécio pode ser considerado sob dois ângulos: como tradutor e como autor.
Na qualidade de tradutor, sua importância é fundamental para o conhecimento dos textos dos grandes
autores gregos antes das traduções da Escolástica após os meados do século XIII. Fez a tradução e
comentou diversos tratados de Lógica de Aristóteles, as Categorias, os Tópicos, os livros Analíticos, a
Hermenêutica e a Introdução ou Isagoge de Porfírio às Categorias de Aristóteles (2). São Tomás teria
usado os dois primeiros capítulos da Metafísica de Aristóteles traduzido por Boécio.
Como autor, além dos comentários a Aristóteles e a Porfírio, escreveu o famoso “DeConsolatione
Philosophiae”, após sua desgraça junto de Teodorico e quando estava na prisão.
Escreveu ainda o tratado “De institutione aritmetica” e o “De Musica” e alguns escritos teológicos,
entre os quais deve citar-se o seu “De Trinitate”, e que foram lidos e comentados até o século XII.
Além de tradutor, comentador e autor, Boécio ficaria famoso na Idade Média como uma das fontes
básicas dos estudos filosóficos da Idade Média e ainda como um dos formuladores da questão que
ocupou o interesse dialético dos medievais: o problema dos universais. A questão foi colhida do
Isagoge do Porfírio e era formulada nestes termos: “ Quanto aos gêneros e espécies (designados
pelas palavras que já não significam coisas corpóreas concretas) têm uns e outras uma existência ou
não existem senão em nosso pensamento? Se existem, são coisas corpóreas ou incorpóreas? Se são
coisas incorpóreas, são separadas ou existem apenas nas coisas sensíveis?”. Porfírio põe apenas a
questão mas ao comentar o problema, Boécio indica a solução que ele encontrou em Aristóteles, mas
sem a aprovar. Esta solução é manifestadamente tirada da crítica das idéias platônicas: um gênero
existe simultaneamente em vários indivíduos; é claro, portanto, que não pode existir por si mesmo; a
unidade numérica de um ser em si é incompatível com o “eparpillement” do gênero nas espécies ou
das espécies nos indivíduos” (3).
Os críticos mostram o uso que Boécio fez de Cícero no que se refere à natureza e
classificaçãodas circunstâncias no ato moral (4), na tradição de Aristóteles e de Gregório de Nissa.
Ioannes Isaac, em seu trabalho ‘S. Thomas intérprete d’Aristote’ (5) mostra como o Doutro Angélico,
ao expor o Peri Hermeneias, recorreu exclusivamente ao Segundo comentário de Boécio que já não
se lia havia muito tempo e ao comentário de Ammonius, portanto, num tempo em que os comentários
de Boécio estavam já quase abandonados (6).
Na questão do hilemorfismo universal, João Duns Escoto recorre a Boécio e mostra como a
‘forma simplex’ é inteiramente aplicável a Deus e provavelmente aos anjos (7).
Quanto à elaboração da síntese doutrinal tomista, Etienne Gilson em sua obra Le thomisme (8)
mostra como Boécio é uma das fontes em que a mesma se apóia, ao lado de Aristóteles, Santo
Agostinho e Dionísio. Gilson mostra também a presença de Boécio na elaboração do hilemorfismo
tomista: segundo S.Tomás, “ a forma é aquilo pelo qual a substância é o que é. Reconheceu-se a
distinção tornada tradicional entre os leitores de Boécio entre o quo e o quod est, tornada fundamental
na doutrina tomista (9).
Pedro Hispano vai utilizá-lo como uma das principais fontes em suas Súmulas Logiais.
Entre as obras da biblioteca de el-rei D.Duarte (1438), segundo listas publicadas por Vasconcelos
Braga, em sua História da Filosofia Portuguesa estava o De Consolatione Philosophiae (10).
No Colégio das Artes de Coimbra, segundo pesquisas levadas a cabo por Antonio Alberto de Andrade
em “Vernei e a cultura de seu tempo’, no período de 1747 a 1758, no campo das Humanidades,
Boécio é um dos autores averbados em latim e em grego, ao lado de Platão, Xenofonte, Sêneca,
Sófocles e outros (11).
3. O “De Consolatione Philosophiae”
3.1Objetivo e natureza da obra: Entre todos os escritos de Boécio, o mais afortunado e influente, o
mais elegante, comovedor e simbólico é o De Consolatione Philosophiae. Composto na prisão, logo
após Ter caído em desgraça junto do rei Teodorico, em 524, este livro decalcado na sabedoria
transmitida por Platão e pelos estóicos e aberto às influências cristãs herdadas da família pode ser
considerado já uma das formas dialéticas da cruciante busca do ‘intellectus quaerens fidem’, se
considerarmos que todo o objetivo do livro é não apenas mostrar a sabedoria estóica que mostra
preceitos, normas e atitudes sábias para enfrentar a adversidade e a dor, mas abrir também para a
sabedoria cristã que também faz concessões à resignação e para a Providência como forma de
superação das investidas do mal no mundo. Especificamente, Boécio aborda a questão: “ como
explicar que o curso das coisas humanas esteja tão pouco de acordo com a ordem perfeita que reina
na natureza”? e pretende uma resposta para a pergunta “Se deus existe, de onde vem a injustiça e o
mal que governam as ações dos homens”?
3.2 Forma literária da composição
Como fartamente tem sido apresentado pelos historiadores e críticos e como é constatável na análise
formal da obra, a forma adotada por Boécio é muito parecida com a forma dos diálogos de Platão, e
também com a técnica usada na crítica filosófica pelo cínico Menipo, conhecida comumente pelo
nome de sátira menipéia (12) Alguns autores, como Chevalier, por exemplo, afirmam que o De
Consolatione se inspira, quanto à forma, nas diatribes da época romana e, quando ao fundo, "“as
idéias de Platão e dos estóicos, repensados por um cristão” (13).
Entre as diatribes literárias, a diatribe de Bion foi a base das obras didáticas dos Estóicos. Em Platão,
a diatribe era praticamente o diálogo socrático. Para os retóricos e sofistas, o discurso era expositivo e
argumentativo. Em Bion, a diatribe conserva o caráter da discussão de um problema, mas reveste a
forma breve e curta, apressada e direta. A diatribe forma mil variações de um mesmo tema. Bion
transmite as idéias básicas do estoicismo sobre a Fortuna e sobre a felicidade: “felicidade consiste em
se satisfazer com sua sorte e em se curvar às circunstâncias, tal como o navegador se curva aos
ventos. Ela é uma espécie de sabedoria resignada que termina na impassibilidade, que renuncia a
compreender o segredo, que renuncia a agir sobre elas, e que procura tornar-se inteiramente
independente graças à disposição do interior da alma (14). Bion aprendera de seu mestre Teofrasto
que a fortuna e não a sabedoria regem a vida: “ Vitam regit fortuna, non sapientia”, conforme traduziu
Cícero nas Tusculanas (15). A diatribe de Bion terá um sucesso enorme num tempo em que o próprio
culto da Fortuna (Tyché) se desenvolverá e cria na filosofia um novo estilo que prestará seus serviços
como prega a impossibilidade, o desprendimento, tornada comum entre os estóicos e os epicúreos e
que entrará depois em Horácio, Lucrécio, Fílon de Alexandria, Estóicos do Império, Sêneca e Epicteto,
atém em Plotino – uma influência, no final, do próprio socratismo.
O ‘De consolatione philosophiae” encarna a forma de tratado veiculador de conceitos filosóficos de
conteúdo moral e neste sentido ele é em a voz da diatribe, na tradição de Sócrates, Platão, Xenofonte,
cínicos, e estóicos, enquanto incarna a forma de ‘discurso moral e popular”.
A forma literária alterna um capítulo em prosa e outro em verso. Ou diríamos melhor ainda, a cada
capítulo em prosa é antecedido de um metro ou de um capítulo em verso. A prosa, conforme já
observou Gilbert Highet está escrita num latim tardio que tenta se clássico. E o verso é uma coleção
de metros diferentes, mas predominam os paradigmas do verso curso apropriados à poesia lírica e
muitos deles são tirados dos coros, das tragédias de Sêneca (16).
3.3Estrutura do “De Consolatione”: a obra está dividida em cinco livros. Cada livro intercala, conforme
se disse, metros e prosas. O primeiro livro tem sete metros (poemas) e 7 prosas, mas o número varia
segundo os livros. No primeiro Livro, a Filosofia, que encarna a Sabedoria, mostra a Boécio a
natureza de seu mal: Boécio está com seu coração tumultuado e deixou de perceber o verdadeiro fim
do homem. No segundo livro, a Filosofia mostra a Boécio que sendo legítimo proprietário, ele dispões
de seus bens, e que a Fortuna lhe deu bens, e não tem razão para se queixar da Fortuna, pois ela
apenas o despojou dos bens fictícios. No terceiro livro, a Filosofia ao leva à indagação sobre a
natureza da verdadeira felicidade e termina por identificá-la como Soberano Bem, que é constituído de
5 elementos a suficiência, o respeito, o poder, a celebridade e a alegria – que em vão procuraremos
na terra. Eles constituem uma só substância e só se encontram em Deus. A verdadeira felicidade, que
está no Soberano Bem, é, portanto Deus. No quarto livro é questionada a conciliação da existência de
Deus com o mal. Mostra a Filosofia que os maus não têm poder nem felicidade, e que cada um tem a
condição que lhe convém e que, de fato, a infelicidade é útil aos homens. Finalmente, no livro V,
coloca-se o problema de Deus como providência, poder ser harmonizado com o livre arbítrio. O
problema é considerado importante e grave, porque a supressão da liberdade significaria a supressão
da responsabilidade. A dificuldade pode ser superada se analisarmos o modo como eus conhece.
Deus está fora do tempo. Ele é essencialmente um eterno-presente. Sua presciência é compatível
com a liberdade humana. “Assim, levantando os olhos para o céu, dentro da conformidade que
experimenta em seu coração ele descobre a excelência da virtude que o aproxima da divindade e
neste estado de espírito “volta a achar o sentido da vida, a verdadeira tábua de valores, a paz da alma
e a consolação” (7)
3.4 Conteúdo básico do “De Consolatione Philosophiae”: No primeiro poema do Livro I, é feita uma
apresentação do estado de espírito de Boécio, acabrunhado pela infelicidade precocemente velho e
cansado e num estado de prostração. Constratando com o tom pessimista dos versos, na hora em
que Boécio meditava em silêncio, a Filosofia, se apresenta como uma Mulher com um ‘rosto cheio de
majestade” (Prosa I), dotada de uma penetração mental desconhecida dos homens e respirando uma
energia inesgotável. Quando ela repara nas Musas da Poesia, à sua cabeceira, ditando palavras que
interpretavam as lágrimas e o sofrimento de Boécio, agitada por um instante e com uma chama em
seus olhos flamejantes disse: “Quem foi que deixou se aproximar do meu doente estas insignificantes
cortesãs do teatro (“has scenicas meretriculas”) – estas mulheres que não só não saberiam dar-lhe o
menor remédio para reanimar de seu sofrimento e que mais certamente o alimentariam com seus
doces venenos?” (I, 7 e 8). É claro que, através destas palavras da Filosofia, fica evidente a opção do
autor em considerar o discurso filosófico, sob a forma de diatribe, como a maneira apta para dissertar
sobre a Filosofia e interpretar os fatos adversos frente ao Destino e à Providência. Em segundo lugar,
a Poesia em si mesma fica descartada como forma capaz de evidenciar uma conclusão
argumentativa. Neste contexto, a Filosofia, dirige-se duramente às Musas da Poesia dizendo: “Sim,
estas são aquelas que com os espinhos estéreis das paixões fazem perecer a fecunda safra da razão;
são elas que acostumam a inteligência dos homens à doença em vez de os libertar dela” (I B mI) Ah!
– continua – se vossas carícias educassem um profano como friamente fazeis, até que eu acharia
isso um mal menor, mas vós estais tentando confortar um homem alimentado pelas doutrinas de Eleia
e da Academia”. “Ide, portanto, embora, sereias doces para dar a morte e deixai-me este doente
porque eu quero cuidar dele com minhas Musas “(I, 9, 10.11).
Boécio é considerado um discípulo da Academia de Platão e da escola eleata, onde pontificaram
Parmênides e Zenão. A simples poesia elegíaca não superaria a crise de Boécio e impediria a razão
de seu exercício dialético para alcançar a evidência da doutrina. O método da razão, por isso, será a
grande opção da exposição, para facilitar o triunfo final da Sabedoria.
Muito objetiva em sua missão junto ao paciente Boécio, a Filosofia constatando a desordem do
espírito de Boécio (1 metro 2), vê nele “um homem a quem o céu foi aberto sem reserva” e acha que
esta hora é mais para trazer um remédio do que para uma ‘lamentação’. Na Prosa 3 do primeiro livro,
a Filosofia dá também um recado muito claro ao referir-se ao papel das escolas filosóficas da
Antigüidade e diz que tanto a escola estóica como a epicureana e outras tentaram um assalto a sua
herança e a envolveram apesar de seus protestos e de seus esforços, “rasgando minhas vestes e
partiram julgando que eu tinha dado tudo a eles” (1, 2, 7). “ E porque ficaram com alguns pedaços de
meus vestidos, a ignorância ficou julgando que eles eram meus familiares (ib, I, 2, 8), perdendo-se
alguns no meio do vulgo profano. Mostra, em seguida, a Filosofia como Anaxágoras, Sócrates, Zenon,
Canius, Sêneca e Soranus foram sacrificados ou torturados pelos maus
e provados pelas
tempestades do oceano da vida. E que apesar disso nunca perderam a grande arma de suas vidas –
a razão e a sabedoria.
4.Teoria do destino inamovível versus teoria da sabedoria racional
Um dos pontos fulcrais desta obra cheia de atualidade é o despique entre duas concepções de vida,
entre duas perspectivas e duas vertentes, teoricamente vigentes nos escombros de uma civilização
romana e pragmaticamente válidos para determinar comportamentos humanos em qualquer época e
tempo.
O Destino (a Moira dos gregos e a Fortuna dos romanos) e a Filosofia sustentam uma
confrontação conceitual e Boécio é o discípulo que ouve da Filosofia as razões superiores para poder
superar o estado de calamidade interior em que se encontra: “Se bem estou entendendo as causas e
as manifestações do teu mal – diz a Filosofia – acho que é a lembrança apaixonada de tua condição
anterior que te consome. Por outras palavras: é a mudança da Fortuna – tal como ela se representa a
teus olhos – o que está atingindo a tua alma” (II, Prosa, 1, 2)“tu saberias, diz ainda a Filosofia, não
obstante as carícias e afagos da Fortuna, encontrar palavras viris para a atacar e terias no meu
santuário máximas para a derrotar” (II prosa 1, 5).
Quando Boécio acha que tudo mudou em sua vida, a Filosofia responde: “Tu pensas que a Fortuna
mudou para ti. Enganas-te. Ela conservou para ti a constância que lhe é própria na sua inconstância.
Ela permaneceu sempre ela própria tanto quanto te acariciava como quando se divertia com o aparato
de “uma prosperidade enganadora” (II, Prosa, 1, 10).
“Tu te surpreendeste com a dupla face desta divindade cega. Embora ainda por revelar para outros,
ela se fez conhecer inteiramente para ti. Se tu a achas agradável, aceita seus hábitos, não te queixes.
Se aborreces sua perfídia, despreza e rejeita seu sorriso funesto, porque aquela que hoje te dá tão
grande desgraça devia Ter-te dado a serenidade. Foste traído, na verdade, por quem jamais poderia
atraiçoar. Julgas preciosa uma prosperidade destinada a desaparecer? Como ligar-te à tortura
presente se ela não promete permanecer e se quando faltar traz a desgraça (II, 1, 10).
A Filosofia leva Boécio à idéia de que todo o problema do homem está em escolher quem o vai
dominar. Sua opção está entre a Fortuna e a Sabedoria.
“Se nós não podemos reter a Fortuna a nosso bel-prazer, se sua ausência nos torna infelizes, o que é
que esta “fugitiva” é senão o presságio de uma infelicidade próxima? Não bastaria contentarmo-nos
com o espetáculo do momento; a sabedoria encara o despojamento em relação às coisas e esta
dupla instabilidade nos dois sentidos faz que não devamos temer as ameaças da fortuna nem desejar
seus afagos “(II, 1, 15).
“Em poucas palavras – conclui – é necessário suportar com alma tranqüila (“aequo animo toleres
oportet”) tudo o que se cumpre na área da Fortuna, depois que já colocamos o pescoço debaixo de
seu jugo” (II, 1,16).
A Filosofia mostra depois a tirania da Fortuna: “Ela não ouve os infelizes, ela não secomove com suas
lágrimas, ela ri da dor que provoca com seu próprio rigor (II Poema 1). Para maior convencimento de
Boécio, a Filosofia resolve apresentar as próprias palavras da Fortuna: “Que tens tu ó homem, para
me perseguir e me acusar de teus males quotidianos? Que injustiça cometi eu para contigo e de que
bens te despojei eu? (II, Prosa 2,2). “Quando a natureza te tirou do seio de tua mãe, eu te recolhi, nu
e miserável, te aqueci com minhas riquezas e é isto que te torna hoje impaciente comigo. Inclinei-me
sobre ti com particular ternura, prodigalizei-te abundância e esplendor através de meus bens. Aprazme agora retrair minha mão: deves-me o reconhecimento de um homem que usufrui bens alheios.
Não tens o direito de te queixar como se tivesses perdido bens que fossem teus. Porque te queixas?
Nada te foi tirado com violência. Riqueza dignidade e outras vantagens deste tipo são propriedade
minha (...) Ousaria afirmar que se os bens que tu deploras Ter perdido fossem propriedade tua, não
poderias tê-los perdido. E eu serei a única a ser privada do exercício de meus direitos” (II, Prosa, 2, 48).
4.1A argumentação retórica da Fortuna é feita de aparência
Boécio fica chocado com a argumentação da Fortuna e responde: “Tua argumentação é apenas
aparência e toda impregnada do doce mel da retórica e da poesia (...) (II, Prosa 2). A Filosofia
concorda com Boécio e mostra-lhe que sua reação decorre do fato de que esta “é a primeira vez que
a Fortuna te feriu” (II, Prosa, 3, 10).
4.2A Fortuna é instável e mutável
O discurso passa em seguida a ocupar-se da instabilidade e mutabilidade dos bens da fortuna,
levando a Filosofia à consideração final de que “a inconstância da criação é permanente” (II, Poesia
3).
4.3A felicidade dada pelos bens da fortuna é efêmera
Sendo mutáveis, os bens da fortuna são também passageiros e efêmeros. A Filosofia tenta levar
Boécio à persuasão de que não é infeliz quando “conseguiu conservar seus melhores bens: sua
esposa viva, seu sogro Símaco e seus dois filhos cônsules: “Ficas ainda com valores que te poderão
levar à “consolação” e à esperança amanhã” (II, Prosa 4,9).
A suprema infelicidade é alguém rememorar seu passado feliz quando está na desgraça:
“Sed hoc est, quod recolentem vehementius coquit; nam in omni adversitate fortunae infelicissimum
est genus infortunii fuisse felicem” (II, Prosa, 4,2) (18)
4.4Condição humana e felicidade
O trabalho da Filosofia é persuadir Boécio de que existe uma condição humana específica e que a
aceitação desta condição é a base da tranqüilidade do espírito. O que Boécio não pode é continuar
com meras lamentações sem buscar remédios racionais: “Quem tem uma felicidade tão harmoniosa
que não tenha algo a contestar em relação à sua condição?” (II, Prosa, 4-12)
Entre outros conceitos, a Filosofia ensina que “a inquietação caracteriza, na verdade, os bens
humanos” e que “jamais existe uma satisfação completa” e que os bens da fortuna “jamais duram
sempre”: “Há uns que nadam em riquezas, mas envergonham-se do sangue pouco nobre que têm;
outros são conhecidos por sua nobreza, mas seu patrimônio é minguado e apertado e prefeririam até
não serem conhecidos. A outros não faltam nem nobreza nem dinheiro, mas são solteiros e lamentam
isto. Outros fazem ótimo casamento mas não têm filhos e o aumento de sua fortuna será para deixar
a um herdeiro que não pertence a seu sangue. Alguns, finalmente se orgulham de ter descendência,
mas a deploram acabrunhados pelos problemas ou vícios de seus filhos e filhas” (II, Prosa, 4, 14). Em
virtude desta variação é que ninguém aceita facilmente a “condição de seu destino”. Uma coisa é
certa: uma situação só torna uma pessoa infeliz “na imaginação”; toda a condição é feliz se for
suportada com espírito tranqüilo (contraque beata sors omnis est aequanimitate tolerantis). (II, Prosa,
4, 18).
Desenvolvendo sua argumentação, a Filosofia tenta demonstrar a Boécio que a felicidade é
interior: “Porque buscais ó mortais, fora de vós, uma felicidade que está em vós” (II Prosa, 4, 22). E
passa a desvendar0lhe o segredo da verdadeira felicidade (“Ostendam breviter tibi summae cardinem
felicitatis):
“Há alguma coisa de mais precioso do que tu próprio? Não, dirás. Se, portanto, és senhor de
ti mesmo, possuirás um bem que jamais quererás perder e que a Fortuna jamais te poderá tirar” (...)
“E se a felicidade é o supremo bem de um ser vivo segundo a razão e se este supremo bem que não
pode ser tirado, de nenhuma maneira, pela excelência de ser um bem que não pode ser tirado, é
evidente que a instabilidade da Fortuna pode pretender atingir a felicidade. Por outras palavras,
aquele que se deixa dominar por esta felicidade frágil ou sabe ou não sabe que ela é mutável. Se não
sabe, que tipo de felicidade pode encontrar na cega ignorância? Se sabe, não pode deixar de temer a
perda de um bem que sabe que é possível perder; e assim, uma inquietação contínua o impede de
ser feliz. Dirás tu que se ele perde esta felicidade, ele achará bom não mais Ter de pensar nisso.
Nova prova da inconsistência deste bem pois que pode suportar-se a perda com indiferença”.
Nesta doutrinação que se pode resumir num torneio dialético entre a Filosofia e a Fortuna, a
protetora de Boécio, contra sua análise, mais uma vez na fragilidade e transitoriedade dos bens da
fortuna, mostrando os bens em que os homens geralmente se apoiam: dignidade, poder, honras,
cargos públicos, glória e prestígio. Boécio reconhece que em algum tempo também se deixou tiranizar
pelos bens deste mundo (II, Prosa 7), admitindo entretanto que isso representa agora , a seus olhos,
“um ideal vazio e sem substância” (II, Prosa, 7,3).
À medida que o diálogo vai avançando, fascinado pela “doce harmonia da Filosofia” já admite
esta como suprema consoladora: “ó tu, consolação suprema das almas abatidas” (III, Prosa, 1, 1)...
Aproveitando a serenidade que já vai penetrando no espírito do prisioneiro Boécio, a Filosofia tenta
persuadir seu discípulo de que em seu espirito, no sonho, ele tem condições de perceber “a
verdadeira felicidade” para a qual aspira. Mas tendo em vista que seus olhos ainda estão fixados nas
aparências, existe uma certa dificuldade em ele olhar de frente “a verdadeira felicidade” (III, Prosa, 1,
4).
A Filosofia insiste em fazer ver que a busca da felicidade é uma nota constante dos homens.
Estes, entretanto, insistem em julgar que a riqueza, a honra, o poder, a glória e o prazer é a
verdadeira face da felicidade. Ser feliz é Ter muita riqueza, não Ter falta d bens materiais. A Filosofia
demonstra entretanto a incapacidade absoluta deste tipo de bens para satisfazer a alma humana:
“Nenhum destes bens pode dar “o estado perfeito” de felicidade (III, 9). Da imperfeição dos bens
deste mundo, a Filosofia parte para a “perfectio” da felicidade que reside em Deus: nele “reside a
felicidade substancial e perfeita”, porque Ele é o Sumo Bem (III, Prosa 10, 6-7)
Todo o tom deste discurso é profundamente neo-platônico e mostra a escola e a academia
onde Boécio hauriu seus princípios filosóficos existenciais.
Para dar consistência e lógica a seus arrazoados, a Filosofia mostra depois o telefinalismo ou
a teleologia dos seres, para concluir que se todos os seres inferiores tendem para o ser Perfeito, o
homem tende e deve tender para Deus (III, Prosa 10,41).
No livro IV, Boécio já a caminho da convicção reconhece na Filosofia uma mestra perfeita: “tu
que anuncias a verdadeira luz”, “graças ao teu reflexo divino” (...), IV,2.
Discute a Filosofia a presença do mal no mundo, o poder dos bons e a incapacidade de os
maus mostrarem poder. Analisa o ato humano e conclui pelo triunfo do bem.
5. Linhas da filosofia clássica no “De consolatione Philosophiae”
As doutrinas estóicas têm largo rastro no “De Consolatione”. Mas também a filosofia platônica
diretamente, através da citação de obras como a República, Filebo, Teeteto, quer indiretamente
através do neo-platonismo. As noções de felicidade e as noções de sabedoria do governo aparecem
diretamente defendidas no De Consolatione: “Se os filósofos não se tornarem reis das cidades ou se
aqueles que agora se chamam reis e soberanos não se tornarem filósofos verdadeiros ou inteligentes,
nem as cidades em o gênero humano verão os seus males se apaziguar “( Livro I, Prosa 4). Essa
passagem é apoiada no livro 5 da República de Platão. Outra idéia platônica nítida que aparece é a
doutrina das idéias inatas (Livro IV, Metro XI). Boécio é apresentado pela Filosofia como “um homem
formado nas doutrinas de Eleia e da Academia (Livro I, Prosa 1, 10). Os outros autores citados são
Pitágoras, Sêneca, Virgílio, Epicuro e Horácio.
Notas
(1) CHEVALIER, Jacques. História del Pensamiento II. Madrid, Aguillar, 1960, p.132.
(2) RIVAUD, Albert. Histoire de la philosophie I, Paris, PUF (Col. Logos).1960, p.607
(3) BREHIER, É. Histoire de la Philosophie. Tome I, 3, Paris, PUF, 1947. P.529, citando MIGNE,
Patrologia Latina. LXIV, p.82b-86ª
(4) LOTTIN, Odo. Sur le traité thomiste de la moralité. In: Scolastica ratione historico – critica
instauranda. Romae, 1951, p.330.
(5) ISAAC, Joannes. S.Thomas interpète d’Aristote. In: Scholastica ratione historico critica
instauranda. Romae, 1951, p.359.
(6) Ib.360
(7) STELLA, Prosperus. La critica all’ilemorfismo universale in Scoto. In: Scholastica ratione hisóricocritica instauranda. Romae, 1951, p.558.
(8) GILSON, E. Le thomisme, Paris, Univ.1948, p.16.
Texto de:
FERREIRA, João. O “De Consolatione Philosophiae” de Boécio. Pensamento Medieval: X Semana de
Filosofia da Universidade de Brasília. São Paulo: Loyola, 1983, p.34-46.
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Texto 10: Boécio e o problema dos universais