associação brasileira de educação médica – regional sul i

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Saúde Mental do Médico
DATA:18/05/2012
HORÁRIO:10:00
Anfiteatro Carlos Albuquerque – HCPA
PRESIDE: Prof. Mauro Czepielewski (UFRGS)
CONVIDADO: Dr. Rogério Aguiar (CREMERS)
O professor Mauro Czepielewski saúda a todos os presentes e apresenta o palestrante, assim como
o tema a ser explorado.
O Doutor Rogério Aguiar inicia afirmando que a saúde mental do médico é um tema delicado, visto
que a mente humana tem um funcionamento complexo e o médico-paciente necessita de uma abordagem
diferenciada. Além disso, cita que a psicologia moderna, principalmente baseada nas idéias de Freud,
rejeita o maniqueísmo e busca entender todas as vertentes da mente humana.
Mostra que quase todos os dados da palestra baseiam-se em uma pesquisa realizada pelo
Conselho Federal de Medicina sobre a saúde em geral dos médicos no Brasil. Esta pesquisa foi realizada
em duas etapas no ano de 2008, com envio de questionários pelo correio para 20453 médicos (universo
total é de 281939), obtenção de resultados de 7690 (aproximadamente 3%) e utilização de três critérios
para inclusão dos pesquisados: médicos em atividade, que tivessem apenas uma inscrição primária no
conselho estadual e que possuíssem endereço completo no banco de dados. A amostra de médicos na
pesquisa foi obtida de forma aleatória, mas deveria incluir profissionais em todos os estados do Brasil.
Neste momento, Dr. Rogério explica resumidamente o funcionamento do registro médico no Conselho
Estadual e afirma que um CRM primário é concedido no estado onde o indivíduo trabalha e um secundário
pode ser fornecido caso haja a necessidade de exercer a atividade médica em outro estado por um curto
período de tempo.
A pesquisa tinha como objetivo de conhecer os efeitos do trabalho estressante sobre a saúde geral
dos médicos brasileiros, tanto física qanto mental, e utilizou como conceitos de estresse as reações
adaptativas do organismo para manter a homeostasia frente a agressões físicas e psíquicas, e respostas
como ansiedade, depressão, sintomas orgânicos, aumento do uso de substâncias, medo, raiva e culpa. O
palestrante afirma que o estresse constante provoca, por si só, efeitos prejudicias - citando como exemplo a
dor - e pode transformar-se em desadaptação. (? Acho que esse parágrafo tá estranho, não li de novo
ainda) Um questionário anexado a uma carta-resposta foi enviado para o domicílio de cada um dos
entrevistados com os seguintes instrumentos de obtenção de dados: QSG (Questionário de Saúde Geral),
contendo 12 itens, o inventário de Burnout de Malasch e a escala de avaliação de fadiga (traduzido do
inglês e testado em um congresso de psiquiatria em Belo Horizonte), e levando em consideração as
principais causas de patologia na classe médica, o uso de drogas psicotrópicas, informações demográficas
e inventário de ideação suicida positiva e negativa.
Ele explicou, então, o termo “Burnout”, um conceito bastante novo e ainda não incluído em manuais
de classificação de doenças, usado para se referir a uma situação que não é propriamente o estresse, mas
sim o colapso dos sistemas de adaptação do corpo frente àquela situação de estresse. A expressão é
especificamente usada para quando encontramos essa situação em relação as atividades da profissão do
indivíduo Os resultados obtidos em relação ao Burnout, mostraram que 57% dos médicos pesquisados
encontravam-se nessa situação. Eles foram divididos em 3 grupos: 33,9% classificados como nível
moderado, 12,5% como esgotamento e 10,6% em esgotamento extremo. As manifestações mais comuns,
por ordem de freqüência, foram exaustão emocional, baixa realização pessoal e despersonalização.
Quanto aos sintomas, expôs que os sintomas psiquiátricos são caracterizados por distúrbios e
síndromes encontrados frequentemente na atenção primária à saúde. Na pesquisa referenciada, depressão
foi a forma de sintoma psiquiátrico mais freqüentemente encontrada. Pesquisa de Tillett (2003) encontrou
distúrbios psiquiátricos generalizados em 28% dos profissionais da saúde, o que demonstra que a
incidência é muito próxima da que ocorre em indivíduos desempregados na população em geral (30%).
Além do mais, foram encontrados sintomas psiquiátricos de considerável preocupação em 44% dos
médicos participantes da pesquisa. O palestrante ressalta que outros aspectos da vida pessoal podem ter
relação com os índices encontrados, mas afirma que o estudo realizado não preocupou-se em diferenciar
as causas dos sintomas.
A sensação de fadiga foi definida nesta pesquisa como sensação de desconforto generalizado,
desprazer pelas atividades realizadas e relutância em seguir suas tarefas. Dr. Rogério afirma que outro
estudo que utilizou para basear seus dados mostrava que, dependendo do especialista que era consultado,
para os mesmo sintomas, era dado o diagnóstico de fadiga (por reumatologistas e neurologistas) ou
depressão (psiquiatras principalmente). A fadiga acarreta várias conseqüências negativas para o
empregado, seus familiares, empregador e colegas e foi apresentada por 22,3% dos entrevistados, número
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significantemente maior quando comparado aos resultados obtidos na população em geral em pesquisas
em outros países e que se aproxima muito dos dados de pacientes com Sarcoidose.
Outro tópico analisado foi a ideação suicida, o qual demonstrou que 5% dos médicos estavam
infelizes, tristes e tem pensado em suicídio; 15% tem menos entusiasmo e segurança/confiança no futuro e
em si mesmo. A taxa de suicídio entre médicos, de acordo com os Atestados de Óbito e estudos no Reino
Unido e Finlândia, é maior quando comparada ao resto da população. No entanto, esta pesquisa realizada
pelo Conselho Federal de Medicina não encontrou diferenças significativas nos índices de ideação suicida
apresentados pela classe médica e pela população em geral.
Além de analisar o estado mental do médico brasileiro, o estudo também abordou outras doenças
que acometem frequentemente a classe médica. Entre elas estão patologias dos olhos e anexos (26,4%
dos entrevistados), osteomusculares e do tecido conjuntivo (22,2%), do aparelho circulatório (21,8%), do
aparelho digestivo (19,7%), endócrinas e metabólicas (19,1%), da pele e tecido subcutâneo (12,1%), do
aparelho geniturinário (10,4%), do aparelho respiratório (9,5%) e mentais e comportamentais (7,7%). Entre
os medicamentos mais comumente prescritos para médicos estão os fármacos cardiovasculares (38,7%) e
os psicofármacos (20,9%). Ele ressalta, então, a incoerência dos dados obtidos, apenas 21,8% dos
participantes da pesquisa relataram ter diagnóstico de doenças do aparelho circulatório e 7,7% de doenças
mentais e comportamentais, enquanto 38,7% usavam fármacos cardiovasculares e 20,9% psicofármacos.
Entre os psicofármacos, os mais utilizados foram os antidepressivos (68%).
Foi avaliado também o uso de outras substâncias tóxicas como o tabaco que, segundo o Dr.
Rogério, teve seu uso entre a classe médica diminuído ao longo dos anos, mas ainda apresenta 6,8% de
dependentes, número menor que na população em geral. O álcool foi a segunda substância com mais
dependentes na classe médica (1,7%, frente a 65,7% que afirma fazer uso eventual), seguido de
tranqüilizantes, maconha e cocaína. Outras drogas, como solventes, crack, merla e estimulantes já foram
experimentados por uma parcela de até 10% dos entrevistados, mas não houve relato de dependência.
O palestrante analisou a pesquisa afirmando que parcela significativa dos entrevistados apresenta
índices significativos de transtornos psiquiátricos, sensação de fadiga e já pensaram em suicídio. Esses
resultados implicam na necessidade de ações efetivas das instituições médicas e acadêmicas no sentido de
proporcionar apoio a estes indivíduos. A partir dos dados apresentados, percebe-se que os médicos não
são pessoas imunes e isentas dos problemas de saúde, pois, apesar de adquirirem conhecimento para
evitar fatores de risco, expõem-se a diversas situações insalubres.
Dr. Rogério traz, então, dados de uma segunda pesquisa, denominada “O Médico e seu Trabalho”,
que tratava da relação dos médicos do Brasil com sua especialidade dentro da profissão. Os dados obtidos
mostravam que 65,4% dos pesquisados estavam satisfeitos com sua especialidade, mas reconheciam que
ela havia transformado-se em uma situação diária de estresse. Além disso, 1,7% não exerciam sua
especialidade e 0,8% estavam desempregados.
Já se encaminhando para o final, passou a descrever fatores que podem aumentar ainda mais o
risco de distúrbios mentais na classe médica. Começou analisando “Fatores que Dificultam o Auto-cuidado
Médico”, uma resolução do Colégio Médico de Barcelona, publicado no jornal do CFM em 2003. Entre
esses fatores, destacou a conspiração do silêncio (quando os médicos decidem não falar sobre seus
sintomas), onipotência, negação da vulnerabilidade, comodismo, falta de recursos econômicos e diversos
medos, como o de ser estigmatizado, de tornar-se paciente e de deixar de exercer a profissão. Fez então
uma reflexão sobre o dia-a-dia do médico, permeado por doenças, sofrimento e muito marcado pela
proximidade com a morte, sempre tendo que resolver os problemas de saúde dos outros, criando assim um
mecanismo de defesa de homeostasia mental, deixando de se cuidar e de perceber seus próprios sintomas.
Segue, apresentando agora fatores que dificultam o reconhecimento e tratamento dos sintomas:
transtorno mental, transtorno de personalidade, alteração da saúde, excesso de atividades, problemas
familiares, barreiras sócio-culturais e de comunicação, estresse e insatisfação com o trabalho, dificuldade
de abordagem e falta de conhecimento. Além de o todas as dificuldades pessoais e familiares enfrentadas
pelo médico, há ainda a necessidade de lidar com o sistema de saúde e o ambiente de trabalho. Nesse
âmbito, pressões para diminuição do custo e aumento da produtividade, existência de impessoalidade no
atendimento, falhas burocráticas, interrupções na consulta e tempo excessivo de espera podem contribuir
para aumentar ainda mais o nível de estresse do profissional.
Encerrando sua exposição, trouxe sugestões de estratégias para enfrentamento dos problemas,
retiradas da obra “Psicologia Médica”, de Eugênio Paes Campos, publicada em 2012. Elas incluíam admitir
sinais de estresse - como cometer excessos (comer, beber ou trabalhar demais) -, dividir as
responsabilidades, abrir canais de diálogo, expressar emoções, identificar problemas potenciais
relacionados ao trabalho e tentar resolvê-los, cultivar redes de apoio mútuo, com colegas, amigos,
familiares e instituições.
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Ele agradece a todos e é bastante aplaudido. O Professor Mauro elogia a palestra e cede espaço
para uma breve discussão.
A primeira manifestação da platéia é, na verdade, uma constatação. Uma professora comenta a
respeito da extrema pertinência do tema e da importância de os médicos darem mais atenção e cuidado à
sua própria saúde, criticando a cultura que há nesse meio, de não buscar ajuda ou tratamento algum, além
de citar o que ela chama de “presenteísmo”, que é a necessidade do médico de estar sempre presente no
trabalho e continuar trabalhando ainda que doente. Traz também a discussão a respeito de cada
especialidade e de seu respectivo grau diferenciado de doenças, tanto pelo cunho laboral quanto pela
facilidade de acesso a substâncias. Comenta que é preciso ter muita atenção com o aluno se desejamos
mudar isso, porque ele mimetiza os professores, levando para sua vida também esses aspectos negativos.
Dr. Rogério responde que o trabalho realmente não se aprofundou em especialidades específicas,
mas que poderia completar trazendo um ranking das 3 especialidades com mais altas taxas de suicídio e
drogadição, sendo elas anestesista (1º), psiquiatra (2ª) e oftalmologista (3º). Fala da facilidade do acesso a
substâncias como um fator que realmente aumenta muito o seu uso inadequado e os conseqüentes
problemas que isso pode trazer, fazendo uma analogia com o acesso a armas de fogo e os problemas que
pode acarretar acesso em momentos de desequilíbrio. Relata então um novo programa de parceria entre o
EPM e o CREMESP, em São Paulo, que visa atender médicos em drogadição, e tem como inovação um
consentimento do CREMESP de não tomar conhecimento de quem são os médicos em tratamento, pois
dois dos maiores receios são a perda da credibilidade profissional e as punições do Conselho. Completa,
se referindo ao progresso da comunicação e sobre como isso nos levou a uma realidade nova, em que
estamos sempre ligados, estressados e, de certa forma, sempre trabalhando, e de como isso tem
aumentado ainda mais os níveis de exaustão do profissional.
Outro professor presente na platéia esclarece uma dúvida pontual sobre um dado da apresentação
que fazia referência à atenção primária. O assunto foi esclarecido, mostrando que, em determinado
momento, havia uma comparação entre os problemas de saúde mental apresentados por médicos e
aqueles encontrados na atenção primária, na população em geral. Ele também apresentou dados bastante
positivos sobre a atenção primária, dizendo que vários estudos no mundo todo mostram que a medicina de
saúde e comunidade apresenta sempre uma das mais baixas taxas de complicações e doenças mentais, e
que pesquisas recentes do CFM também a apontam com a maior taxa de satisfação entre as
especialidades médicas.
Na última pergunta da platéia, feita por um médico de Passo Fundo presente na platéia, foi
perguntado o que está sendo feito como profilaxia para que o aluno não siga esse exemplo negativo de
trabalho em excesso, e também para que ele se prepare parar enfrentar o duro ambiente de trabalho.
O palestrante responde através de um exemplo prático que presenciou, na Faculdade de Marília,
onde há um grande projeto que divide as ações em 2 grandes grupos: programas com informações (fóruns,
cursos, etc) e programas práticos, como áreas de atendimento, apoio e tutoria. Além disso, os estudantes
tinham diversos direitos, entre eles de acesso a consultas médicas e com psicólogos, a fim de discutir as
questões que os preocupavam e angustiavam. Traz também a realidade da Faculdade de Medicina da
UFRGS, que em recentes alterações de currículo cedeu mais espaços para as disciplinas de Psicologia
Médica, nas quais são tratadas situações que muitas vezes são as grandes causadoras ou agravantes das
angústias dos médicos, como a relação médico-paciente e situações de desconforto e sofrimento, como
atender pacientes com doenças graves, dar notícias ruins e lidar com conflitos de interesse. Comenta
também que apenas aulas teóricas não são suficientes para situações desse tipo.
Após a exposição e discussão, ele agradece a todos mais uma vez, assim como faz o Professor
Mauro, agradecendo também muito ao palestrante e dando a palestra como encerrada.
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