ATENDIMENTO HUMANIZADO EM UNIDADE DE TERAPIA
INTENSIVA NEONATAL
Mércia Maria Fernandes de Lima Lira
Capítulo do livro Assistência ao Recém-Nascido de Risco, editado por Paulo R. Margotto,
2ª Edição, 2004 ([email protected])
INTRODUÇÃO
As Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) são locais onde se pratica
medicina de excelência em pacientes extraordinários.
O local é em geral repleto de equipamentos e rico em tecnologia.São muitos os
profissionais envolvidos nos cuidados como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas,
psicólogos, assistentes sociais entre outros.É contínuo o movimento de admissões, de
intervenções no setor. No meio dessas atividades se encontra o bebê. Alguns pesam menos
de um quilo.Todos necessitam de cuidados especiais. Necessitam de incubadoras para
mantê-los aquecidos, de oxigênio para evitar asfixia, de sondas ou cateteres para alimentálos.Tudo isto é necessário para mantê-los vivos.É inquestionável que a evolução da
tecnologia modificou o prognostico e a sobrevida dos recém-nascidos. No entanto os
mesmos sofrem em decorrência do nascimento prematuro, das patologias congênitas,
infecções adquiridas. A fragilidade da pele,a presença de tubos, sondas são causas de
sofrimento. Eles não estão preparados para tantos estímulos. Já não estão protegidos pelo
liquido amniótico, não sentem os batimentos cardíacos da sua mãe, não escutam o som da
voz costumeira. São outros os ruídos. São outras as vozes. Tudo é estranho, assustador.
Para os pais, a UTIN é um mister de esperança e de medo. Esperança por saber que este é
um local preparado para atender melhor o seu filho e aumentar as chances de sobrevida .
Medo por saber dos riscos inerentes aos pacientes que vão para a UTIN.Apresentam
também sentimento de frustração, por não estarem em geral preparados para esta
separação. Sonharam em ter um filho a termo, saudável e levá-lo para casa logo após o
nascimento.Poder cuidar do seu bebe.Estudo realizado por Seidmann, em 1997, revelou
ser um dos fatores mais estressantes para os pais a perda da sua função ou relação com o
filho, alterada pelos fatores que não permitem o manuseio, o toque, o cuidar.
A equipe de profissionais que trabalha na UTIN também é submetida a vários
fatores estressantes. O ritmo do trabalho é intenso, exaustivo.Há uma exigência crescente
de eficiência, de atualização de conhecimento. É necessário ter habilidade no manuseio
dos pacientes, na execução das técnicas.
Todos esses fatores têm acarretado conseqüências aos pacientes, familiares e
equipes das UTIN. Pesquisas têm sido publicadas sobre os efeitos da internação hospitalar
em crianças, e nos seus familiares e sobre as relações estabelecidas entre os profissionais
das UTIs e as famílias dos pacientes internados, entre os próprios profissionais, e com os
pacientes.
A internação é sempre uma situação estressante, principalmente se ela ocorre em
uma UTI, onde a associação com perdas e morte é , ainda hoje inevitável.
O conhecimento da realidade de que as UTINs são causa de estresse para os
pacientes , seus familiares e as equipes , até bem pouco tempo não era valorizado, mas no
momento está sendo responsável por uma mudança na visão do atendimento. A
preocupação hoje não se restringe a tratar a doença, mas para que a UTIN cuide do paciente
de modo que o mesmo não tenha seqüelas físicas nem emocionais. Assim há uma
consciência de ser essencial HUMANIZAR as UTINs.
FATORES ESTRESSORES
A compreensão dos fatores que produzem estresse na UTIN é crucial para o
planejamento das intervenções oportunas e eficazes.São muitos os fatores considerados
como estressores para os pacientes, familiares e equipe.
Para os recém-nascidos: Segundo Ricardo Silva, em 2002, o ambiente da UTIN pode
ser considerado como um ambiente de excessos. Há excesso de ruídos, de estímulos,
muitos em geral inadequados. Estes fatores associados a prematuridade e ou patologias
apresentadas pelo bebe, a dor que é produzida pelos procedimentos, pelos tubos,
sondas,juntamente com a perda do contato com o útero materno, com seus familiares,
podem desencadear a síndrome do estresse e seqüelas futuras como os déficits
motores,da aprendizagem, entre outros.
A dor é uma das principais causas de estresse presentes na UTI. .Em estudo realizado
com recém nascidos por Guinsburg, em 1998, foi observado que os pacientes quando
intubados,sem receber analgesia apresentavam alterações fisiológicas, comportamentais e
endocrinologicas decorrentes da dor, comprovando ser a dor uma causa de estresse .
Para os pais: pesquisa feita por Carter e Miles, em 1983, revelou o que os pais
consideram como estressores mais importantes presentes na UTIN: A aparência dos filhos,
ver tubos e sondas na boca e narinas das crianças, não receber noticias claras sobre a
evolução dos filhos, não conhecer a equipe, não poder participar dos cuidados dos filhos,
as visitas com tempo limitado, os equipamentos. Para a mãe dos pré-termos a situação é
agravada pelo fato dela não está em geral preparada para a interrupção da gravidez. Há
uma abrupta perda do contato mãe-filho, a internação na UTIN é prolongada e a interação
fica mais prejudicada.
Para a equipe: o trabalho na UTIN também é estressante para a equipe. Fadiga pelo
ritmo de trabalho em geral excessivo. Lidar com questões de vida e morte continuamente.
Questões éticas que impõem decisões freqüentes e difíceis. Ambiente fechado,alto grau de
exigência dos demais profissionais do Hospital, da família dos pacientes, e dos próprios
colegas da equipe pode acarretar desestruturação .
ALGUNS EFEITOS PRODUZIDOS PELA INTERNAÇÃO NA UTIN
É difícil caracterizar no paciente grave as alterações decorrentes do estresse
produzido pela internação considerando-se que as mesmas podem se manifestar através de
respostas fisiológicas , comportamentais e endocrinometabolicas semelhantes às alterações
decorrentes das manifestações produzidas por distúrbios hemodinâmicos secundários as
patologias, pela dor.
A resposta ao estresse no RN internado na UTIN pode se manifestar de várias
formas.
Podem ser observadas alterações fisiológicas manifestadas pelas alterações de
freqüência cardíaca que podem variar de< 120 a >160bpm, freqüência respiratória de<40
>60rpm, saturação de oxigênio (PSaO2) < 92%. Podem ocorrer alterações comportamentais
observadas pela fácies com músculos contraídos, olhos flutuando sem fixação ocular, pela
característica do choro, pela postura no leito que pode apresentar flacidez de braços, pernas,
troncos ou extensão ,contorcionamento ou arqueamento. Sustos bocejos e espirros
freqüentes,dedos afastados ou mãos cerradas.Alterações endócrinas metabólicas,
observadas através de alterações dos chamados hormônios do estresse como glicemia ,
cortisol, hormônio do crescimento. Devemos estar atentos aos sinais e sintomas
apresentados pelo bebe, e principalmente tentar detectar os fatores que desencadeiam essas
alterações para adotar medidas preventivas e mais adequadas.
INTERVENÇÕES QUE DEVEM SER ADOTADAS NAS UTIN PARA
HUMANIZAR O ATENDIMENTO
É inquestionável que a atuação no âmbito da recuperação física do paciente na
UTIN é prioridade, mas existe a consciência da necessidade de se utizilar meios para
combater o estresse em todo o seu contexto. Sabemos que o estresse, resposta não
especifica do corpo a uma demanda, desencadeia reações que inicialmente podem ser
benéficas , mas se persistirem, serão responsáveis por aumento da morbidade e mortalidade
dos pacientes. Por estas razões, medidas devem ser adotadas, de acordo com a realidade e
possibilidade de cada UTIN, para diminuir os efeitos negativos e ou problemas
psicoemocionais, comportamentais, motores, desencadeados pela doença e ou permanência
na UTIN. Citaremos medidas já adotadas em algumas unidades que contribuem para tornar
as UTIN mais humanas.
Medidas gerais
-Revisar o espaço físico destinado a UTIN, verificando possibilidade de torná-lo mais
agradável, funcional, dotando-a de iluminação natural, climatização adequada, com
menos ruídos.
- Dotar a unidade de equipe multiprofissional, com o concurso de fisioterapeutas,
psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais entre outros,para atender pacientes,
familiares e a equipe que também necessita de apoio, ajuda nos momentos dificies
- Instituir reuniões com os pais/ equipe multidisciplinar para debater as situações novas
vivenciadas pela família ,as dificuldades existentes , compartilhar experiências, e fornecer
apoio psicológico aos pais e equipe.
- Ter uma sala de espera para os familiares (exigência contida na PT/MS 3432),
confortável, acolhedora .
- Um profissional de referencia a quem o familiar possa recorrer no esclarecimento de
duvidas torna os pais mais confiantes na equipe e no tratamento do seu filho .
-Permitir que os pais participem de alguns cuidados ao bebe, proporcionado-os a prática da
parentalidade.
-Fornecer informações aos familiares de forma clara, compreensível, em linguagem simples
contribui para maior compreensão sobre o estado e evolução do bebe, produzindo
tranqüilidade aos pais.
-Ser sensível às necessidades individuais do paciente, família..
Para o bebe
- A atenção ao paciente deve ser individualizada.
-Preconiza-se o uso do Programa de Avaliação e Cuidados Individualizados para o
Desenvolvimento do Neonato (NIDCAP) que constitui uma filosofia de cuidar que envolve
todas as pessoas e todos os fatores que direta ou indiretamente interagem com o bebe e
promove o profundo relacionamento entre cuidadores e o bebe. Significa aprender como
observar os comportamentos dos bebes (suas competências e dificuldades) e usar essas
observações para oferecer-lhes cuidados individualizados. É a passagem dos cuidados do
bebe para os cuidados com o bebe.
-Controlar a dor com terapêutica adequada. A dor é um dos maiores fatores estressores e
responsável por muitas alterações comportamentais, fisiológicas e endocrinológicas, e deve
ser tratada de forma eficaz (consulte o capítulo Dor Neonatal)
-Permitir permanência dos pais na UTIN (direito assegurado pelo ECA) e ou visitas com
horários mais flexíveis.Criar oportunidade do contato pele a pele.Fator essencial para
interação pais-filho e fortalecimento dos laços afetivos.
É importante entender que para Humanizar o atendimento ao paciente é necessário ocorrer
a melhoria do relacionamento entre o Hospital de maneira geral e seu usuário, e que isto
não depende exclusivamente de técnicas, mas sobretudo de uma política de ação na qual
não se omita o esforço da humanização de seus serviços, posto que a humanização é a
característica fundamental de uma administração eficaz. A humanização não resulta apenas
da aplicação de recursos materiais mas essencialmente da mudança de atitudes dos recursos
humanos envolvidos no processo. Daí a importância de que o trabalho possa abranger todos
os níveis de responsabilidades, ou seja a equipe técnica, os próprios pacientes e seus
familiares.
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introdução - Paulo Margotto