O edifício do GCS Razões para não usar borracha

Propaganda
6 opinião
terça 9.10.2007
O edifício do GCS
Razões para não usar borracha
J
Mário Duque (Arquitecto)
[email protected]
S
obre o edifício da antiga sede do Gabinete de
Comunicação Social recai uma aptidão que parece
óbvia.
Se Macau tem alguma expectativa de vir algum
dia a ter um Clube do Correspondente Estrangeiro,
à semelhança de outros congéneres, ocorre que
deva ser um sítio central e não ocorre sítio mais
óbvio do que ali.
Clubes de Correspondentes Estrangeiros,
nomeadamente no modelo de Hong Kong ou de
Phnom Pen, são lugares que tendencialmente geram
tradição e grande dinâmica social e cultural pelo
tipo de público que atrai.
É um tipo de actividade predominantemente
cosmopolita e naturalmente uma expectativa que
se deseja no centro das cidades.
Além disso, foi exactamente com um alcance
muito semelhante que o edifício foi inicialmente
desenhado, para profissionais de comunicação, e
teve os últimos pisos desenhados com residências
para acomodar temporariamente jornalistas e
repórteres.
Por volta de 1996 remodelou-se o espaço de
Mezzanino exactamente com a finalidade de ponto
de encontro para a imprensa.
Admite-se que existam “oportunidades de ouro
para o Governo fazer algo pelo património e de carácter amplamente popular” mas que não seja à custa
de ignorar o que é a vocação de um centro urbano
e de aí deixar de assegurar funções nomeadamente
de representação, que lhe um conferem sentido de
elaboração e de relação cosmopolita.
á a substituição do edifício, por as construções
demasiado modernas não se enquadrarem com as
tradicionais na zona, é uma ideia que é susceptível
de causar alguma urticária intelectual.
Adalberto Tenreiro, in disciplina de Estudos
Visuais, 2002, Faculdade de Arquitectura, Universidade de Hong Kong, explica que “Ao apagar
interrompe-se a continuidade do processo de
concentração do desenho. As linhas do desenho
não têm todas necessariamente uma conjugação
perfeita em reporte ao objecto do desenho. Admitese até que muitas das linhas, parecendo erradas,
são antes linhas com marca da personalidade
de quem interveio no momento de geração do
desenho.”
“Não são, por isso, linhas propriamente erradas
e na maior parte dos casos até são linhas em que o
desenho se suportou no seu desenvolvimento.”
“Quando o desenho está terminado e é observado, a nossa visão tem a capacidade de seleccionar
a relevância de cada linha e aquelas que resultam
menos relevantes, escondem-se por si.”
“No caso do desenho de apresentação” (desenhos que geralmente são aqueles que são tornados
mais acessíveis ao observador menos treinado),
Adalberto Terreiro admite que “essas linhas possam
ser apagadas uma vez o desenho concluído”.
Isto é claro, orientador, relevante e útil para a
nossa relação visual com o mundo que nos rodeia.
Também se rejeita a ideia que o desenho da
cidade possa caber na categoria de um desenho
de apresentação, isto porque na cidade vivem as
pessoas dessa cidade e não figurantes. Pessoas
que contribuem de muitas maneiras para a geração desse desenho, que por sua vez também
não têm todas a mesma conjugação com esse
enquadramento.
E porque a cidade sequer é um desenho concluído, ocorre que a supressão dessas linhas só pode
significar a supressão da marca da personalidade
que interveio na geração da cidade.
Esta abordagem também não colide com a
questão cultural e patrimonial cujo consenso global
é antes que, no mesmo edifício histórico (admite-se
também, na mesma cidade), é normal que tenham
tido lugar intervenções de diversos períodos. Uma
campanha de restauro deve estar atenta a isso,
identificando e suportando-se no conhecimento dos
intervenientes, das tecnologias e dos conceitos orientadores do desenho, presentes na construção.
Isso é diferente do entendimento purista do
passado em matéria de restauro, em que os trabalhos adoptavam o estilo predominante do edifício,
muitas vezes o estilo cuja ideologia os estados nesses
momentos mais se identificavam, subtraindo as
intervenções doutras épocas.
Além disso, a ideia de substituir edifícios que,
por serem demasiado modernos, não se enquadram com as construções tradicionais, não está
muito distante da ideia de rescrever a história nas
partes que achamos que não são consistentes com
o enquadramento que em determinado momento
achamos que deva constar.
E só não incorre nessa responsabilidade porque
o alcance é meramente cosmético, serve só para a
fotografia, não é uma ideologia, é antes um vício.
Da última vez que em Macau alguém achou
que se “deveria fazer outra construção no local
porque a actual traça de cariz mais moderno, não
se enquadra com as construções neoclássicas circundantes”, foi nomeadamente no largo Senado e
resultou assim:
Download