- Seminário Concórdia

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IGREJA LUTERANA
(ISSN 0103-779X)
CONSELHO EDITORIAL: Acir Raymann, editor
Elmer N. Flor Gerhard
Grasel Martim Carlos
Warth Vilson Scholz
DIRETOR GERAL: Hans Horsch
ASSISTÊNCIA ADMINISTRATIVA: Cláudio A. Kaminski
PROFESSORES: Acir Raymann, Chrisliano Joaquim Steyer, Elmer N. Flor,
Gerhard Grasel, Hans-Gerhard Rotlmann, Hans
Horsch, Martim Carlos Warth, Vilson Scholz, Walter
Otmar Steyer
PROFESSORES EMÉRITOS: Arnaldo J. Schmidt, Arnaldo Schueler, Johannes H. Rottmann, Otto A.
Goerl
IGREJA LUTERANA (ISSN 0103-779X) é uma revista semestral de
teologia publicada pela Faculdade de Teologia do Seminário Concórdia,
da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), São Leopoldo, Rio
Grande do Sul. Toda correspondência relativa a alteração de endereço,
assinaturas, recensões bibliográficas, per-muta deve ser endereçada a:
Revista IGREJA LUTERANA
Seminário Concórdia Caixa Postal,
202 93.030 São Leopoldo, RS
IGREJA LUTERANA
VOLUME 50
1991
NÚMERO 2
INDICE
EDITORIAIS
Nota do Editor..............................................................
128
ARTIGOS
A Pregação do Consolo na Igreja de Deus
Elmer N. Flor ...............................................................
130
"Paraklesia" — Consolação na Cura de Almas
Gerhard Grasel ...........................................................
145
O Pastor Preparado para Consolar
Christiano Joaquim Steyer .............................................
170
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS ......................................................
182
DEVOÇÕES ..........................................................................
274
LIVROS ...............................................................................
290
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
127
EDITORIAIS
Nota do editor:
Você está recebendo o segundo número do qüinquagésimo ano
de Igreja Luterana com uma novidade. Igreja Luterana possui agora o
seu Número Internacional Normalizado para Publicações Seriadas
(ISSN) outorgado pelo Sistema Internacional de Dados sobre
Publicações Seriadas (ISDS), que opera uma rede de centros nacionais e
um centro internacional sediado em Paris. Por meio deste código (ISSN
0103-779X) Igreja Luterana está sendo colocada no palco internacional
das revistas e periódicos. Ligada a um sistema automatizado, ela está à
disposição de leitores, bibliotecas e editores do mundo todo.
É tempo, pois, de continuar a pensar grande. Não apenas
geográfica e culturalmente como também — e em especial no que
respeita a nós — teológica a pastoralmente. É nesta dimensão que
apresentamos neste número três artigos direcionados para um
segmento primordial no Santo Ministério: o aconselhamento pastoral. No
primeiro artigo ("A Pregação do Consolo na Igreja de Deus") o Prof.
Elmer Flor faz uma retomada panorâmica para demonstrar a
abrangência do consolo na Escritura e, a partir dela, historicamente, na
vivência cristã até nossos dias, culminando com a imperiosidade do
consolo na pregação. Na "Paraklesia — a Consolação na Cura de Almas"
o Prof. Gerhard Grasel chama a atenção para o aconselhamento que
pode ser efetuado por membros da congregação. Seu enfoque,
entretanto, é ressaltar a importância de que se reveste o aconselhamento no oficio pastoral e na vida do próprio Ministro de Deus.
Num terceiro momento, ao falar sobre "O Pastor Preparado para
Consolar", o Prof. Christiano J. Steyer vincula um aconselhamento
pastoral adequado à fidelidade do ministro à sua vocação e às Sagradas
Escrituras bem como a uma maior ponderação acerca do ofício
ministerial por parte do povo de Deus.
Os três artigos são um desafio à reflexão. Vez por outra você
talvez encontrará similaridade nas colocações. É natural. Embora
visualizado de diferentes perspectivas, o assunto é enfocado a partir de
uma mesma realidade histórica e, como em Jeremias e Ezequiel, as
"profecias" podem estar próximas na parecença.
128
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
Por solicitação de pastores, voltamos a publicar algumas
devoções proferidas por professores ou pastores na capela do Seminário
Concórdia. É uma forma de nossos leitores terem uma amostra do que a
família concordiana vivência no seu encontro diário para o louvor a seu
Deus e Salvador.
Que o SENHOR abençoe a sua leitura. A gente se encontra na
abertura da segunda metade do século de Igreja Luterana. Se Deus
quiser. — AR
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129
ARTIGOS
A PREGAÇÃO DO CONSOLO NA IGREJA DE DEUS
Elmer Flor*
1.
INTRODUÇÃO: ESPERANDO A CONSOLAÇÃO DE ISRAEL
A respeitável figura de um ancião se levanta no templo de
Jerusalém, tendo nos braços uma criança de quarenta dias. Era um dos
poucos judeus crentes que estavam esperando a consolação de Israel,
prometida através dos profetas, cujas vozes, no entanto, haviam
silenciado há cerca de quatrocentos anos. Seu nome: Simeão, talvez
filho de Hillel, talvez pai de Gamalicl. Sua identidade: um homem de
Jerusalém, homem justo e piedoso, que esperava a redenção de
Jerusalém. E o Espírito Santo estava sobre ele. Com o Salvador
prometido nos braços, retorna por esse instrumento de Deus o espírito
profético. A presença do Messias, o cumprimento da profecia, abre os
lábios do aneião-profeta para proferir uma das orações de despedida
mais tocantes da história bíblica. Com o Nunc Dimitlis soa o canto do
cisne de um velho guerreiro do povo de Deus. Uma velhice abençoada,
a promessa de ver o Cristo, a oração fervorosa, uma profecia
ecumênica, uma morte tranqüila: o que mais pode desejar um fiel servo
de Deus? A consolação preparada para todos os povos se cumpre em
Jesus Cristo e é anunciada por seus mensageiros até hoje.
Simeão é modelo do pastor que se despede do rebanho com a
certeza da missão cumprida. É também modelo do pastor que se inicia
na tarefa da pregação do consolo de Deus. Ele é modelo de todo
ministro que se dedica a revelar o Salvador a seu povo, para equipá-lo
com a necessária esperança de vida. Como Simeão, o pregador tem e
proclama a promessa de eirêne (paz), sotería (salvação), apokálypsis
(revelação) e dóxa (glória) de Deus aos homens, a quem Ele quer bem.
2.
A CONSOLAÇÃO ATRAVÉS DOS TEMPOS
2.1
No Mundo Pagão Antigo
A necessidade de consolo é tão antiga quanto o próprio homem
caído em pecado. Embora o homem natural queira, por
* Rev. Elmer N. Flor, STM, é professor de Teologia Exegétiea no Seminário
Concórdia desde 1978 e também Deão Acadêmico.
130
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
todos os meios, negar a sua carência de paz e consolação e tente
solucioná-la a seu modo, sempre se buscou, na história, uma forma ou
outra de enfrentar as crises e depressões pessoais. Entre as várias
maneiras de consolar destacam-se as de ordem racional e de domínio da
mente, com o objetivo de fazer parar as lamentações e a dor. O vinho, a
música, danças, diversões e o próprio sono estavam entre as formas de
buscar alívio. Na religião, os povos têm buscado consolação em mitos,
lendas e histórias de seus deuses, juntando aos mitos as idéias de
mistério e da vã promessa de vida na companhia da divindade.
A idéia dos epicureus na busca dos motivos para consolo emana
basicamente de sua antropologia filosófica. O ponto de partida é a
convicção de que a morte é a terminação absoluta, significando,
portanto, total ausência de percepção. Como o nascimento ocorre da
não-existência, assim a morte conduz de volta a ela. 0 consolo positivo
concentra-se sobre a vida presente. É preciso pensar em cada dia como
se fosse o último; assim se pode considerar cada nova hora como um
presente.
Os filósofos antigos da escola clássica invocaram os mais diversos
motivos de consolo. Lembrar a sorte do falecido, por exemplo, com
respeito a sua longevidade, é motivo de consolo. Longa est vita, si plena
est. Lembrar o bem que resta aos enlu-(ados, cm especial o exemplo e a
memória do bem praticado por alguém que partiu. Lembrar a duração
da vida humana em confronto com a duração do Universo é fonte de
consolação. Lembrar a universalidade da morte (koinós nomos — lei
geral), que se estende como consoladora de boca em boca, de túmulo
em túmulo, pode consolar.
Um princípio mais sólido para a motivação do consolo, nos
filósofos gregos, foi o pensamento na imortalidade da alma, em Platão,
Plutarco e outros: os bons não estão mortos. A morte pode, por isso, ser
o nascimento para uma existência interminável. A vida é apenas uma
passagem de uma eterna pré-exis-tència a uma eterna pós-existência. A
morte é a volta ao lar, às alturas iluminadas, de onde a alma um dia
desceu para habitar temporariamente na prisão do corpo. O mundo é
mau, a terra é um vale de lágrimas, e o corpo pesa como um fardo
sobre a alma (pondus animae — confira-se Sêneca, Epístola 65,16). O
sofrimento terreno tem seu lado positivo: é o pressuposto inconfundível
da recepção da alma do além (Idem, Diálogos, VI, 18,8). Com ênfase
especial os consoladores se referem a um melhor porvir, para o qual se
dirigiu o falecido. Apesar de todos esses apelos e propostas de
consolação, não se encontra na mitologia uma divindade, cuja função
fosse a de consolar. Do governo, dos cuidados e da amizade dos deuses
não se tirava, via de regra, razões de consolo.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
131
De todas as propostas de consolo acima aventadas, ainda hoje
repetidas com freqüência, emana um quê de incerteza, de irrealidade e
até mesmo de desconfiança do consolador. A própria idéia de uma vida
pós-morle, que aparece em alguns pontos, não passa de uma mera
hipótese metafísica. Resumindo, em, todos os filósofos e teóricos
seculares observa-se uma profunda carência de esperança e consolo.
Embora chamassem os mortos de "felizes" e a morte de "redenção",
essa posição encara a vida como sendo sem sentido. A morte é, pois, a
libertação do mal da vida. Do ponto de vista cristão, os enfoques
aludidos são lamentáveis. A consolação que Deus proveu em Cristo e
que nos anuncia na sua Palavra, a Bíblia, é algo completamente diferente que se põe à disposição dos homens. É crer para ver.
2.2
No Antigo Testamento
O verbo hebraico mais usado no Antigo Testamento para
expressar a ação de consolar c nicham, já em sua forma de perfeito do
Piel, o grau intensivo do verbo, em que mais aparece. A forma
nachamu, "consolai", em Is 10.1 e lema da IELB no biênio 90/91, está
igualmente no Piei, o que por si só já exprime a intensidade que vai na
mensagem de consolo. Acresce a isso que é um imperativo,
expressando ordem e urgêneia. E como se não bastasse, o verbo vem
repetido na seqüência, denotando, pois, ainda, continuidade na ação de
consolar. Confortar é obra própria de Deus. Fora dele, conforme o Sl,
não há con-soladores, c toda busca de consolação iniciada pelo homem
é vã (Lm 1.2, 9.16, 21; Ec 4.1). Isaías usa metáforas para transmitir a
idéia de consolação e do consolador: pastor (Is 40.11) e mãe (Is 66.1113). Os filhos de Jerusalém serão consolados em seus braços e sobre
seus joelhos serão acalentados. A consolação é também o cerne da
promessa futura de redenção do povo de Deus.
Os mediadores do consolo divino, no Antigo Testamento, eram,
de forma especial, os profetas. No consolo que deveriam anunciar da
parte de Deus estava presente todo o conselho divino, que era severo e
punitivo sobre os impenitentes, mas aos crentes sempre se traduziu na
mais pura consolação. A palavra de Deus pelos profetas era uma espada
de dois gumes: a pregação de consolo causava, ao mesmo tempo, o
desconforto para quem não a aceitasse. Para estes a pregação de
consolo caia no vazio, significando desolação absoluta e rejeição final.
A Setuaginta usa o termo paraklêtoos em Jo 16.2 para
"consolador", uma variante do termo neo-testamentário parákle-los. A
prova maior do consolador eficiente, ainda de acordo com Jo, é a honra
de estar "como rei entre as suas tropas." (Jo 29.25) O termo
neehamah, "conforto", "consolo" (SI 119.50) foi usado
132
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
no judaísmo posterior para definir a salvação ou consolação messiânica.
0 nome próprio menachem, Menaém, de um dos últimos reis do Reino
do Norte (2 Rs 15.14), significa "confortador", e é a forma do particípio
do Piel da raiz nchm. Este nome cristalizou-se como sinônimo do
Messias-Consolador de Israel, o centro das esperanças do povo de Deus.
Jesus, ao denominar-se parákletos em Jo 14.16; 1 Jo 2.1), "consolador",
"advogado", pode ter tido em, mente esse cognome. Ainda o nome do
profeta Naum (nachum) significa "conforto".
Uma raiz análoga para expressar, no hebraico, a idéia de consolo
é nûach, que significa "descanso". Daí surgiu o nome de Noé (noach),
cujo significado é dado pelo próprio pai La-meque, ao justificar sua
intenção quando deu o nome ao filho. Essa passagem tem sido
interpretada como expressando a esperança messiânica do patriarca:
"Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas
mãos..." (Gn 5.29) Noé, por seu ofício de pregador, ao mesmo tempo
do juízo do dilúvio, como da salvação disponível nos 120 anos de graça,
é uma espécie de precursor e protótipo do Messias e Consolador. A
dupla idéia de lei e evangelho presente na pregação do consolo bíblico
pode ser detectada na expressão do Sl 23.4: "a tua vara (como lei que
dirige, retifica) e o teu cajado (como evangelho que resgata, recupera)
me consolam.'"
2.3
No Novo Testamento
0 Novo Testamento usa o termo parakaléoo como expressão de
um dos aspectos da idéia de "consolar", ao lado de paramyléomai
usado mais especificamente no sentido de persuadir, animar, estimular,
acalmar. Parakaléoo é a tradução preferencial da LXX para o nitfiám
hebraico. Ainda que parakaléoo tenha diferentes significados (clamar,
convocar, convidar, orar, pedir, exortar), este último é o que
prepondera no Novo Testamento. Parakaléoo se aplica, no Indicativo,
ao Quêrigma, termo técnico para a ação de anunciar, no caso, o
consolo (trõsteti) e oferecer ajuda. No Imperativo, o mesmo termo se
aplica à Pa-renese (mahnen), que envolve a admoestação e exortação
fraternal. Em particular nos Atos dos Apóstolos e nos escritos pau-linos,
parakalein expressa a exortação através da pregação da palavra, no
poder do Espírito Santo. Isso se prova eloqüente em 2 Co 5.20: "De
sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus
exortasse (parakalüntos) por nosso intermédio." Vale ainda lembrar
que Paulo faz uso do termo em 1 Ts 2.3, "a nossa exortação", como
substantivo que expressa a proclamação missionária, e em Fp 2.1,
"alguma exortação cm Cristo", como fórmula para introduzir a
admoestação pastoral.
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133
Confronte-se ainda o uso dos termos afins em 1 Co 14.3,
exortando (parákleèis) e consolando (paramijtía), e 1 Ts 2.12,
consolamos (paramytéomai) e admoestamos (martyróo), em, que
termos afins são usados na proclamação de salvação, sob forma de
súplicas, exortação e consolo intermitentemente, de modo que se torna
um tanto difícil distingui-los em clareza. As duas formas mais comuns
de exortação, contendo os elementos de súplica e de encorajamento,
expressam a expectativa da ajuda divina aos que sofrem. Acima de
tudo, pois, apontam para o verdadeiro Consolador, o Senhor Jesus, e o
Espírito Santo, que ele nos enviou. Resumindo o Antigo e o Novo
Testamentos, Paulo afirma em Rm 15.4: "Pois tudo quanto outrora foi
escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência, e
pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança."
O Apóstolo Paulo, ao distinguir as funções dos membros da igreja
do Novo Testamento, e ao definir os dons que foram concedidos por
Deus a seus líderes, identifica o carisma da exortarão pastoral (Rm
12.8). Esse dom da paráklesis pertence à esfera do ofício profético ou
ao ministério eclesiástico, repetindo a incumbência divina aos profetas
na palavra: "Consolai o meu povo!" O Apóstolo encarrega seu discípulo
Timóteo a exercer esse aspecto do ofício pastoral junto aos
tessalonicenses, (1 Ts 3.2) a quem ele próprio visitou por primeiro como
um pai que exorta, consola c admoesta a seus filhos. (1 Ts 2.11, 12)
2.4
Nos Pais Apostólicos
Clemente de Alexandria, um dos pais pré-nicenos, e que viveu
cm Alexandria, no norte da África, na virada do segundo para o terceiro
século da era cristã, cristianizou a distinção feita por Posidonius e
Sêncca, no que respeita à consolação. Divisou nesta os seguintes quatro
aspectos:
a. pracceptio (didaskalikós), preceito, prescrição, recomendação, doutrina, ordem, parte precípua;
b. suasio (hypoletikós), ação de persuadir, aconselhar;
c. consolatio (paramytetikós), consolar;
d. exhorlatio
(prostreptikos), ato de exortar, encorajar,
animar.
Desenvolveu-se nesta época da história uma atitude sadia frente
à morte, que vale a pena registrar: o sepultamento cristão se
caracterizou por agradecimento c esperança. À cremação, bastante
usual no império romano, preferiu-se o enterro, por denotar melhor a
idéia da ressurreição, para conforto dos crentes.
134
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
O pensamento pagão de consolo como estancamento da dor,
orientado pela lei, o "pára de chorar" ou "lamentar-se é vão" foi
substituído pela mútua consolação, com base no Evangelho.
2.5
Na Idade Média
Com o aparecimento das heresias, já no primeiro milênio, e com
o surgimento do papado, implanta-se na igreja a teologia da dúvida,
conscientemente explorada para exercer a dominação dos fiéis. A
doutrina romana subtraiu à igreja da época a certeza da salvação e a
alegre esperança no Deus Consolador, especialmente em dias de
dificuldade e na hora da morte.
A mística medieval, tendo como um de seus representantes o
Mestre Eckhart, em seu tratado "Benedictus Deus, resume os aspectos
de tentação e consolo da seguinte forma:1 1º Estar unido com Deus
significa permanecer insensível a toda dor. Nenhuma criatura pode
prejudicar a quem está pleno de Deus. 2" Sofrimento bem, tolerado
transforma-se de fardo em bênção; constitui-se uma plenitude de
valores o fato de reconhecer a provação como presente de Deus,
produzindo persistência, favor divino, e proximidade de Deus em Cristo;
purifica a nossa obediência e o amor a Deus; acompanham-no a
promessa de alegria eterna, tornando-nos dignos da salvação eterna. A
abordagem do pecado é feita com, lamento e dó, e a culpa concreta é
praticamente negada. De pecado fala-se apenas de forma hipotética e
de passagem. Estar perfeitamente unido a Cristo traz ausência de dor e
é o objetivo maior do crente. Esta immitatio Christi e os escritos
escolásticos sobre consolo convergem para um ascetismo total, numa
fuga do mundo e de suas ordens e ofícios. Nada é mais certo que a
morte, nada é mais incerto que a hora da morte. Esta abordagem
legalista aterrorizou as consciências e vidas, infundindo nelas o temor
diante de Deus, ao invés de amor, esperança, consolo. Johannes Tauler
foi mais comedido, e alguns de seus sermões sobre tentação c consolo
foram até mesmo elogiados por Lutero.
2.6
Na Reforma Luterana
Diante da situação acima exposta, não é de admirar que a
Reforma desencadeou-se, em parte, com a procura, por Lutero, da paz
de alma e da certeza de salvação. Ao explicar Is 45.15, expõe o "Deus
misterioso" ou abscôndito, como segue: "Tudo está cheio de problemas,
mas os que olham para a Palavra permanecem de pé e se sentem
seguros. Por isso o profeta o chama "Deus misterioso", pois sob a
maldição está escondida uma bênção; sob o reconhecimento do pecado
há perdão e justiça;
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
135
sob a morte há vida, sob a aflição há consolo. Mas você precisa
olhar para a Palavra a fim de descobri-lo. Pois os que não têm
a Palavra, seguem seus próprios sentimentos e permanecem sem
consolação em seu pranto e dor.2 O supremo conforto, de acordo
com Lutero, é a verdade: "Ele não poupou a seu próprio Filho."
Certamente ele não o fez em vão. Consideremo-nos, por isso,
santificados e salvos, o que se provará quando Cristo se revelar.. .
Ele acresce a este benefício tudo o que possui".3
Lutero se debruça sobre o conceito c o conteúdo do consolo em
um sermão com base no texto de Romanos 15. Diz o
seguinte:
É uma pena que tantos homens carentes de consolo não se voltem às
Escrituras! O que é que são mesmo os melhores livros escritos por
homens, em comparação com o Livro no qual Deus mesmo fala ao
coração? Certamente não é possível confortar alguém, a não ser
que escute e aceite a palavra de seu Deus.4
Em uma de suas cartas, escrita em 1532, assim se expressa,
definindo inclusive a condição do emissor humano de consolação:
0 consolo de alguém é tão forte quanto a sua fé, e a fé vem pelo
uso da Palavra e dos Sacramentos. Por isso, a pessoa que está
alarmada com a fraqueza de sua fé, deve dirigir-se às Escrituras,
não duvidando de que até mesmo uma fé fraca faz de um ser
humano c natural um verdadeiro filho de Deus.5
Apenas quando Lutero encontro a paz que se encontra no perdão
de Cristo, entendeu que o conforto que homens prometem, por mais
grandiloqüente, é apenas exterior e calcado nas emoções humanas
antes do que nas Escrituras. O consolo da parte de Deus, no entanto,
consiste e se fundamenta em sua Palavra e promessas, sem que,
necessariamente, se veja, ouça, apalpe.
2.7
Nas Confissões Luteranas
As Confissões Luteranas, ao abordarem o tema consolatio,
partem do princípio de que o homem, para ser consolado, deve ter
antes ouvido a voz da lei de Deus. A situação natural do ser humano é a
de quem "desconfia de Deus, confia nas coisas presentes, procura o
auxílio humano na calamidade, até contra a vontade de Deus, foge às
aflições, que deve tolerar por causa da ordem de Deus, duvida da
misericórdia de Deus".6 A Apolo-gia da Confissão de Augsburgo chama a
lei e o terror que ela
136
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
produz no homem de obra estranha de Deus, porque a obra própria de
Deus é vivificar e consolar. Diz textualmente:
Deus terroriza a fim de que haja lugar para consolo e vi-vificação,
porque corações seguros, e que não sentem a ira de Deus,
enfastiam-se da consolação. Desta maneira a Escritura costuma
unir terrores c consolo, para ensinar que no arrependimento há
estas partes principais; contrição e fé consoladora e justificante.7
A Fórmula
de Concórdia, na Declaração Sólida, Artigo V, "Da Lei e do Evangelho",
coloca com muita propriedade:
Por isso o Espírito de Cristo não deve apenas confortar, mas, pelo
oficio da lei, também "convencer o mundo do pecado", (Jo 16.8)
e assim deve fazer no Novo Testamento (como diz o profeta)
opus alienum ut faciat opus pro-prium, (Is 28.21) isto é, deve
fazer obra estranha (que é reprovar), até que venha ao seu ato
próprio, isto é, consolar e pregar sobre a graça8
É nesta pregação da graça de Deus e no poder do evangelho de
Cristo que a Igreja deve basear sua pregação como "ato próprio" ou
atividade-fim de seu ministério. Os Artigos de Esmalcalde atestam que
"o Novo Testamento retém e promove o ofício da lei, que revela o
pecado e a ira de Deus. Mas a esse ofício acrescenta imediatamente a
promessa da graça pelo Evangelho"9
O consolo na pregação — é a aplicação do lema da IELB ao
trabalho e à prática pastoral como atribuição precípua de Deus a seus
profetas de todos os tempos e ponto alto dós estudos do presente
concilio. Quer-se, por isso, estudar com mais vagar o consolo que deriva
da promessa de Deus a seus crentes do Antigo Testamento, conforme
consta no livro do profeta Isaías, e em especial no assim chamado "Livro
da Consolação" ou segunda parte dos escritos do profeta, capítulos 1066. 0 consolo divino quer estar presente na pregação da igreja era todas
as suas áreas, na adoração, no ensino, na comunhão, no testemunho c
no serviço cristãos. Aprimorar a pregação dos púlpitos luteranos é, pois,
tarefa constante de todo ministro de Deus que zela pelas almas que lhe
são confiadas.
3.
A PREGAÇÃO DO CONSOLO COMO TAREFA DA IGREJA
3.1 A Importância do Antigo Testamento na Pregação
Visto que o lema 90/91 da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
(IELB), é palavra do Antigo Testamento, cumpre coloIGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
137
cá-lo primeiramente dentro de seu todo. Fazendo-o, quer-se promover o
crescimento na apreciação do AT, em especial no seu uso na pregação e
no ensino da Igreja, bem como ajudar na atividade pastoral da
consolação do povo de Deus na atualidade. O AT não é apenas uma
complementação introdutória do Novo Testamento, e sua validade não
se limita ao que Lutero definiu como "was Christum treibet", isto é, no
que se refere ao Cristo prometido. Também não é assim que o AT
apenas "contém" palavras de Deus, senão que ele é, inteiramente, a
Escritura divina. Os profetas não são, como se prefere usá-los, revolucionários em favor de causas humanas. O Deus do Universo, que sentiu
a importância de visitar este seu mundo caído na pessoa de seu próprio
Filho, achou importante entregar-nos cm sua Palavra esse sistema de
significados c comunicar-nos seus valores e julgamentos.
0 ministro da palavra que deseja cumprir cabalmente o seu
ministério, e em especial a tarefa de pregador, não pode prescindir do
AT para anunciar "todo o conselho de Deus" (At 20.27), especialmente
porque nele se encontram os fundamentos da promessa divina que se
cumpriu em Cristo. Ele próprio baseou seus sermões e ensinos nas
Escrituras do AT. Também, pudera! Não havia outras! Igualmente os
evangelistas e apóstolos, João, Pedro, Paulo e outros, tomaram o AT
como iniciação à revelação e verdade cristãs. Muitos anos se passariam
até que se completasse o Novo Testamento e este se tornasse parte do
cânone da Escritura. A mensagem do AT é, antes de mais nada, um
poderoso instrumento de propriedade do ministro cristão, tanto na
declaração da lei do Senhor, como na interpretação da história, na
proclamação profética, c na melhor sabedoria de todos os tempos.
3.2
Barreiras para a Pregação de Textos do AT
Na revisão dos motivos que, através dos tempos, ocasionaram o
afastamento do AT dos púlpitos nas igrejas cristãs, costuma-se alegar a
existência de quatro "H" como barreiras principais: heresia,
historicismo, hermenêutica e o hebraico. Estas barreiras, somadas à
apatia c ao comodismo de estudiosos e pregadores, à ignorância do
texto bíblico e das línguas originais, ou ainda devido a uma veterofobia
descabida, têm impedido que a Cristandade desfrutasse mais e melhor
de dois terços do texto sagrado.
Torna-se, pois, necessário recuperar a perspectiva histórica na
abordagem do AT, sob pena de incorrer-se nos mesmos erros do
passado. Tome-se por exemplo a lição da heresia que atentou contra a
doutrina pura que emana da Bíblia. Quando a Igreja Cristã engatinhava
seu primeiro século, já um movi138
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
mento filosófico chamado gnosticismo infestou o ar. 0 Deus do AT era
considerado um "demiurgo" e uma "divindade raivosa", completamente
distinta do Deus do NT. Era preciso optar. Este movimento afetou, no
segundo século, um erudito de nome Marcião do Ponto, convertido ao
Cristianismo, que se cansou do AT e decidiu ensinar que o mesmo não
lhe dizia respeito. Marcião começou a fazer uma distinção rígida entre a
lei do AT e o evangelho do NT. Os dois não se misturam, afirmava.
Seguindo sua linha de raciocínio, Marcião sentiu que, abolindo o AT,
teria de extrair também do NT tudo o que refletisse o mesmo ponto de
vista. O resultado foi que se reduziu o NT praticamente às cartas de
Paulo, retrabalhadas por ele. Como também, Paulo expõe e defende
muitas posições do AT, Marcião passou a censurar o próprio Apóstolo e a
purgar o que restava do NT de todo e qualquer elemento judaico. A obra
apologética de Tertuliano de Cartago, ainda no segundo século, dirigiuse grandemente contra os gnósticos e, em especial, contra os
marcionitas.
Uma segunda barreira que se opõe ao uso mais intenso do AT é a
do problema hermenêutico. Muitos teólogos têm dificuldade para
entender o efeito condenatório da lei, diante de uma idéia confusa sobre
o Deus de amor. A interpretação dos textos bíblicos tem recebido os
mais diferentes tratamentos, destacando-se o abuso na alegorização de
relatos e textos à luz da assim denominada moderna ciência. A negação
de milagres é uma constante entre teólogos racionalistas.
Outra barreira, bastante ligada à anterior, é a da adoção do
método hermenêutico da crítica histórica ou método históri-co-crítico.
Um filho de pastor luterano da segunda metade do século XIX, .Julius
Wellhausen, cedo na vida defrontou-se com dúvidas no que se referia,
por exemplo, à prática, por parte de Davi, Elias e outros líderes, do
sistema de sacrifícios estabelecido na Lei de Moisés, escrita por volta de
1400 a.C. Inspirado em teorias filosóficas evolucionistas, passou a
defender a evolução do culto israelita do politeísmo circundante para
chegar ao monoteísmo e à composição gradativa, por fontes, dos livros
de Moisés. Esta investigação histórica, calcada no princípio do determinismo histórico de tese, antítese e síntese, afetou os estudos do AT
e até hoje se diz presente na maioria dos cursos em AT, até mesmo em
seminários cristãos. A Bíblia passou a ser tratada como qualquer outro
livro, e tornou-se questionável como palavra de inspiração verbal, plena
e inerrante de Deus. É bem verdade que muitas vozes se levantaram em
defesa do texto do AT, mas o uso do mesmo na pregação da igreja
sofreu sério abalo, especialmente por pastores que não querem ser
chamados de ultrapassados, bitolados e alienados ao progresso
científico. De fato, é tarefa penosa motivar os cristãos a ler um livro que
trata
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
139
dos judeus e de seus problemas, depois de tantos atentados antisemitas na história recente da humanidade. No entanto, '"aos judeus
foram confiados os oráculos de Deus" (Rm 32.). O próprio Jesus foi
judeu. Por ordem dele devemos examinar as Escrituras do AT, porque
cuidamos ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam dele
(Jo 5.39).
Estes são bons motivos para se derrubarem as barreiras que nos
separam do AT, citando-se ainda o problema da língua hebraica. Ela é
de fato estranha, lida em sentido contrário às línguas ocidentais, mas
plena de uma beleza impar, de uma lógica aguçada, e de um sabor
histórico de grande sublimidade.
3.3
O Tema Central do Antigo Testamento
Ao contrário do que muitos afirmam, o Deus do AT não foi
exclusivamente hebreu. É bem verdade que escolheu um povo próprio,
ao qual agraciou de forma especial com a revelação de sua verdade e de
seu plano de salvação. É o povo da promessa, porque recebera as
promessas de Deus, como diz o texto bíblico.
Os povos não-judeus não estavam de todo excluídos dos planos
de Deus. Havia a porta do proselitismo, a par da pregação de profetas
que foram a eles enviados. Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do
Deus Altíssimo, abençoou a Abraão e dele recebeu dízimos. Jetro,
sacerdote de Midiã, era adorador do Deus verdadeiro e ofereceu-lhe
sacrifício. Desfilam ainda aos olhos do estudioso: Eliezer, servo de
Abraão, estrangeiro de Damasco; Zipora, esposa de Moisés, filha de
Jetro; Raabe. protetora dos espias de Jerico; Rute, a moabita, tornou-se
bisavó do grande rei Davi e entrou na linhagem messiânica. A epístola
aos Hebreus, grande intérprete do AT, diz que eles "praticaram a
justiça, obtiveram promessas..." (Hb 11.33). A cidade inimiga de Nínive
e seus habitantes converteram-se a Deus pela pregação de Jonas, sem
falar de Nabucodonozor, Dario, Assuero e outros.
A pregação profética de juízo e salvação a povos pagãos revela o
escopo universal do AT, preocupando-se com não-judeus e chamandoos ao arrependimento. A promessa que perpassa o AT desde Abraão é a
de que nele e em sua descendência seriam benditas todas as famílias e
nações da terra. O Apóstolo Paulo instrui o jovem pastor Timóteo a
considerar o AT como palavra de Deus, que pode fazê-lo sábio para a
salvação, pela fé em Cristo Jesus. (2 Tm 3.15-17) A (quem ousa
levantar dúvidas ou barreiras à mensagem, divina do AT e a seu valor
na pregação da igreja, deve-se repetir a repreensão de Jesus a seus
discípulos no caminho a Emaús: "ó néscios e tardos de coração para
crer
1-10
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
Indo o que os profetas disseram!... E, começando por Moisés,
discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito
constava em todas as Escrituras" (Lc 24.25.27).
A palavra da cruz, como já prenunciada no AT, é escândalo para
os judeus e loucura para os gentios. O homem moderno não consegue
entender o que aconteceu no Gólgota. O fio de ouro que emana do AT e
que conduz ao milagre da cruz é a doutrina da promessa. Ela faz ruir
quaisquer barreiras que se levantam para impedir a pregação da
mensagem que anuncia ao homem de qualquer época o que Deus fez e
ainda faz para a sua salvação.
Na busca do tema central do AT, com o fim de colocá-lo no
âmago também dos sermões da IELB, surge a proposta de tornar-se
"pratieável" o texto do AT. Ele faz parte da herança da fé, que precisa
aplicar-se e se tornar parte de cada ouvinte. Na passagem de Hb 6.18, o
escritor e pregador sacro — Hebreus é um magnífico sermão de
aplicação do AT — usa essa estratégia. Diz ai que o trecho bíblico de Gn
12 e 22, referente à promessa dada a Abraão, serve para que "forte
alento tenhamos né)S, que já corremos para o refúgio, a fim de lançar
mão da esperança proposta". Alento e esperança são parte vital da
pregação de consolo presente na promessa de Deus a seu povo.
O tema central do AT é, pois, a promessa de Deus que se
introduz no Éden (Gn 3.15); renovou-se nos patriarcas ante-di-luvianos
(Gn 1.1,22; 5.29); cristalizou-se no chamado a Abraão e aos patriarcas
(Gn 12.3 c similares); fez-se presente antes, durante e depois do Êxodo,
a história do livramento, condução e estabilização do povo de Deus;
repetiu-se a seus líderes, juizes, sacerdotes e reis, ressaltando-se a
promessa do herdeiro eterno do trono de Davi (2 Sm 7); e foi a
mensagem central dos profetas, como amplamente se conhece. Cerca
de 40 vezes o NT usa o termo epangelía e mais de 50 vezes faz
referência ao anúncio desta mesma promessa no AT. Essas evidências
mostram que é uma promessa singular, que ela tem uma continuidade à
medida que se desenvolve nos crentes como indivíduos ou no povo de
Deus como a comunidade da promessa, residindo ou retornando à terra
prometida e recebendo, afinal, a visita humanada daquele que sintetiza
a promessa de vida e salvação.
Esta é uma hermenêutica coerente. Um povo unificado, com um
propósito determinado, recebe uma terra prometida. A promessa
recebida cumpre-se em Cristo, no NT, e surte os efeitos para os quais
foi feita: a redenção da humanidade. Esta é pois, a categoria segundo a
qual se ordenam os conteúdos expostos no AT e que convergem na
mensagem do NT. A promessa do descendente da mulher, feita no
paraíso, por exemplo, afunila-se no instrumento coletivo da mesma
através do AT, o Israel de
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
141
Deus, até chegar a seu representante singular, que foi Cristo mesmo.
Este é de quem, João Batista testifica em Jo 1.15, numa tradução
alternativa: Aqui está alguém que vem depois de mim, mas que,
historicamente, esteve sempre aqui, pois existe desde a eternidade.
João afirma que Cristo é eterno, e que permeia todas as obras e
promessas de Deus nos tempos do AT e mesmo antes deles.
O tema dominante do AT é, nessa mesma linha, o conteúdo
aliança (berith) divina com seu povo. Este conteúdo é o da promessa
Deus em suas muitas manifestações, visuais, portentosas, faladas
escritas, centradas na salvação prometida em Cristo. Daí decorrem
muitas outras bênçãos e promessas, já aos crentes do AT, que
propagam e confirmam, através do NT, a todos os cristãos do povo
Deus em todos os tempos.
1.
da
de
ou
as
se
de
O CONSOLO NA PROCLAMAÇÃO DA PROMESSA
Um poema de Charlottc Perkins Gilman, entitulado "Ao
Pregador", diz assim:
Pregador, pregue sobre o ontem, não sobre o hoje!
Pregue sobre o amanhã, pregador, não sobre o hoje!
Pregue sobre os pecados antigos, não sobre os novos!
Pregue sobre os outros, pregador, não sobre mim!
Cinema e TV, rádio, revistas, jornais e comunicação de todo tipo
fazem com que o homem de hoje não tenha muita paciência para
escutar mensagens longas ou desinteressantes. 0 problema maior, da
parte dos pregadores, é que eles não atualizam suficientemente seus
métodos, recursos, estratégias e abordagens. 0 valor da palavra e do
texto bíblicos permanece o mesmo. A forma de transmiti-los deve ser
revista.
0 lema da IELB, "Consolai o meu Povo", fala aos pastores de hoje
que se preocupem com as necessidades, expectativas e carências do
povo que pastoreiam. A pregação do consolo envolve de forma especial
a cura d'almas, e ambas devem andar juntas. Assim como o sermão se
abastece do material encontrado no cuidado pastoral, assim também o
aconselhamento depende de uma pregação eficiente e que estabeleça
um grau de confiança e de busca por parte do ouvinte. "A pregação é o
cuidado pastoral no contexto do culto".10 Em seu livro "A Pregação e o
Cuidado Pastoral", Arthur Teikmanis afirma: "A arte de pregar exige
uma grande medida do Verbo criativo de Deus para acalmar os
inquietos, chocar os acomodados, confortar os aflitos, crucificar o
orgulho e o egoísmo, e reavivar o pecador do sono espiritual".11 A
pregação genuína é uma combinação de quê-rigma (proclamação),
didaquê (ensino), homília (discussão e pregação) e paráclese ou
parenese (exortação e consolo). As ên142
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
1LÄTSCH, Th. Anfechtung und Trost ira Spätmittelalter, Concórdia
Theological Monthlij, St. Louis, 10, jul. 1939, p. 522.
2
LUTHER, Martin. Sümtliche Schriften, V. 13, St. Louis, Concórdia, 1903, p.
625.
3
Idem, V. 5, p. 274.
4
Idem, Sermão sobre Romanos 15.4-13, V. 12, p. 1074.
5
Idem, Carta a Valentin Hausmaiin, de 24/6/1532, V. 10, p. 1573.
6
Apologia da Confissão de Augsburgo, Artigo IV, "Da Justificação", Livro de
Concórdia, São Leopoldo e Porto Alegre, Sinodal/Concórdia, 1980, p. 135.
7
Idem, p. 199.
8
Fórmula de Concórdia, Declaração Sólida, V, Ibidem, p. 600.
9
Ibidem, p. 600.
10
TEIKMANIS, Arthur. Preaching and Pastoral Care, Philadelphia, Fortress
Press, 1968, p. 12.
"Ibidem, p. 16.
BIBLIOGRAFIA
ARCHER JR., Gleason. Merece Confiança o Antigo Testamento? 2. ed. São
Paulo, Vida Nova, 1979. BOHREN, Rudolf. Prophet in Diirffiger Zeit.
Neukirchen, Neukirchener
Verlag, 1969. DELITZSCH, Franz. Biblical Commentariy on the Prophecies
of Isaiah.
Grand Rapids, Eerdmans, 1953. V. 2. HARRISON, R.K. Introdection to
the Old Testamenl. Grand Rapids,
Eerdmans, 1969. HUMMEL, Horace. The Word Becoming Flesh. St. Louis,
Concórdia, 1979. KAISER JR., Walter C. Teologia do Antigo Testamento. São
Paulo, Vida
Nova, 1978.
---- . The Old Testament in Contemporarary Preaching. Grand Rapids,
Baker, 1973. KITTEL, Gerhard, ed. Theologisches Wörterbuch zum Neuen
Teslament.
Stuttgart, W. Kohlhammer Verlag, 1954. V. 5. LEUPOLD, H.C. Exposition of
Isaiah. Grand Rapids, Baker, 1968. 2 v. LÄTSCH, Th. "Anfechtung und Trost im
Spätmittelalter", in Concórdia
Theological Monthly. Vol. X, Julho 1939. LIVRO DE CONCÓRDIA. As
Confissões da Igreja Evangélica Luterana.
São Leopoldo / Porto Alegre, Sinodal / Concórdia, 1980. LUTHER, Martin.
Samiliche Schriften. St. Louis, Concórdia, 1903. PIEPER August. Isaiah II.
Milwaukee, Northwestern, 1979. RIDDERBOS, J. Isaías — Introdução e
Comentário. São Paulo, Vida Nova
e Mundo Cristão, 1986. TEIKMANIS, Arthur. Preaching and Pastoral Care.
Pbiladelphia, Fortress
Press, 1968.
YOUNG, Edward J. Studies in Isaiah. Grand Rapids, Eerdmans, 1954.
---- . The Book of Isaiah. Grand Rapids, Eerdmans, 1969. 3 v.
Trabalho apresentado aos Concílios Regionais de 1990, de pastores das Regiões
Paranaense e Oeste, como parte do temário de estudos sobre o lema 1990/91 da
Igreja Evangélica Luterana do Brasil.
144
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
«PARAKLESIA» — CONSOLAÇÃO NA CURA DE
ALMAS
Gerhard Grasel*
I N T R O D U Ç Ã O
Vivemos em um mundo sofredor por causa do pecado. Todos nós
somos uma geração que sofre. Rm nosso ministério nos defrontamos
com um homem sofredor e nós mesmos sofremos como seres humanos
e como ministros que são chamados a levar a paraklesia ao povo que
clama.
Vivemos dias de muita carência afetiva. Parece que nós todos
estamos emocionalmente muito carentes. Seria a pressa, a competição
entre as pessoas, o individualismo, a causa? Bem, aqui tem "pano para
muita manga" . Cada qual teria suas mui-las explicações.
Vivemos, também, momentos c tempos de um "vazio espiritual".
Seria por acaso isso fruto do "fracasso" das religiões tradicionais
históricas que não estão conseguindo falar ao homem e mulher desse
fim de século? Para nossa tristeza constatamos que esse "espaço vazio"
da vida das pessoas está sendo ocupado por religiões e filosofias pagas.
A propósito, o livro mais vendido na última feira do livro em Porto Alegre
foi O Alquimista, de Paulo Coelho, um especialista em ciências ocultas e
esoterismo. Isso diz alguma coisa a nós pastores reunidos em Concilio?
Vi vemos em tempos em que se experimenta uma preocupante
falta de confiança nas pessoas, nas instituições, nos valores éticos e
morais até então preservados como saudáveis para o convívio humano.
Quem poderá negar que casamento, estado, escola e igreja passam por
uma profunda crise de confiança e credibilidade? Nós pastores, como
"profissionais" estamos pro* Rev. Gerhard Grasel, STM, é professor de Teologia Prática no Seminário
Concórdia desde 1991 e também Deão de Alunos.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
145
fundamente envolvidos nessa problemática. Mas nossa preocupação
com esse status quo não é meramente profissional, pois antes de
sermos pastores somos filhos de Deus que vivem num, mundo onde
sentimos no nosso próprio lar os desafios desses tempos.
Vivemos num mundo, num país em que o povo clama porque
tem sede e fome do pão terreno e do pão e água da vida. Como
pastores participamos de uma organização eclesiástica em que também
há muito clamor, desespero, angústia, frustração, decepção,
desesperança, desconsolo. Congregados estão necessitando de consolo
e conforto. Mas há talvez também falta de consolo no próprio ministério.
Não são poucos os pastores que se sentem desconsolados,
desamparados,
desanimados,
desestimu-lados,
frustrados
e
desesperançados no seu ministério. Nesse momento poderá ser feita a
pergunta: o desconsolado, angustiado e frustrado no seu serviço está
em condições ideais para consolar e confortar? Vale aqui o "quando sou
fraco é que sou forte" do apóstolo Paulo? Jeremias, o profeta "chorão",
não foi um "triste fracassado"? O que é "fracasso" na perspectiva do
reino de Deus?
Particularmente, vivemos um momento na história da Igreja
Evangélica Luterana do Brasil (IELB) em que nos preocupa como igreja
o número de colegas que abandonam o ministério público para se
dedicar a outras atividades, muitas vezes bem mais lucrativas.
Preocupante também é o número de estudantes que se formam,
bacharéis em teologia e não aceitam chamado, e não raras vezes se
envolvem em atividades muito distantes do trabalho propriamente dito.
Seria isso um sinal de descrédito do ministério pastoral nas
congregações? Ou é o surgimento de novas realidades ministeriais?
Esperança, consolo, conforto são produtos, que sempre
"vendem," bem. Aparentemente ou não, a verdade é que a falsa
esperança e o falso consolo estão vendendo bem mais nesses tempos
de crise, de carência e de necessidades. Milhões de brasileiros e
brasileiras, um verdadeiro rebanho humano, seguem as vozes de falsos
profetas que num mercantilismo disfarçado oferecem saúde,
prosperidade, exorcismo e paz. Isso é consolo? Isso é conforto?
I — O VERDADEIRO DEUS É A ÚNICA FONTE DO VERDADEIRO
CONSOLO
A — Consolo e consolador na Antigüidade não bíblica
Há uma preocupação com os que ficaram vivos e agora estão separados
de seus mortos queridos, crianças ou pessoas
146
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
que morreram cedo. No entanto, também há um esforço em consolar os
que estão morrendo, como os idosos, quando esses estão sentindo a dor
da separação de seus familiares queridos.
Em si cada ser humano é chamado para dar ou receber consolo.
Também no mundo pagão o dever de consolar o próximo é geralmente
recomendado.
Em especial, é o filósofo que tem o officium consolandi para com
os seus semelhantes; como um médico ele vai aos enlutados ou os
recebe no seu "Trostkrankenhaus".
Ao lado dos filósofos estão os poetas, que compõem para outros
ou para si mesmos versos de consolo. Ambos recebiam salário por sua
arte de consolar.
Mas os próprios mortos parecem como consoladores dos vivos,
embora esses espíritos consoladores fossem aos poucos transformados
em deuses.
Numerosos, no entanto, são os casos em que o enlutado ou
desconsolado procurava consolar-se a si mesmo, pois quem conseguia
auto-consolar-se podia ser um exemplo para os demais e assim poder
oferecer a outros consolo eficiente, "comprovado". Muitos filósofos c
poetas, como já dissemos, exercitavam o au-to-consolo.
0 homem da antigüidade, que procurava consolar-se a si. próprio,
também podia recorrer a leituras de textos consoladores ou estudos
científicos. Nesses textos podia ser encontrada uma palavra de
esperança de uma vida com os "santos" depois da morte. Mas, apesar
de todos esses esforços de consolo próprio, reconhecia-se que nem
sempre era tão fácil esse método, e nem tão eficientes seus resultados.
Por isso a ajuda de fora, de outros, era enfatizada.
Como se procurava na antigüidade consolar o necessitado? Eram
usados na maioria das vezes os mesmos meios e caminhos que hoje se
tenta e recomenda: visita, carta de consolo, clínica de consolo
(Trostklinik). Na clínica de consolo é o necessitado que vai ao encontro
do consolador. Nessa atividade Kittel cita Rhetor Antiphon, que
consolava, ajudava os tristes de um "desabafo verbal" de sua dor e
sentimentos. Se esse relato é histórico, poder-se-ia dizer que Antiphon é
um precursor da moderna psicoterapia.
Outro modo de ajudar era através de conselhos e considerações
que lembravam ao sofredor a inutilidade e o efeito negativo da dor e da
lamúria e assim queria-se abafar sentimentos num estilo estóico.
A música, o vinho, mitos, provérbios também eram meios usados
no consolo. As festas e as idéias das religiões de mistério
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
147
consolavam na medida que davam, a consciência de imortalidade e uma
vida feliz com os deuses.
E por último também a oração era um meio e caminho para o
consolo.
Os consoladores, com seus respectivos pressupostos filosóficos,
iam por diferentes caminhos na sua caminhada de trazer o consolo.
Epicuro e seus discípulos consolavam com seu pensamento de
que a morte é um fim absoluto e como tal significa total ausência de
sentimento. Assim como o nascimento acontece do Não Ser, assi a
morte conduz para o Não Ser. Morto não sente nada. Todo consolo
positivo se concentra sobre esta vida. Pense em cada dia, como se fosse
o último, pensavam os epicureus. Nessa perspectiva cada nova hora da
vida é um present0e.
Outros, no entanto, procuravam consolar lembrando a sorte
"curtida" de uma vida . Longa est vita, si plena est, ou lembrando que
dian,te do tempo do universo a vida não é nada mais do que um
pontinho insignificante. Diante da transitoriedade de tudo, o sofrimento
também, é pequeno e curto. Ela passa, desaparece.
Acima de tudo, porém, estava o pensamento de que a morte
atinge a todos. Esse consolo passava de boca em boca, de texto a texto,
de sepultura a sepultura. "Seja consolado — ninguém é imortal".
Mas o pressuposto decisivo do consolo dos antigos é o pensamento sobre a imortalidade da alma. Os bons não estão mortos. As
religiões de mistério é que mais operavam com, esse consolo. 0 consolo
estava na esperança da imortalidade. A morte então podia ser vista
como o nascimento para um Dasein imortal, e o dia da morte
compreendido como um natalis aeterni. Por outro lado, toda a vida
terrena seria um mero ponto de passagem de uma eterna pré-existência
para uma eterna pós-exis-tência! Para Epicuro a vida terrena era um
rápido ponto de passagem do Não ser em direção ao Não ser.
Mas voltando ao pressuposto básico dos Mistérios, a morte é
apenas uma volta para o lar, para a pátria (Heimat), para as luzes
superiores. A alma está aprisionada no corpo e a própria vida não passa
de uma visita. O mundo é mau, a terra é um vale de lamentações e o
corpo é uma carga pesada para a alma. O corpo é uma prisão do
espírito. A morte, portanto, é uma alegre libertação. Mesmo que alguns
não projetavam nenhuma esperança além da libertação, a morte no
mínimo acabava sendo um gostoso sono e a sepultura um bem-vindo
lugar de descanso.
148
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1391
No além pode se ver as coisas divinas de perto e ainda olhar lá do
alto para os que estão lá embaixo na terra. O que partiu receba
recompensa celestial por sua boa vida na terra.
Uma morte bem cedo era visto como uma gentileza de Deus.
Mas, a propósito disso, raramente uma divindade é chamada de
consolador, porque não havia na antigüidade uma divindade, cuja função
e ser estivesse ligado ao consolo. Não se ganha consolo da gentileza da
divindade. O homem da antigüidade experimenta antes a inveja dos
deuses do que seu reinar consolador c confortador.
Sobre o mundo da antigüidade paira um tremendo desconsolo.
Inúmeras vezes é repetida a frase de Theognis: "Das Beste von aliem ist
für die Slerblichcn, nie geboren zu werden, für die aber, die schon
begoren sind, so früh ais mõglich zu sterben". Parece que a vida era um
verdadeiro castigo. O momento do nascimento do ser humano é sua
grande infelicidade.
A antigüidade paga mostra até onde o homem pode andar c viver
por conta própria. Essa sua postura diante de tudo nos leva a ter
compaixão desse ser que sofre sem conhecer o consolo do céu revelado
em Jesus Cristo. Aliás, com o consolo de Cristo algo de novo entra no
mundo. O Novo Testamento fala desse consolo do céu do início ao fim.
B
0 Consolo e o Desconsolo no Antigo Testamento
Não se pode, porém, falar de consolo no NT sem antes falar do
AT sobre essa temática.
Ao referir-se ao consolo humano, o trabalho, a tarefa do consolo
não ficava restrita aos familiares c amigos do desconsolado, mas
também pessoas estranhas participavam dessa atividade que enchia de
honra o que era envolvido nesse serviço. Consolar os tristes enobrecia a
pessoa que o fazia.
O vinho aparece como um dos mais antigos meios de consolar na
Bíblia (Gn 5.29). No entanto, o vinho vale como consolo para as pessoas
da Bíblia e também para os de fora da antigüidade bíblica, porque ele
ajuda esquecer a fadiga e a necessidade (Pv 31.6).
O verdadeiro consolo (paráklesis ale tine — Is 57.18) do coração
vem somente de Deus. Sem Deus, o ser humano, o povo e o mundo
estão sem consolo.
O opus proprium de Deus é a consolação. Ele transforma o até
então desconsolo em completo consolo, e isso Ele faz com pessoas
individualmente Sl 22.4; 70.21; 8.517; 93.19 e 118) e também com seu
povo (Is 54.11; Is 51.19). Nesse sentido aparece na segunda parte do
livro de Isaías a grande promessa de
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
149
consolo de Deus a Israel:
"Consolai, consolai o meu povo, diz Deus". Is
40.1.
Duas figuras explícitas, clarificam, vivificam c tornam mais
concreta a compreensão do consolo de Deus. A primeira é a do pastor
(Is 40.11) e a segunda é a da mãe (Is 66.13). Os filhos de Jerusalém,
"serão consolados sobre os joelhos" (Is 66.12). Ser consolado, esta c a
marca, a característica, o sinal de identificação do povo de Deus que
tem futuro.
O consolo de Deus, no entanto, não vem de maneira direta, mas
também vem através de meios e canais para os seres humanos. Em
primeiro lugar esse consolo vem através de sua Palavra (Sl 119.50). Os
mais importantes portadores pessoais do consolo de Deus são os
profetas. Consolar é seu chamado, seu trabalho, sua profissão, sua
vocação. Esses homens de Deus anunciam o consolo e o juízo de Deus.
O maior consolador da parte de Deus é seu Senhor, que foi
enviado para curar os quebrantados de coração e consolar todos os que
choram (Is 61.1-2).
C — Parakaléo e Paráklesis no Novo Testamento
1. Parakalein no sentido de um apelo, um pedido por ajuda
aparece principalmente nos sinóticos, onde pessoas que estão em busca
de ajuda se dirigem a Jesus. É o que acontece em Mateus 8.5, quando o
centurião implora a cura do criado, com os doentes (Mt 14.36; Mc
6.56), o leproso (Mc 1.40), Jairo (Mc 5.23; Lc 8.41), os condutores do
surdo e gago (Mc 7.32) e do cego (Mc 8.32). Sempre é um pedido de
ajuda. Em Mt 26.53, Jesus fala de sua possibilidade de rogar ao Pai
ajuda em sua necessidade. Paulo, o apóstolo, em 2 Co 12.8 menciona
seu pedido ao Senhor no sentido que dele o Senhor afastasse o espinho
na carne. Implorar, apelar, rogar, suplicar, chamar para socorrer.
2. Parakalein no sentido de conselho de exortação encontramos
em Atos e nas cartas paulinas. O falar aqui não é de pedir ajuda, mas
um falar com poder em nome de Deus que visa salvar. Parakalein é
nessa compreensão uma expressão da pregação apostólica da salvação
(2 Co 5.20). Deus exorta por nosso intermédio. E que fala, exorta, é a
mais alta, ou melhor, a suprema autoridade, que não deve ser
desprezada ou recebida em vão (2 Co 6.1).
A exortação acontece em Cristo (Fp 2.1), no Senhor Jesus Cristo
(1 Ts 4.1; 2 Ts 3.12), através do nome do nosso Senhor Jesus Cristo (1
Co 1.10), através de nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito
(Rm 15.30), pela mansidão e benignidade de Cristo (2 Co 10.1), pela
misericórdia de Deus (Rm 12.1).
150
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
Tendo como base e fundamento o evento salvífica da cruz, a paráklesis
se diferencia radicalmente de qualquer apelo meramente moral.
O apóstolo também recomenda a seus colaboradores que
exercitem esse serviço de exortação (1 Tm 5.1; 6.2; 2 Tm 4.2; Tt 2.615). Conforme Rm 12.8, poder-se-ia ate falar de um cha-risma (dom) de
anunciar esses conselhos pastorais. Em, Atos 11.23; 14.22; 16.40; 20.1
temos exortações verbais aos discípulos necessitados de encorajamento.
0 mesmo serviço de exortação para vivificar, animar, encorajar, Timóteo
é recomendado fazer sob orientação do apóstolo Paulo, aos
tessalonicenses (1 Ts 3.2), exortação essa que ele próprio fez em sua 1ª
viagem a Tessalô-nica, como um pai exorta seus filhos (1 Ts 2.12). Não
há dúvida nenhuma que essa exortação acontece "pelo poder do Espírito
Santo" (Rm 15.19).
3 Parakalein também aparece no sentido de ajuda con-soladora
através da presente e futura cura de Deus (Heil Gottes). Em Hebreus
12.5 temos uma combinação de exortação e consolo, quando o autor da
carta cita Pv 3.11.
0 consolo de Deus está na sua ação de amor realizada em Cristo,
e nesse sentido seu consolo aponta para o futuro, para o alvo
escatológico. Em 2 Ts 2.16 lemos: "Ora, nosso Senhor Jesus Cristo
mesmo, c Deus nosso Pai que nos amou e nos deu eterna consolação e
boa esperança, pela graça, (17) console os vossos corações e os
confirme cm toda boa obra e boa palavra".
4 O consolo através de pessoas e como ato de Deus, é outro
significado da palavra parakalein. Homens consolam homens, mas o
verdadeiro consolo é consolo somente porque Deus é última e
essencialmente o Consolador. No grande capítulo de consolo do NT,
Deus é chamado de o "Deus de toda consolação". Cabe agora citar parte
desse texto mencionado: "Bendito seja o Deus c Pai de nosso Senhor
Jesus Cristo, o Pai de misericórdia e Deus de toda a consolação! É ele
que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar
aos que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que
nós mesmos somos contemplados por Deus. Porque, assim como os
sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor,
assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo" (2 Co
1.5-7).
Significativo é o fato que aqui nesse texto acima mencionado,
paráklesis e soteria estão juntos. Em outras palavras, apesar de estar
se tratando da ajuda consoladora através da presente cura de Deus,
esse ser consolado está sob a luz da futura salvação, Não é em vão que
em 2 Ts 2.16 e Rm 15.4 paráklesis e elpis estão lado a lado (consolo c
esperança).
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
151
A reação consoladora contra a tristeza acontece através de
palavras. Isso o apóstolo expressa em 1 Ts 4.18, onde diz: "Consolaivos, pois, uns aos outros com essas palavras". Mas o consolo não vem
somente através de palavras, mas também de acontecimentos, como a
chegada de Tito (2 Co 7.6), a salvação de Paulo de grande perigo de
vida (2 Co 1.3) e a ressurreição de Êutico (At 20.12).
Em Mt 5.4, onde diz: "Bem-aventurados os que choram, porque
serão consolados", não se pensa em consolo de palavras humanas, mas
meramente na ação escatológica de Deus. Esse consolo escatológico já
está presente, mas ainda não é pleno em nossa vidas marcadas pela
imperfeição ainda existente, (Já-ain-da não).
Quando vemos em Lc 2.25 o justo e piedoso Simeão esperar a
consolação de Israel, sabemos que esse homem com quem o Espírito
Santo estava, vivia na expectativa do tempo messiânico de que fala Is
40.1. Nesse menino prometido estava a redenção de Jerusalém e de
lodo o povo.
Ao falar de Lázaro no céu, Lucas diz que "ele está consolado" (Lc
10.25). Deus cm última análise consola de tal modo que ele anula todo
sofrimento, conforme Apocalipse 21.3-5; 'Então ouvi grande voz vinda
do trono dizendo: Eis o taberná-culo de Deus com os homens. Deus
habitará com eles. Eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com
eles. E lhes en-xugará dos olhos toda a lágrima, e a morte já não
existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras
cou-sas passaram. E aquele que está. assentado no trono disse: Eis que
faço novas todas as cousas. E acrescentou: Escreve, porque estas
palavras são fiéis c verdadeiras". É por isso que esse consolo, que é
oferecido como boa esperança, é um consolo eterno (2 Ts 2.10).
D-
Consolai o meu povo
Desde o início a Escritura anuncia o consolo ao homem que
transgrediu a lei divina: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua
descendência c o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe
ferirás o calcanhar" (Gn 3.15).
No livro do profeta Isaías, Jeová é apresentado como o
consolador após prolongado sofrimento. Ele é verdadeiro e suas
palavras permanecem, mesmo quando todas as coisas terrenas são
destruídas (Is 40.0-8). Ele é o verdadeiro pastor que apascenta seu
povo com todo o cuidado (40.11). Jeová não tem limites no seu poder,
na sua ação. Ele é o que de fato quer c pode restaurar seu povo aflito e
sofredor. Nesse ambiente de "sufoco", o consolo significa que o
consolado pode novamente respi152
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
rar, voltar a viver!
Consolar, então, quer dizer que se ajude alguém a
respirar, a ter ar para poder continuar.
No sufoco de uma existência desarmônica, sem muito sentido c
sem muitas respostas, o Criador ofendido vem trazer ar, vida, consolo a
suas criaturas. Tanto o AT como o NT revelam o Evangelho, a boa nova
do consolo que há no Messias prometido c nascido cm, Belém. Portanto,
pregar o Evangelho de Jesus Cristo c pregar, anunciar o consolo ao
povo. Em sua Palavra e nos seus santos sacramentos Deus nos consola
em nossa aflição e culpa. Declarados justos, sem mérito nosso, pela fé
em Cristo, temos a paz que "excede todo o entendimento" (Fp 1.7).
II
O MINISTÉRIO DA CONSOLAÇÃO FOI DADO A TODOS OS
CRISTÃOS
A Escritura ensina que todos os cristãos, mas somente os
cristãos, são sacerdotes de Deus. Ser sacerdote de Deus é ter acesso
direto a Deus, sem necessitar de um intermediário. Portanto, é o
privilégio de ter comunhão com Deus.
A igreja cristã, como comunhão dos santos, é uma geração de
sacerdotes do Rei (1 Pe 2.9). Isso não quer dizer, porém, que todos os
sacerdotes são ministros.
A consolação, portanto, não há dúvida, é para ser exercida por
todos os cristãos. A tarefa de exortar, consolar, ajudar, encorajar, levar
as cargas dos outros, admoestar, animar, não foi dada somente a
ministros. O próprio evangelho, a proclamação do consolo de Deus foi
entregue ao povo, e não ao clero como tal. Jesus confiou a indivíduos c
a grupos o direito de ligar e desligar, de perdoar e reter pecados (Mt
18.18; Jo 20.21-2.'}). Todos são chamados a proclamar as virtudes do
Senhor (1 Pe 2.9).
Quando um grupo de cristãos se reúne sistematicamente, num
determinado lugar, lemos uma congregação cristã.
A congregação: uma comunidade que presta culto, tem
comunhão, cura e dá testemunho.
Em nosso contexto secularizado, é mais do que evidente de que
o cristão precisa redescobrir a realidade da comunidade cristã. Nós
precisamos redescobrir o significado da congregação como a melhor e
mais completa comunidade neste mundo.
William E. Hulme em seu livro Pastoral Care and Coun-seling
oferece uma boa visão do papel da congregação em nossos dias.
Hulme entende que há demasiada ênfase na congregação no
ministério do pastor para as pessoas da congregação e por elas, e muito
pouco serviço com elas. Para Hulme a congregação
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
153
como comunidade de fé é uma fonte de todo o tipo de ajuda para as
pessoas.
A congregação é antes de tudo uma comunidade que presta
culto, que adora. As pessoas, o povo de Deus, se reúne para afirmar
sua identidade como povo de Deus. Louvar a Deus, diz o autor, é uma
das mais saudáveis atividades humanas. E a Santa Ceia, não é profunda
expressão de comunhão com Deus e o próximo?
Em segundo lugar, a congregação é uma comunidade que
experimenta a comunhão, que dá ao indivíduo um, sentimento de
pertencer a e lhe oferece um grupo de apoio nas horas difíceis. Nesses
dias em que a família nuclear está tendo seus pro-blemas, a
congregação providencia uma família extensa. A família nuclear precisa
urgentemente de família congregacional.
A congregação que vivência a verdadeira comunhão cristã é
também uma comunidade que cura. Cada congregação tem um grande
potencial de cura, desde que o sacerdócio de cada cristão se torne uma
realidade.
Em cada congregação há pessoas que suportam sofrimentos
intensos. Esses homens e mulheres treinados podem ser os melhores
ajudadores para aqueles que agora estão em situação de tristeza c dor.
Os grupos de A.A. são um exemplo disso. Não poucos têm um Ph.D. em
vida. A experiência c sabedoria de muitos cristãos é um potencial de
ajuda a ser aproveitado. E mesmo que não se tenha experiência, está
mais do que provado de que pessoas compassivas e compreensivas são
ótimos ajudadores. O cristão sabe-se ajudado por Deus c quer ajudar
seu próximo. A fé precisa ser exercitada no amor.
Como famílias extensas, congregações também experimentam
conflitos e revelam sinais de fraqueza. Afinal, existem num mundo
caído.
O poder de cura da congregação se centraliza na fé em Cristo, no
amor reconciliador de Deus revelado na Escritura. Com Palavra e
sacramento os congregados são nutridos, alimentados, edificados,
consolados para, então, cumprirem sua missão de povo de Deus, sendo
sal e luz nesse "vale de lágrimas".
Em resumo, não há dúvida de que a comunidade cristã é a
melhor agência de ajuda nesse contexto secular. Quem pode ajudar c
amar mais seu próximo do que o cristão? Quem melhor do que o filho
de Deus para ser um agente da fé, da esperança e do amor?
III — O MINISTÉRIO PÚBLICO — O MINISTRO
Todo o cristão tem um ministério porque ele é um cristão, seja
ele ordenado ou não, mas nem todos os cristãos ocupam o
154
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
oficio do santo ministério instituído por Cristo (Ef 4.11; At 20.28; Tt
1.5). E esse santo ministério não é um cargo facultativo que a igreja
pode instituir ou abolir a seu bel prazer. Cristo amarrou sua igreja a este
ministério até o juízo final./ E onde estiver a verdadeira igreja, ali está a
ordem de pregar o evangelho, e ali a igreja mantém o poder de chamar,
eleger e ordenar ministros. É direito da congregação, dos membros
votantes, escolher alguém para ser servo dos servos, ministro para os
demais ministros. O ministério, portanto, não é um cargo de mando,
mas de serviço.
Apesar de ter sido eleito pela comunidade, e de atuar publicamente em nome da comunidade, o ministro é servo de Cristo, e não
da comunidade. Deve prestar contas de seu trabalho à congregação e
jamais procurar ser o "centro de todo O poder".
Em vez de querer ser um homem de sete instrumentos que toca
a cada domingo para uma congregação passiva, ele deveria ser o
conduto de uma orquestra, que ajuda a cada pessoa dar sua
contribuição pessoal para a sinfonia das boas novas. Sua atividade é
descrita em Efésios: "para equipar o povo de Deus para o trabalho no
seu serviço" (Ef 4.11-12). Seu trabalho consiste em treinar, inspirar,
guiar, orientar e trabalhar lado a lado dos ministros leigos, dos
sacerdotes do Rei, como um "professor dos professores", "pastor de
pastores" e "conselheiro dos conselheiros".
O Ministério, portanto, não dispensa ninguém de seus dons
sacerdotais. O Ministro não trabalha em lugar dos que pagam e que
como tal tem direito a assistir tudo passivamente, quando não criticando
e desfazendo o trabalho.
É necessário manter um bom equilíbrio entre o sacerdócio
universal de todos os crentes e o ministério público. O espírito de
classes na igreja é muito perigoso. Pastores não devem dominar sobre
congregações e nem congregações sobre pastores. Pastores e leigos
estão empenhados na mesma causa. O que um faz publicamente em
nome da congregação, os outros fazem em particular, como filhos de
Deus. O caráter público é que faz a diferença.
0 ministério público é entregue pela congregação através de um
chamado a uma pessoa qualificada para exercer tal ofício. Sem um
chamado da congregação ninguém deve exercê-lo (Con-fissão de
Augsburgo XIV). Pelo chamado da congregação o pastor tanto tem o
direito como o dever de exercer o ministério na congregação e tudo o
que isto implica. Ele é o cuidador de. almas (Seelsorger), um bispo
(supervisor), um pastor, uma pessoa a quem Deus encarregou de
cuidar, alimentar e proteger as pessoas que pertencem à congregação
que o chamou (Hb 13.17IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
155
Atos 20.28). O ministério da consolação faz parte do cuidado pelos
membros da igreja local (Cf 1 Tm 5.17; 1 Pe 5.1-2; 1 Ts 2.11; 2 Co 1.37; 2 Co 5.20). O ministro se fadiga na Palavra e no ensino. Ele pastoreia
o rebanho, exorta, consola, admoesta. Ele anuncia todo o desígnio de
Deus, e quando ele ministro ou um leigo anuncia a consolação de Deus,
é como se o próprio Deus o fizesse. Somos embaixadores de Cristo e
Deus exorta por nosso intermédio.
A consolação na cura de almas acontece nas mais diferentes
atividades de um pastor, como no aconselhamento propriamente dito,
quando o ministro ouve, admoesta, orienta, conforta e consola, e
também na pregação do evangelho, no ensino ou educação cristã, na
visitação aos enfermos, na ajuda aos que passam por crises e conflitos.
Em seu trabalho pastoral, o ministro pastoreia e serve a todos,
entre os quais estão pessoas amáveis, amorosas, mas também pessoas
vingativas, teimosas, cabeçudas, indiferentes, orgulhosas e de
"opinião". Essa atividade de relacionamento consome energia e pode
levar o pastor à exaustão.
Para Lutero o Santo Ministério era o maior de todos os ofícios.
Esse ofício, instituídos por Deus e transmitido por homens, permanecerá
e jamais será substituído. As pessoas passam e são substituídas, mas o
oficio da pregação permanecerá, apesar de tudo.
De fato Cristo deu certas pessoas à igreja para equipar os
próprios membros para o ministério da consolação. Como já dissemos, o
servo da Palavra ordenado é propriamente um ministro para ministros.
Todos os cristãos são chamados, mas todos não são chamados para o
mesmo ofício ou responsabilidade.
Deus fala através dos ministros e por isso merecem crédito.
Quando a Palavra é anunciada, é o próprio Deus que está falando.
"Quem vos ouve, a mim me ouve", lemos em Lc 10.16.
Esse ofício ministerial, no entanto, não é determinado do ponto
de vista da pessoa do ministro, mas da divina instituição. As palavras e
atos religiosos no ofício não recebem sua qualidade da pessoa, mas
somente da ação de Deus que em Seu ofício age mesmo através de
seus inimigos.
Cristo deu poder aos seus apóstolos ao lhes dar a ordem: ''Assim
como o Pai me enviou, assim Eu vos envio a vós" (Jo 20.21). Essa
palavra dita aos apóstolos se refere ao ministério público através do
qual em todos os tempos o Evangelho deverá ser pregado.
A gloriosa promessa que o ministério tem é que essa Palavra é "o
poder de Deus para a salvação de todo o que crê" (Rm 1.16).
Era Is
55.11 Deus promete que Sua Palavra não
156
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
voltará para Ele vazia, mas que realizaria o que lhe apraz e que daria
seus devidos frutos.
A pessoa do cristão ou ministro ordenado em si não acrescenta
nada à Palavra e ao ofício ordenado pelo Senhor Jesus Cristo. Não
importa quem prega ou ensina a Palavra. Havendo corações que ouvem
e aderem, algo vai acontecer conforme ouvem.
0 ministério público que não é mero arranjo humano, apesar de
também ser um arranjo humano, é antes de tudo um arranjo divino que
serve à igreja de diversas maneiras. Já no AT Deus tinha estabelecido o
sacerdócio e dado prescrições de como os sacerdotes deviam ser
escolhidos. Deus também enviou profetas que anunciavam: "Assim falou
o Senhor Deus!" No Novo Testamento Deus, escolheu, treinou e enviou
apóstolos. Na igreja pós-apostólica Ele continuou c continua a escolher,
chamar e enviar homens para o ministério. No NT as pessoas que
ocupam o ofício do ministério público são descritos como bispos,
pastores, ministros, presbíteros, anciãos, mordomos dos ministérios de
Deus. Em nossos dias nós usamos o termo "pastor" para cobrir todas as
funções.
Causou surpresa em Lutero o fato que tão significativa e
importante tarefa tenha sido entregue a um ser tão fraco como o
ministro, o pastor. Diz ele: "Nosso Senhor preenche Seu alto ofício de
um modo estranho. Ele o confia a pregadores, pobres pecadores que
contam e ensinam a mensagem e isso apesar de viverem conforme a
mesma somente em fraqueza. Destarte o poder de Deus vai sempre na
frente em meio a extrema fraqueza". Ministros não passam de meros
vasos de barro, portadores de um tesouro do céu.
O ministério é uma atividade que faz "suar" na opinião de Lutero,
mas é também o mais sublime trabalho na terra, o melhor serviço que
podemos prestar a Deus.
0 ministério na perspectiva da teologia da cruz
Jesus disse a seus discípulos: "Quem quiser seguir-me a si
mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me!" 0 que significam essas
palavras? Quer isso dizer que os cristãos têm que se tornar iguais a seu
Mestre em tudo? Walther von Loewenich, em seu livro A Teologia da
Cruz de Lutero, diz que o estado cristão é um estado de baixeza tão
certo como Cristo viveu em estado de baixeza na terra, Ser discípulo, no
entender de Loewenich interpretando Lutero, é experimentar abandono,
impotência e desespero. 0 estado cristão seria então como discipu-lado
do sofrimento?
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
157
Para Loewenich Lutero conhece um sofrimento que é castigo do
pecado, mas afirma que é característico para a teologia da cruz
justamente a inter-relação de sofrimento e fé. Nesse caso, esse
sofrimento não seria visto como castigo mas como graça e purificação.
É verdade que em meio a vida de Cristo, está erguida a cruz. A
revelação de Deus na História se resume na cruz. Ao nós carregarmos a
nossa cruz não demonstramos que estamos em comunhão com, Cristo?
Para Lutero, carregar a cruz de Cristo é abandonar tudo e crer.
Que reflexos, que conseqüências, que implicações tem essa
teologia na visão de nosso ministério? É a cruz uma escola de
conhecimento? Que relação existe entre essa cruz e a temptatio que faz
o teólogo?
0 cura de almas consolando os enfermos e os doentes terminais
A ação pastoral que envolve os enfermos mexe com nossos
sentimentos e emoções de modo profundo. Pode até ser assustador
entrar na intimidade de alguém que está sofrendo.
Fique bem, claro de antemão que reafirmamos a verdade de que
o poder do evangelho não depende do instrumento das emoções, das
habilidades no relacionamento humano. Entretanto, não podemos
ignorar que as ciências humanas, em especial a psicologia, nos
informam de modo sistemático algo que poderá nos ajudar em nosso
serviço. Sensibilidade desenvolvida poderá tirar pedras do caminho e
construir pontes no contato com pessoas.
Nessa como em, muitas outras áreas da teologia prática, não se
pode e nem se deve dar receitas. Cada ministro deverá desenvolver seu
jeito, seu estilo de visita, mas estando aberto para corrigir aquelas
partes que podem ser melhoradas com a ajuda de Deus.
Não queremos e nem podemos enjrar aqui na profundidade e
complexidade da teologia do sofrimento, da dor, da morte. Queremos
refletir um pouco numa dimensão prática. Mas, não podemos deixar de
fazer algumas breves considerações teóricas sobre o sofrimento.
O sentido da dor e da morte em Cristo e em nós é temática que
interessa a todos nós. Por que há doenças? A resposta a essa pergunta
só pode ser dada parcialmente, pois nessa temática nos defrontamos
com, muito mistério. Aliás, a vida humana está envolta cm inúmeras
perguntas e existem tão poucas respostas. (Rm 11.33-35; Is 40.12-14;
Jo 36.26; Jo 38.4ss).
158
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
Todos sofremos, do nascimento à morte. 0 homem traz consigo a
raiz do sofrimento, da dor e da morte. Suprimir a dor é um sonho.
Negá-la é loucura. Esquecê-la é ilusão. A dor permanece como dura
realidade humana. E em vão o homem pede aos homens, à ciência e à
filosofia um remédio.
0 próprio Jesus sofreu desde o ventre de Maria até a sua morte
na cruz. E para derrotar a causa do sofrimento, o pecado, ele sofreu a
morte de cruz. Deus sofreu com o homem e pelo homem. E Jesus até
experimentou o "aparente abandono de Deus ao esclamar da cruz:
"Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?"
0 aparente silêncio de Deus diante da miséria, sofrimento c dor
de tantos homens, mulheres e crianças é sem dúvida algo que nos
impressiona e perturba. Às vezes, comenta o Frei Boa-ventura
Kloppenburg, "exigimos que Deus nos revele o sentido profundo de
nossa existência humana, simultaneamente tão gloriosa e tão
miserável". É o mistério do silêncio e ocultamente divino.
Nós não estamos em condições de julgar objetivamente nossa
vida. Agora vemos cm. parte. Sexta-feira santa na luz da páscoa é
vitória. A cruz isolada é um absurdo. No entanto, a cruz, símbolo da
vergonha, foi transformada cm símbolo de triunfo.
Paulo conheceu bem de perto o sofrimento. Rogou a Deus que o
livrasse de seu espinho na carne. A resposta de Deus é conhecida: "A
minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na tua fraqueza".
Esse mesmo servo de Deus exclamou: "Quando sou (estou) fraco é que
estou (sou) forte".
Jó, o paciente sofredor do AT diz no "finale" de sua peregrinação
de sofrimento: "Eis me deveras pequeno". Jó quis compreender o
insondável, o impenetrável mistério dos caminhos de Deus.
Aliás, a justiça de Deus não está aí para ser analisada e
discutida. Jó quis num certo momento de sua discussão com, o santo e
justo Deus levá-lo ao tribunal, ao julgamento na corte da razão
humana. Foi só depois de reconhecer quem ele Jó era que parou de
acusar a Deus. Mas Jó chegou a esse momento depois que o seu
conselheiro lhe lembrou quem Deus era de fato e de verdade.
Pela fé em, Cristo temos uma visão diferente de sofrimento e
morte. Na fé ambos não são mais um monstruoso absurdo. Pela fé
conhecemos a causa e quem caminha ao nosso lado.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
159
O cura de almas consolando os enlutados
"Toda pessoa que sofreu a perda de alguém de sua relações mais
chegadas enfrenta um período de luto e pesar." "Pessoas bem,
intencionadas tentam freqüentemente convencer o en-lutado de que
tudo não é tão grave e que logo estará superado. Tal consolo não ajuda
muito. O tempo de luto é doloroso e geralmente não passa tão
depressa. De certa maneira é um, tempo de solidão, por mais que
pessoas estejam a volta. No entanto, há pessoas que relatam, a partir
de uma profunda experiência própria, que o tempo de luto foi para elas
uma oportunidade e uma tarefa."
Com a expressão "trabalho de luto", estudiosos do assunto
querem, descrever uma caminhada de luto conscientemente aceita.
"A oração de Jesus no Getsêmani, registrada em Mc 14.36 onde
ele diz: Pai. Meu Pai. Tu podes fazer todas as coisas. Afasta de mim este
cálice de sofrimento. Porém, não seja feito o que eu quero, mas o que
tu queres", pode ser um resumo do que acontece na caminhada de luto.
De início prevalece a atitude de rejeição, de não aceitação. Não
podemos, não queremos admitir que uma pessoa estimada nos deixou.
Essa atitude sempre tornará a voltar durante algum tempo. Também
não precisamos nos envergonhar dela, pois isso faz parte do processo
de despedida. "Porém não seja feito o que eu quero, mas o que tu
queres". Este é o passo da entrega, quando passamos a aceitar o
acontecido. Aceitação é todo um, processo no qual aprendemos a soltar
mais e mais a pessoa falecida, confiando-a àquela mão que nos segura
na vida e na morte. Este caminho da entrega é difícil de trilhar, mas
contribui para seu amadurecimento pessoal.
Sentimentos reprimidos fermentam. 0 trabalho de luto depois da
morte de uma pessoa não é um processo de repressão dos sentimentos.
O caminho da repressão deve ser evitado. Antes devemos ter
consciência dos sentimentos que nos comovem por dentro. Experiências
graves podem até tornar uma verdadeira ameaça para a saúde, quando
recalcadas. Não devemos reprimir e silenciar tudo o que nos preocupa.
Devemos, isto sim, procurar possibilidades de comunicar nossas
experiências. É nessas horas que o pastor pode ser um bom ouvinte e
um sábio conselheiro, porque o melhor para um enlutado é conversar
com pessoas que sabem ouvir e que não vêm logo com "bons conselhos" para minimizar ou abafar nossos traumas. 0 tempo de luto tem
que ser enfrentado, e não contornado.
Infelizmente pastores e pessoas que atuam; na área do
aconselhamento passam aos outros a impressão que não têm tempo
para horas de conversa. O pastor deveria procurar ter esse tempo para
conversar com os enlutados que precisam, de160
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
sabafar sua dor. Caso o pastor sinta que a necessidade é de fato muito
grande, pessoas da congregação poderão ajudar muito nessa área.
Num período difícil é de especial importância falar com alguém.
Pastor e irmão na fé não podem entender que sua missão terminou com
a cerimônia fúnebre. Muitas vezes os enlutados só vão sentir toda a
dureza do impacto do falecimento de um ente querido depois do velório
e da cerimônia de sepulta-mento. Horas, dias, semanas e meses após a
cerimônia fúnebre a dor da saudade pode ser um bem mais cruel. O
pastor, portanto visitará os enlutados, levando o consolo de Deus e chorando com os que choram, (Rm 12.15).
Cada pessoa experimenta o luto à sua maneira, mas há
características comuns, como a negação, sentimento de culpa, intensa
fadiga, cansaço, choro, raiva, isolamento, sensação de vazio, medo de
ficar louco, dores físicas, atitudes de indiferença, pânico, receio de não
conseguir passar pelo processo de luto, esperança.
Seguem algumas sugestões práticas na ajuda a enlutados: estar
presente e disponível, telefonemas periódicos, especialmente em
feriados e datas especiais (Ex. viúva — Natal?). É bom mostrar para o
enlatado que a expressão de seus sentimentos é boa e aceitável.
Oferecer-se para lhe prestar serviços de ajuda prática (refeições, jardim
crianças) permite a pessoa entrar em contato com seus sentimentos e
elaborar seus sentimentos de luto e dor. Como bom ouvinte atencioso, é
sábio deixar que o enlu-tado expresse sua culpa, sua ira e seu
desespero. Não nos esqueçamos de estar preparados para ver o outro
chorar. Aliás, o choro alivia, ajuda o que sofre. É necessário que o
enlutado se sinta livre para falar com você a respeito de seus
sentimentos mais profundos, e nem sempre tão positivos. Como cada
um "curte" sua dor de seu modo, convém não desencorajar rituais de
sofrimento. Cada qual sabe melhor o que lhe faz bem. Como última e
fundamental lembrança para esse serviço ao próximo sofredor, fica a
leitura, o comentário e a reflexão sobre palavras e o consolo que a
Escritura oferece, e a oração, em, que enlutado e cura de alma buscam,
o consolo, a paz, a esperança que só o Deus do Consolo pode dar.
Consolando os que passam por crises e conflitos:
1. Os que experimentam crises profissionais: dispensa do
trabalho, desemprego, desprestígio profissional injusto;
competição no trabalho e injustiça sofridas.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
161
2. Os que experimentam a crise da idade: aposentadoria,
sentimento de inutilidade. Sentimentos de perda, de
fraqueza.
3. Os que experimentam crises conjugais: separação, divórcio.
4. Os que experimentam crises devido ao "desenraizamen-to de
seu grupo comunitário". Perda de contatos humanos
profundos.
5. Os que experimentam o nascimento de um filho excepcional.
6. Os que experimentam uma invalidez permanente.
7. Depressão, alcoolismo.
O MINISTRO, O CURA DE ALMAS TAMBÉM NECESSITA DA
PARAKLESIA.
A.
O ministro na perspectiva bíblica:
1. Sua força vem de Deus.
2. O desejo de servir é o equipamento básico do pastor.
3. Deus quer fidelidade no servir.
O que é ser fiel?
4. O pastor deve vencer qualquer desejo de poder pessoal sobre
pessoas ou usar o prestígio para alcançar os seus objetivos.
5. Ser vitorioso na luta contra a tentação de estar nesse
trabalho pelo que pode tirar dele. É o perigo do profissionalismo dinheirista, do ser mercenário no ministério.
(N.B. Essa acusação está sendo feita a pastores da IELB. É
válida? Por que você está no santo ministério?).
6. A tarefa do ministro é de alimentar, nutrir, proteger e guiar o
rebanho de Deus.
7. Seus objetivos são alcançados pelo poder da Palavra de Deus,
e não ao exercer seu poder e charme pessoal sobre o povo.
B.
O ministro na perspectiva sócio-psicológica:
1. Somos representantes, mensageiros de coisas sem futuro?
Estamos numa causa em declínio?
2. Nós nos entristecemos com as distorções do ministério.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
162
Há uma carga emocional muito grande pesando sobre aquele
que é visto como o "representante oficial de Deus". Existe
muita expectativa sobre a pessoa do ministro.
0 ministro está sujeito a um tremendo desgaste emocional
pelo fato de que sua atividade "profissional" não tem limites,
não tem fim. Ele experimenta uma forte sensação de dever
não cumprido. (Sísifo; mala-barista que movimenta pratos quando termina numa ponta tem que começar na outra.)
0 ministro está exposto a muita preocupação, tensão, e até
depressão devido a queixas e críticas levianas superficiais e
negativistas. Crítica construtivas ditas com amor sempre
devem ser bem-recebidas pelo pastor. Esse queixume leviano
causa, gera muita tristeza e infelicidade na família pastoral.
Na sociedade o ministro parece estar perdendo terreno e
prestígio. Muitos que hoje procuram um psiquiatra, no
passado teriam ido ver um pastor. Por que hoje cada vez
mais pessoas se recusam a ser tratadas por um ministro?
Esvaziando-se o campo de influência do pastor, poderá ele
entrar em crise de identidade? Poderá o pastor cada vez mais
ter dúvida e incertezas sobre seu papel e sua importância
numa sociedade cada vez mais secularizada? Como estamos
nós pastores encarando esse esvaziamento do stalus clerical
e a conseqüente perda de vez e voz na sociedade?
Desde cedo o ministro corre o risco de misturar sua vocação
com sua profissão. 0 perigo começa no seminário, quando
religião se torna uma matéria acadêmica. O uso da Bíblia
começa a ser um dever profissional. Estudantes de teologia e
pastores com muita facilidade se transformam em grandes
críticos. Aliás, pastores são não raras vezes críticos mordazes
de seus próprios colegas. Não raro acontece que fazem aquilo
que não gostam, que os congregados lhes façam. Pastores foram treinados para falar para outros, e também precisam
aprender a ouvir os outros, mesmos que o que esteja sendo
dito não é do seu inteiro agrado. Infelizmente, nem sempre
estamos dispostos a ouvir, mas ficamos irados ou
desconsolados quando os congregados não querem ouvir.
(N.B. Pastores são tentados a rotular, carimbar pessoas com
seus conceitos teológicos muito rígidos. Antes de rotular, é
bom escutar bem o que o outro está dizendo).
LUTERANA/NÚMERO 2/1991
163
8. Na congregação e também fora dela o pastor desempenha o
papel de amigo profissional sempre disponível. Esse papel é
esgotante num contexto de profunda carência afetiva.
Dependendo do grau de amizade que o pastor tem com
algumas pessoas, isso poderá interferir em: sua função
profética?
9. O ministro pode e deve ser sensível, mas não a tal ponto de
ter medo de machucar alguém. ("Ir na canela com amor.")
10. O ministro não pode ir ao encontro de todas as expectativas
do povo ao seu redor. Não se pode ser tudo para todos
sempre. Temos nossos limites e temos que "administrá-los".
C.
O pastor na organização eclesiástica:
1. Vivendo numa sociedade competitiva, ministros não estão
isentos de ou imunes a sentimentos de competição. Entre nós
também acontece a tensão da competitividade, o desconforto
da inveja. Em Mc 10.43 o estre nos lembra que grande entre
nós é o que serve, e o primeiro é servo de todos.
2. Salários são símbolos de valor e padrão de vida. 0 salário do
pastor comparado com outros profissionais treinados,
especializados, é baixo, e se espera que o pastor seja um
exemplo de sacrifício e abnegação, de despreendimento e de
confiança que "Deus proverá".
D.
O pastor e seus problemas de personalidade:
1. O ministro que necessita ser muito "querido" tende a ser um
pobre juiz sobre o seu povo. Como ministro precisamos estar
atentos com nossas "alianças" com as pessoas.
2. As idealizações dos membros podem projetar sobre a pessoa
do pastor uma expectativa e diferenciação doentia entre
leigo-pastor, e quando essa expectativa não é realizada
acontece a frustração. E não raras vezes o ministro pode
sentir-se causador de frustração pela qual não pode ser
responsabilizado. Afinal, ele não tem controle sobre as
projeções e idealizações dos outros.
3. O pastor pode tornar-se um perfeccionista c exigir demais de
si e de seu povo.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
E.
O pastor e sua família:
1. A família pastoral sente a pressão de ser um exemplo, na sua
conduta porque seus membros estão ligados a um homem
cuja profissão é ser um, exemplo. Pesa sobre seus ombros ser
também um exemplo como grupo familiar, pois como terá
condições de guiar outros, se sua própria vida familiar não é
exemplar? (1 Tim 3.5).
2. Os filhos do pastor são muitas vezes mais visados com as
criticas. Disse certa esposa de pastor: "Meus filhos viram e
ouviram demais aqui em casa. Talvez é por isso que ninguém
quis ser pastor".
3. Não podemos negar o conflito e a tensão permanente entre
obrigações familiares e obrigações congregacio-nais. (Não é
bom que a esposa do pastor veja o senhor como seu "rival",
com quem compete para obter atenção do marido.)
1. Como estão as esposas de nossos pastores? Esquecidas,
muito sacrificadas, cada vez mais distantes do trabalho do
esposo? Elas estão e foram preparadas para serem esposas
de ministros, de guias de um povo?
5. O pastor pode viver momentos desconfortáveis entre seu voto
de ordenação e seu voto matrimonial. Ele tem que cuidar de
duas famílias. Negligência gera forte sentimento de culpa.
Como ser exemplo de esposo, de pai e de servo de Deus?
F.
O líder na fé:
1. O ministro não precisa ter medo e vergonha de identificar seu
pecado. Ele pode e deve ser um consumidor do perdão e da
graça de Deus. Quando o pastor identificar seus próprios
pecados, viver como "mendigo diante de Deus", não precisará
de tantas máscaras, defesas e "cascas", mas estará mais livre
para ser um autêntico e transparente servo de Deus que se
abastece diariamente do amor do Pai.
2. Todos nós temos um desejo inconsciente de derrubar a
autoridade. O pastor está investido de autoridade e seu ofício
deve ser exercido com a devida autoridade; somos alvos dos
desejos-secretos de muitos de derrubar o que está imbuído
de autoridade. Existe, na verdade, um desejo ambivalente de
agradar e de destruir a autoridade religiosa. Ela simboliza
salvação (agrada) e juízo (destruir).
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
165
G.
A solidão no ministério:
1. O pastor e sua esposa sentem falta de verdadeiros amigos. O
papel de pastor em si limita o relacionamento com, seus
congregados. Como líder e figura de autoridade, seus
relacionamentos sofrem condicionamentos. A família pastoral
necessita de amigos que não sejam congregados, pelos quais
eles não têm responsabilidade " profissional".
O ministro deve estar atento para não relacionar-se somente
2. na base das necessidades do outro, sem ver também as suas
próprias necessidades, especialmente sua necessidade de
outras pessoas. Pastor, cuidado: É perigoso só querer dar
para os outros o que precisam e não estar aberto para
receber dos outros. "O problema é quando o pastor se
esquece de ser pessoa e não tanto quanto ele se esquece de
3. ser pastor." É verdadeira essa afirmativa?
Em meio a seus problemas pessoais e funcionais, o ministro
precisa daquilo que ele oferece aos outros. Precisa também
4. de alguém com quem possa desabafar suas ansiedades,
inseguranças, seu medo, suas dúvidas e suas frustrações.
Quem poderá ser o consolador do cura de almas? Fosso
chorar no ombro de um colega sem. perder meu prestigio,
minha honra, minha posição. 0 relacionamento com Deus é
5. O para o pastor a sua grande fonte de estabilidades para o
d ministério em tempos normais e também para tempos de
crise.
0 pastor e sua vida devocional:
11. A vida devocional não se harmoniza muito com a nossa
cultura pouco contemplativa. Vivemos numa cultura que faz
1. muito, produz muito, que corre muito. Andamos correndo e
dispersos, não tendo o espirito de meditação e de comunhão
com Deus. O pastor não está imune ao virus do ativismo.
Vida devocional é uma atividade reflexiva e muitos de nós
sentem-se inconfor-táveis quando paramos para pensar sobre
nós mesmos e o sentido de nossas vidas. Além do mais, vida
devocional tem aparência de inatividade. Nada de tangível é
produzido, nenhum trabalho é feito nesse tempo de reflexão
e oração. O silêncio da reflexão e oração nos incomoda? É
verdade que não é fácil ficar em silêncio?
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
2. Como líder do culto, o ministro se concentra para envolver os
participantes e tem uma série de preocupações técnicas que
podem prejudicar seu culto e adoração pessoal.
I.
O pastor e seus desafios:
1 . Uma das mais sérias lutas do pastor é com o tempo. Ele tem
a necessidade quase que compulsiva de provar que está
ocupado, pois seu serviço é dedicação integral e seu trabalho
nunca está terminado. Ele está em contato permanente com a
expectativa das pessoas.
2. 0 pastor também é tentado a querer ser tão importante e
fazer ser sentida sua presença ou ausência.
3. Ministro tem que lidar com, pessoas que querem estabelecer
com ele fortes vínculos de dependência doentia.
1. Telefonemas, encontros, reuniões, preparação de sermão, a
escola dominical, as reuniões da diretoria, as assembléias, o
orçamento, os doentes, os perturbados, os em pecado
público, eis algumas das responsabilidades do pastor. Cada
uma delas é uma carga pesada sobre um homem, sem
tempo, seus talentos, sua paciência, sua fé. Há muitas
decisões difíceis de tomar. Há a necessidade de sabedoria
para
corretamente
tratar
cada
personalidade
com
sensibilidade e cuidado. Stress, culpa, fadiga, somatizações,
colapso nervoso podem ser o resultado disso tudo.
5. Moisés compreendeu a dimensão da carga que teria ao liderar
Israel. Por quatro vezes desistiu. E depois que assumiu a
tarefa, não faltaram momentos em que Moisés sentiu com
tristeza o murmúrio do seu rebanho. Ele também, foi alvo de
críticas injustas, de queixas lamu-rientas, e como tal também
sentiu tristeza e amargurei como líder de fé.
(5. Deus fez uma promessa bem, clara a seu sucessor Josué-Ver
Is 1.5.6,9.
7. Sentimento de frustração de alguns colegas poderá ser:
"estudei tanto, estou tão bem equipado e aqui nesse "fim de
mundo" não aproveito nem 10% do que sei e posso realizar.
Ex: tipo intelectual num ambiente de pessoas simples, não
estudadas. Pergunta: Estudo serviu para quê?
8. Sucesso ou fracasso no ministério: qual é o critério de
avaliação? Quem vai julgar?
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
16 7
J.
O pastor e suas alegrias:
1. O ministério, o pastorado proporciona um intenso relacionamento com Deus e as pessoas. É um caminhar junto do
berço à sepultura. Nesse serviço participamos das mais
diferentes situações de vida das pessoas a nós confiadas. E
esse envolvimento é às vezes muito intenso e profundo.
2. O pastorado dá sentido e alegria à vida dos que a abraçam e
vivem. O cura de almas cuida das mais importantes
necessidades do ser humano. Ele é o porta-voz oficial do
próprio Deus. Esse serviço só, pode ser bem feito com,
alegria e com a consciência de estar fazendo um, dos mais
importantes trabalhos que pode ser feito na face da terra.
C0NCLUS Ã O
Servir a Deus, eis a mais firme garantia da liberdade autêntica do
ser humano. Servir a Deus no dia-a-dia pode significar "viver em favor
dos outros", servir os outros por amor a Deus. Isso não é tarefa fácil
para homens pecadores, nascido de pais marcados pelo egoísmo. Isso
não c fácil num mundo em que o que serve é um bobo fraco.
Servir aos olhos dos gregos era algo que rebaixava. Era tarefa
dos escravos, dos desalmados instrumentos da aristocracia intelectual,
econômica e social. Não servir, mas ser servido, era o ideal de vida. Um
sofista chegou a dizer: "como pode alguém ser feliz se ele serve
alguém?"
Cristãos servem o SENHOR certo. Servem aquele que os serviu
primeiro, que se rebaixou, humilhou por amor. É nessa perspectiva,
com essa motivação, que os filhos de Deus estão envolvidos,
empenhados no ministério da consolação. Com essa visão, pastores são
chamados por Deus e por congregações ao serviço do verdadeiro
consolo.
Como cura de almas nesses tempos, precisamos ter uma
mentalidade agudamente contemporânea. Não temos o direito de nos
alienar, distanciar ou querer fugir dessa realidade e nos confinar num
campo restrito de interesses.
Como dizia o Prof. Osvaldo Schüler, num de seus sábios
pronunciamentos, "precisamos fazer a leitura do tempo para que a
igreja não se transforme num centro de tradições. Temos que conhecer
o novo mundo que bate às portas. Cabe-nos penetrá-lo com a generosa
compreensão que procura para os inales e dores de seu tempo as
soluções, as respostas, a cura e o autêntico consolo. Se não fizermos a
nossa parte, outros o farão, se
168
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
já não estão fazendo a um tempo.
guiando cegos."
Vemos ao nosso redor cegos
Em nossa nova realidade de urbanização sentimos na carne a
complexidade social. É a vida impessoal, a solidão, a tensão, a
despersonalização, a competição, o materialismo, o consu-mismo, o
individualismo, o hedonismo, o relativismo e tantos outros "ismos" que
deixam o homem contemporâneo perdido nesse "vendaval de idéias".
Está a igreja acompanhando esta rápida transformação da
sociedade para em tempo levar o consolo? Existem no ar novas
relações, novos valores, novos comportamentos, novos desafios. Como
estamos encarando esse novo que nos questiona, confronta e também
de nós exige uma palavra de direção, de rumo?
Como estamos exortando, consolando, ajudando nossos jovens
que estão dentro do labirinto do mundo moderno com suas luzes, sons,
ruídos e imagens? Como ser cura de almas de nossa juventude?
Inseridos num contexto, queremos proclamar o texto de Deus. O
mesmo Deus que nos inspira na leitura do texto, por certo nos há de
inspirar também em nossas andanças pelo contexto e fazer a correta
leitura do tempo. Nessa leitura estar-se-á fazendo o diagnóstico, tão
necessário para oferecer o remédio certo, na quantidade adequada e na
hora apropriada. E o remédio não é outro senão o consolo e o amor de
Deus.
Na importante tarefa de consolar o povo, como igreja não
podemos esquecer de fortalecer também o ministério pastoral do ponto
de vista emocional, emotivo, afetivo e também do ponto de vista
teológico, porque as adversidades, os obstáculos serão cada vez
maiores c desafiadores.
BIBLIOGRAFIA
CAEMERER, Richard R. Toward a More Excellenl Ministry. Saint Louis,
Concórdia Publishing House, 1964.
---- . Richard R. Church and Ministry in Transilion. Saint Louis, Con
córdia Publishing House, 1965.
HULME, William E. Your Pastor's Problems. New York, Doubleclay &
Company, Inc., 1966. KITTEL, Gerhard, ed. Theologisches Wòrterbuch zum
Neuen Tesiament.
Stuttgart, W. Kohlhammer Verlag, 1954. V. 5. EUTHER, Martin. What Luther
says. Ewald M. Plass, comp. Saint Louis,
Concórdia Publishing House, 1959. V. 2. SANFORD, John A. Ministry Burnout.
New York, Paulist Press, 1982. SCHLINK, Edmund. Theology of lhe Lutheran
Confessions. Traduzido do
alemão por Paul F. Kochneke e Herbert J. A. Bouman. Philadelphia:
Muhlenberg Press, 1961. SCHUELER, Oswaldo. A Leitura do tempo. In: Lar
Cristão, Porto Alegre,
Concórdia, 1974.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
169
■
O PASTOR PREPARADO PARA CONSOLAR
Christiano Joaquim Steyer*
Introdução
1. Ao abordar o presente tema não falamos de cima para
baixo mas de pecador perdoado para pecador perdoado, de
irmão na fé para irmão na fé, de colega para colega.
É possível que, após alguns anos no exercício do ministério,
tenhamos perdido de vista certos objetivos. De tempos em tempos, por
isso, é benéfico parar a fim de avaliar nosso minis-lério e, conforme o
caso, reforçar pontos fracos, corrigir a trajetória ou simplesmente
recobrar novo ânimo para prosseguir como vinha acontecendo.
Tentamos aqui examinar o ministério especialmente quanto a
alguns aspectos do pastor como anunciador do consolo (parácleesis) de
Deus.
Parte I — O pastor e seu chamado
2. Os objetivos do ministério pastoral são basicamente
quatro. Pelo uso da palavra de Deus e dos sacramentos, distin
guindo lei e evangelho, o pastor apascentará o seu rebanho a fim
de que todos a) continuem sendo penitentes; b) permaneçam e
cresçam na fé em Jesus Cristo; c) levem uma conduta santificada e d) procurará conquistar para a fé em Jesus os incrédulos
fora do âmbito de sua congregação.
Toda a atividade do pastor gira em, torno destes objetivos, quer
ele esteja no púlpito, no altar, no ensino dos confirmandos, no trabalho
com os jovens, senhoras e leigos, na escola dominical, nas assembléias
e nas visitas. Estes objetivos ele persegue quando ensina, repreende,
corrige, educa, prega, exorta, consola e admoesta (2 Tm 3.16; 4.2; 1
Ts 2.12).
* Rev. Christiano Joaquim Steyer, STM, é professor de Teologia Prática no
Seminário Concórdia desde 1985 e também sub-diretor de pós-graduação.
170
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
3. Ninguém melhor do que o apóstolo Paulo soube apre
sentar os deveres inerentes ao ministério pastoral. Em Mileto
ele se dirige aos presbiteros da igreja de Éfeso (At 20.17) dizen
do que deviam proséxein (estar preocupados, prestar atenção,
cuidar) por si mesmos e por todo o rebanho sobre o qual o
Espírito Santo os havia constituído bispos (epískopos, isto é su
pervisores) (At 20.28). "Bispo" é palavra composta de epí (so
bre, em cima) e skopéoo (olhar). "Supervisor" é alguém que
"inspeciona", "faz vistoria". "Bispo", no caso, é aquele que su
pervisiona para saber como está a situação espiritual daqueles
sobre os quais tornou-se responsável. Os presbíteros de Éfeso
tornaram-se bispos (supervisores) para "pastorearem" (poimainein) a igreja de Deus. O peso está no "pastorear" e não no
"supervisionar". Os presbíteros de Éfeso não eram "pastores"
para "supervisionar" mas eram "supervisores" para "pastorear".
0 verbo grego poimaínoo designa a atividade realizada pelo
pastor de ovelhas. Sabemos que a atuação dos pastores é representada
na Escritura como uma atividade desempenhada com muito carinho.
Esta conotação Paulo tem em mente ([liando se refere ao ministério dos
presbiteros ou bispos.
Também o apóstolo Pedro expressa o mesmo sentido de
"pastorear" em sua primeira Carta (1 Pe 5.2,3). Ali declara ele aos
presbíteros: "pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós". Deviam
fazê-lo não coagidos mas de livre vontade, não levados por ganância,
mas por dedicação, também não com poder autoritário, antes como
modelos do rebanho. Pedro fala no mesmo sentido com o qual Jesus lhe
havia dito "pastoreia as minhas ovelhas" (Jo 21.15-17).
4. Estar preparado para consolar já inicia com a trami
tação do chamado. Quanto à validade do chamado via de regra
não há nenhuma dúvida pois os chamados são feitos pelos mem
bros votantes, pessoas que, pelos estatutos das congregações, tem
o direito de chamar.
Quanto à legitimidade do chamado a coisa nem sempre é tão
tranqüila. O pastor nem sempre pode impedir que familiares e amigos
seus, influenciem os votantes para proporem e sufragarem o seu nome.
Não se pode ser ingênuo a ponto de não reconhecer que a tramitação de
todo o chamado precisa ser humana e por isso carece de perfeição (é no
entanto assim que o Espírito Santo chama, At 20.28). O pastor, porém,
precisa precaver-se para, ele mesmo, não arranhar a legitimidade do
chamado, conservand,o-se longe de qualquer manipulação direta ou
indireta dos votos. Embora um chamado ilegítimo seja um chamado
válido, ele poderá tocar seriamente a consciência do pastor, afetando
negativamente a sua atividade pastoral.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
171
As palavras de Lutero a respeito desta questão ainda fazem
muito sentido: "se Deus quiser que você seja pastor em algum lugar,
não haverá dificuldade alguma para que ele o encontre". E continua
"Deus não se esqueceu de você. Se você é para pregar a sua Palavra,
ele sem dúvida irá chamá-lo> para isto no devido tempo". Oferecer-se a
uma paróquia vacante, diz Lultero "é perigoso, e nunca termina bem".1
5. O chamado que o pastor tem em suas mãos é o chamado do
povo de Deus e do próprio Deus (At 20.28). Que privilégio! Mas também
que responsabilidade! Não é, pois, qualquer pessoa que serve para o
ministério pastoral. Deus traçou certas diretrizes a serem observadas na
escolha dos guias de seu povo (Sr 3.15; 1 Tm 3.1-7; Tt 1.5-9). E para
aquele que está de posse de um chamado, a Escritura exorta "tem
cuidado de ti mesmo e da doutrina" (1 Tm 4.16).
6. Em nenhum, outro ofício do inundo pode alguém saber-se tão
diretamente a serviço do Senhor como no santo ministério. É uma graça
toda especial concedida a pessoas que se consideram indignas, tal como
o apóstolo Paulo, devido a sua condição de pecadoras mas que a graça
de Deus em Cristo considera dignas e aptas para serem "embaixadores"
do Senhor dos senhores, o Rei dos reis (1 Co 15.9).
7. Quanto ao que se conhece da História da Igreja Cristã,
a dedicação com a qual Paulo exerceu o ministério pastoral é
ímpar. Persuadiu os seus colaborado a serem padrão para os
fiéis (1 Tm 4.12; Tt 2.7) enquanto ele mesmo o foi tanto para
estes como para aqueles (1 Co 11.1; Ep 3.17).
O zelo com que se dedicou ao ministério ele o expressou com
todo o seu sentimento quando escreveu aos Coríntios (2 Co 11.2). Disse
que zelava por eles assim como Deus o fazia. Ele usa a ilustração da
figura de um pai que está cuidando de sua filha noiva, e portanto
comprometida com seu futuro esposo, para apresentá-la a ele, pura,
reservada exclusivamente para ele. Este é o zelo que Paulo tem pela
igreja de Corinto. Ele a havia fundado. Em seu meio exercera o
ministério durante dezoito meses, sempre com o objetivo de oferecê-la
pura para o noiva dela, Jesus Cristo, por ocasião de sua vinda.
8. O zelo pastoral de Paulo não foi discriminatório. Con
sagrou-se por inteiro à igreja de Corinto mas não em prejuízo
das outras igrejas. O mesmo zelo que devotava aos coríntios
também dedicava às outras igrejas. Aos pastores da igreja de
Éfeso ele faz um balanço do seu ministério, desenvolvido entre
eles, dizendo: "vós bem sabeis como foi que me conduzi entre
vós em todo o tempo desde o primeiro dia em que entrei na
Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e
provações. . . jamais deixando de vos anunciar cousa alguma
172
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
proveitosa, e de vo-la ensinar publicamente è também de casa em casa,
testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com
Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo (At 20.18-21).
9. É preciso assumir o ministério, não apenas formalmen
te mas também a postura íntima de um pastor. Apesar de não
possuirmos o mesmo nível de dons para todas as tarefas do mi
nistério e, quem sabe, apesar de sentirmo-nos pouco preparados
para o desempenho de alguma função, todos passamos durante
alguns anos no Seminário e fomos declarados aptos para exer
cer o ministério. Temos, pois, a qualificação de cuidadores de
almas! É preciso, isto sim, continuar buscando aperfeiçoamento
e atualização.
10. Ao reconhecermos pecados que cometemos e falhas em
nosso ministério, o arrependimento, como uma sombra, precisa
estar presente. Isto, porém, não é tudo. Não paramos aqui. É
preciso aplicar o evangelho a nós mesmos. Jesus não morreu
somente pelos pecados dos outros. Também, pelos nossos. Por
todos eles. Também por aqueles que ainda nos incomodam e
envergonham. Por causa de Cristo estou perdoado. Isto é apli
car o evangelho a mim mesmo. É assim que podemos ir consolar
outros.
Parte II — O pastor e o estudo da Escritura
11. Os teólogos falam que a Teologia Pastoral é um habi-ius,
uma disposição, uma atitude. Não consiste, pois, apenas na acumulação
de conhecimentos teológicos mas especialmente no desejo e na
habilidade de lidar com os compromissos pastorais, dos quais consolar é
um deles. Por isso a Teologia Pastoral não somente é denominada de
habitus mas de habilus practicus. O habitus practicus é resultado da
ação do Espírito Santo sobre o pecador regenerado.2 Paulo escreve:
"Não que por nós mesmos sejamos capazes de pensar alguma cousa,
como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de
Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança"
(2 Co 5.6). A habilidade para lidar com os compromissos pastorais não é
dada ao pastor a não ser por intermédio do contato com a Escritura. O
Espírito Santo age através de meios.
12. As múltiplas tarefas próprias do santo ministério, as
tentações que a todo o instante assediam o pastor e a sua própria saúde
espiritual, reclamam um contato constante com o seu Senhor em oração
e com a sua palavra. Com o Salmista ele pede "Ensina-me, SENHOR, os
teus decretos e os seguirei até ao fim" (SI 119.33). Ele não esquece a
recomendação de Lutero:
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
173
"Viel gebetet ist zur Haelfte studiert" (Muita oração é a metade do
estudo).3
13. Podemos aprender uns dos outros. Se alguém man
tém uma vida espiritual e devocional bem sucedida, por que não
compartilhar esta vivência? Ela poderá ser útil a um colega que,
nesta área, estiver em dificuldades.
O que impede que mantenhamos uma vida espiritual mais
"quente"? Temos um horário programado na agenda para a nossa hora
devocional diária a fim ide estudar a Palavra, meditar e orar?
14. O cura de almas que quer consolar precisa ele mesmo
estar consolado, ter vida espiritual. Precisa estar com as bate
rias carregadas, É assim que estará disposto a renovar diaria
mente o seu comprometimento para o desempenho dos compro
missos do ministério. Apesar de indignos é pela Escritura que
nos é assegurado o amor de Deus em Cristo Jesus. Este amor
nos constrange a dedicar-nos à tarefa de apascentar e consolar
o povo de Deus.
Parte 111 — O pastor e sua congregação
15. O pastor precisa conhecer aqueles que ele quer con
solar. Quanto mais os conhecer tanto melhor poderá exercer o
cuidado que dele se espera. O amor pelos congregados é um
ingrediente decisivo no cuidado pastoral. Ninguém pode amar o
que não conhece. O "amai-vos uns aos outros como eu vos
amei" ordenado por Jesus, não é um relacionamento frio, for
mal. Jesus não amou assim. Ele foi ao sacrifício pelos que ele
amou. Ora, se os cristãos entre si devem amar-se como Jesus os
amou, o amor do pastor pelos membros de sua congregação não
pode ser menos do que isto.
Amamos aqueles pelos quais nos tornamos responsáveis através
do chamado que recebemos? Se não os amamos não será porque ainda
não os conhecemos? Amar é querer estar perto daquilo que se ama.
Isto se dá com o amor eros e filia. Com o amor agape não é diferente.
Precisamos aproximar-nos das pessoas a fim, de poder transmitir-lhes o
consolo que temos a oferecer da parte de Deus.
Conhecemos nossa congregação? Conhecemos cada congregado
individualmente? Já falamos com nada um deles? Sabemos o que cada
um pensa, crê e sofre? Conhecemos suas desilusões, frustrações,
fraquezas, suas esperanças e seus triunfos?
16. Um ex-presidente da Associação Americana de Psico
logia calculou que três entre cada quatro conselheiros são inefi
cazes. E uma pesquisa constatou que dois entre cada três são
174
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
ineficientes e até prejudiciais para os seus consulentes.
foi atribuída à falta de amor.4
A ineficiência
17. Podemos sonhar com um ideal de congregação cristã, na
realidade, contudo, nos deparamos com; congregações cheias de
problemas, apáticas e idolatras como era Israel no tempo de Elias (1 Rs
10.14) ou como foi o povo de Deus na época de Isaías (Is 29.13,14) ou
como foram as congregações de Gorinto e da Galácia nos dias de Paulo.
"As misericórdias do Senhor que não tem fim e que se renovam cada
manhã" (Lm 3.22-23) somente podem ser vistas através da Escritura. O
contato com a Escritura vai mostrar-nos sempre de novo a grande
misericórdia que Deus tem para conosco, perdoando nossos pecados e o
privilégio de, apesar de nossas fraquezas, ele nos considerar aptos para
o ministério (1 Tm 1.12-17). O povo de Deus somente pode maravilharse do amor e da graça de Deus quando alguém mostrar-lhe estas
maravilhas. Por intermédio de Isaías o Senhor ainuncia: "Mas quando
virem a obra das minhas mãos no meio deles, santificarão o meu nome;
sim, santificarão o Santo de Jacó e temerão o Deus de Israel (Is 29.23).
18. As pessoas que nos foram confiadas possuem, mais
problemas do que aparenta. Vivem mais na lei e sentem mais falta do
evangelho do que imaginamos. Estão sedentos de consolo. Uma forma
de consolar é ouvir. Permitimos que as pessoas desabafem conosco?
Aceitamos a presença do pecador?
19. É imprescindível que o ministério pastoral esteja marcado
pelo evangelho, a mensagem do perdão de Deus em Cristo Jesus.
Evangelho precisa "transpirar" ou "caracterizar" toda a atividade
pastoral. O nome "pastoral" deve ter o perfume de evangelho.
Assim como Israel no Antigo Testamento, rebelde, desobediente, idólatra e relapso, foi tratado pelo Senhor com, paciência,
longanimidade e misericórdia, porque foi a nação que ele escolheu para
ser seu povo, assim também o Senhor quer apascentar a sua igreja ido
Novo Testamento, pôr intermédio' dos ministros chamados, a despeito
de suas muitas imperfeições. Afinal, a igreja é o seu corpo do qual ele é
a cabeça (Ef 1.23; 5.30).
O alvo sempre precisa ser a salvação do pecador, seja qual for o
estado em que ele se encontre. Paulo diz aos Tessaloni-censes que
deveriam ser longânimos para com todos (1 Ts 5.14), isto para que não
fossem afastados da congregação aqueles cuja conduta estava deixando
a. desejar. São a mentalidade e atitude evangélicas as que caracterizam
nosso ministério? Intercedemos, colmo Moisés (Nm 14.13-19), peto
povo que nos foi confiado? Não somente pela congregação como um
todo mas pelos membros individualmente?
Esperamos ansiosamente
pela volta
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
175
do impenitente e conseguimos abrir os braços para o arrependido, como
o pai do filho pródigo?
IV Parte — Estará em crise o ministério pastoral?
20. Ultimamente tem-se ouvido falar muito que o ministério
pastoral está em, crise. Isto se refere às vocações ministeriais e
sacerdotais nas igrejas cristãs em geral. Pode a Igreja Evangélica
Luterana do Brasil (IELB) dizer que seu ministério não está afetado por
esta crise? O crescente número de licenciamentos de pastores e a
valorização do ministério que, segundo alguns, está "em baixa" estaria a
indicar que não estamos fora desta tendência geral. O assunto merece
reflexão. Pois, caso o ministério estiver em crise, isto certamente
também se projetará sobre a função consoladora do ministro.
21. Corria anda valorizado o ministério no meio de nossa gente?
Se houvesse uma pesquisa do IBOPE, quais seriam os índices? Está
mesmo o ministério desvalorizado, desacreditado, em pane, sucateado?
Não estamos mais perto da realidade se, em lugar de dizer que o
ministério está em crise, dissermos que alguns pastores estão em
dificuldade? O público passa a julgar a parte pelo todo. Já por este
motivo somos todos afetados se apenas um pastor se encontrar em
séria crise. A repercussão sobre a valorização do ministério^ não nos
deveria deixar indiferentes. Há, contudo, dois outros motivos que nos
deveriam impelir para tratar da questão com toda a seriedade, o pastor
em dificuldade é nosso irmão na fé em Jesus Cristo e é nosso
companheiro no ministério.
22. Há motivos para que se diga que o ministério pasto
ral está desvalorizado? Claro é que nenhum pastor pode ser
perfeito mas tem baixado tanto o padrão ético de alguns pasto
res ao ponto de afetar a reputação do ministério? Se for assim,
o que poderia ter ocasionado' este declínio? Examinemos alguns
aspectos da questão.
Podemi-se confiar segredos, confissões e problemas íntimos ao
pastor com a certeza de que nada irá vazar?
Como anda o relacionamento entre os próprios pastores? Fala-se
mal de colegas de ministério? São os motivos uma justificativa para tal
procedimento? Raramente ouvimos um médico falar de um colega de
profissão. Por que nós pastores o fazemos? Será por inveja? Clyde M.
Narramore diz que inveja é um ressentimento contra uma pessoa de
mais sucesso. Normalmente é o resultado da frustração na conquista de
um, objetivo desejado. As atitudes da pessoa invejosa se revelam
através de várias formas de comportamento.
O invejoso
freqüentemente
176
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
ataca a pessoa que é o objeto de sua inveja, fazendo afirmações
caluniosas a respeito dela e, era alguns casos, recorre até mesmo a
ataques físicos. Sente que não pode chegar ao nível e expectativas de
outros. Caluniando, difamando e rebaixando aqueles que tem,
aparentemente, mais habilidade, o invejoso procura levantar a sua autoestima.5
Quando constatamos dons e sucesso no ministério de um colega,
falar mal dele parece compensar nossas fraquezas. Para vencer o
sentimento de inveja é útil lembrar-se que é Deus quem distribui os
dons e ele o faz conforme lhe apraz (1 Co 7.7; 12.4). Deus espera que
sejamos fiéis no desempenho dos dons que nós mesmos recebemos (Rm
12.6; 1 Co 4.2). Se trabalharmos com fidelidade com os dons que
recebemos do Senhor, podermos sentir-nos realizados. O dom, supremo
é o amor; se devemos chorar com os que, choram, e alegrar-nos com,
os que se alegram (Rm 12.15), o amor fará que, a inveja seja
substituída pela alegria. Nossa maior realização deve vir do fato de
podermos contar com o amor de Deus em Cristo Jesus.
23. Quando um colega procura falar conosco na tentativa de
auxiliar-nos chamando nossa atenção por alguma falha ou fraqueza,
como recebemos esta atitude? Como interpretamos este gesto?
Conseguimos sentar-nos com um colega para exortar, repreender e
consolar-nos mutuamente?
24. Qual é o sistema de valores que reina em nossas congregações? Querendo ou não, o pastor é o líder dos fiéis. As
congregações se identificam com seus pastores. Estamos cientes disto?
Qual o papel que o pastor exerce no caso de surgir uma crise entre duas
congregações? É ele um apaziguador ou costuma ele por lenha na
fogueira? A posição do pastor pode significar prestígio ou desprestígio
paira o ministério.
25. Estamos, porventura, comprometidos com algum, segmento
da congregação ou da sociedade, de forma que nosso ministério fica
esvaziado? Deixamo-nos "vender" por favores, por presentes ou por
ameaças? Isaías fala a respeito dos guias de Israel: "Os seus atalaias
são cegos, nada sabem; todos são cães nítidos, não podem ladrar" (Is
56.9-12).
26. Há algumas ciladas que, se o pastor nelas cai, desprestigiam o seu ministério e aos poucos o fazem emudecer-.
O amor ao dinheiro: Se o pastor quer acumular fortuna, precisa
abraçar outra profissão. O amor do dinheiro é raiz de todos os males (1
Tm 6.10), também para o pastor. Somos conhecidos como pessoas
honestas? Somos exatos na prestação de contas? Evitamos dar motivo
para qualquer desconfiança nesta área? De uma parte é direito do
pastor receber um salário justo, de outra parte pode haver vantagem se
não houver abundância
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
177
neste setor (o que, parece, não ser o caso na presente situação
econômica). Um ditado diz: "Reiche Patoren — arme Predig-ten"6
(Pastores ricos — pregações pobres). Na discussão deste assunto não se
pode esquecer que o Senhor cuida dos seus servos (1 Pe 5.7; Sl 33.1622).
O sexo: Ninguém está livre das tentações desta área. Muita
intimidade com moças e/ou senhoras oferece motivos para fofocas e
prejudicam, o ministério (1 Tm 5.2). É preciso não dar ocasião para
maledicência. Se esta recomendação foi importante para ser dada a
viúvas (1 Tm 5.14) muito mais o é para ministros do evangelho.
O orgulho: Pelo fato de o pastor sempre estar numa posição de
destaque na congregação e na sociedade em geral, ele corre o risco de
considerar-se mais do que outros. O orgulho se instala aos poucos, de
sorte que a vitima nem se dá conta do fato. As outras pessoas, porém,
o notam. Paulo pergunta: "Pois quem é que te fez sobressair? e que
tens tu que não tenhas recebido? e, se o recebeste, por que te
vanglorias, como se o não ti veras recebido? (1 Co 4.7). Paulo aponta
para Jesus como modelo de humildade a ser imitado por leigos, muito
mais pelo pastor (Fp 2.5-8). Sejamos gratos se um colega vem falar conosco e nos exorta a este respeito.
Bebida alcoólica: A bebida alcoólica é outra cilada que destrói
muitas vidas, muitas famílias e muitos ministérios. O pastor que é
conhecido como quem "olha fundo no copo" perde o respeito dos
membros de sua paróquia e da sociedade em geral. A popularidade com
que o bebedor é "festejado" não traz vantagem à causa do evangelho. É
assim que Satanás sufoca a verdade. Em contrapartida é um
testemunho positivo se o pastor, não numa atitude pietista, bebe com
sobriedade e temperança, e até nisto serve de modelo aos fiéis (1 Pe
5.3; 1 Tm 3.3). Se tivermos alguma suspeita de não exercermos mais o
completo domínio sobre a bebida, que tal dialogar acerca do assunto
com um colega, no próximo encontro?
Parte V — A recuperação do ministério
27. É possível recuperar a imagem do ministério, valorizá-lo
diante da opinião da IELB e do público em geral e acima de tudo, para
torná-lo mais eficiente dentro das expectativas da Escritura? Encaremos
a situação com objetividade. A grande maioria dos ministérios da IELB
são desempenhados com muita fidelidade, eficiência e consagração. Por
mais que a igreja se esforce, porém, sempre haverá colegas que se
licenciarão do ministério. Um licenciamento do ministério é uma
resolução tão pessoal e debaixo dos motivos enunciados podem
esconder-se
178
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
outros muito íntimos, de sorte que, se quisermos julgar, corremos o
risco de fazer injustiça. Todo o licenciamento, cremos, foi precedido de
muita oração, meditação e luta.
Além disto sempre haverá imperfeições em todo o ministério.
Nenhum, é perfeito. Se tratarmos, cada um, de melhorar e aperfeiçoar o
seu próprio ministério, estaremos ajudando a resgatar a sua, imagem.
Se após um exame de nosso próprio ministério constatamos que ele é
um dos que está em crise, o que podemos fazer para socorrê-lo?
Seguem alguns elementos que poderão ser úteis na caminhada em
busca de soluções.
28.
Falar com o Senhor c apresentar a ele nossa dificuldade.
29. Fazer uma análise e avaliação objetiva de todo o nosso
ministério, particularmente da parte que deixa a desejar. Nós mesmos
nem sempre conseguimos fazê-lo com objetividade. É, pois,
recomendável pedir auxílio do conselheiro distrital ou regional, ou de
alguém, da administração da IELB, ou de outro colega de ministério. É
de proveito escrever as dificuldades sobre um papel, suas possíveis
causas e as prováveis soluções. Lembremos que uma crise sempre é
oportunidade de crescimento.
30. Examinar os relacionamentos familiares. A segurança e
estabilidade emocional começa no âmbito da família. Se houver algo
que. deixa a desejar, será preciso promover um confronto com a esposa,
com os filhos, os pais, os irmãos ou com outro parente.
31. Examinar o relacionamento com os colegas de ministério,
especialmente com os quais mais convivemos, vizinhos e colegas do
distrito. No esporte, um time cm que os jogadores não se entendem e
estão de mal um com o outro, não pode esperar grande rendimento. É
preciso "acertar os ponteiros" com o colega. Isto, provavelmente, não
irá acontecer a não ser num confronto. É preciso uma das partes tomar
a iniciativa, marcar um encontro, expor o assunto, discuti-lo e chegar a
uma solução. Nosso colega precisa saber como nós pensamos. Provavelmente ele está enganado a nosso respeito ou nós em relação a ele.
"Perdão" é um ingrediente que não pode faltar num confronto.
32. Examinar os relacionamentos com todos os paroquia-nos,
especialmente com as pessoas que detêm, alguma liderança. Se for o
caso é necessário fazer confrontos para esclarecer dúvidas, explicar
mal-entendidos ou pedir perdão.
33. Promover um planejamento global da congregação. Reunir
a diretoria e outras lideranças para formular objetivos e
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
179
meias para curto, médio e longo prazos.
Um fichário atualizado e
completo é indispensável para um bom planejamento.
34. Fazer um planejamento de nossas atividades com a congregação,
das visitas, dos cultos, das atividades com os leigos, senhoras, jovens e escola
dominical.
35. Fazer um planejamento de nossas próprias atividades, de nossa
vida devocional, de estudo, de leituras, de preparo de sermões, de lazer.
36. Distribuir tarefas aos membros da congregação. Aqui nos
referimos especialmente à tarefa de consolar. Se a função de consolar
cabe ao pastor não é, porém, apenas a ele que ela foi conferida. Todos
os membros de uma congregação cristã devem consolar-se
mutuamente, conforme palavras de Paulo aos Coríntios "consolai-vos"
(2 Co 13.11) e aos Tessalonicenses "con-solai-vos, pois, uns aos outros"
(1 Ts 1.18; 5.11,14).
Equipar os membros da congregação para exercerem a função do
consolo é uma das incumbências do pastor de acordo com palavras de
Paulo aos Efésios (Ef 4.12). É assim que multiplicamos consoladores. Se
consolar é possível para muitos, não é dado a tantos o serem
capacitados, como o pastor, para equipar os fiéis para consolar.
Estamos preparando os membros de nossa congregação a fim de
torná-los aptos a se consolarem mutuamente? Estamos transformando
nossa congregação numa comunidade terapêutica, num refúgio para os
cansados e sobrecarregados?
Conclusão
Paulo estava convencido do tesouro que representava o
evangelho "o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê"
(Rm 1.16). A valorização do ministério pastoral, para o Apóstolo, estava
relacionada com a importância do evangelho. O ministério era uma
"excelente obra" por causa do evangelho do qual o ministério é o
"distribuidor". O ministro nada mais é do que "um vaso de barro" (2 Co
4.7), no dizer de Paulo. O que deve sobressair, o que deve brilhar no
ministério não é o ministro mas o evangelho que ele anuncia, o consolo
que ele distribui.
Quanto mais estivermos convictos do consolo que
Evangelho, tanto mais iremos valorizar nosso ministério.
consideraremos "uma excelente obra" (1 Tm 3.1) e o
privilégios, o de sermos julgados dignos de assumi-lo,
apascentar o rebanho que nos foi confiado.
180
.
propicia o
Também o
maior dos
a fim de
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NOTAS
1
Citado por Ewald Plass em What Luther Says. St. Louis, Concordia, 1959, p.
939.
2
Fritz, John H.C.
Pastoral Theology. St. Louis, Concordia, 1945, p.2. 3.
3
Id. Ibid., p. 4.
4
Collins, Gary R. Aconselhamento Cristão. São Paulo, Vida Nova, 1986, p. 18.
3
Narramore, Clyde M. The Compact Encyclopedia of Psychological
Problems. Grand Rapids, Zondervan, 1984, p. 197.
6
Fritz, op. cit., p. 55.
BIBLIOGRAFIA
COLLINS, Gary R. Aconselhamento Cristão. São Paulo, Vida Nova, 1986.
FEUCIIT, Oscar E. ed. Helping Families Through the Church. St. Louis, Concordia,
1971.
FRITZ, John H.C. Pastoral Theology. St. Louis, Concordia, 1945.
HULME, William E. Your Pastor's Problems. Minneapolis, Augsburg, 1966.
MORRIS, Paul D. Love Therapy. Wheaton, Illinois, Tyndale, 1974.
MUELLER, Norbert H. e Kraus, George. Pastoral Theology. St. Louis, Concordia,
1990.
PLASS, Ewald. What Luther Says. St. Louis, Concordia, 1959.
SWITZER;, David K. The Minister as Crisis Counselor. Nashville, Abing-don,
1974.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
181
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS
PRIMEIRO DOMINGO DE ADVENTO
Lucas 21 25-36 1° de
Dezembro de 1991
Descortina-se um novo ano da igreja, sob novo lema:
Cristo para todos! A ênfase das leituras deste domingo está, a
começar pelo Salmo, está no verdadeiro arrependimento e na
espera pelo "Deus da minha salvação", pois, de acordo com o
evangelho, "a vossa redenção se aproxima". A leitura do AT
apresenta a promessa do Renovo de justiça, para que o crente
seja salvo e habite seguramente. A epístola apresenta os resul
tados da justificação na vida santificada do crente, é o fortale
cimento na certeza da vinda do Senhor Jesus. Alegria, regozijo,
oração, são frutos do amor de Deus revelado no Salvador dos
pecadores, e presentes na vida c atividade dos fiéis.
Contexto
O texto é antecedido por uma série de predições fatídicas: a
destruição do templo, sinais de desolação, terremotos e calamidades,
perseguição aos crentes, sítio e queda de Jerusalém. O texto leva o
tema a seu ápice, com a parábola da figueira e a exortação à vigilância.
Segue-se, no capítulo seguinte, o desfecho da paixão e morte de Jesus,
iniciando pela traição de Judas e a preparação da Páscoa.
Texto
Vv. 25-28: A parusia do Senhor, sua segunda vinda, será
antecedida e acompanhada por revoluções cósmicas. Tais sinais já são
anunciados no AT, no âmbito da natureza, para anunciar a proximidade
do dia do Senhor: Jr 4.23; Jl 2.30, e outras passagens. Os eventos
anunciados determinam, por si sós, os limites dessa realidade, e o
tempo chrónos não fica definido; apenas o kairôs, o clima da época em
que esses fatos se darão, está caracterizado, para alertar os ouvintes. O
sol, a lua e as estrelas foram criadas por Deus para servir de sinais
(otôt sêmeia), para alumiar a terra, para governar os dias e as noites,
para formar as estações do ano (Gn 1.14-17). Aqui esses mesmos
"poderes dos céus" servirão de marco e. aviso da ordem e da
182
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
estabilidade que Deus instituiu no universo desde que os criou. Estes
elementos da natureza servirão aos propósitos de Deus ao marcar,
imediatamente antes da vinda do Senhor, o final do curso da História
(Is 13,10; Ez 32.7,8; Jl 2.10; 3.15). O mar é, na Bíblia, símbolo das
nações que se retorcem, em tumulto (Dn 7.2), embora permaneçam sob
o controle do poder e da providência de Deus (SI 65.7).
A reação das pessoas costuma ser dupla, frente aos sinais
apresentados: de um lado, pânico, ansiedade, e medo de parte dos que
não aceitam a Cristo; e de outro lado, uma coragem renovada, alegria e
exultação, nos que aceitam o Salvador, que erguem suas cabeças, abrindo
seus corações para a redenção que se aproxima.
Vv. 29-36: Os verdadeiros crentes distinguem a proximidade do
"verão" do reino de Deus. Jesus subiu numa nuvem e descerá numa
nuvem. Ele não foi entregue à morte sem antes desvendar a seus
crentes o necessário conhecimento do futuro, na medida em que isso ó
importante para a preparação deles. Quando vier o cumprimento dessa
profecia, revelar-se-á o desígnio último de Deus com referência a este
mundo e suas criaturas. Não será assim que se estabelecerá um
"milênio", anterior à parusia: Ap 20.1-7 descreve a época que se
desenvolve na igreja hoje.
"As minhas palavras não passarão": em meio ao caos que cresce
no presente, Jesus quer sinalizar aos crentes que não podem nem
devem confiar em soluções terrenas, materiais, de realização da
vontade de Deus nos corações e vidas das pessoas. Esta palavra não
traz uma promessa de ordem para o caos social e político, mas anuncia
uma solução definitiva, espiritual, eterna.
"Em, pé na presença do Filho do homem": o conhecimento,
assentimento e confiança em Jesus como Filho de Deus feito homem,
essa fé verdadeira equipa o crente a permanecer de pé em sua
presença; Jesus desempenhou seu ofício profético, su-mo-sacerdotal e
real como Deus-homem, com a autoridade e domínio divinos, e, ao
mesmo tempo, com sua presença abençoa-dora junto aos homens,
dando-lhes ânimo em, meio a suas crises e fortalecendo-os a cada nova
fase de sua existência. Esta, é a fórmula divina para que o homem
adentre uma nova fase, um novo ano eclesiástico.
"Cristo para todos" é o lema que pretende trazer para mais perto
do cristão, e também para os descrentes, a missão salvadora de Cristo
na terra, até aos fins dos tempos. Esta missão está revelada na palavra
de Deus e veio habitar entre nós em sua graça e verdade.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
183
Proposta Homilética
O cristão é convocado a viver uma vida que o prepara para a
segunda vinda do Senhor Jesus de várias formas:
1. Apegando-se a Jesus e a sua palavra, que não passará.
2. Permanecendo alerta, em confiança, louvor e oração.
3. Renunciando aos erros do passado, à dissolução do presente e
às preocupações do futuro.
4. Remindo o tempo, em busca dos que ainda precisam receber
essas boas novas (testemunho e missão).
Elmer Flor
SEGUNDO DOMINGO DE ADVENTO
Lucas 3.1-6
8 de Dezembro de 1991
Na verdade o conjunto de textos do 2' Dom. de Advento atende
muito bem ao tema proposta para a IELB em 1992, "Respondendo ao
amor de Deus". O conjunto mostra que Deus nos providencia todas as
coisas, se preocupa conosco e vem ao nosso encontro. Nós temos a
oportunidade de responder-lhe com o nosso arrependimento. E, para
ficar bem clara a dinâmica de Lei e Evangelho, o texto do AT, Ml 3.1-4,
nos relembra, com; nitidez bastante acentuada, o aspecto da Lei, ao
evocar o dia da purificação.
Sendo assim, vejamos, rapidamente, os vários textos.
Uma das coisas que faz parte da missão/serviço do cristão nó
mundo é "consolar os irmãos". A preocupação para o 1o trimestre do
novo ano litúrgico é mostrar que a missão é de Deus. Isto equivale a
dizer que, além de pertencer a Deus, a força para a realização da
missão vem dele, e o objetivo dela é conduzir a Deus.
Nesta perspectiva o Sl 126 encaixa muito bem, pois nos mostra
que é Deus quem oferece e dá o consolo aos que choram. Existem
momentos difíceis, de tristeza, angústia, preocupações e problemas na
vida de todos os cristãos. E são até bem freqüentes. Mas existe também
o tempo em que o Senhor restaura as coisas na vida de cada um. Então
vem novamente o riso e a alegria no coração.
Depois de
experimentada a angústia c vi184
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
vida a restauração que Deus promove (na grande maioria das vezes por
meios indiretos — nos quais muitos não querem ver a mão de Deus),
então vem a constatação: "Com efeito, grandes coisas fez o Senhor por
nós" (Sl 126.3). Quando, então, percebo que sou consolado, também
posso consolar. Quando consolo o semelhante com a mensagem do
amor e do perdão de Deus, então estou fazendo minha missão cristã e
levando-o ao Senhor. Desta forma fecha-se o círculo. Vem de Deus e
volta para Deus.
Ml 3.1-4: Este texto fala do mensageiro que Deus enviará. Esta
palavra faz lembrar da questão do "Yom Yahweh", que precisa ser
entendida na perspectiva do "já-ain,da-não"; "em, parte sim — mas não
completamente". Há cumprimentos parciais do "Dia do Senhor", e
haverá um cumprimento final e total dele. Da mesma forma há "tipos" e
"antítipos" parciais e há um que é O Grande Antítipo. Não deixa de
haver, portanto, uma referência ao próprio Jesus neste texto. Esta
variedade de dimensões na questão do cumprimento das profecias
enriquece e aumenta as possibilidades homiléticas. Em Ml 3.1-4 está
prometida a vida de um mensageiro. Se por um lado é uma referência
ao próprio Deus encarnado, por outro lado pode ser entendido como
uma referência aos profetas, que são mensageiros de Deus e especialmente a João Batista, o "maior entre os profetas" (o que liga este
texto com o Evangelho do dia), que foi o grande pregador do
arrependimento e o preparador do caminho de Jesus. Também não deixa
de ser uma menção à vinda de Jesus para o juízo — sua 2ª vinda.
De qualquer forma, para fins de encaixe no lema geral e na
ênfase para 1992, podemos destacar que Deus toma a iniciativa de
enviar o seu mensageiro. Este mensageiro tem por finalidade 1ª levar os
homens para junto de Deus. Mesmo quando anuncia ira e julgamento,
está a serviço do arrependimento e da volta ao Senhor. Estarmos
arrependidos e juntos do Senhor é condição essencial para a realização
da missão cristã para os que são mensageiros de Deus e é o grande alvo
de todo o trabalho desta missão.
É verdade que no contexto de Ml esta passagem diz respeito
mais especificamente às ofertas materiais e ao dízimo. Mas dentro do
princípio da Analogia Fidei podemos perfeitamente ampliá-la e aplicar ao
todo.
Quanto à epístola, Fp 1.3-11, também encaixa de forma bem
apropriada na ênfase anual de 92, quando afirma, no v. 6: "estou
plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de
completá-la até o dia de Cristo Jesus". Este alguém é Deus. A boa obra
é o serviço cristão, ou a missão cristã, que consiste em proclamar todo
o desígnio de Deus. No v. 9 o apóstolo acrescenta: "e também faço
esta oração: que o vosso amor
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
185
aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção".
Quer dizer que tudo vem de Deus, até mesmo o amor e o conhecimento. O grande objetivo de Deus, o senhor da missão, é que todos
cheguem até ele. Fecha-se o círculo.
Lc 3.1-6: a pregação de João Batista. É o texto que deverá servir
de base para a pregação do dia. É o convite ao arrependimento. Caso o
pregador deseje trabalhar com, o conjunto dos textos e mostrar sua
interligação e unidade, poderá lembrar que, enquanto Malaquias destaca
mais a acusação do pecado e Filipenses lembra que a conversão e a
santificação vem de Deus, Lucas faz o apelo/convite à apropriação do
perdão pelo arrependimento e fé.
Em sua pregação João Batista evoca Is 40.3-5, e esta citação é o
centro do trecho. No v. 4 está o apelo. No v. 5 está uma palavra que
serve tanto de Lei aos impenitentes como de constatação de que Deus
cumpre seu propósito c, portanto, de alegria e anima para os que
"lutam na causa de Cristo". O v. 6 é o oferecimento da graça a todos,
que mostra a universalidade do amor divino.
Proposta Homilética:
Tema — Respondendo ao amor de Deus com arrependimento!
1.) Arrependimento é palavra que, no mundo de hoje, cai no vazio. É
careta. É ultrapassado. Fala-se muito em religião e diz-se que o
Brasil é um "país de tradições cristãs", mas isto é puro jogo de
cena social. Na verdade não há interesse na religião verdadeira.
Não há nem sombra de arrependimento na nação brasileira de um
modo geral.
2.) Um dos jargões mais usados no atual momento brasileiro é o da
"corrupção". Não sem razão. Realmente há muita corrupção. Há
um problema moral muito grande entre nós. Há um problema
muito grande em, todos os seres humanos, que nós conhecemos,
que se chama pecado — afastamento/desvio de Deus. Diz a
Escritura que o mundo jaz no maligno. Nós precisamos explicitar e
dizer: nosso pais, nossa terra jaz no maligno.
Precisamos
acusar.
Desmascarar.
Há
tantos,
inúmeros,
abundantes exemplos de como a transgressão reina em nosso
tempo. Não podemos calar. Toda a injustiça e corrupção é fruto
do pecado. Precisamos esclarecer.
3.) Não basta que apenas esclareçamos. Precisamos e queremos pregar
o arrependimento. Dizer que há erros e que precisa haver
mudanças. Precisa haver arrependimento constante de cada um
de nós e precisa haver arrependimento de todos.
186
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
4.) Lembramos a este mundo que, apesar do seu pecado, Deus o ama e
enviou Jesus. Em Jesus há perdão. Consolo. Restauração.
Salvação. Queremos falar e mostrar claramente a este mundo que
Deus o ama. Queremos convidar todas as pessoas para que junto
conosco, respondam ao amor de Deus com arrependimento.
Conclusão
Assim como João Ba,tista foi enviado a convidar ao arrependimento o povo do seu tempo, nós queremos nos preocupar
com
nosso
semelhante
e
igualmente
convocá-lo
ao
arrependimento. Temos esta responsabilidade.
Irmo A. Ilübner
Imbituva, Pr
TERCEIRO DOMINGO DE ADVENTO
Lucas 3.7-18
15 de Dezembro de 1991
Este conjunto de textos oferece boa continuidade em relação aos
textos do domingo anterior.
Em Is 12.2-6 temos o "Canto de louvor pela restauração de
Israel". Este subtítulo da ARA é bem apropriado. O profeta conclama o
Isrealita a louvar a Deus pelas coisas grandiosas que Ele fez. Isto é
diretamente aplicável a nós. Vale ao cristão de hoje o convite do
profeta. As bênçãos de Deus referidas aqui são de ordem espiritual. Isto
faz com que 0 texto seja bem apropriado para ser o introito do dia. 0
nosso culto inicia com a constatação de que Deus é digno de receber o
nosso louvor por tudo o que nos fez. Ele providencia a salvação, o que
também é motivo de alegria. Além da salvação, que é a bênção comum
a todos (lembrança apropriada dentro da quadra de Advento, que nos
faz meditar de forma especial na vinda do Salvador), cada um há de
saber aquilo que Deus fez por ele, em sua vida.
Em Sf 3,14-18a, o texto do AT para este domingo, temos um,
texto que também convida ao louvor e à alegria por causa das bênçãos
que Deus oferece. Podemos dizer que o centro do trecho é o v. 15, o
qual menciona o perdão ("O Senhor afastou as sentenças que eram
contra ti") e a presença abençoadora ("O
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
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Senhor está no meio de ti") de Deus com os seus filhos. As palavras de
ordem são "alegria, regozijo, júbilo, exultação". Antecipando a conexão
com o tema do domingo podemos colocar assim: é a presença e a ação
de Deus na vida do cristão que possibilita que ele produza frutos dignos
e adequados ao arrependimento.
O texto da epístola, Fp 4.4-9, traz diversas recomendações de
Deus, por boca do apóstolo Paulo, sobre o "modus vivendi" do cristão.
Recomenda que o cristão seja moderado, que não viva com ansiedade,
que tenha vida de oração (comunhão/diálogo/convivência) com Deus,
que procure andar na paz de Deus e que ocupe sua mente com coisas
boas e santificadas. Esta é a exemplificação de como é uma vida
consagrada, uma vida de alguém que produz, segundo o apelo do
evangelho deste domingo, ''frutos dignos do arrependimento".
O evangelho, que deve ser o texto-base da pregação do
domingo, é a continuação daquele do domingo passado. No anterior
anunciava-se a chegada e a mensagem de penitência de João Batista.
Neste é apresentada a própria mensagem. Esta mensagem torna-se o
tema sugerido para o 3" Domingo de "Arrependei-vos e produzi frutos
dignos do arrependimento". Parafraseando o que João diz, podemos
colocar assim: "parem de inventar desculpas e apresentar tantos
argumentos para justificar uma vida descomprometida com a vivência
da fé; chega de fugir a uma verdadeira confrontação com a verdade.
Deus não vai aturar isto sempre, e ele já colocou o machado em prontidão para cortar aquelas árvores que não produzem frutos. Tratem de
viver em conformidade com a vontade de Deus".
É um assunto muito importante e oportuno para se falar. Os
diversos textos formam um belo conjunto e permitem explorar o
seguinte tema: PRODUZINDO FRUTOS CONDIZENTES COM O
ARREPENDIMENTO!
Um dos grandes clamores da nossa época é justamente o
"descompasso da teoria com a, prática". "Faça o que eu digo mas não
faça o que eu faço". Este problema tem penetrado a igreja. Nós nos
dizemos cristãos e não percebemos a discrepância entre nosso "modus
vivendi" e aquilo que falamos.
Vivemos diante de constantes desafios. Por um lado sabemos
que não adianta um biblicismo simplista e cegamente literalista, que
não leve em conta a analogia da fé, os usos, costumes e circunstâncias
da época em que se vive; por outro lado sabemos o perigo do
relaxamento moral e da aceitação de tudo (por conta do argumento da
compreensividade) a tal ponto de, embora cristãos, vivermos de modo
pouco digno do arrependimento.
188
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
O texto do Ev. anuncia e desmascara o problema nos vv. 7 e 8.
No v. 9 menciona a seriedade do assunto, lembrando a palavra da Lei.
Nos vv. 11-14 há uma pequena exemplificação prática do tipo de
comportamento que é resultado/fruto digno e verdadeiro do
arrependimento. Como os diversos textos do dia formam uma unidade,
pode-se recorrer à epístola para suplementação do texto. Lá se
encontram diversos exemplos do "mo-dus vivendi" condizente com o
arrependimento.
0 quadro se completa quando lembramos a ênfase geral da IELB,
de que há uma missão, de Deus, a ser realizada por nós em resposta ao
Seu amor, e verificamos o texto de Sf, no qual nos é lembrado
exatamente que a Salvação vem do Senhor. Em outras palavras: é de
Deus que vem o poder/força/motivação para a regeneração e a. vida
santifiçada; é exatamente e somente porque Deus vem ao nosso
encontro e procura estar no meio de nós que podemos produzir frutos
dignos do arrependimento.
Proposta Homilética:
Tema — Produzindo frutos condizentes com o arrependimento!
1 .) 0 clamor do mundo (e do nosso pais) está se fazendo ouvir muito
forte contra a falsidade. Há falsas promessas de bom governo, de
honestidade, de condução correta e esforçada das coisas públicas.
A falsidade é um grande veneno. Um mal terrível. Até a sociedade
a-cristã já está percebendo isto.
2.) Deus, através de seus mensageiros (profetas, pastores, etc) já há
muito tempo sempre alertou contra a falsidade e chamou as
criaturas humanas ao arrependimento. Desde o grande e histórico
episódio do dilúvio, passando por toda a história de Israel, pela
época de Cristo e pelos 20 séculos de história humana que já se
passaram depois de Cristo. Muitos problemas e dificuldades os
homens de Deus e a igreja sempre tiveram com a falsidade; com o
falso arrependimento, isto é, com pessoas que se dizem
arrependidas mas que na realidade da sua vida não mostram, isto.
Como estamos, eu e você? Será que a nossa vida apresenta frutos
dignos e condizentes com o arrependimento?
3.) Não nos enganemos: de Deus não se zomba. Alguns, às vezes, tem
a impressão de que a justiça de Deus tarda e até falha. É engano!
A pregação de João Batista lembra bem que o machado já está
posto à raiz das árvores. O assunto é sério. A falsidade não fica
impune.
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4.) Mas a mensagem, de João Batista não apenas acusa a falsidade. Ela
apela/convida ao arrependimento! Ela pede que haja frutos; que
haja uma vida condizente com a condição de regenerados.
Dentro da analogia da fé podemos e precisamos, aqui, suplementar o texto, a partir das demais passagens deste domingo,
no sentido de que Deus, com sua presença entre nós e a sua
disposição de abençoar capacita, cria condições para que haja
estes frutos dignos do arrependimento.
Conclusão
Que a reflexão sobre a mensagem de João Batista e a força vinda
de Deus por meio da sua Palavra e da sua ação abençoadora entre
nós nos ajudem e nos levem a Produzir Frutos Condizentes com o
Arrependimento!
Irmo A. Hübner
Imbituva, Pr
QUARTO DOMINGO DE ADVENTO
Lucas 1.39-45 22 de
Dezembro de 1991
1.
As Leituras do Dia
O tema do domingo gira em torno da cristologia. Há uma clara
demonstração disso nas leituras, que deixam transparecer o propósito
encarnacionista de Deus reafirmado na crucificacão do corpo do
Messias. A leitura do AT (Mq 4.2-4) anuncia a ancestralidade do Filho de
Davi nascido em, Belém; na epístola (Hb 10.5-10), o autor do livro aos
Hebreus faz uso do Salmo 40 para declarar que o Senhor encarnado é
aquele que será oferecido na cruz como sacrifício final pelos pecados do
mundo; e no santo evangelho Maria proclama que a criança em seu
ventre é o Messias, o Cristo.
Desta forma, o último domingo antes da natividade do Senhor, é
dominado por um tema que amarra indissoluvelmente a encarnação e a
expiação. A distância que separa a expiação do nascimento é
meramente temporal, pois quando a criança nasce em Belém, sua
morte já é vista como o clímax da sua encarnação.
190
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
Pode-se, portanto, corretamente afirmar que Jesus, o Cristo,
nasceu para morrer; que, com o seu nascimento, o que era velho (os
sacrifícios antigos) se tornou novo (seu sacrifício de uma vez para
sempre).
O certo é que u,ão se pode pregar neste período sobre o
nascimento de Cristo, sem reconhecer que a encarnação, a expia-cão e
a ressurreição de Cristo são eventos carregados de forca e
2.
Contexto
O encontro das duas parentas, Maria e Isabel (também conhecido
como a visitação), reúne duas histórias (que correm paralelas, mas
separadamente. Maria abriga o sinal prometido (v. 31) experiência mais
do que foi prometido: ouve dos lábios inspirados de sua parenta a
confirmação do Espirito referente à mensagem do anjo Gabriel a seu
respeito e a respeito do seu Filho
a bem-aventurança de Maria e o
senhorio de Jesus.
3. Texto
v. 39 — Maria não esperou muito para ir contar a "novidade" a
Isabel. Lucas, inclusive, diz que foi "apressadamente".
Mesmo não sendo tão perto, Maria não perdeu tempo.
A vontade de falar com Isabel era grande. A saudação
(aspázomai) é qualquer forma de saudação ou
despedida que começa com um abraço e termina em
palavras. Tudo indica que, neste caso, a saudação foi
calorosa.
v. 10,41 - Alguns querem atribuir o estremecimento da criança no
ventre de Isabel a um, excitamento da mãe pela
inesperada visita de Maria como parece indicar o v.
44. Mas o falo de Isabel ter ficado possuída pelo
Espirito Santo associado ao conteúdo do v. 15 dirime
qualquer dúvida. Pois lá se afirma que João seria
enchido do Espírito Santo já no ventre materno, e o
bebê "respondeu" estremecendo!
v. 42 --- Necessariamente, "exclamar em alta voz" não significa
que Isabel tenha entrado em êxtase, pois demonstra
estar em total controle de seus sentidos. Falar alto
não denota mais do que a alegria e surpresa, muito
comuns em ocasiões como
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
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essas.
A razão da alegria e da surpresa se concentram em Maria e no fruto do seu ventre.
v. 43 — Isabel fala por revelação, pois nada sabia ante-riormente(
não confundir revelação — tornar conhecido de forma
sobrenatural, com inspiração — a prontidão e o
controle divino da fala ou escrita). A revelação teve
um significado especial para Maria. Deus estava em
ação concernente a ela. Nem ao menos precisou
preocupar-se em fazer grandes "revelações". Deus
assumiu fazê-las por ela.
v. 44,45 — Maria é tida como "a que creu". Crer aqui é usado em
seu sentido usual de confiar (pisteuein). O texto deixa
claro que Isabel está profetizando ao repetir e
endossar as palavras do anjo a respeito da pessoa,
natureza e obra do filho de Maria. Mesmo que, tanto
Maria como Isabel, estivessem sentindo a sua
gravidez, as promessas concernentes a ambos, João e
Jesus, requeriam confiança em quem fez as
promessas.
4.
Esboço
Tema: A Família Cristã Celebra o Natal
Dificilmente alguém consegue dissociar a família das celebrações
do Natal. O ideal, porém, nem sempre é alcançado. Não raro as
agitações preparatórias acabam obscurecendo o verdadeiro brilho da
festa. A família ideal, para os que não têm esperança, pode até parecer
uma miragem, impossível de ser concretizada. Cristãos, no entanto,
podem mostrar como se pode celebrar em família um Natal genuíno,
real c duradouro.
I. Corações e vidas que não foram tocados com a alegria da boa
nova em Cristo, na verdade, não tem muito a celebrar e
repartir.
192
A.
Maria foi profundamente marcada e movida pelo
anúncio do anjo (Lc 1.26-38). As promessas con
cernentes ao Messias fizeram-na esquecer, inclusive,
seu casamento. Deixou tudo de lado para contar a
notícia à sua estimada parenta Isabel. Ela tinha
algo importante a repartir.
B.
Ao
permitirmos
hoje
que
"outras
coisas"
çam o verdadeiro sentido das promessas de Deus
obscure-
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
com respeito ao Natal, a alegria que buscamos pode
facilmente transformar-se em miragem, Isso acontece
quando se procura a alegria em coisas que passam
rapidamente.
G. Resultado: pouco ou nada teremos a repartir que possa
produzir alegria verdadeira e dar significado às nossas
vidas e às vidas de outras pessoas. (cf. Mt 7.24-27 — a
casa que não foi construída sobre o fundamento que é
Jesus e sua Palavra, perece).
II.
Repartir as boas novas é uma forma de celebrar a. presença
de Deus e receber as bênçãos dessa sua presença.
A.
Compartilhar a mensagem que afetou decisivamen
te as nossas vidas, traz bênçãos de vida e salvação
a muitos.
1. Maria e Isabel foram escolhidas por Deus para
exercerem diferentes papéis na história do Natal, mas
ambos foram importantes e, as duas, repartiram uma
com a outra a nova de alegria e esperança naquilo
que Deus estava por realizar por intermédio delas.
2. A exemplo de Maria e Isabel, não importa em que
papel Deus nos colocou, podemos compartilhar com
nossas famílias, amigos e irmãos o evangelho do
amor de Deus revelado em Cristo. Como elas,
também receberemos as bênçãos da confirmação,
inspiração, alegria e esperança do Espírito Santo (Lc
1.41,42,44,45).
3. Que o Espírito Santo, e não a minha vontade
emocional, é o autor dessa alegria e esperança
mediante o uso dos meios da graça, está evidenciado
pelo estremecimento do feio no ventre de Isabel (vv.
41-42). Quando o Espírito do Senhor toca os
corações, ele provoca alguma resposta, assim como
sucedeu com João.
B.
Pelo Evangelho da encarnação, crucificação e res
surreição, Deus estabeleceu uma comunhão com ele
e entre os membros da família cristã.
1. A resposta de Maria em forma de um hino de louvor (o
Magnificat) atestam a comunhão que as duas
mulheres tinham com Deus e uma com a outra nos
três meses em que conviveram (Lc
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
193
1.56). Demonstra também como as duas se prepararam para os eventos que estavam por concretizar-se. Uma preparação calcada da palavra da
promessa c avivada pelo Espírito Santo. 0 resultado
foi uma gloriosa confirmação de sua fé, confiança e
esperança no Deus Conosco (Mt 1.23 — Emanuel).
2. Uma comunhão assim, que se expressa numa alegre
resposta de preparação pessoal e procla-mação, o
Espírito Santo pro ainda hoje nas pessoas que se
apegam à Palavra e aos sacramentos — nos quais
Deus se faz Emanuel de uma forma pessoal e real.
Ao Maria ser convocada por Deus, ela foi tocada profundamente
pela graça e pelo amor de Deus. E a sua resposta foi: "Aqui está a serva
do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra" (Lc 1.38).
Em nosso batismo Deus nos tocou com o seu amor eterno, em
sua palavras, ele continua nos tocando com seu amor perdoador.
Assim como Deus tocou e usou Maria (e Isabel), Deus continua a
tocar pessoas e as move a responder em amor.
Como pessoas tocadas pelo amor de Deus, também seremos
levados a compartilhar as novas em Jesus Cristo aos nossos familiares,
irmãos e amigos.
Bênçãos espirituais inigualáveis resultarão dessa comunhão.
Oscar Lehenbauer
Porto Alegro, RS
NASCIMENTO DE NOSSO SENHOR
Lucas 2.1-20
25 de Dezembro de 1991
Vv. 1-5 — Havia chegado "a plenitude do tempo" (Gl 4.4). O
considerado "senhor do mundo" César Augusto, sem se dar conta disto,
está a serviço dos planos de Deus. O mundo todo é posto em
movimento a fim de que se cumpra a profecia, segundo a qual o Cristo
iria nascer em Belém (Mq 5.2; Mt 2.5,6).
194
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
Vv. 6-7 — Apesar de Lucas ser o evangelista que noticia o
nascimento de Jesus com mais detalhes do que os demais evangelistas,
sua descrição, mesmo assim, é curta, simples e sem qualquer enfeite
poético. Também não é feito qualquer comentário, apesar de se tratar
do nascimento do Criador de todas as coisas e o Salvador do mundo. 0
destaque é dado ao anúncio do acontecimento, pelo anjo, aos pastores.
Vv. 8-12 — Aos humildes pastores dos campos de Belém é dado
o privilégio de serem os primeiros a receberem, a alegre notícia. E ao
que tudo indica foram os únicos a serem informados diretamente por
Deus, através de um anjo. Os magos viram apenas a sua estrela (Mt
2.2).
O evangelho é para humildes, "humildes de espírito" (Mt 5.3) e
para "cansados e sobrecarregados" (Mt 11.28). Pode alguém ser rico e
poderoso mas espiritualmente precisa ser humilde como uma criança
(Mc 10.15). "Aos pobres anumcia-se-lhes o evangelho" (Lc 7.22), pobres
no sentido espiritual, que não possuem méritos a oferecer, mas que,
como o publicano no templo, batem no peito e suplicam "Ô Deus, sê
propício a mim, pecador" (Lc 18.13). Provavelmente sem posses, os
pastores eram humildes em duplo sentido. Possuíam apenas seus rebanhos, se é que não eram apenas assalariados, Foram também humildes
espiritualmente. Cientes de sua condição de pecadores, esperavam
ansiosamente a vinda do Messias.
"Cristo, o Senhor". "Senhor" é a palavra grega usada pela
Septuaginta para a tradução do termo "Jeová".
Vv. 13,14 — Subitamente o anjo esteve acompanhado por uma
multidão de anjos. Deve ter sido o canto de Natal mais belo que já se
entoou. Tudo isto apenas por uns poucos momentos e só para uma
platéia de um punhado de humildes pas-lores! Ouvir este coro c
participar dele é um motivo a mais para aumentar nossa expectativa
para chegarmos lá.
As palavras do canto dos anjos não são um voto, uma oração,
nem a expressão de um desejo, como se dissessem: "Esperamos que
haja paz na terra..." mas são afirmação de realidades. Por causa do
nascimento de Jesus há glória no céu, e, na terra Deus tornou-se
propício para com os pecadores. Conferir Cl 1.20.
"Eudokia" (boa vontade), conforme Lenski, expressa a "voluntas
Dei antecedens" como em Jo 3.16, distinta da "volun-las consequens"
que salva aquele que crê e condena o que não crê, segundo Mc 16.16.
Vv. 15,16 — Os pastores, de pronto, resolvem ir a Belém, Não
para verificar se era verdade o que o anjo lhes havia anunciado mas
para desfrutar (os jovens diriam "curtir") o nasciIGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
195
mento do Salvador. Podemos imaginar os pastores dialogando com
Maria e José. Para os pais o nelato de como os pastores souberam do
nascimento da criança, deve ter causado grande impacto.
Vv. 17-20 — Importante nestes versículos é notar o destaque
que se dá à comunicação verbal. Os pastores "divulgaram" o que se lhes
havia "dito" (v. 17); das cousas "referidas" (faladas) pelos pastores (v.
18); Maria guardava todas estas "palavras" (v. 19); os pastores
"glorificam" e "louvam" a. Deus por tudo o que haviam "ouvido" e visto,
como lhes fora "anunciado" (v. 20).
Para os "pobres de espírito", os "cansados e sobrecarregados" a
mensagem natalina causa impacto: os pastores voltam glorificando e
louvando a Deus; Maria guardava as palavras e as meditava em seu
coração; todos que ouviram as palavras dos pastores se admiravam.
Proposta homilética
O texto oferece oportunidade para falar sobre diversos assuntos.
José e Maria obedecem às determinações da autoridade romana (vv. 15); a humildade e pobreza dos pais e de todo o cenário no qual se deu o
nascimento de Jesus (v. 7); a anunciação do nascimento pelo anjo aos
pastores (vv. 8-12); o canto da milícia celestial (vv. 13,14); a visita dos
pastores à criança na estalagem (vv. 15-16); e a divulgação dos
pastores do que haviam ouvido e visto (vv. 17-20).
Dentro da perspectiva do lema da IELB "Cristo para todos"
sugerimos o seguinte tema e partes:
Deus anuncia a vinda do Salvador do mundo
1. Pelo anjo
2. Pelo coro dos anjos
3. Pelos pastores de Belém.
Çhristiano Joaquim Steijer
PRIMEIRO DOMINGO APÓS NATAL
Lucas 2.41-52 29 de
Dezembro de 1991
V. 41 — Apenas Lucas relata este episódio da infância de Jesus.
Maria e José regularmente visitavam Jerusalém por oca196
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
sião da Páscoa. Conforme Ex 23.14-17; 34.23; Dt 16.16, toda pessoa do
sexo masculino deveria ir ao templo durante as festas da páscoa,
Pentecostes e dos tabernáculos. O exílio tornou isto impraticável. No
tempo de Jesus os judeus piedosos iam a Jerusalém, pelo menos,
durante a páscoa. Embora não fosse feita a mesma exigência para as
mulheres, não obstante muitas o faziam (1 Sm 1.4), Maria foi uma delas.
Isto dá a entender o clima religioso que havia no lar em que Jesus viveu.
É um belo exemplo que Maria e José proporcionaram, de como educar os
filhos num ambiente religioso.
V. 42 — Desde cedo as crianças dos israelitas recebiam instrução
na Escritura. Esta constituía o único livro-lexto até os dez anos. A partir
de então também se estudava a tradição dos judeus. A instrução na
Escritura começava com Levitico, continuava com os demais livros do
Pentateuco e posteriormente incluía os Profetas e os Salmos (2 Tm 3.15).
Com doze anos o menino era declarado de maioridade pelas autoridades
religiosas, quando então era declarado um "filho da Lei". Estava, agora,
comprometido com toda a Lei. Era, desde então, considerado responsável
do ponto de vista da religião, tal como sucede com os nossos
confirmandos.
Vv. 43-45 — A viagem a Jerusalém era realizada em grupos.
Muitos peregrinos regressavam após os dois dias mais importantes da
festa. Outros permaneciam até o fim, Foi o caso de Maria e José.
Podemos imaginar a preocupação deles quando, após o primeiro dia, não
encontraram Jesus na caravana em cuja companhia viajavam. O que
teria acontecido? Como prestariam contas a Deus se tivesse
desaparecido? Quanta angústia não deve ter infelicitado suas vidas
durante o retorno a Jerusalém e os três longos dias de procura! Não é
para menos que Maria, ao encontrar a Jesus, lhe disse: "Filho, por que
fizeste assim conosco?" Nenhum pai ou mãe está isento de aflições e
angústias por seus filhos, nem mesmo Maria e José.
V. 46 — Jesus encontrava-se cm alguma das áreas do templo
destinadas para o ensino dos mestres. Jesus os ouvia atentamente, fazia
perguntas e dava respostas. Sua atuação foi admirada por todos. Ele
possuía a sabedoria divina (v. 40). Deu ele exemplo de como se deve
participar de estudos bíblicos e aulas de ensino religioso:
ouvir,
perguntar e responder.
Vv. 48-50 — Os pais, vendo Jesus neste círculo de pessoas tão
cultas e ilustres, ficaram maravilhados. Não se deve supor, porém, que
interromperam a reunião, mas antes, que Jesus se levantou e foi ao
encontro deles.
Aparentemente, as palavras de Maria representam, uma
repreensão. Se há alguma falha, ou um pecado neste episódio, este
deve ter sido cometido pelos pais. Jesus era sem pecado.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
197
De fato, procurar a Jesus durante três dias em. Jerusalém, sem ir ao
templo, é estranho. A resposta de Jesus parece reportar-se a isto. "Por
que me procuráveis?" Ele não estava perdido. Era muito natural ele
estar no templo, na casa do Pai celeste. Ele estava ciente de sua missão.
Precisava antes obedecer a Deus do que aos homens (At 5.29).
Tomos aqui registradas as primeiras palavras ditas por Jesus.
Elas expressam dedicação a Deus, seu Pai.
V. 50 — Maria e José não compreenderam as palavras de Jesus.
O contato do dia-a-dia com Jesus como ser humano, talvez fez que não
se dessem conta de que este menino era também verdadeiro Deus.
Reconhecer isto era um assunto de fé, tal como lambem o precisa ser
para nós.
V. 51 - Apesar de o menino ser o Filho de Deus não assumiu um
ar de superioridade. Ele cumpriu o quarto mandamento integralmente.
Ele acompanhou a seus pais para Nazaré e lera-lhes submisso. Esta era
a vontade do Pai celeste quem colocou a Jesus sob a lei (Gl 4.1). Por
que ele foi posto sob a lei e foi submisso é que também nós nos
tornamos filhos de Deus (Gl 4.5).
Alguns fatos estavam aquém da compreensão de Maria. Mesmo
assim ela não os rejeita mas guarda-os em seu coração como um,
tesouro precioso.
Em nossos dias, uma atitude de submissão dos filhos, poderia
solucionar muitas crises que causam a infelicidade de inúmeros lares.
V. 52 — Aoi dizer que "crescia cm, sabedoria, estatura e graça
diante de Deus e dos homens" Lucas dá a entender que a conduta de
Jesus evidenciava sua prontidão em submeter-se à vontade divina e que
por isto Deus se agradava dele e ao mesmo tempo recebeu a admiração
e simpatia das pessoas (1 Sm 2.26).
Propostas homiléticas
Jesus e seus pais vivem uma crise familiar
1. A crise é causada porque Jesus se encontrava no templo entre
os mestres.
2. A crise é solucionada porque Jesus foi submisso aos seus
pais.
Como Jesus, é preciso que também nós cresçamos
1. Em sabedoria (Educação permanente, "permanecer na
palavra" Jo 8.31,32).
198
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
2. Em estatura (É preciso cuidar do corpo mesmo quando se é
adulto).
3. Em graça (Crescer na simpatia diante de Deus e dos homens.
Diante de Deus pela fé em Jesus e pelos frutos da fé. Diante
dos homens pelo amor ao próximo como fruto da fé.)
Christiano Joaquim Steyer
SEGUNDO DOMINGO APÓS NATAL
João 1.1-18
5 de Janeiro de 1992
NO PRINCÍPIO ERA O VERBO...
É um texto que suscita raras dúvidas. A não ser pela linguagem,
que pressupõe familiaridade com a "gnose". Mas ao contrário do Logos
grego, este Logos é Alguém, não aquilo que expressa a harmonia; não é
controlado, mas se revela; não é historicamente indefinido, mas se
identifica com o princípio. O "en arxee" é categórico. O Logos identificase assim com o "en arxe" que ligava toda a realidade do mundo àquele
que era antes do princípio, que criou o princípio e que assim deu origem
aos fatos com os quais a história do homem se constrói e identifica.
O Logos que era e estava no princípio não ficou limitado ao
movimento inicial. Ele continua presente nos fatos que são a história,
porque todas as coisas por ele criadas são suas e ele as busca. O
evangelista afirma os fatos neste evangelho para que a simplicidade dos
fatos ateste a sua própria lógica, confirmada nos discursos finais do
Logos.
Este texto portanto tem uma organização interna natural. A
sabedoria popular concorda em dizer que "contra fatos não há
argumentos"; ou então, os fatos impõe a sua própria lógica.
Os fatos que o apóstolo alinha nestes versículos do evangelho
determinam que somos filhos de Deus.
TEMA: Estes fatos determinam que somos filhos de Deus.
1: Fato: Ele estava no mundo.
quem?
O Natal nos põe diante de um fato: Ele estava no mundo. Ele,
Aquele de quem falavam homens como João Batista.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
199
Um homem da mais alta credibilidade. Um homem, cuja
autenticidade nem os governantes puderam por em dúvida ou ignorar,
Este homem disse: "Não sou digno de desatar-lhe as correias da
sandália."
Jo 21.25 — 70 anos depois, João ao final deste evangelho
escreveria: Se tudo que Jesus fez fosse relatado etc. Ao escrevê-lo, João
não seria contestado, porque contra fatos não há argumentos. Estes
impõe a sua própria lógica. Ele realmente esteve no mundo tal como
relatado. E a razão para ter estado no mundo está no 2o fato atestado:
2º Fato:
Veio para o que era seu.
Talvez este seja o fato que gerou mais polêmica. Veio para quê?
À procura do que era seu.
Muitos o procuraram, oferecendo-se. Se você é o Logos, se você
é o mandado de Deus então é a nós que você procura. Pessoas
respeitáveis, contribuintes, exemplos da fé. Mas ele ignorava a eles e os
seus exemplos e exemplares requisitos. Ele veio a procura deles, para
oferecer graça e misericórdia a quantos precisam. Mas os seus não
precisavam disto. Ou não queriam admitir que precisavam. E faziam
pouco de todos que realmente precisavam.
Mas ele veio para o que era seu. Aqueles pareciam, ser dele mas
não eram porque não queriam ver-se como necessitados de graça e
misericórdia. Outros nem sabiam o que pareciam. Mas tinham certeza
que se Deus não tivesse a misericórdia e piedade na sua natureza,
estariam perdidos. Estes por isto, se tornaram os seus, para os quais
efetivamente veio.
Os fatos impõe a sua lógica.
3º Fato: Estes, que o receberam, são os filhos de Deus.
Ele, realmente, não era deste mundo. Se fosse deste mundo,
teria saltado do pináculo do templo e feito milagres nos lugares e para
as pessoas certas, etc.
É preciso não ser deste mundo para querer ser filho de Deus.
Realmente, ninguém o pode ser. A não ser que Ele, que não é deste
mundo, desse o poder aos deste mundo de serem filhos de Deus,
Por que privilégios só se dão neste mundo por favores e laços de
sangue ou por força da força. Mas estes recursos, só dão privilégios
deste mundo a pessoas deste mundo.
O privilégio de ser filho de Deus só se pode ter por recurso que
não seja deste mundo. Este privilégio só pode ser
200
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
considerado a quem tenha desistido de tudo que seja recurso, obras,
piedades e privilégios deste mundo.
4º Fato: Aos que o receberam, só lhes resta confiar.
Vidas vazias de graça e misericórdia, cansadas, angustiadas e
cheias de dúvida no pecado e no sofrimento. Estas; vidas são o motivo
porque ele veio. Tais vidas ele veio preencher e certificar
insistentemente de que não se deixam afastar por nada deste mundo
deste fato: Se crêem neste que era e veio, eles são os filhos amados de
Deus.
Introdução:
Contra fatos não há argumentos, diz a sabedoria popular e
concorda a nossa experiência. Isto começa a aprender o menino que
poucos dias depois do Natal olha desolado para os brinquedos
desmontados no chão. Ou quando nós descobrimos o quanto se ganha
em tempo e dinheiro se lermos com cuidado as instruções. E quantas
vezes, no esforço de fixar melhor ou prender mais alguma coisa,
descobrimos que aquela última martelada, ou a última meia volta da
chave de fenda, foram demais. A gente sempre de novo aprende que as
coisas e os fatos na vida impõe sua própria lógica. O evangelista alinha
aqui alguns fatos e conclui com o fato essencial:
TEMA:
Os fatos determinam que somos filhos de Deus.
Para isto é preciso deixarmos os fatos tal como estão e não
querer ajustá-los à nossa maneira.
1° Fato:
2° Fato:
3o Fato:
4° Fato:
Ele estava no mundo.
Veio para o que era seu.
Os que o receberam, são filhos de Deus.
Aos que o receberam, basta-lhes esta confiança.
Paulo P. Weirich
Niterói, RS
EPIFANIA DE NOSSO SENHOR
Mateus 2.1-12
6 de Janeiro de 1992
Leituras do dia: O Salmo 72 destaca o reinado eterno e justo do
Messias, sobre todas as pessoas, povos e reis da terra.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
201
O texto de Isaias 60.1-6, retrata a grande alegria e glori-ficação
da Nova Jerusalém, i.e., a Igreja. A salvação divina, Sua graça, e Sua
glória resplandecem sobre a Igreja (vv. 2). Gentios serão convertidos e
juntados em conseqüência da oferta universal da graça de Deus
revelada em Cristo, à Igreja.
A Epístola, como também o Evangelho, deixam claro esta
universalidade da salvação revelada no recém-nascido "Rei dos Judeus".
O Apóstolo Paulo denomina estas Boas Novas, de "riquezas", que foram,
dadas em Cristo (vv. 8), repartidas através da pregação (vv. 3-11), que
permitem o acesso a Deus (vv. 12) e reveladas também aos gentios
(vv. 6).
O Evangelho destaca igualmente o grande júbilo que manifestaram, os Magos, representantes das nações da terra, diante do Hei
e Salvador recém-nascido (vv. 10).
Com base nas leituras, o tema para o dia poderá ser: A grande
alegria diante das Boas Novas da salvação reveladas em
Cristo.
Contexto: 0 evangelista Mateus omite o relato da visita dos pastores de
Belém, fato este que ocorreu antes da visita dos Magos, e que nem. por
isto, deixa de estar colocado no contexto da Epifania do Senhor Jesus. O
relato sobre este contexto mais amplo pode ser encontrado em Lc 2.120. As profecias que os Magos provavelmente conheciam a respeito da
manifestação do Messias, estão registradas nas passagens em Números
24.17; Daniel 9.24.
Texto: Neste texto de Mateus 2.1-12, o evangelista mostra que o
menino nascido da descendência de Davi, foi identificado pelos Magos
provenientes do mundo não-judeu, como sendo o "Rei dos Judeus" (vv.
2). Estes Magos eram, com certeza, astrólogos que tinham visto, na
direção do Ocidente, um fenômeno estranho: a aparição de uma estrela,
e interpretaram-no como sendo o cumprimento de uma profecia a
respeito do nascimento do Messias universal entre os Judeus. Por isso,
vieram diretamente à terra dos Judeus, nos dias do Rei Herodes (vv. 1 e
2). Em honra aos Magos, a igreja antiga decretou uma celebração
especial en-litulada "Epifania" que significa "a manifestação", sendo os
Magos os primeiros gentios a se aproximarem de Jesus.
No versículo 3 está escrito que "Herodes perturbou-se" ante a
indagação dos Magos. As profecias dos fariseus indicavam que Deus
julgaria a Herodes e que haveria uma revolução. Herodes matou a
muitos líderes judeus, incluindo os principais sacerdotes, com receio
destas profecias. Ele conhecia também as profecias de Números 24.17 e
Daniel 9.24, que davam aos judeus a idéia de une o tempo da chegada
do Messias estava
202
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
próxima. Herodes tinha receio de perder o trono e o povo linha medo
de sofrer mais violências às mãos de Herodes.
O versículo 4 mostra que Herodes queria obter uma resposta
teológica, pelo que reuniu "todos os principais sacerdotes e escribas do
povo", provavelmente o sinédrio.
A resposta dada no versículo 5 se baseia cm Miquéias 5.2 e foi
corretamente interpretada pelo grupo no tocante ao Messias. Herodes
acreditou na profecia e procurou matar o Cristo, ao passo que os
sacerdotes, apesar da sua erudição, não reconheceram a Cristo.
Segundo Agostinho: "O judeu somente leva a Escritura, de cuja fonte, o
cristão, em contraste, deriva a sua crença.
Esle texlo sugere várias perguntas não fundamentais à fé cristã,
tais como: Quem eram os Magos? De onde vieram? Quantos eram eles?
Quais eram seus nomes? A preocupação, antes, é responder a respeito
do Messias.
Deus em sua santa Palavra providenciou as respostas corretas
aos anseios do seu povo, tais como: Quem 6 aquele que veio ao
mundo? Por que veio? Da parte de quem foi enviado?
Disposição: Tomando-se o Evangelho
poderíamos sugerir o seguinte:
como
referencia básica,
Tema: Respostas apropriadas para perguntas certas.
I
Haviam perguntas que necessitavam de respostas.
A.
B.
Os Magos perguntaram.; "Onde está o Rei dos Judeus?"
(vv. 2).
Herodes perguntou: "Onde está o Cristo?" (vv. 4-6);
"Quando aparecera a estrela?" (vv. 1).
C. Perguntas a serem respondidas hoje: "Quem é aquele que
veio?" "De onde veio?" "Enviado da parte de quem?"
II - - Em sua santa Palavra, Deus providenciou todas as respostas
certas às perguntas importantes da fé cristã.
A. "Onde nasceu o Messias?" Em, Belém (Mq 5.2). B.
"Quando nasceu?" Na plenitude do tempo, segundo o desígnio
de Deus (Gl 4.4).
C. "Quem é Ele?" Os Magos creram nele como o Rei e
governador supremo sobre todos os povos (Mt 2.11).
D.
"Por quê Ele veio?" Pelo fato de estarem
corrompidos em sua natureza, pelo pecado, e sob a
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
os
homens
203
ira de Deus. Veio para livrar os homens do pecado, da
morte e da eterna condenação; para governar e reinar
como Rei e SENHOR no coração dos crentes.
III — Deus espera do seu povo, respostas apropriadas.
A.
Herodes e os principais sacerdotes e escribas não cor
responderam às expectativas de Deus. Estes conhe
ciam, a verdade mas não creram nela. Conheciam as
escrituras intelectualmente. Herodes tentou destruir
o Messias, por considerá-lo um rival
B.
Os Magos, iluminados pelo E. Santo creram que o
Messias era também para eles. O adoraram, oferta
ram dignamente dos seus tesouros como resposta da
sua fé.
C.
Deus E. Santo deseja iluminar-nos e fortalecer-nos
através da Palavra e Sacramentos a fim de que nos
alegremos diante da revelação do amor e do perdão
de Deus em Cristo Jesus.
Que o E. Santo nos de entendimento para não rejeitarmos a
Cristo como os judeus, nem nos revoltarmos contra a sua
igreja como Herodes, mas andarmos pelos caminhos da fé,
esperança, adorando-o com nossas vidas, tempo, talentos e
tesouros, como os Magos.
Nereu Rui Weber São
Leopoldo, RS
PRIMEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Lucas 3.15-17,21-22
12 de Janeiro de 1992
Próprios do Dia
A temática da época de Epifania é a missão. Essa é também a
temática da IELB até o ano 2000. Os próprios deste domingo falam a
respeito do preparo de Jesus para sua grande missão no mundo.
O Sl 45.7-9 acentua que Deus ungiu o Rei (Jesus) "com o óleo de
alegria", que é o Espírito Santo.
Em Is 42.1-7 Deus identifica, como no batismo de Jesus, "o meu
servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a
2Ü4
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará
o direito para os gentios". A grande missão é a de que será o "mediador
da aliança com o povo, e luz para os
gentios".
Em At 10.34-38 Pedro confirma que "Deus ungiu a Jesus de
Nazaré com o Espírito Santo e poder".
Contexto
Trata-se do final da tarefa de João Batista e do começo da missão
de Jesus. João era o precursor, mas Jesus é o Messias. João pregava o
arrependimento e administrava o batismo. Mas ele sabia que só Jesus
podia transformar os corações, concedendo o Espírito Santo. Por isso
João faz uma comparação entre a sua pessoa e a de Jesus, entre a sua
missão e a de Jesus. Culmina no batismo de Jesus por João Batista.
Texto
v. 15 O povo de Israel sabia das promessas a respeito do
Messias. O AT estava cheio: todos os profetas dele falavam. Era agora
que devia vir, segundo todas as expectativas. Onde está? Não seria João
mesmo? Sua mensagem levava ao arrependimento, falava com poder,
batizava multidões.
v. 16 — João podia ter liderado um, movimento messiânico. Mas
não era um impostor. Apenas veio para preparar o caminho para o
verdadeiro Messias. João só podia dar o batismo com água, mas o
Espírito Santo que transforma os corações só podia ser dado por Deus
mesmo: o Messias "mais poderoso do que eu". João se coloca no devido
lugar: não era nem "digno de desatar-lhe as correias das sandálias". Era
pecador humilde, a serviço do Rei, como amigo do Rei e seu arauto. —
O batismo "com o (ou no) Espírito Santo" podia referir-se simplesmente
ao poder inerente ao "batismo com água": uma é a aparência externa,
outra é a força real que só Jesus pode dar. Assim João mostra qual era o
seu poder pessoal, e qual era o poder de Jesus. Mas também pode
apontar para todas as demais manifestações do poder do Espírito Santo
através do Evangelho. A pregação do Evangelho é sempre um "lavar
regene-rador e renovador do Espírito Santo" (Tt 3.5), tanto na Palavra,
como no sacramento. As manifestações específicas do Espírito Santo por
ocasião do Pentecoste (At 1.5; 2.4,38) e do Pentecoste dos gentios (At
11.16) e da imposição das mãos (At 19.4; cf. 8.16) são sempre ainda
"batismos" no Espírito Santo, feitos por Jesus. — A referência ao "fogo"
pode apontar para as "línguas de fogo" de At 2.3, ou para o teste do
fogo de 1 Co 3.13. O contexto de Lucas aponta mais para o fogo do
juízo (v. 17).
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
205
v. 17 — A função de Jesus será a de pedra de toque. Nele tudo se
define: ou somos amigos do Rei, ou perecemos. João ainda podia ser
enganado: as multidões que vinham, se batizar lambem podiam não
receber o Espírito Santo (At 19.4-6). Mas Jesus define o coração: ou se
recebe dele o fogo do Espírito Santo para vida, ou se acaba no "fogo
inextinguível" da condenação. Por isso a missão de Jesus c a nossa
missão é tão importante: está em jogo o destino eterno. — Os
versículos 18-20 intercalam o episódio final na vida de João Batista:
está no cárcere, onde morre (Mc 6.14-29).
v. 21 — Agora começa a missão de Jesus: o batismo é o início
oficial do seu ministério. Lucas dá um detalhe importante: Jesus estava
"a orar". A oração de Jesus não é só exemplo para nosso início de
missão, mas é parte da essência de sua obra: Jesus ora por nós c
intercede continuamente por nós perante o trono de Deus, porque Ele
estabeleceu a graça como padrão de justiça. "O céu se abriu".
v. 22 — A pomba é uma escolha muito especial. Outras escolhas
de Deus são: água, pão, vinho. Anjos tomaram a forma de homens.
Cristo era a "pedra espiritual" que seguia o povo de Israel (1 Co 10.4). A
pomba se tornou o símbolo da paz de Deus com os homens através do
Espírito Santo dado por Jesus. Outra escolha especial é a voz humana,
"uma voz do céu". Era Deus Pai falando ao "Filho- amado". Está
claramente demons-trada a Trindade em coisas físicas: a voz do Pai, o
Pilho humanado, o Espírito Santo na pomba. A missão de Jesus seria
uma obra do Deus Triuno. Trindade revela o grande amor de Deus pela
sua criatura decaída. Deus mesmo assume a sua criatura em Jesus
Cristo: é o Deus-homem que carrega o pecado do mundo. Sua fidelidade
estabelece a aliança eterna "PAI sou teu Deus; tu és o meu povo".
Mateus lembra que o batismo de Jesus era necessário para "cumprir
toda a justiça" (Mt 3.15). Isto pode ser em dois sentidos. Primeiro, Jesus
cumpriu todos os requisitos para com justiça ser reconhecido como o
Messias, pois é o Descendente de Davi (2 Tm 2.8) e o Filho de Deus (Cl
2.7); foi "ungido" com o Espírito Santo, o verdadeiro "óleo de alegria"
(Sl 45.7); repousou sobre ele "o Espírito do Senhor" (Is 11.2). Jesus
agora estava incumbido plenamente da sua missão, pois "Deus ungiu a
Jesus com o Espírito Santo e poder" (At 10.38). Sua missão é salvar-nos
e repassar o seu Espírito Santo a todos nós pela fé. — Segundo, com o
seu batismo Jesus também cumpriu a nossa justiça. Foi batizado não por
sua causa, mas por nossa causa como nosso substituto. Em Cristo já
fomos batizados "no Espírito Santo". Nosso batismo é uma atualização
desta justiça pela fé, assim também recebemos o Espírito Santo e o
poder para a nossa missão no mundo. O Espírito Santo preparou Otniel
(Jz 3.10), Gideão (Jz 6.34), Jefté
206
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
SEGUNDO DOMINGO APÓS EPIFANIA
João 2.1-11
19 de Janeiro de 1992
AS BODAS EM CANÁ DA GALILÉIA
A narrativa é simples e direta. Os fatos, evidentes. O problema
salta aos olhos: "Eles não tem mais vinho". Mas será este um problema
no qual deva ser invocada a presença de Deus? E mesmo que
indevidamente invocado, deve Deus atender pedidos desta natureza? E
se Deus se deixa envolver, que reflexões novas, que problemas se
levantam e que caminhos se abrem a partir desta atitude de Deus?
Quem hoje se atreveria a incluir nas suas orações: "Senhor, acabou-se
o nosso vinho".
Para Maria foi uma oração perfeitamente natural e piedosa,
porque pedia para que não ficasse excluído da vida daqueles amigos
aquilo que amenizava as agruras e no mesmo efeito sublinhava as
alegrias: o vinho.
Quando olhamos para os nossos cultos aos quais o evangelho dá
o caráter festivo, eucarístico e aí vemos sermões e rostos austeros,
sizudos e apocalípticos; onde sorrisos, alegria e bem-estar são sentidos
como "penetras indesejados". Ou quando sentimos que a vida
congregacional é uma pressão constante que pressupõe deveres e
ascetismos, realmente, fica difícil pedir "mais vinho" sem um sentimento
de culpa.
O apóstolo Paulo, celibatário que "esmurra o seu corpo",
esmurra-se em quê? Esmurra-se para não cair outra vez no fa-risaísmo
do (Cl 2.20-23) "não manuseies isto, não proves aquilo, das coisas que
tem aparências de culto e humildade..."
Em todos os tempos o homem reinterpretou a graça de Deus
para que as suas virtudes piedosas pudessem assegurá-lo de que se
fazia digno desta graça. Os fariseus do tempo de Jesus, os monges
celibatários na Reforma e mais recentemente, o pietismo com seu rigor
ascético.
Infelizmente, a teologia se livra do pietismo, mas podem os
cristãos luteranos ou de qualquer denominação livrar-se da tentação à
"falsa humildade e do rigor ascético" com que constróem a fachada do
exemplar filho de Deus?
O evangelho nos mostra o quadro mais comum e vulgar possível.
Pessoas casam-se a toda hora. Em grandes igrejas, nas vilas, com
pompa ou sem luxo nenhum. E fazem festas. Nestas festas riem,
gritam, dançam, comem c bebem. E quando a festa
208
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
anima, pastores com ares de ascética tolerância, se afastam como quem
não deve ter parte naquilo.
Enquanto isto, no melhor da festa, acaba o vinho. E Jesus, cm
vez de pensar: "Ainda bem que acabou" dá-lhes um novo e melhor
fornecimento. Continuaram a beber, a comer, a dançar, a gozar com,
gratidão e sem culpa aquilo que Deus lhes dava: alegria, motivos e
modo de alegrar-se.
Para os ascéticos fariseus que olhavam com inveja a alegria
simples e ruidosa do povo, aquele Jesus devia ser para eles um claro
sinal de decadência de todo o sistema religioso. Para eles, era impossível
admitir ou compreender que a glória de Jesus estava no fato de que
aqueles aldeões simples e ruidosos tinham diante de Deus maior
dignidade c honra do que todo o ascetismo mal-humorado, politiqueiro e
ganancioso do templo de Jerusalém.
Deus estava cm Cristo recebendo as vidas das pessoas do mundo
todo para que não mais carregassem as suas limitações, imperfeições e
erros como um fardo permanente aumentado pela insegurança daqueles
que falam do amor de Deus mas se isolam daqueles a quem Deus mais
quer amar: os comuns e indignos na religião oficial.
Jesus participou daquela festa não como quem tolera uma
fraqueza nos outros. Jesus participou como parte da festa e da vida das
pessoas e nisto está a sua glória.
Quando olhamos para as igrejas, congregações e os projetos de
hoje, encontramos ainda pastores que se alegram com a alegria e que a
santificam? Ou temos igrejas sizudas, preocupadas com a piedade? O
que podemos dizer às pessoas de hoje?
Este texto inaugura oficialmente o contato de Jesus com o
mundo. Existem só duas abordagens possíveis para apresentarmos
Jesus: ou ele veio dar mais ascetismo ao homem natural que necessita
provar e mostrar-se digno, ou Jesus veio aceitar as vidas das pessoas e
dar a elas a dignidade da sua presença a participação. Jesus escolhe
uma festa onde o sóbrio asceta reconhece todas as pequenas e grandes
fraquezas comuns das pessoas em livre circulação. As pessoas aí, vistas
friamente, na sua alegria e espansividade podem até parecer ridículas,
infantis e inconseqüentes. E Jesus, santificando-os, mostra em que
direção se encaminha o seu ministério.
Contra as expectativas, Jesus não veio instalar uma nova ordem
piedosa, eficiente e realizadora. Jesus não veio criar uma religião que,
como todas demais, fizesse o povo girar em torno de um código
administrado por uma elite. Jesus veio santificar as vidas comuns nas
casas e aldeias, becos e atalhos e servir
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
209
estas vidas para certificá-las através deste serviço do apregoado amor
de Deus.
Introdução:
Jesus está na nossa festa
A — para participar nas nossas vidas
ele não despreza as vidas obscuras, manchadas e
comuns
ele as redime
B — para santificar as nossas vidas
ele não imputa os pecados e imperfeições
ele as cobre com sua justiça
C — para que as nossas vidas sirvam à comunhão
D — para que Deus receba louvor das nossas vidas.
Paulo P. Weirich
Niterói, RS
TERCEIRO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Lucas 4.14-21 26 de
Janeiro de 1992
Leituras do Dia
O Intróito, nos termos do Sl 146, convoca o crente, em plena Epifania, a
cantar louvores a Deus, que faz justiça aos oprimidos, levanta os abatidos e ama
os justos. A leitura do AT, de Is 61, é o trecho citado por Jesus no evangelho do
dia, em que o profeta, como protótipo do Messias, se apresenta como quem
profere a mensagem das boas novas aos que são também chamados de
"sacerdotes do Senhor" e "ministros de nosso Deus". A epístola chama os
cristãos de "corpo de Cristo", e sobre esta figura monta a necessidade de se
participar da comunhão cristã, independentemente das dificuldades e
individualidades.
210
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
Contexto
Antecede ao texto o relato da tríplice tentação de Jesus, além das
tentações não relatadas; a oposição que lhe fez o diabo, pretensamente
apoiado na palavra de Deus; e a vitória de Cristo, com o uso da mesma
palavra, em favor de todos os que nela confiam.
Texto
Vv. 14,15 — Entre os fatos referentes à tentação e o primeiro
sermão dele em Nazaré, Jesus tem confirmada, nestes dois vv., a fama
crescente, face a seus ensinos e ações, acompanhados pelo poder do
Espírito Santo. Servem de interlúdio para a afirmação do profeta em sua
terra natal e de que essa sua fama se baseia, não necessariamente nos
milagres, mas no poder de seu ensino.
Vv. 16-19 — De acordo com a cronologia dos fatos referidos pelo
evangelista João, antecedem, a este trecho vários outros eventos.
Nazaré era uma pequena vila situada na baixa Galiléia. 0 nome deriva
do hebraico nêtzer, rebento, o mesmo que aparece em Is 11.1,
prenunciando o nascimento do Messias como renovo do tronco de Jessé.
O termo é repetido em Is 58.2, com referencia ao aspecto humilde do
Nazareno, como sendo da "cidade dos arbustos". O fato de Jesus ter sido
criado em, Nazaré não foi, pois, uma coincidência, mas fez parte da
proferia.
Jesus participa do culto de seus conterrâneos, "segundo o seu
costume", na synagogée ou local de encontro e reunião, que, após a
volta do cativeiro, se tornara local de morada do nome do Senhor (Sl
71.1). Nas leituras dos rolos, tomavam-se dois textos, um do
Pentateuco, chamada a Lei, (Torah) e outra dos profetas (neviim) —
duas grandes divisões do AT, ao lado dos "escritos" (Kettivim), que
englobavam poesia e provérbios. O texto do AT, em geral escolhido pelo
próprio leitor, Jesus, é a leitura deste domingo (Is 61) e apresenta Jesus
como o profeta anunciado e prometido no AT.
Messias = Cristo = Ungido: a primeira referência de Jesus diz
respeito à sua condição de ungido pelo Espírito Santo, como todo
verdadeiro profeta. Seu ofício, pelo anúncio da palavra do Pai, está
sendo colocado diante de seus ouvintes, para confortá-los e assegurarlhes a execução do plano divino estabelecido já na eternidade e
profetizado por Isaías. ,É a confirmação da verdade da palavra divina,
não que ela necessite disso, mas para o reforço nos ouvintes e
praticantes da mesma.
"Evangelizar os pobres" — 0 conforto da boa nova alcança, como
lenitivo, os que são necessitados de perdão e paz. AnunIGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
211
ciar a boa nova (euaggelímstai) aos pobres não é uma mera "opção",
que procura soluções urgentes e superficiais, mas tem o sentido muito
mais profundo de levar a salvação a quem se sente necessitado de bens
espirituais, perdão de pecados, vida e salvação eternas, sem descuidar,
é claro, da comunhão fraterna, que Jesus provou por milagres do amor
divino-humano.
"Proclamar libertação aos cativos" — Esta referência lembra o
estado dos que voltaram do cativeiro histórico da Babilônia, mas acresce
a este a libertação do pecado, pela obra de Cristo.
"Restauração da vista aos cegos" — O sentido da vista física e
sua importância apresentam a obra do Profeta de Nazaré, aqui acrescida
da proposta, dirigida pelo Espírito Santo, de enxergarem seu Libertados
também com os olhos da fé.
"Pôr em, liberdade os oprimidos" — A opressão do ser humano
não e apenas nem preponderantemente econômica, social e política,
como o dão a entender os "teólogos da libertação". Estas são apenas
conseqüências do pecado, que é de longe a maior opressão do ser
humano, e da qual Cristo afirma, para o nosso consolo, que veio nos
resgatar.
"Apregoar o ano aceitável do Senhor" — Este é o tempo (kairós)
que Deus havia reservado para proceder à salvação da humanidade.
Ouvir e entender esta mensagem hoje é, mais uma vez, um tempo
sobremodo oportuno!
Vv. 20-21 — A leitura foi tão eloqüente, e as verdades expressas
tão contundentes, que atraíram a atenção c a simpatia inicial de seus
conterrâneos. A. afirmação peplêrootai, com a reduplicação do perfeito,
no original, atesta esse "cumprimento" ou preenchimento da profecia,
presente no Cristo que fala, que faz, que ajuda.
Disposição Homilética Jesus, o
Verdadeiro Profeta:
1. Foi ungido pelo Espírito Santo e cumpre sua missão.
2. Ensinava com autoridade divina e empatia humana.
3. Continua, por Palavra e Sacramentos, a libertar e curar.
Elmer Flor
212
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
QUARTO DOMINGO APÔS EPIFANIA
Lucas 4.21-32 2 de
Fevereiro de 1992
Próprios do Dia
A missão do cristão não é sempre fácil. A mensagem do
Evangelho sofre oposição do velho homem, aumentada quando relações
humanas deterioram entre pessoas muito próximas uma da outra.
O Sl 35 anota que "não há temor de Deus" no ímpio. Mesmo
assim Deus não desiste: a "tua fidelidade" chega "até às nuvens".
Jr 1.4-10 procura uma desculpa: "Eu que não sei falar; porque
não passo de uma criança". Mas Deus não aceita: "Tudo quanto eu te
mandar, falarás" e "Eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor".
Em 1 Co 12.27-13.13 o apóstolo Paulo recomenda insistir:
"Procurar, com zelo, os melhores dons". Pois "o amor é paciente. .. tudo
sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba". A
mensagem do Evangelho é a missão que não pode parar, apesar da
oposição e das desculpas.
Contexto
Jesus está na sinagoga de Nazaré, onde leu e explicou Is 61.1-2,
Sua mensagem não foi bem recebida. A missão no mundo não é fácil.
Não foi fácil para Jesus. Não foi bem recebido pelos que mais o
conheciam em Nazaré. Mas isto não desencoraja a Jesus. Ele continua
sua missão com todo o amor. Vai para Cafarnaum. Lá, tem, sucesso.
Assim nossa missão sofrerá revezes. Mas "o amor jamais acaba". Vamos
continuar nossa missão.
Texto
v. 2. — Era costume ler o texto sagrado em pé. Para a homilia
era costume sentar (v. 20). O texto de Is 61.1-2 que Jesus usou era
uma variante da Septuaginta. Quando Jesus aplica o texto a si mesmo e
diz que o texto "hoje" foi cumprido, ele declara que é o Ungido, o
Messias. Afirma que nele o AT se cumpriu, que ele é o profeta do
Altíssimo que "proclama libertação" como o próprio Deus.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
213
v. 22. — A pergunta e como interpretar o "dar testemunho" e
"maravilhar-se". Pelo contexto isto não parece positivo. De fato o
"testemunhar" pode ser condenatório, como em Mt 23.31, Jo 7.7 e
18.23. Aqui certamente podia ser traduzido por "havia muitos
comentários" (negativos). 0 "maravilhar-se" também é mais de espanto,
confusão e estranheza. Pois, embora Lucas fale "das palavras de graça
que lhe saíram dos lábios" e aprove o que Jesus falou, os moradores de
Nazaré debocham e criticam: "Não é este o filho de José?" Os de fora de
Nazaré diriam ainda: "De Nazaré pode sair alguma coisa boa?" (Jo
1.46).
v. 23. — Jesus conhecia o deboche deles. Certamente era neste
tom: "Falar é fácil, mas mostre a prova; faze os milagres de
Cafarnaum; você está delirando, cure-se primeiro".
v. 24. — Jesus reafirma sua autoridade. Com 0 "Amém" ele usa a
fórmula dos profetas: "Assim diz o Senhor!" "Amém", na verdade
"nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra". As relações
humanas muito próximas dificultam a aceitação de autoridade.
vv. 25 e 26. - Jesus agora ataca: já que os "de casa" não querem
ouvir, a Palavra irá aos outros. Assim aconteceu em Israel no tempo de
Elias, que foi à viúva de Serepta de Sidom. Era uma cidade fora de
Israel. Ali Elias foi bem recebido.
v. 27. — A cura que Deus oferece será dada aos gentios se Israel
a rejeitar. Quem rejeita a Cristo rejeita a única salvação que existe,
porque Jesus é o próprio Evangelho que cura. Naamã foi um estranho
ao povo que foi curado. Sc Nazaré rejeita, outros receberão a bênção.
Deus castigará Nazaré.
vv. 28 e 29. — Estas palavras encheram os de Nazaré com ódio.
Se Jesus é verdadeiro eles estão sob maldição. Mas Jesus, para os
habitantes de Nazaré, se faz ilegitimamente de Deus: eles o conheciam
muito bem; é lá da família de José! Logo, Jesus, tendo-os ameaçado c
tendo blasfemado, deve morrer (Mc 16.64; Lv 24.16). Procederam como
Israel procedia: matavam os profetas (Rm 11.3; Mt 23.37).
Iriam
matar a Jesus.
v. 30. — Jesus não podia ser morto: era sem pecado, era Deus!
Só iria morrer substitutivamente pelos homem quando Ele entregasse a
sua vida na cruz. Não era chegada a hora. Não morria por vontade dos
homens: Ele passou "por entre eles, retirou-se"!
Que presença
fantástica!
vv. 31 e 32. — Em Cafarnaum o receberam e se maravilharam:
sua pregação era de autoridade divina (Mt 7.28-29). O Evangelho
seguia o seu curso de salvação. A missão continuava.
214
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
Esboço
A missão não é humana;
poder vem de Deus.
I.
é de Deus.
Haverá oposição. Mas o
Nossa fraqueza.
a. Os outros desprezam.
— o mundo não quer ser modificado. —
nossas fraquezas também estorvam.
b). Não depende de nós.
— mas devemos tirar os empecilhos que podemos
tirar.
— devemos contnuar a missão como Cristo em Gafarnaum.
II.
O poder de Deus.
a. Cristo é o próprio Evangelho.
— muitos se escandalizam, com a singeleza "de casa".
— a promessa está só na Palavra e nos sacramentos
(teologia da cruz).
— quem rejeita Cristo rejeita a salvação.
b. não é nossa obra: vamos continuar a missão.
— a alegria do desafio: Deus nos escolheu como
testemunhas.
— o consolo: Deus nos fortalece nas derrotas e provações.
Conclusão: A Palavra é de autoridade: o Evangelho é poder (Um 1.16).
Nossa missão vai continuar, apesar dos desafios, para além do ano
2000.
Marfim C. Warth
QUINTO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Lucas 5.1-11
9 de Fevereiro de 1992
O cenário da "pesca maravilhosa" é o lago de Genesaré. O
principal lago da Palestina. Localiza-se na região da Galiléia.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
'215
Tem aproximadamente 24 km de extensão, por 14 km de largura,
alcançando uma profundidade média de 50 metros. O lago apresenta
Ires características: situa-se a 225 metros abaixo do nível do mar, a
formação de repentinas tempestades lacustres (Mc 4.35-41), e sua
grande piscosidade (mais de vinte espécies de peixes).
A Galiléia era uma região rica, fértil e de clima agradável. Na
cidade de Nazaré, Jesus passou grande parte da sua infância e
juventude, sendo por isso mesmo chamado de "nazareno" (Mt 2.23).
Cafarnaum foi a cidade sede de seu ministério (Mt 4.13). Da Galiléia
eram também a maioria dos discípulos de Jesus, daí o grupo todo ser
denominado de "galileus" (At 1.11; 2.7).
Os personagens que integram os acontecimentos do nosso texto
são Jesus, parte do povo da Galiléia e um grupo de pescadores do lago
de Genesaré. O texto é de fácil compreensão. Importa agora aprender o
que o texto nos quer transmitir hoje, para a aplicação prática da palavra
de Deus em, nossa vida diária e no trabalho ativo dentro da nossa
congregação.
Sugerimos como tema central da mensagem: COMO APLICAR O
RELATO DA PESCA MARAVILHOSA, NO TRABALHO MISSIONÁRIO
(EVANGELÍSTICO) DA CONGREGAÇÃO LOCAL.
E como primeiro subtema destacamos o ensinamento: a pesca
maravilhosa somente aconteceu porque os pescadores obedeceram a
ordem de Jesus: "Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes" (v. 4).
Simão e seus companheiros estavam lavando as redes junto a
praia do lago, quando foram supreendidos com a crescente chegada do
povo "para ouvir a palavra de Deus" (v. 1). Para melhor atingir a toda
esta, grande multidão, Jesus entrou no barco de Simão e "pediu-lhe que
o afastasse um pouco da praia" (v. 3).
Após a pregação, Jesus se dirige novamente a Simão e lhe diz:
"Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar" (v. 4). Estranha
ordem. Esta não era hora propícia para lançar as redes (perto do meiodia). Simão explica a falta de peixes (talvez para atender aquela grande
multidão), "havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos" (v. 5),
e assim tudo indicava que nesta hora do dia a pesca também seria
infrutífera. Mas Simão não discute a ordem, do Mestre. Ele obedece c
explica a razão de sua obediência, "mas sobre a tua palavra lançarei as
redes" (v. 5). E esta obediência na palavra do Mestre, lhe trouxe um
grande lucro (bênção), pois "apanharam grande quantidade de peixes"
(v. 6).
Cabe a congregação local igualmente obedecer a Jesus. E sua
ordem desde a ascensão é o grande "Ide" (Mt 28.19,20), ou
216
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
então nas palavras do nosso texto: Congregação Evangélica Luterana...
"Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar" (v. 4).
O objetivo do pescador é apanhar peixes. Disto depende sua
subsistência. 0 objetivo da congregação local é trazer almas para Jesus.
A congregação existe para evangelizar, seu bairro, sua cidade, sua
região, enfim seu meio social. Também é uma questão de subsistência.
Algumas congregações não crescem. Acham-se estagnadas. Certamente
por não lançarem, as redes. Sem lançar as redes, não pode haver
"pesca maravilhosa", novos congregados, novas profissões de fé. Ter o
equipamento (palavra de Deus c sacramentos), mas ficar com os barcos
parados na praia, a espera que o mar atire peixes para dentro dos
balaios, além de utópico e fantasioso, é preguiça e acomodação. A
ordem de Jesus, "faze-te ao largo" requer ação.
A congregação que segue o princípio do "faze-te ao largo" e lança
suas redes (lei c evangelho) é dinâmica, cumpre sua função e assegura
seu constante crescimento (Is 55.11).
Como segundo subtema destacamos o ensinamento: a pesca
maravilhosa somente aconteceu porque os pescadores agiram em
equipe, "fizeram sinais aos companheiros do outro barco, para que
fossem ajudá-los" (v. 7).
0 barco de Simão estava ao largo. As redes haviam sido
lançadas. Ao serem, recolhidas constataram o milagre. As redes
estavam repletas de peixes. Havia até o perigo de se romperem as
redes, tal a quantidade de peixes. 0 que fizeram então? Agiram
egoisticamente. querendo assegurar exclusivamente para si mesmos
esta grande quantidade de peixes, mesmo com o risco de tudo
perderem? Ou talvez procederam etupidamente, devolvendo ao mar
parte dos peixes apenas para aliviar a pressão sobre as redes? Não!
Sabiam do preço de cada peixe. Não podiam perder nem um único
deles. Não por egoísmo, mas por responsabilidade. Por isso "fizeram
sinais aos companheiros do outro barco, para que fossem ajudá-los" (v.
7). E estes por sua vez não se mostraram enciumados, com o sucesso
dos companheiros, imediatamente foram em auxílio deles. E agora conjugadas as forças conseguiram, recolher nos barcos esta grande
quantidade de peixes.
No trabalho da congregação deve-se seguir o mesmo princípio.
Especialmente na atividade missionária. Ali onde Deus abre uma porta,
ali onde a pesca se mostra favorável, ali a congregação, o distrito, a
Igreja, deve investir e ajudar. É por isso que se fazem ofertas a favor da
missão local e nacional. Missão é um empreendimento conjunto. Requer
equipe. Equipe que se faz ao largo para lançar as redes. Equipe que
permanece na praia promovendo recursos.
Este apoio logístico às
frentes misIGREJA LUTERANA/NÚMERO
2/1991
217
sionárias é fundamental, dai a importância das ofertas e das orações.
Os pescadores Simão, Tiago e João, compreenderam o privilégio
do chamado de Jesus, "doravante serás pescador de homens" (v. 10).
E assim, "deixando tudo, o seguiram" (v. 11).
Compreendamos também nosso chamado como cristãos no
trabalho da congregação e da Igreja. Conscientizemo-nos deste alto
privilégio. Deixemos de lado nossa vaidade pessoal, nossos ciúmes
infantis, nossas criticas destrutivas, nossos interesses pessoais, nosso
egoísmo econômico, nossas querelas regionais (Gl 5.15), e sigamos
aquele que por nos morreu e ressuscitou (2 Co 5.15). Assim também;
em nosso "lago de Genesaré" se repetirá o milagre da "pesca
maravilhosa".
Walter O. Steyer
SEXTO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Lucas 6.17-26 16 de Fevereiro de
1992
a) Leituras do dia: A temática das leituras bíblicas deste do
mingo é a diferença entre o justo c o ímpio; entre o crente c o
incrédulo. O crente c justo é perdoado e salvo por Deus; mas
o incrédulo e ímpio perecerá.
Aos olhos de Deus, pois, há só dois tipos de pessoas. 0 Salmo do
Intróito, Salmo I, mostra claramente esta distinção. Esta diferença vem
confirmada pela leitura do Antigo Testamento, Jr 17,5-8; "Assim diz o
SENHOR: Maldito o homem que confia no homem (...). Bendito o
homem que confia no SENHOR". E a Epístola, I Co 15.12,16-20, mostra
que este confiar é crer na ressurreição de Jesus Cristo como garantia e
certeza de nossa ressurreição para a vida eterna.
b) Contexto: Jesus acabara de escolher seus doze apóstolos dentre
seus discípulos, depois de uma noite que passou, num monte, "orando a
Deus" (Lc G. 12-16). A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as
seguintes instruções: "Pregai que está próximo o reino dos céus (...)
ressuscitai mortos..." (Mt 10.5-15).
c) Texto: vv. 17-19: Quando Jesus desceu do monte com os agora
doze apóstolos, parou numa planura, onde estavam muitos
218
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
discípulos seus e grande multidão do povo. Este povo viera "de toda a
Judéia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sidom".
Para que fim viera essa multidão? "Para ouvi-lo e ser curados de
suas enfermidades". Além destes, "também os atormentados por
espíritos imundos eram curados". Parece que, durante o Ministério de
Jesus na terra, o diabo especialmente esteve ativo para confundir a
população, querendo lançar suspeitas sobre a pessoa de Jesus. Confirase, com atenção, os seguintes textos: Mt 12.22-32! Mc 3.20-23! Lc
11.15! Jo 10.20-21!
"E todos da multidão procuravam tocá-lo, porque dele saía poder,
e curava a todos". Até hoje é assim,: todos querem ser curados; mas
nem todos querem crer c ser discípulos humildes e fiéis de Jesus.
Nesta ocasião Deus foi especialmente gracioso c "curou a todos"
—- também aos não-discípulos. Às vezes Jesus curou só pessoas que
tinham, fé: Mt 9.1-8; 15.28; Mc 5.34; Lc 8.48.
Vv. 20-23: Agora Jesus olha para seus discípulos e lhes fala.
Palavras importantes neste trecho são: ptochói, peinôntes e klaíontes,
que devem ser entendidas como sendo atitude espiritual em relação ao
"reino de Deus" que é oferecido no evangelho. Se estas palavras fossem
ter significado material, então os méritos de salvação seriam de autosalvação e não de héte-ro-salvação (salvação por outro, por Cristo);
então era só tornar-se pobre, faminto e chorão e se estaria salvo.
Todavia, Abraão, chamado de pai dos crentes, era riquíssimo, como
também o foram Isaque, Jacó, Davi, Salomão, etc.
Não se deve querer tirar dessas bem-aventuranças uma teologia
social ou de libertação, apenas para a vida terrena. O contexto não é
este. O contexto, ao contrário, como já ficou dito antes, é o da escolha
dos doze apóstolos, os quais foram enviados por esus com a expressa
missão de pregar "que está próximo o reino dos céus" (e não o reino da
terra!), Mt 10.7 (8-23). A bem-aventurança se dá "por causa do Filho do
homem".
Vv. 24-26: Ricos (plusíois), fartos (empeplesménoi) e ri-dentes
(gelôntes) também são atitudes espirituais daqueles que se julgam
autosuficientes e dispensam o Mediador Jesus Cristo, e porque gostam
de fazer a sua própria vontade pecaminosa.
Vemos, neste evangelho, os dois tipos de pessoas retratados: os
justos, os que crêem no Evangelho de Jesus Cristo (vv. 20-23) e os
ímpios, que desprezam o reino de Deus e a salvação por Jesus Cristo
(vv. 24-26).
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
219
(!)
Disposição: Tema: REGOZIJAI-VOS E EXULTAI NO FILHO
DO HOMEM
I — Bem-aventurados são os que o aceitam e II
Grande é o vosso galardão no céu.
Curt Albrecht Novo
Hamburgo, RS
SÉTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA
Lucas 6.27-38 23 de
Fevereiro de 1992
Leituras do Dia
O Salmo 103 encabeça a temática do dia, lembrando a atitude de
louvor do crente face aos benefícios recebidos de Deus: espirituais
(misericórdia,
justiça,
perdão,
longanimidade)
e
cor-porais
(longevidade, saúde, força). O choro e os beijos de José, na companhia
dos irmãos, na leitura do AT, introduz a temática do restabelecimento
da paz e de uma vida de perdão mútuos, prescrita no evangelho.
Reconhece, no momento da reconciliação, que "para a conservação da
vida Deus me enviou adiante de vós". Há uma aparente dificuldade em
encaixar a epístola na temática do dia, mas a ressurreição da morte
espiritual, através de arrependimento, fé e comunhão, tem. tudo a ver
com a ressurreição final. Pela morte para o pecado e o mundo adentramos a vida com Deus neste mundo, por fé no Jesus Ressuci-tado. No
contraste
corrupção/incorrupção,
desonra/glória,
fraqueza/poder,
natural/espiritual,
terreno/celestial
nos
importa,
pelo
poder
transformador do Espírito Santo, pela fé em Jesus, "herdar o reino- de
Deus", Não por obras, mas estas sempre comprovarão a fé.
Contexto
O texto faz parte do Sermão do Monte, mais explicitado em
Mateus. A primeira parte do mesmo enfoca o relacionamento dos
discípulos com Deus, e da felicidade advinha da fartura que se encontra
em, sua palavra. O contexto anterior também anuncia, entre outras, a
bem-aventurança na própria persegui220
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
cão pelo nome de Cristo, e no exemplo confortador dos profetas, que,
por oposição e morte, se apegaram ao galardão no céu.
A segunda parte do Sermão do Monte, com a qual inicia o texto
do dia, aborda o relacionamento dos discípulos de Cristo de todos os
tempos com seu próximo.
Texto
Vv. 27-31 Os ouvintes de Cristo distinguem-se em três grupos,
de acordo com o v. 17: os discípulos recém-escolhidos, "muitos
discípulos seus", um círculo mais abrangente de seguidores, e "grande
multidão do povo", vinda de muitos lugares, incluindo curiosos e
descrentes. Jesus passa a falar "aos que o ouvem (tom akoúousin), isto
é, aos crentes, no sentido de fortalecer-lhes a fé e enchê-los de poder
para uma vida cristã mais ativa e eficiente, em particular na relação com
os inimigos e opositores. Duas estratégias de amor aos inimigos são
propostas: declinar da vingança, ao ser agredido, e retribuir com a
disposição de mais ajuda a quem nos assalta. Convenhamos que, em
tempos de tamanha insegurança em que vivemos, quando fortificarmos
as nossas casas e carros com grades e alarmes, e nos armamos até os
dentes, a recomendação de Cristo parece chocante. A mensagem do
Salvador está em não devermos moldar as nossas atitudes pela maldade
que nos cerca, mas em inaugurarmos um clima de perdão e misericórdia
no mundo em, que vivemos. Os maus é que deverão ver e sentir uma
nova disposição de vida nos crentes e voltar atrás de suas atitudes
danosas. Só assim a sociedade tem esperança de uma sobrevida
pacífica.
Vv. 32-36 — Estes versículos ampliam a proposta de amor ao
próximo e ao inimigo, acrescentando-lhe a disposição do desprendimento
pessoal. A maioria das pessoas ajuda de boa vontade aqueles que os
ajudaram, ou aqueles de quem esperam retribuição. Assim é o sistema
bancário, que empresta a quem provar que tem, dinheiro ou bens.
Assim, é o paternalismo político brasileiro, em que o eleitor vota em
quem lhe promete vantagens, e o eleito muitas vezes se locupleta de
altos salários e dos bens públicos, em seu favor pessoal. Assim
prestamos assistência a quem pode e quer ajudar-nos quando
precisamos. Para transformar estes conceitos errôneos que se
enraizaram em nós e na sociedade em que vivemos, e para reverteresse princípio da retribuição pessoal, Jesus estabelece que o verdadeiro
amor ao próximo não deve obedecer ao princípio da contrapres-tação,
nem no dar, nem no receber. Na santificação de vida, pregada no
Sermão do Monte, até mesmo na ausência de uma contrapartida ao
nosso amor, e ainda que gratidão ou retribuição terrena falhem, será
grande o nosso galardão, porque o mesmo se baseia no fato de as
nossas obras procederem de uma
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
221
fé desatrelada do que é terreno e material. Ela se baseia na felicidade
de ser filho eleito do Deus que nos salvou em Cristo.
"Sede misericordiosos..." é um chamamento de Cristo a seus
fiéis, no sentido de participar da obra divina que, por imensa graça,
conserva este mundo de pé, apesar de seus desmandos; uma
participação na conservação da ordem no mundo, este kósmos que
inclui a massa da humanidade ímpia, alienada de Deus e hostil à causa
de Cristo. A ordem exterior do mundo possibilita ao crente fazer brilhar
a sua luz nessa escuridão; promove a oportunidade de anunciar
misericórdia a um meio impiedoso. Repete-se ao crente a promessa que
Deus já fez a Abraão, de ser o seu escudo e galardão Gn 15.1), e que
sua fé lhe seria imputada (creditada) para justiça e salvação.
Vv. 37-38 — Todas essas recomendações se dirigem aos
discípulos. Jesus não sugere que o homem alcance o reino de Deus
pelas obras propostas, mas apenas por fé c novo nascimento (Jo 3.3).
Julgar outros (krínein), no sentido aqui expresso, é encarar as faltas do
próximo com desconfiança e sem, o tempero do amor e da comiseração.
Aqui se trata de julgar segundo a aparência de uma mente poluída, e
não pela reta justiça (Jo 7.24). A referencia de Paulo em 1 Co 2.15, de
que "o homem espiritual julga todas as coisas", não se contrapõe a esta
proibição de Jesus, pois liga-se a um. autoconhecimento prévio, e a um
reconhecimento de pecado e perdão. A regra áurea do amor que Cristo
exerceu e recomendou é o perdão, e não a condenação do pecador.
Resume-se daí que o esforço genuinamente cristão espera uma
recompensa, não do exterior, mas do interior, de dentro do próprio ato
de amor e de sua fonte, o amor a Jesus.
Proposta Homilética
Sede Misericordiosos!
A Regra Áurea do Amor Fraterno
1. A fonte da qual brota:
— a bondade de Deus revelada em Cristo.
2. 0 terreno adverso em que atua:
— a inimizade do mundo
— a natureza corrupta do ser humano, inclinada para o mal.
3. Os frutos abençoados que dá:
a. na presente vida: — transformação de corações
— testemunho a descrentes
— boa medida de sentido na vida
222
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
b. na eternidade: o galardão celestial, não por obras, mas pela
fé em Jesus e em sua misericórdia.
Elmer Flor
ÚLTIMO DOMINGO APÓS EPIFANIA —
TRANSFIGURAÇÃO
Lucas 9.28-36
1º de Março de 1992
Leitura do Dia:
Salmo:
O Salmo 77 apresenta o homem em suas angústias, um mal
sempre presente na vida humana. Estas angústias
e sofrimentos o conduzem às dúvidas. Nos versículos 7 a 10
são citadas uma série de perguntas que muitas vezes passam
pela mente da pessoa angustiada. A resposta vem em
seguida: "Recordo os feitos do Senhor" (V. 11). O Deus que
se revelou por promessas e feitos reais não nos abandona e
podemos confiar nele. Por isso: "Que Deus é tão grande como
o nosso Deus?" (V. 13).
A/r.: Deuteronômio 34.1-12. Relata a morte de Moisés e a nova
liderança do povo: Josué. Há estreita ligação com o texto do
Evangelho, pois Moisés aparece, junto com Elias, para estar
com Jesus na Transfiguração. É dos poucos que podemos ter
a certeza de ser um dos participantes da glória de Deus.
Destacamos o versículo 10, que faz uma avaliação resumida
de Moisés e sua obra.
Epístola: 2 Coríntios 4.3-6. Também tem, relação com o assunto
abordado pelo Evangelho. Fala da "luz do evangelho da glória
de Cristo" (V. 4). A revelação da glória de Cristo, portanto, é
evangelho. Este Cristo, como Senhor, é que pregamos, "para
iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de
Cristo" (Vv. 5,6).
Contexto:
O próprio texto nos liga ao contexto, referindo-se a acontecimentos anteriores. Lucas diz: "Cerca de oito dias depois de
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
223
proferidas estas palavras" (V. 28). Mateus e Marcos são mais precisos,
dizendo que foram 6 dias depois. Os três evangelistas que relatam, a
Transfiguração apresentam antes o mesmo pronunciamento de Jesus
sobre o seguir a ele, tomando sua cruz. Antecede este pronunciamento,
a bela confissão de Pedro, quando perguntado por Jesus: "Quem dizeis
vós que eu sou?", e a predição de sua morte. Jesus estava perto do final
de sua missão no mundo. Antes de enfrentar a parte final, talvez a mais
difícil, que seria sua prisão e morte, ele subiu o monte com, os três
discípulos, Pedro, Tiago e João, onde aconteceu a transfiguração.
0 Texto:
Na breve exposição sobre o texto, apresentamos apenas algumas
verdades que julgamos importantes e relevantes. Deixamos de lado
algumas polêmicas que nos parecem de menor importância. Entre elas
está a discussão sobre o local onde ocorreu a transfiguração. Como não
nos foi revelado se foi no monte Tabor, monte Hermon, ou outro, toda a
polêmica e argumentos dos defensores das diversas hipóteses, de
qualquer maneira não eliminariam totalmente as dúvidas. Curioso é que
o único evangelista que não relata o fato é justamente João, que estava
presente.
V. 28 — A menção dos três evangelistas, que relatam o
acontecimento, de a transfiguração ter acontecido cerca de uma semana
após o pronunciamento anterior, mostre a intenção de ligar este
acontecimento às afirmações de Jesus e às verdades expressas. A
Transfiguração lança luz sobre as seguintes afirmações, dando-lhes o
selo de veracidade: 1. Jesus é o Cristo de Deus (confissão de Pedro em
V. 20); 2. Ele vai morrer e ressuscitar (V. 22) e 3. Ele voltará em glória
para julgar (V. 26).
"... levando consigo Pedro, Tiago e João". São os três que
também em outras ocasiões especiais o acompanharam (Ver 8.51; Mt
26.37; Mc 14.33). Testemunhas que presenciaram fatos importantes.
Por isto seu testemunho merece credibilidade. Pelo fato de tomar os três
e subir ao monte demonstra que Jesus sabia o que iria acontecer.
V. 29 — A transfiguração foi um fato. Não apenas imaginação
dos três discípulos. O verbo e tempo do verbo usado
( ......... ) mostram que a mudança ocorreu em Jesus, não sendo
algo subjetivo na mente dos discípulos. Pedro afirma: "Fomos
testemunhas de sua majestade" (2 Pe 1.16) e João acrescenta: "...
Vimos a sua glória, glória do unigênito do Pai" (Jo 1.14). Foi o mesmo
corpo ao qual Maria deu à luz na mangedoura que, agora, transfigurado,
apresenta sua glória, revelando sua divindade.
224
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
As vestes resplandeceram de brancura. O brilho para indicar a
glória. Jesus não foi apenas um homem. Ele é Deus. A brancura, da qual
Marcos acrescenta que "nenhum lavandeiro da terra as poderia alvejar",
representa a ausência de sujeira e imundícia. Refere-se à pureza e
completa santidade. A luz, ausência de maldade e pecado, são apenas
pálidas formas de descrever como Deus é como é a glória da qual
participaremos, pela obra de Cristo. (Ver Ap 21.23).
V. 30 — Nos são apresentados dois homens, que já estão na
glória eterna por causa da obra de Jesus, falando com ele. A pergunta é
inevitável: por que estes dois. Moisés é o grande representante da Lei e
Elias, da Profecia. Moisés estava na liderança do povo no auge de Israel,
como povo de Deus, e Elias, (filando restavam apenas cerca de sete mil
que seguiam a Deus verdadeiro. Ambos com certeza já desfrutavam da
companhia eterna de Deus. Elias foi levado aos céus, sem passar pela
morte. Moisés, embora tivesse morrido, certamente também estava com
Deus. (Ver o texto da leitura de hoje do Antigo Testamento). A presença
dos dois visava assegurar aos discípulos que a morte de Jesus, que
estava por vir, fazia parte do plano de Deus. Normalmente os próprios
discípulos consideravam a morte de Jesus um escândalo.
V. 31 — Lucas nos revela o que Moisés e Elias, que apareceram
em glória, conversavam com Jesus. Falavam de sua partida, o seu
êxodo, que ele estava para cumprir em Jerusalém. Claramente, isto nos
coloca próximo aos seus últimos dias na terra a se relaciona tanto com a
sua morte e ressurreição (V. 22), como com as implicações e
conseqüências (vv. 23-27). Não foi um assunto casual, mas o tópico
supremo. Moisés e Elias estavam na glória devido a esta partida que
Jesus cumpriu era Jerusalém. Todos os santos nos céus, rejubilavam por
esta partida. A redenção foi planejada para todos, tanto os que já estão
na glória, como os que ainda vivem e anseiam por ela.
VV. 32 e 33 — Certamente há quem pergunte como os discípulos
reconheceram que os dois eram Moisés e Elias. Quando Deus revela, ele
o faz de maneira completa, os discípulos não precisavam perguntar a
Jesus. No céus também conheceremos, sem sermos apresentados.
A afirmação e proposta de Pedro revelam verdades importantes.
Estar na presença de Deus é bom. Ele não faz comparação com
qualquer outra coisa. Não diz que é melhor do que. Não tem
comparação, é o absoluto. É "excelente". Paulo, quando se refere ao
fato de ele ter sido arrebatado, diz que ouviu "palavras inefáveis, às
quais não é lícito ao homem referir". Estar com Deus é muito melhor do
que a imaginação humana pode conceber. Ao propor as tendas, na sua
forma humana de
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
225
pensar, Pedro quiz prolongar esta situação. Nada do que ficou lá em
baixo tinha qualquer sentido em comparação com o que viu e sentiu, a
ponto de se esquecer de si próprio e dos companheiros.
V. 34 e 35 — "Uma nuvem os envolveu". Segundo Mateus, era
branca e brilhante. Em diversas histórias da Bíblia a presença da nuvem
simboliza a presença de Deus. O medo é natural para os discípulos. Eles
eram pecadores. A presença de Deus traz medo ao pecador.
Similar ao momento do batismo de Jesus, Deus dá testemunho
que ele é o seu Filho. Lucas usa o termo "eleito" na voz do Pai. Os
outros evangelistas usam "amado". O eleito de Deus, o seu Filho, é
amado por ele.
"... a ele ouvi", indica que as palavras foram dirigidas aos
discípulos. 0 sentido: somente é válido ouvir a Jesus. 0 Pai coloca o selo
de verdade sobre todas as palavras de Jesus. Ver também Dt 18.15. De
certa forma, é a confirmação do Pai sobre o conteúdo da confissão de
Pedro (V. 20). Deviam, ouvir o que Jesus ensinava para passar adiante
depois: Evangelizar.
V. 36 — O relato de Marcos e Lucas é breve. Mateus diz mais:
"Ouvindo-a os discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo.
Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: "Erguei-vos, e não
temais". (Mt 17.6,7).
"Depois... achou-se Jesus sozinho". Voltou ao estado natural de
sua humilhação. Tinha que cumprir o restante da missão.
O silêncio até a ressurreição foi em decorrência da ordem
expressa de Jesus, conforme relato nos outros evangelistas. "Naqueles
dias" que Lucas usa, se refere ao "até que Jesus ressuscitasse" dos
outros evangelistas.
Proposta Homilética
Introdução: Fazer referencia ao tema geral. Evangelizar é anunciar a
Boa Notícia. Esta é de que Jesus realmente nos salvou com sua obra. A
certeza disto é importante. Deus dá, no episódio da transfiguração, a
sua chancela: o plano da Salvação é dele.
Tema e Partes:
A IMPORTÂNCIA DA TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS, POIS PROVA
I.
A DIVINDADE DE JESUS
(Sem ela não há salvação)
— A própria transfiguração
— Na afirmação do Pai: "Este é o meu Filho".
226
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
II. A MORTE E RESSURREIÇÃO DE JESUS ERA PLANO
DE DEUS — V. 31.
III. OS SALVOS PARTICIPAM DA GLÓRIA DE DEUS
— Moisés e Elias
— Onde é bom estar.
Conclusão: Deve relacionar com a introdução. Podemos divulgar a
salvação. Deus deu o seu aval, além da ordem. Jesus realmente cumpriu
o plano eterno da Salvação.
Werner N. Sonntag
Porto Alegre, RS
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Mateus 6.1-6, 16-21 4 de
Março de 1992
1)
AS LEITURAS DO DIA:
Salino 51.1-3 — Segundo Lutero, "é um salmo que ensina com
toda clareza: o que é pecado, qual a sua origem, o mal que causa e
como livrar-se do mesmo".
Joel 2.12-19 — Um insistente convite à conversão. Não uma
conversão apenas externa, de gestos, mas de coração, interior.
2 Coríntios 5.20b-6.2 - A salvação, a conversão não é assunto
adiável: "eis agora o tempo sobremodo oportuno" (6.2). É Deus que nos
transforma de inimigos cm amigos dele.
Mateus 6.1-6, 16-21 — 0 evangelho estabelece a verdade maior
e imutável: A justiça salvadora, que verdadeiramente converte, não é a
nossa, porém, aquela que Cristo conquistou com sua morte e
ressurreição. Essa não é somente externa, mas de coração e precisa ser
permanentemente lembrada, ressaltada e vivida!
2)
4» FEIRA DE CINZAS — SUA ORIGEM E
DESENVOLVIMENTO
Com a 4º feira de cinzas se inicia a quaresma. Como se chegou a
esse nome? Segundo a tradição, o papa Gregório, o
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
227
grande, no final do 5* século, início do 6º, foi quem determinou que
esse dia fizesse parte dos dias da quaresma, mais precisamente, seu
início. De acordo com antigas tradições do cristianismo, todos aqueles
arrependidos que tivessem confessado seus pecados publicamente,
teriam aspergido sobre suas cabeas razoável quantidade de cinzas. Era
costume israelita, em cujo meio cinzas significavam o sentido passageiro
das coisas. O procedimento prático era o seguinte: aspergir cinzas sobre
a cabeça ou assentar-se nelas. Daí as conhecidas palavras de Jesus: "Ai
de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque se, em Tiro e em Sidom se
tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas
se teriam arrependido, assentadas era pano de saco e cinzas (Lc 10.13).
Atualmente, as cinzas usadas na cabeça ou fronte dos fiéis são, em
geral, as cinzas da queima das palmas do domingo de ramos do ano
anterior e querem lembrar: ".. .porque tu és pó e ao pó tornarás" (Gn
'5.1!)).
3)
O TEXTO
A quaresma, no calendário litúrgico, busca preparar devidamente, a festa da Páscoa. Os fiéis são convidados a caminhar,
acompanhando a vida pública de Jesus, subindo com ele a Jerusalém,
recordando sua morte e ressurreição na Semana Santa e Páscoa.
Sendo o tempo da quaresma época de pesar, arrependimento,
recolhimento, meditação ("foi minha toda carga, que foste tu levar"), o
evangelho proposto para a 4º feira de cinzas lembra que a justiça
salvadora, que verdadeiramente converte, não é a nossa, porém, aquela
que Cristo conquista com sua morte e ressurreição.
6.1 - "Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos
homem..." c tudo que vem a seguir, faz parte do conhecido SERMÃO DA
MONTANHA e é síntese e orientação para a prática da vida cristã
(santificação) neste significativo período ecle-sial. "Convém que ele
(Jesus) cresça e que eu diminua'' (Jo 3.30).
v. 2-4 - As OFERTAS (as esmolas): essa referência de Jesus trata
das relações do homem com seu próximo. Jesus pressupõe que todos os
que dizem ser seus discípulos dão esmolas (ofertas). Por isso, o único
ponto a ser enfatizado é o modo de desempenhar esse ato de serviço ao
próximo. Muitos são ricos aos seus próprios olhos, mas pobres aos olhos
de Deus. O cristão sabe que recebeu tudo de Deus e por isso ele quer
doar. "... de graça recebeste, de graça dai" (Mt 10.8). O cristão serve a
Deus, através do seu próximo.
v. 5-6.— A ORAÇÃO: Aqui Jesus trata da relação íntima do
homem com Deus. Igualmente, Jesus pressupõe que todos os
228
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
que se dizem seus discípulos, oram. Por isso, o Mestre limita-se a
explicar de que modo se deve orar. No basta participar das orações, nos
cultos e encontros cristãos, mas é fundamental também "orar em
secreto". Toda a vida do homem deveria ser de oração. Jesus é exemplo
pessoal nesse sentido: o fazia sempre, seja no deserto, seja nas
montanhas, seja em casa.
v. 16-21 — OS JEJUNS: É boa disciplina externa, conforme afirma
Lutero. O homem é chamado a ser livre diante e sobre a criação de
Deus. Muitas vezes, porém, o homem se torna escravo das coisas que o
envolvem. O jejum nos lembra, entre outras coisas, a fazer bom uso dos
bens materiais. É na ação de comer e ber que o homem se apodera das
coisas. O alimento pode ser considerado símbolo de tudo o que envolve
o homem e, muitas vezes, o domina. Por isso, a atitude de liberdade
diante do alimento (o jejum), é símbolo da liberdade e domínio que o
homem pode e deve ter com tudo que o envolve e pode escravizar.
Resumindo: "Porque onde está o teu tesouro, aí estará também o
teu coração". (v. 21)
3.30).
4)
Portanto, "convém que ele (Jesus) cresça e que eu diminua". (Jo
PROPOSTA HOMILÉTICA:
A QUARESMA NOS LEMBRA:
a)
b)
c)
o amor de Deus que nos chama;
a justiça de Cristo que converte;
algumas respostas práticas do convertido: esmolas, oração,
jejuns.
Norberto E. Heine
Porto Alegre, RS
PRIMEIRO DOMINGO NA QUARESMA
Lucas 4.1-13
8 de Março de 1992
Leituras do Dia
Neste início da Quaresma, as leituras convergem para o alerta
que a palavra de Deus dirige aos crentes no sentido de
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
229
confessar os atos de proteção divina no passado histórico (leitura de
Dt). A confiança na providência divina, expressa no Sl 91, como intróito,
introduz o filho de Deus no "esconderijo" do Altissimo e à companhia de
seus anjos. A epístola ressalta o dever da confissão verbal do nome de
Jesus, como indicativo da salvação. Os que anunciam, são benditos.
Contexto
O relato da tentação de Jesus situa-se no início de seu ministério,
e todos os sinóticos o apresentam após o batismo, com exceção de
Lucas, que intercala aí a genealogia de Jesus. Assegurando os leitores
da missão e natureza da divindade de Cristo em seu batismo, o
evangelista deseja marcar também a humanidade do Salvador, fazendo
retroagir sua origem a Deus, o Criador.
Texto
Vv. 1-4 — O agente de todo o mal no mundo e, cm especial, das
tentações a que são submetidos os seres humanos, é o diabo. Não se
esclarece no texto se essa intervenção do tentador foi feita de forma
visível, o que parece não ser provável, ou se atuou diretamente por
manifestação do espírito maligno, que tenha aparecido a Jesus.
Confirma-se, em todo o caso, a existência pessoal do diabo. O âmago
das tentações está no fato de que alas interferiam na missão redentora
de Cristo, tentando afastá-lo da mesma. A palavra satânica desafia essa
condição: "Se és Filho de Deus..." lança a dúvida que se entrechoca com
a certeza que advém do batismo de Jesus e da afirmação de que é o
"Filho amado" de Deus.
A proposta que materializa a primeira tentação, é fruto da
situação de fome que se abateu sobre Jesus, conseqüência de seu jejum
de 40 dias: transformar pedras em pão. É também a tentativa de
apressar desnecessariamente a realização de milagres para comprovar
sua divindade e para saciar a fome física. A tentação também testa a
obediência ao Pai, e propõe a satisfação da necessidade mais urgente,
que era matar a fome, mediante a negação dos frutos da perseverança
(Rm 5.3). A citação de Dt 8.3 reafirma a verdade de que a verdadeira
vida do homem emana de Deus, através dos meios da graça, destacando-se aqui a palavra de Deus.
Vv. 5-8 — Lucas inverte a ordem das tentações dada em Mt e
Mc. A proposta de concessão de autoridade e glória se antecipa em
Lucas, e materializa a segunda tentação. O príncipe deste mundo (Jo
12.31), como o chamaria Jesus, propunha, a rigor, desbancar o Rei do
universo, revelado em seu Pilho, e isto
230
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
constitui-se na mais grave tentação. Implicaria ainda o reconhecimento
da superioridade do diabo. Lucas omite o local, e afirma ter sido Jesus
apenas elevado. A tentação apelava para a ambição humana, que, no
caso de Jesus, permaneceu inócua. Todas as ordens, posições e graus
na vida dos homens são alvo certo da tentação do demônio. É aí que
inicia c se aperfeiçoa o treinamento do crente na trilha da fé, baseado
nos méritos do Salvador vitorioso. O caminho da adoração do Deus
verdadeiro, à prova de tentações, está em Cristo. Vale praticar a
autonega-ção, o sacrifício e entrega pessoais. O mais Ele fará.
Vv. 9-13 — Afinal o tentador, vencido pela Palavra, tenta usar em
seu favor a arma com a qual foi derrotado, c cita o Sl 91. 11ss. Isto
prova que o diabo conhecia a Deus e a sua palavra, mas não a aceita e
nem confia nela. O pináculo do templo é seu ponto mais elevado, e esse
traslado deve ter-se dado em espírito, visto que não é provável que
Jesus tenha deixado cor-poralmente o cenário do deserto até
terminarem as tentações. Atirar-se daí abaixo significaria saltar para o
abismo (vale do Cedrom) ou, se de fato fosse sustentado por anjos,
para a glória e fama. Eram linhas tortas para a manifestação do Filho de
Deus perante os homens, e, por isso, condenáveis. Fazê-lo ceder seria
ceder à dúvida quanto a sua filiação divina e um aceno à glória e ao
reconhecimento diante dos homens. A isso se opõe, de acordo com a
resposta de Jesus, a confiança pregada por Moisés, o profeta que
também atravessou um enorme deserto em 40 anos, viveu a fase adulta
de sua vida também; no deserto, por 10 anos, e teve força para
repreender o povo, a mando de Deus, em Dt 6.16, por haver sucumbido
e se revoltado em Massa. Mais uma vez a palavra verdadeira de Deus
vence as formas deturpadas da mesma. A pedra de tropeço é afastada
do caminho do Salvador e de seus crentes, que com Ele vencem as tentações.
Nas três ocasiões em que foi tentado, Jesus usou, para sua
defesa, a palavra de Deus, o "está escrito", todas registradas em
Deuteronômio. Esta coincidência se deve ao fato de que este texto, os
discursos de Moisés nele registrados, surgiram ao final da passagem de
Israel pelo deserto, c todo israelita o conhecia muito bem. O texto das
"sagradas letras" pode tornar-nos sábios para a salvação. Este pode ter
sido o texto e o livro sobre o qual Jesus meditou enquanto no deserto. O
uso de Dt em sua defesa sugere esse uso.
Outras tentações houve, que não foram escritas nos evangelhos.
Estas foram registradas para que creiamos que Jesus venceu o diabo em
nosso lugar, com o uso da palavra divina, e nos oferece a vitória.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO .2/1991
231
Proposta Homilética
Cristo, pela palavra de Deus, convoca o crente a:
1. ALISTAR-SE no exército dos que abraçam a causa em favor do
Deus-Homem, contra os que semeiam a dúvida e a
desconfiança.
2. EXERCITAR-SE no testemunho da fé num meio incrédulo
— na vida cristã, como prova de fidelidade.
3. LUTAR pela verdade salvadora num mundo que procura
apenas a glória e o poder pessoal.
O Conflito entre o Bem e o Mal é Triplo:
1. Um conflito entre a dúvida e a confiança (fé)
2. Um conflito entre a presunção (esnobação) e a modéstia
3. Um conflito entre os deleites do mundo e o amor de Deus.
Elmer Flor
SEGUNDO DOMINGO NA QUARESMA
Lucas 13.31-35
15 de Março de 1992
A leitura do Antigo Testamento retrata as ameaças que o profeta
Jeremias recebe diante da Igreja/estado por causa da mensagem que
prega ao povo de Deus. Na epístola o apóstolo estimula ps cristãos a
permanecerem fiéis no Senhor aguardando a esperança escatológica no
Salvador mesmo vivendo cercados por irmãos falsos, egoístas e
existencialistas. O Salmo é a oração da noite de um homem fiel em
desespero.
O texto
Temos razões suficientes para suspeitar porque Herodes Antipas
intenta matar Jesus. Se ele já não se achava confortável na sombra de
João Batista — um homem destinado por Herodes a ser "queima de
arquivo" (cf. 3.19-20; 9.7-9) , evi232
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
dentemente não pode estar tranqüilo diante do Homem que veio para
"lançar fogo sobre a terra" (12.49). Por outro, não sabemos a razão
porque os fariseus informaram a Jesus sobre os planos de Herodes. Será
porque realmente estavam interessados em Sua segurança na
Transjordânia (onde provavelmente estava) ? Ou será porque queriam,
vê-lo na Judéia onde estaria mais exposto ao controle do Sinédrio? O
fato é que não obtiveram sucesso na sua tentativa de aterrorizar Jesus.
Ao contrário, Ele ordena-lhes informar "aquela raposa" que Ele pretende
permanecer ali para atender o povo em suas necessidades físicas e espirituais. "Raposa" é uma animal insignificante em, contraste com outro
de poder e grandeza (Cf. Ne 4.3). Chamar Herodes de "raposa" significa
dizer que ele não é importante nem ilustre, ou seja, não possui
majestade nem nobreza. Jesus evitou Herodes, enviou-lhe mensagem de
desprezo e ao defrontar-se com ele (no Seu julgamento diante de
Herodes) nada tinha a lhe dizer. "Um homem quando atinge
determinado nível pode estar cm situação tal que nem Cristo tem algo a
lhe dizer" (Morgan).
Não é Herodes mas Deus quem determina o tempo e lugar de Sua
morte. Os termos hoje, amanhã e depois indicam que Jesus está atento,
não às circunstancias e ameaças de Herodes e fariseus, mas às batidas
compassadas e finais do relógio de Deus. No kairós divino Jesus
completará Sua missão, em Jerusalém. As expressões utilizadas por
Jesus para caracterizar Sua missão são as conhecidas expressões
messiânicas. Sua missão realiza-se como ou sem a permissão de
Herodes. Há uma compulsão na tarefa messiânica que transcende
pressão política ou o expediente da ameaça. A igreja, cuja meta é a
missão de Cristo num mundo que a despreza e ameaça, não pode
desvanecer diante de circunstâncias c contingências hostis.
Embora Cristo não fuja às ameaças de Herodes, Ele sabe que
caminha para o Seu "batismo" e, de fato, avança decididamente para
Jerusalém, (v. 22). Será na "Cidade do Rei" e não no território de
Herodes que Ele morrerá pois a história tem mostrado que precisamente
a "Cidade Santa" — que deveria proteger os profetas - é que mata os
mensageiros de Deus. Especialmente nesta ocasião Jerusalém não deve
ser destituída de seu "privilégio". Herodes não deve ficar invejoso;
Jerusalém reclamou antes o sangue dos profetas de Deus como Zacarias
(11.51). Jeremias (cf. a leitura do AT), Urias (Jr 26.20-23) e
possivelmente Isaías (Hb 11.37).
A cidade que matou (mas antes ouviu) os profetas deverá ouvir
também a voz do próprio Filho de Deus. Embora duras, as palavras de
Jesus sobre Jerusalém ainda são parte de um chamado Seu ao
arrependimento. Assim como Suas palavras a Herodes.
É a Sua ira
penúltima. É a voz da galinha que, ao
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
233
perceber o inimigo, ajunta os filhotes debaixo das asas, preocupada e
compassiva. O versículo 34 é um testemunho poderoso do propósito
divino na salvação universal de todos, incluindo os praticamente
perdidos. Por isso, quando Cristo retornar haverá ainda crentes em
Israel que lhe cantarão o Benedictus e serão por Ele recebidos em Seu
Reino da Glória.
Sugestão de Lema: Compaixão aos sem-compaixão.
Acir Raymann
TERCEIRO DOMINGO NA QUARESMA
Lucas 13.1-9
22 de Março de 1992
O Salmo 120 descreve a alegria e júbilo pela "grande cousa" que
Yahweh fez restaurando Jerusalém do exílio. A leitura, do Antigo
Testamento apresenta a vocação de Moisés com a função específica de
libertar o povo de Deus da aflição do cativeiro sob o Egito. A epístola
recapitula a história da salvação de Israel no Antigo Testamento
ressaltando a presença pré-encarnada de Cristo que os seguia.
Relembra, por outro, episódios marcadamente negativos (o Bezerro de
Ouro; a licenciosi-dade em Baal-Peor; a Serpente de Bronze;
murmuração contra a autoridade ministerial de Moisés e Arão) e que
foram transmitidos a nós "para advertência nossa" (v. 11).
O contexto e o texto
A perícope em questão é registrada apenas pelo evangelista São
Lucas. No contexto fornecido pelo capítulo 12, os fariseus se revelam
bons intérpretes do tempo e do clima. Não sabem, entretanto, "discernir
essa época" permanecendo, por isso mesmo, "hipócritas" (12.56). Jesus
ensina-os a como interpretar o presente éon.
Como muitos ainda hoje, os fariseus costumavam atribuir um
grau extraordinário de culpa a pessoas que se vissem envolvidas em
situações catastróficas. A idéia de que uma calamidade atingia apenas
os que fossem extremamente pecadores não era novidade (cf. Jn 9.1-2;
Jo 4.7, 2.5 onde Elifaz acusa falsamente Jo). Mas esta iníqua teoria da
retribuição mecânica é repelida por Jesus.
O texto não diz a razão
porque mensageiros trouxe234
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
ram a informação do massacre dos galileus a Jesus. Pela reação de
Cristo; entretanto, vê-se que eles consideravam-se menos culpados que
os galileus. Para demonstrar a seriedade da questão, Jesus reporta-se a
outro acidente onde o povo foi envolvido por grave calamidade. Eram
aqueles dezoito mais culpados que as massas não atingidas pela
catástrofe? Não, "não eram, eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos
arrependerdes, todos igualmente pe-recereis" (vv. 3, 5). A implicação é
evidente: todos nós somos culpados e merecemos perecer. Se a
destruição não vem é unicamente por graça divina. A Escritura, vez por
outra, mostra que a morte vem como castigo (cf. a epístola do dia), mas
em nosso texto o castigo não é mencionado e o pastor não está biblicamente autorizado a relacioná-lo com algum acidente em que vidas
são sacrificadas. (Quantos cristãos verdadeiros perecem em acidentes!)
Antes, o destino de tais pessoas é um lembrete, não de seus pecados —
não eram melhores nem piores que os demais —, mas da urgência da
pregação do Evangelho. Este é o momento para falar do grande
privilégio dado à Igreja para continuar a missão do SENHOR (cf. o lema
geral da IELB até — por enquanto — o ano 2.000). Tivessem aqueles
galileus sido avisados do mau humor de Pilatos, ou os dezoito de que a
torre de Siloé tinha sido arquitetada por maus engenheiros, eles provavelmente teriam, sido salvos. Mas não houve ninguém que os
alertasse e eles pereceram. Assim esta geração — é o que Jesus quer
dizer — está a caminhar, política e religiosamente, para o desastre. O
alerta foi dado primeiro por João Batista e agora por Jesus. É tempo
ainda de mudar de direção; é tempo ainda para arrependimento.
Verdade é que falar era arrependimento para os membros do Sinédrio
era escândalo pois eles entendiam a aliança de Deus feita com o povo
como um ato meritório. Deus, na opinião deles, fizera um contrato com o
povo e isso os mantinha tranqüilos.
A parábola da figueira deve ser analisada tendo como pano-defundo este episódio. A conjunção dê (v. 6) conecta a parábola com o
texto precedente. Logo, o objetivo da parábola está relacionado ao
arrependimento. A figura da vinha, comum no Antigo Testamento, é um
símbolo, o tertium, para o povo de Israel (Is 5.7; 27.2-6; Jr 12.10). A
vinha recebe tratamento especial. Era normalmente localizada em
terreno seleto como pico de morros ou colinas (Is 5.1), cercada com
muros de pedra para preservá-la de animais predadores (Nm 22.24; Sl
80.8-13; Is 5.5). O solo era trabalhado e limpo, um lugar era escavado
na rocha e uma torre era construída para o guarda (Is 5.1-7). Trabalhadores eram contratados para cuidar dela (Mt 20.1-6) com carinho
e dedicação (Lv 25:3; Pv 24.30-31; Jo 15.2).
Mas, a parábola concentra-se na figueira na vinha e não na vinha
propriamente. Se, entretanto, o cuidado com a vinha
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
235
já é especial, imagine-se o carinho para com a figueira. Como (em ou
iras passagens, a vinha é a base para a comparação com parte de Israel
e, portanto, é possível que a figueira da parábola refira-se a Jerusalém
(cf. Is 7.8; Lc 13.4, 22, 33-35).
Sem dúvida o viticultor representa Jesus. Seus freqüentes
lamentos sobre Jerusalém demonstram novamente que a porta para o
arrependimento ainda continua aberta. Os antigos gregos diziam que "os
pés dos deuses vingadores estavam envoltos em. lã". O nosso Deus,
entretanto, alerta Seu povo do desastre que está por vir se não se
arrependerem. Expressões "pode cortá-la" (v. 7) ou "já está posto o
machado junto à raiz" (3.9) determinam, uma ação ecologicamente
aniquiladora mas que ainda não se concretizou. Esta é a manifestação da
ira penúltima de Deus, antes de Sua ira final. É a revelação de Sua opus
alienam com vistas à Sua opus proprium. Ainda há. esperança se houver
arrependimento e fé, que só podem vir por um ato misericordioso do
viticultor.
Sugestão de Tema:
Ainda é tempo...
Acir Raymann
QUARTO DOMINGO NA QUARESMA
Lucas 15.1-3; 11-32 29 de
Março de 1992
Leituras do dia:
Colocam em destaque a misericórdia divina para com o pecador.
Lembra-nos Lm 3.22: "As misericórdias do Senhor são a causa de não
sermos consumidos porque as suas misericórdias não têm fim."
Texto:
A parábola do filho pródigo faz nossa atenção se voltar de
imediato para o filho mais novo, o "cabeça-de-vento" que abandonou o
pai e irresponsavelmente gastou os seus bens. No entanto, o exame
mais demorado do texto revela-nos que a parábola seria melhor
denominada se fosse chamada de a "dos
236
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
filhos perdidos", pois o mais velho estava tão longe da salvação quanto o
outro, apenas as "perdições" de ambos linham, caráter diferente: um
perdeu-se ausentando-se do convívio paterno e vivendo dissolutamente;
o outro estava perdido na sua imaginada justiça própria, merecedora, na
sua opinião, de lodo o reconhecimento e atenção da parte do pai.
Na seqüência da parábola podemos distinguir quatro partes bem
definidas.
Primeira: Vv. 11-16 — Uma louca decisão
Decisões loucas são aquelas tomadas sem a preocupação com as
conseqüências delas provenientes. Seguem apenas o impulso das
emoções e estas nem sempre refletem a verdade, pois podem nascer
nos enganos a que está sujeito o coração humano corrompido pelo
pecado. O filho mais novo julgou emocionante sair debaixo dos olhares
do pai para aproveitar a parte da herança em aventuras nada
recomendáveis.
A mesma loucura é repetida por muitos que se valem da herança
recebida (vida, saúde, dons, riquezas) para esbanjá-la longe da casa do
Pai. Trocar a comunhão com Deus por ações ao impulso da carne
pecaminosa sempre foi e será loucura, pois separado do Criador o
homem mergulha por completo na escravidão sob os tiranos espirituais
(diabo, mundo, carne). Quem pode entender como sábia a troca da
liberdade pela escravidão? É, sem dúvida, uma louca decisão!
Passadas as impressões de falsa felicidade à distância do pai, o
filho viu-se dentro de um drama: a necessidade chegara em razão da
fome no país. Ele, que nesciamente esbanjara o que havia ganho do pai,
não dispunha de mais nada. Caíra na miséria! Fora jogado no fundo do
poço. Guardar porcos, principalmente para os judeus, não era só
degradante como também significava contaminar-se moralmente com
animais imundos. O que havia restado daquele jovem saudável e
dispondo de tanto para gastar? Um farrapo humano, em situação
humilhante, que disputava com os animais alguma coisa para saciar a
sua fome. Que quadro impressionante para descrever as conseqüências
da loucura de uma escolha mal orientada! Por quem os nossos congregados estão sendo orientados nas suas escolhas existenciais?
Segunda: Vv. 17-20a — O retorno à sensatez
Um dos pontos altos da parábola encontra-se aqui. Expressa o
que aconteceu no íntimo de alguém que, vítima de louca decisão,
retorna à sensatez, passando pela experiência que provoca júbilo no céu
(Lc 15.7). Houve o arrependimento. A lei
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
,„ ....
237
l'è-lo reconhecer: "Pai, pequei contra o céu e diante de ti." Doe-ram-lhe
bastante as chicotadas da lei. Levaram-no a descobrir quão néscio fora
ao ter abandonado aquela vida onde os .trabalhadores do pai estavam
em situação muito melhor do que ele, filho. Contrito, decide procurar o
pai, sem oferecer excusas nem atenuantes, simplesmente munido do
reconhecimento da culpa.
Além, da ação da lei, deu-se também a operação do evangelho
junto àquele jovem,. A miséria e desgraça não lhe impediram de
lembrar de uma verdade sublime: seu pai era amoroso! Em razão disso,
confiou em. ser recebido de volta na casa paterna por causa do coração
gracioso do pai. Nada tinha a oferecer em troca; esperava, no entanto,
que a misericórdia do pai lhe possibilitasse o socorro de que
necessitava. Assim, "le-vantando-se, foi para seu pai".
A misericórdia divina continua servindo de forca de atração a
movimentar os filhos perdidos para junto do pai (Deus). Há muitos
"publicanos c pecadores" esperando ouvir que um Deus misericordioso
os aguarda para lhes dar a vida digna c sensata. Não nos cansemos de
pregar essa misericórdia!
Terceira: Vv. 20b-21
- li o pai o recebe!
Chama-nos à atenção os detalhes empregados por Jesus para
descrever a acolhida que o pai deu a filho pródigo (correu ao encontro,
abraçou-o, beijou-o, melhor roupa, anel, sandálias, festa). A riqueza de
detalhes expressa o que se passava no coração paterno ao ter o filho de
volta. Lembramos aqui os destaques das leituras do SI e AT para o
domingo, as quais igualmente colocam em evidencia a graça e
misericórdia divinas para com o pecador. A leitura da epístola também
menciona de onde parte a iniciativa de salvação: "aprouve a Deus salvar
os que crêem" (I Co 1.21) e acrescenta um detalhe decisivo, ou seja, a
misericórdia do Pai sacrifica a Cristo para tornar possível o socorro ao
pecador. De modo que a nossa pregação tem, como objetivo o anúncio
dessa misericórdia e o convite para que creiam na oferta de perdão que
decorre da morte de Cristo.
Ter sido aceito pelo pai misericordioso causou uma total
transformação na situação existencial daquele filho. É uma declaração
impressionante a do pai: "porque este meu filho estava morto e reviveu,
estava perdido e foi achado". Nada menos do que uma total e profunda
mudança na existência humana é o que a misericórdia do Senhor
oferece por meio de Cristo a cada filho perdido.
238
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
QUINTO DOMINGO NA QUARESMA
Lucas 20.9-19
5 de Abril de 1992
Leituras do dia:
SI e At destacam o socorro divino, fruto de sua generosidade
para com o seu povo. O Evangelho registra a rebelião contra o Senhor
generoso, culminando com o repúdio ao socorro salvífico (Cristo). A
Epístola apresenta a reação positiva de Paulo ao socorro em Cristo.
Texto:
Vv. 9-12
A parábola conta-nos de forma dramática a atitude daqueles que
rejeitam, a companhia amorosa de Deus. Verificou-se isso na história do
povo de Israel, a vinha plantada carinhosamente por Deus. O Senhor
trouxe o seu povo do Egito para Canaa e ali o plantou, cercando-o com
o seu cuidado. A generosidade divina, contudo, não encontrou reação
adequada a ela da parte de Israel. Vindo procurar frutos no que havia
plantado, ou seja, fé, obediência, temor, o proprietário viu seus servos
(os profetas) serem maltratados, espancados, feridos e voltando de
mãos vazias. O amor e apego a deuses pagãos e às próprias maldades
fez do povo do Senhor um bando de rebeldes ingratos. Em vez de frutos
agradáveis ao proprietário, entregaram-lhe provas de rejeição
deliberada e hostil, concretizada na reação brutal frente aos servos
enviados.
Esta parte do texto leva-nos a refletir sobre a qualidade dos
frutos que estamos produzindo sendo vinha do Senhor na atualidade. É
um dos pontos que pode ser explorado pelo pregador, pois Deus
continua buscando os frutos. De que tipo os encontra? Como reage o
seu povo frente àqueles que vêm buscá-los ?
Vv. 13-15a
Até onde chegaria a maldade dos que cuidavam da vinha (líderes
de Israel) aparece na ação assassina contra o filho do proprietário,
apontando assim profeticamente para o que aconteceria a Jesus, Tal
qual na parábola, os membros do Sinédrio resolveram matar o Filho,
porque temiam, perder sua posição e poder sobre a nação ("matemo-lo,
para que a herança venha a
240
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
ser nossa").
Em sua incredulidade, não discerniram a natureza
espiritual do reino de Cristo.
A incredulidade conduz a absurdos. Gera até uma manobra de
ódio que culmina com a morte do odiado. Pois tal incredulidade,
infelizmente, também se percebe dentro da vinha do Senhor nos nossos
dias. Ninguém matará novamente a Cristo, porém o desprezo à sua
presença em palavra e sacramentos lembra em, muito a atitude
daqueles que gritaram: "Fora com este"! A rejeição ao Cristo nos meios
da graça é uma forma sutil de "matá-lo", pois elimina a sua ação junto à
pessoa.
Vv. 15b-16
Jesus conduz os seus ouvintes à conclusão lógica c esperada no
que se refere à reação do dono da vinha. A paralela de Mt 21.41 coloca a
resposta nos lábios dos que escutaram, a pergunta: "Que lhes fará, pois,
o dono da vinha?" Logicamente era de se esperar uma reação enérgica
do dono da vinha contra os malvados lavradores. Na ameaça evidente
que a parábola transmitiu se percebe uma chamada ao arrependimento
e à procura de socorro no lugar certo, coisa que os líderes de Israel não
fizeram. Na pregação de hoje que aponta para o juízo a ser executado
pelo dono da vinha está presente a voz da lei que procura acordar as
mentes rebeldes para que saiam do erro fatal em que se encontram,
preparando-as à aceitação do evangelho salvador que indica o socorro
no lugar certo: o Filho, Jesus Cristo! O valor deste socorro surge
magistralmente descrito pelo apóstolo Paulo na epístola do dia. Cabe ao
pregador não esquecer de sinalizar com o socorro para aqueles que
recebem as chicotadas da lei. Saliento isso' porque temos às vezes vontade de deixar soando alto o juízo nos ouvidos dos que "matam." Cristo
com sua indiferença e apenas sussurrar-lhes algum; evangelho!
Vv. 17-19
Ainda sob o impacto da parábola, os ouvintes de Jesus receberam
a oportunidade de refletir sobre a validade da presença de Cristo entre
eles. A citação do SI 118.22 faz a ponte para a análise da situação
daquele momento. Embora rejeitada pelos construtores, a pedra, Cristo,
tornar-se-ia a angular no novo edifício a ser construído por Deus, a
Nova Aliança em substituição à Antiga que, mal compreendida pelos
construtores da época (líderes do povo), ficara tão a gosto deles.
Há dois momentos importantes de encontro com a pedra
destacados no versículo 18. Primeiro: o que cair sobre a pedra ficará em
pedaços — descreve a ruína daquele (que vê em Cristo um tropeço às
suas pretensões. Tal ruína não precisa ser deliIGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
241
nitiva, pois ainda é possível a restauração. Segundo: quando a pedra
cair sobre alguém, este ficará reduzido a pó, apontando assim para o
juízo definitivo sobre o incrédulo.
Embora estando ali para incorporar a todos n,a Nova Aliança
através da aceitação dele como pedra principal, Cristo despertou nos
seus adversários o desejo de lhe lançarem, as mãos imediatamente,
pois compreenderam que eram os visados pelas palavras do Galileu.
Não concretizaram seu intento por temor ao povo. A incredulidade
esteve a ponto de transformá-los naquele instante nos lavradores da
parábola.
O texto, portanto, oferece material precioso para o pregador
alertar contra os perigos da incredulidade (rejeição à generosidade
divina, reação de ira contra os enviados, morte sutil do Filho pelo
rompimento com os meios da graça). Mas também é oportunidade de
ouro para ressaltar a forma de enfrentar o perigo. É uma só: o socorro
divino presente na pessoa de Cristo. Junto dele são restaurados aqueles
que nele tinham encontrado uma pedra de tropeço em certa altura de
sua vida, bem como, permanecendo com ele, ficam protegidos aqueles
que até então têm visto nele a pedra principal do Novo Pacto erigido
pelo Senhor em sua relação com os homens.
Proposta Homííética:
Tema: Refúgio no socorro divino.
I-
Frutos colhidos pelo dono da vinha
A) Israel
B) Igreja hoje.
II — Socorro divino a quem não apresentou os frutos desejados
A) Ouvintes na ocasião: Jesus com eles pessoalmente
B) Ouvintes de hoje (também aos que já tropeçaram) :
Jesus presente na palavra e sacramentos.
III — Reação ao socorro
A) Para quem deseja a salvação: reação de Paulo
(Epístola)
B) Graça divina providencia poder para ficarmos
agarrados ao socorro. Cristo acha-nos para sermos
achados nele e permanecermos no refúgio certo.
Paulo Moisés Nerbas
Sapiranga, RS
242
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
SEXTO DOMINGO NA QUARESMA — DOMINGO
DE RAMOS
Lucas 22.1-13
12 de Abril de 1992
SI 92 — ''Ainda que os ímpios brotam como a erva, e florescem todos os
que praticam iniquidade, nada obstante, serão destruídos
para sempre; Tu, porém, Senhor, és o Altíssimo eternamente"
(vv. 8 e 9; cf. tb. vv. 9,11). Apesar dos planos maldosos dos
inimigos de Jesus (cf. Evangelho), a vitória final é do Senhor
ressuscitado, que vive para sempre!
Dt 32.36-39 — O Senhor reafirma a sua justiça c a sua soberania sobre
os outros deuses. "Eu sou, Eu somente, e mais nenhum Deus
além de mim" (v. 39). Em suas mãos está o poder de tirar a
vida e de restituí-la. — Lembrando o sacrifício de Cristo,
sabemos que tudo ocorreu conforme o plano eterno de Deus;
até os maus intentes dos inimigos de Cristo foram usados por
Deus para. realizar a sua vontade soberana!
Fp 2.5-10 — A humilhação de Cristo "até à morte, e morte de Cruz".
Com o início da semana-santa começa o desenrolar da última
grande etapa da humilhação de Cristo, que culmina com a
sua morte na cruz. Esta epístola mostra não somente a
humilhação, mas também a exaltação que dela decorre; daí:
a semana-santa não termina na sexta-feira santa, mas sim na
Páscoa, com a vitória do Cristo ressuscitado!
Lc 22.1 — 23.56 — (Como a leitura do Evangelho é por demais extensa
— todo o capítulo 22 + o capítulo 23, optamos por destacar o
texto de Lc 22.1-13 como base para a mensagem deste
domingo.) Os inimigos de Jesus: sacerdotes, escribas, Judas,
— tramam contra a vida do Mestre. O mal reúne suas forças
para derrotar o Senhor da vida! Mas Cristo, no cumprimento
do seu plano salvador, é quem comanda os acontecimentos;
e, ao mandar preparar a Páscoa, ele próprio aciona a alavanca que iria desencadear os últimos fatos: Ele próprio seria
o Cordeiro imolado, por mão de iníquos, para tirar o pecado
do mundo.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
'243
(Cf. também: O Intróito, o Gradual e a Oração do Dia: Preciso Falar,
Vol. IV — Auxílios Litúrgicos).
Hinos sugeridos: 93, 86, 89 (hino do sermão), 397.
2)
O contexto:
Estamos na semana-santa: Domingo de Ramos (Lc 19.28-44), os
últimos ensinos de Jesus, sua ênfase nos últimos tempos (Lc 21.7-36),
o início do sacrifício propriamente dito (Lc 22 e 23). Destacamos de toda
a perícope para este domingo os vv. 1-13 do cap. 22: Os preparativos
finais para o grande drama da paixão: Os preparativos (inconscientes)
dos inimigos de Jesus: Judas, escribas, sacerdotes (estes não queriam
que fosse durante a Páscoa, Mt 26.5, Mc 14.2); c os preparativos
conscientes do próprio Cristo. A última Páscoa judaica, e primeira e
grande Páscoa cristã, com a oferta do Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo.
3)
O Texto:
v. 1 — A Páscoa do AT apontava para a Páscoa do NT. Todas as
celebrações da Páscoa até aquela data lembravam a libertação da
escravidão egípcia (e tudo o que estava relacionado a ela: pão sem
fermento — cordeiro — sangue — vida — passagem pelo mar —
libertação — terra prometida — entrega da lei, etc.) e preparava para a
libertação maior que seria realizada pelo Messias (Cl 2.16,17; a carta
aos Hebreus). Todos os sacrifícios do AT eram edificantes sermões de
Quaresma, preparando para a celebração da grande Páscoa, em que o
Cordeiro de Deus seria imolado, uma vez por todas!
v. 2 — A preocupação dos sacerdotes é sanada pelo próprio
Cristo, que se entrega voluntariamente à morte (Cf. Hinário Luterano,
nº 89). O que os homens tramam de mal, Deus transforma em bem (Gn
50.20).
v. 3 — Satanás no coração de Judas: Escolhido por Jesus, Judas
não deu lugar para Jesus em, sua vida, mas amou mais as riquezas (Mt
6.24; Jo 12.6). Na sua ganância não hesitou em vender (trair) o próprio
Mestre. Satanás sabe como tentar: De começo pega só um dedinho,
depois a mão, o braço, e por fim o corpo todo (Tg 1.14,15; Hb
3.12,13). Devemos resistir às pequenas tentações para não acontecer
perdermos o controle, nos afastarmos de Jesus e perdermos a salvação!
— Fazer parte de um grupo de discípulos (comunidade) não é garantia
de salvação! O coração deve estar firmado em Cristo, e não como o
coração de Judas!
244
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
vv. 4 e 5: O preço da traição: 30 moedas de prata (Mt 26.15) —
era o preço de um escravo (Êx 21,320). Judas, na sua ganância vendeu
Jesus pelo menor preço do mercado. Fez um mau negócio! (Cf.: Hinário
Luterano, nº 391). Quantos ainda hoje trocam Jesus por uma ninharia.
Afastam-se da comunhão dos discípulos de Jesus com desculpas de
trabalho, pois precisam de dinheiro... ou afastam-se porque não querem
contribuir para a missão da igreja. Preferem ficar com seu dinheiro do
que com Jesus. O que é isto, se não a traição de Judas em tempos de
hoje?
v. 6 — Judas foi fiel no trato que fez com os sacerdotes, que lhe
deram as trinta moedas de prata; mas não foi fiel ao seu Senhor, que
não lhe deu coisas materiais, mas lhe deu sua amizade (amigo: Mt
26.50) sua companhia, e estava por dar o seu sangue para sua salvação
eterna! — Nós somos fiéis a quem;? a quem nos paga mais? ou a quem
nos estende a mão da amizade e do amor? Quantos prometem
fidelidade ao Senhor no dia da confirmação, mas depois são infiéis,
porque se comprometem com pessoas, grupos, organizações inimigas de
Jesus.. . (Cf. 1 Tm 6.10).
vv. 7 a 13 — Jesus mesmo, o Cordeiro de Deus, manda preparar
a Páscoa. Todo o ritual da Páscoa judaica é significativo para melhor
compreensão da Páscoa cristã! (Cf. estudo para Endoenças: Lc 22.7-20).
Marcante neste texto é o espírito de serviço ao Mestre, demonstrado
tanto pelos discípulos como pelo dono da casa!
4)
Os problemas e a solução:
— Os problemas: — A preocupação dos fariseus e escribas
em tirar a vida de Jesus.
— A grande multidão reunida para a festa da
Páscoa; os fariseus queriam evitar tumulto.
— A ganância e a traição de Judas.
Satanás, o grande inimigo, agindo através de seus agentes: fariseus,
escribas, capitães do templo, Judas.
A solução: — Cristo se entrega voluntariamente nas mãos dos
inimigos. "Para isto é que eu vim" (Jo
12.27). Ele celebra a Páscoa, que culmina
com o seu sacrifício redentor, como o
"Cordeiro de Deus que tira o pecado do
mundo".
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
245
5)
Disposição:
TEMA:
Os preparativos para a Páscoa
(Pergunta diretiva: Quais?)
OBJETIVO: Acentuar a verdade de que Cristo preparou e realizou todo o
plano de salvação conforme a sua vontade, usando
inclusive seus inimigos para a concretização do sacrifício
redentor, — alertando para as tentações que incorremos
de celebrar uma Páscoa formal, com outras intenções que
não celebrar e proclamar o sacrifício e a vitória de Cristo.
INTRODUÇÃO: "Tudo por dinheiro" — quadro da TV, em que a pessoa
se submete às mais variadas provas e se expõe
muitas vezes ao ridículo, porque "o que vale é o
dinheiro".
"Tudo por dinheiro" — lema de Judas: Ele vende o
próprio Mestre por 30 moedas de prata. Mas também
este detalhe estava nos preparativos para a Páscoa
conforme os planos de Deus.
I — Os preparativos dos inimigos:
— Sacerdotes: tirar a vida de Jesus (mas não durante a
Páscoa).
— Satanás: entrou no coração de Judas.
— Judas: traiu o Mestre por 30 moedas de prata;
procurava uma ocasião para entregá-lo.
II — Os preparativos de Jesus:
— celebrou a Páscoa judaica: lembrança
egípcia;
— celebrou a Santa ceia: a nova aliança;
— entregou-se à morte: sacrifício pascal.
da
libertação
CONCLUSÃO: Como estamos celebrando a Páscoa?
como os inimigos, só pensando em dinheiro (compras)
?
com o coração cheio de ódio pelos outros? (Is 1.13)
fazendo união com o mal para derrotar inocentes? Ou:
com Cristo, na companhia dos irmãos da fé? comendo
com os irmãos na mesma mesa o Cordeiro pascal
(Santa Ceia)? fazendo a vontade do Senhor, pela fé?
Carlos Walter Winterle
Porto Alegre, RS
246
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
QUINTA-FEIRA DA SEMANA SANTA —
ENDOENÇAS
Lucas 22.7-20
16 de Abril de 1992
1)
Às leituras do dia:
Sl 116.12-19: — O salmista lembra os benefícios recebidos da mão de
Deus, agradece a Deus por eles e quer servi-lo. Lembramos a
explicação do 1° Artigo do Credo: "Por tudo isto devo dar-lhe
graças e louvor, servi-lo e obedecer-lhe." — "Preciosa é aos
olhos do Senhor a morte dos seus santos" poide ser aplicado à
morte de Cristo. — "O cálice da salvação" — este salmo era lido
durante as celebrações da Páscoa judaica, na qual em quatro
ocasiões distintas e solenes se tomava um cálice de vinho. O
3º cálice era chamado de "cálice da bênção" ou "cálice
redenção", porque representava o sangue do cordeiro imolado.
Provavelmente foi este o momento em que Jesus celebrou a
Nova Aliança, dando um novo significado a este 3º cálice.
Jr 31,31-34: A profecia da Nova Aliança: "Pois perdoarei as suas
iniqüidades e dos seus pecados não me lembrarei." A Nova
Aliança firmada pelo sangue de Cristo (Cf. Ev.) c para
"remissão dos pecados".
Hb 10.15-39 — Após lembrar a Nova Aliança (v. 10) selada pelo sangue
de Cristo (v. 19,29) e que nos dá o perdão (v. 17), o autor da
carta aos Hebreus estimula à vida em comunhão e à fidelidade
de fé, alertando seriamenle os que desprezam o sacrifício de
Cristo vivendo uma vida em pecado voluntário!
Lc 22.7-20: A instituição da Nova Aliança, selada pelo sangue de Cristo:
A Santa Ceia. Os preparativos, a última ceia pascal judaica e a
primeira Ceia do Senhor são as três partes deste texto.
(Cf. também: O Intróito, a Oração e o Gradual do Dia: Preciso Falar,
Vol. IV — Auxílios Litúrgicos; e: Estudo Homi-lético de
12/4/92).
Hinos sugeridos: 261, 259, 257, 260, 264 (Tb,: 84, 347).
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
247
2)
O Contexto:
Durante a celebração da Páscoa judaica, que tinha um rico ritual
lembrando a aliança feita por Deus com seu povo e selada com o
sangue de animais, Jesus celebra a primeira Santa Ceia - a Ceia da
Nova Aliança. Os elementos de comparação entre as duas cerimônias
são muitos c podem ser explicados durante a explanação e aplicação do
texto, tanto no aspecto físico (elementos usados nas duas cerimônias)
como no aspecto dos benefícios concedidos por Deus.
3)
O Texto:
v. 7 — "O dia dos pães asmos" — indispensável ler Êx 12.1-27!
"Comemorar" = oferecer, sacrificar (o cordeiro = Cristo: Jo 1.29).
vv. 8-13 — A caminho da mais profunda das humilhações, o Filho
de Deus ainda dá mostras de sua autoridade e conhecimento divinos:
determina tudo com exatidão e preve o hospedeiro c o local para a
grande festa da Páscoa. (Quanto aos preparativos: cf. estudo anterior
para o Domingo de Ramos).
vv. 14-16: "antes do meu sofrimento" - Jesus estava bem
consciente do que lhe iria acontecer. Não foi uma fatalidade nem uma
vitória dos inimigos. Foi o plano de Deus, cumprido fase por fase, para
salvar a humanidade! — Cristo, o Cordeiro Pascal: 1 Co 5.7,8.
vv. 17-18: Jesus dá início à cerimônia da Páscoa judaica,
abençoando o primeiro cálice de vinho e distribuindo-o entre os
participantes da ceia. — Durante a cerimônia, o vinho era distribuído
em, quatro ocasiões distintas: No início, com. a seguinte oração:
"Bendito sejas tu, Senhor nosso Deus c Rei do Universo, que criaste o
fruto da videira." Normalmente seguia-se uma oração de ação de graças
pelo dia e pela Páscoa que estava sendo celebrada. Após o ritual do
lavar as mãos e do comer das verduras (ervas amargas), havia a
narrativa da libertação do Egito (Êx 12), o ento dos Salmos de louvor
(Sl 113 e Sl 114) e outras cerimônias; então se tomava o segundo
cálice. O dirigente dizia: 'Em toda a geração, cada um deve considerarse como se tivesse saído pessoalmente do Egito.. ." Partia-se o pão e o
Cordeiro era servido. Na ação de graças após a refeição era servido o
terceiro cálice, o cálice da bênção. Eram recitados os Salmos 116 a 118
e então era servido o quarto cálice. (O texto bíblico não relata todos
estes detalhes, mas só menciona o primeiro e o terceiro cálices e diz
que "enquanto comiam" (Mt 26.26) Jesus celebrou a Santa Ceia: uma
Nova Aliança).
248
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
V. 19 — O pão, elemento diário mais simples e comum, foi
tomado por Cristo, abençoado e distribuído: "Isto é o meu corpo
oferecido por vós". Não mais a carne de um cordeiro, não mais só uma
lembrança de fatos passados, mas o próprio Cristo se oferecendo e se
dando por nós! Lembramos as pala-vras de Lutero no Catecismo:
"porque as palavras por pós exi-gem corações verdadeiramente
crentes". A doação de Cristo por nós envolve desde o plano salvador de
Deus, passa por sua humanação, quando "Deus amou ao mundo de tal
maneira que deu o seu Filho inigênito", e vai até sua morte e
ressurreição redentoras! — "Isto é...": Cf. todas as defesas de Lutero
em favor da presença real de Cristo no Sacramento. — "Fazei isto...": ó
uma ordem de Cristo. Mesmo que não houvesse promessa de bênção na
Santa Ceia, teríamos esta ordem de Cristo a ser obedecida. Quanto
mais, com todas as bênçãos que o Sacramento nos dá, não devemos
celebrá-lo continuamente? — Algumas questões para reflexão: Os
primeiros discípulos celebravam a Santa Ceia diariamente, entrando em
comunhão com o Senhor Jesus e recebendo sua bênção; assim como
estivera com eles fisicamente (durante três anos, estava agora no
Sacramento. O que dizer de duas ou menos celebrações mensais em,
nossas congregações? e o que dizer dos que raramente dela participam?
Não gostamos de entrar em comunhão com Jesus? A Santa Ceia, além
de meio da graça, é um testemunho da nossa fé! (1 Co 11.26).
v. 20 — "A nova aliança": a antiga aliança havia passado; todas
as cerimônias do Antigo Testamento eram sombra do que havia de vir,
mas o corpo é de Cristo (Cl 2.17). — Novamente as palavras "por vós"
merecem ênfase". — "O sangue da nova aliança" — Cf. os comentários
feitos nas Leituras do Dia.
4)
Os Problemas e a Solução:
os problemas: A Santa Ceia vista como mero costuma/cerimônia;
não são vistas as bênçãos;
— é desprezada;
a incredulidade; - simbolismo /
transubstanciação;
— celebrada poucas vezes.
- a solução: Cristo diz: Isto é o meu corpo dado por vós!
Isto é o meu sangue derramado por vós!
Cristo se nos dá para nos salvar! Santa
Ceia: Meio da Graça.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
249
5)
Disposição:
TEMA: A Nova Aliança!
OBJETIVO: Reafirmar a bênção dada por Cristo na Santa Ceia,
que é a Nova Aliança (em contraste com a antiga
aliança).
INTRODUÇÃO: "A noite em que Jesus foi traído" (1 Co 11.23).
Dar uma breve explanação do contexto em que foi celebrada a Santa
Ceia.
I — A antiga aliança:— o sangue de Cristo;
— a libertação;
— a terra prometida;
— a páscoa judaica: celebração
anual.
II — A Nova Aliança:
o sangue do cordeiro;
— derramado por nós (libertação do
pecado)
— o reino de Deus: da graça, da
glória;
— a celebração: "Fazei isto..."
CONCLUSÃO:
0 convite à participação do Sacramento.
Carlos Walter Winterle
Porto Alegre, RS
SEXTA-FEIRA SANTA
João 18.11 17 de
Abril de 1992
I. Os textos do dia. Todos eles são muito específicos sobre o
voluntário padecimento do Messias, sua humilhação, sua obra
redentora.
Sl 22.1-24: Não é uma descrição do sofrimento pessoal de quem
o escreveu e nem do povo de Israel, mas uma descrição do sofrimento
do Messias. Ficamos com o Dr. Walter Kunst-maun, o qual segue
Leupold e Kirkpatrick, que dá interpretação
250
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
messiânica a este texto.
0 próprio Cristo <> aplica a si mesmo.
(Kunstmann, in: "Seleção de Salmos").
Is 52.13-53.12: É um magnífico cântico do Servo Sofredor. Este
texto traz tudo que precisamos saber sobre teologia, como diz o Dr.
Martim C. Warth em "Igreja Luterana", 2º Semestre de 1989. Descreve
em termos magistrais a profundeza da humilhação de Cristo. Fala
literalmente da feiura do Messias em lermos como "aspecto... mui
desfigurado" (Is 52.14), sem "formosura" (Is 53.2). Mais adiante diz
também o texto que o Messias ficaria muito satisfeito com os "frutos" do
seu "penoso trabalho" (Is 53.11). liste texto não pode ficar fora de
nossas citações nas mensagens deste dia. Rica ênfase missionária.
Hb 4.14-16; 5.7-9: Nos últimos dois vv. citados Cristo é chamado
de "Autor da Salvação eterna para todos os que lhe obedecem (pela fé,
naturalmente)" (v. 5). Para que os homens pudessem ser obedientes,
Cristo se tornou seu "sumo sacerdote" (Hb 4.14), pois ele é aquele que
ofereceu sacrifício por nós e, ao mesmo tempo, o Cordeiro de Deus
sacrificado. Seu ofício sacerdotal Ele ocupa até hoje.
João 18.1-19.42: É um texto tão amplo e rico que fica difícil ao
pregador se definir. Sugerimos uma leitura dramatizada dos diálogos do
texto como evangelho do dia. Como texto da mensagem do dia
sugerimos Jo 18.11: "Mas Jesus disse a Pedro: Mete a espada na
bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?" Deste
versículo tiramos o tema: "A tomada voluntária do amargo cálice nos
torna voluntários."
II. O Contexto. Jesus acabara de dar seus últimos grandes
discursos, seus ensinamentos a seus alunos, em Jerusalém e arredores.
Explicara-lhes, em mais de uma ocasião, a necessidade de sua morte.
Dissera-lhes ser necessário morrer, ressuscitar, e subir aos céus para
que o Consolador pudesse vir (Jo 14 e 1G). Acabara de advertir os seus
alunos contra a auto-sufi-ciência espiritual; indicara o traidor; instituíra
a Santa Ceia; dera enorme lição de humildade ao levar-lhes os pés.
Pressentindo que chegou a sua hora, Jesus vai para o jardim do Getsémani. Este nome significa "lagar para óleo". É o tanque ou recipiente
onde se espremiam as olivas para obtenção do apreciado azeite, como
também uvas ou qualquer outra fruta.
Os discípulos ainda não haviam entendido bem a absoluta
necessidade da morte de Cristo. Pedro, por exemplo, em mais de uma
ocasião queria impedir que tal tragédia, na sua opinião, acontecesse.
Numa destas empreitadas petrinas Jesus lhe diz: "Arroda! Satanás,
porque não cogitas das coisas de Deus, c, sim, das dos homens" (Mc
8.33). Agora, n,o jardim do Getsêmani, vendo que Jesus seria preso, o
intempestuoso Pedro puxa da esIGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
251
pada e corta a orelha do servo do sumo sacerdote, cujo nome era Malco
(Jo 18.10). Jesus ordena que Pedro recoloque a espada no seu lugar e
cura o servo ferido. Como Pedro ainda não entendera bem, que espécie
de reinado Cristo viera instaurar, pensou que era seu dever usar a força
para defender seu rei. Na verdade, quem estava defendendo quem? Era
Jesus que estava defendendo seus queridos alunos. Pouco antes dissera
aos soldados: "Se é a mim que buscais, deixai ir estes (Jo 18.8). O
reinado de Cristo não é deste mundo. É de natureza espiritual, de amor
e poder.
III.
O Texto.
Jesus diz a Pedro: "Mete a espada na bainha; não beberei,
porventura, o cálice que o Pai me deu?" (Jo 18.11). Em Mateus 26.52
está registrado assim: "Embainha a tua espada; pois todos os que
lançam mão da espada, à espada perecerão". Grave advertência!
Jesus se prontificou a beber o amargo cálice da morte por amor
aos homens. A sofrer as dores infernais que os homens deveriam sofrer.
E tudo isto sem, ter pecado algum, como Paulo escreve em 2 Coríntios
5.21: "Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para
que nele fôssemos feitos justiça de Deus."
Quando Jesus ordena a Pedro: "Bále" (aoristo imperativo),
traduzido por "mete", Ele não deixa dúvida nenhuma de que não é com
a força que se propaga Seu reino. Outra expressão grega, "ou mè", tem
o sentido "nunca, jamais". O que mostra o grau absoluto de convicção
quanto à necessidade que Jesus tinha de beber o cálice. "Pio" é aoristo
subjuntivo de "pino", beber. O uso do aoristo aqui também deixa claro
que de fato Jesus tomaria o amargo cálice da morte. Tendo feito estas
rápidas considerações sobre três expressões gregas, aventuramos a
seguinte versão própria: "Mete (de uma vez por todas) a espada na
bainha; o cálice que o Pai me deu, jamais (ou: nunca; por acaso eu
não) o beberia?" É uma pergunta retórica, cuja resposta é uma só: "É
claro, é certo, é evidente que SIM".
IV. Disposição. Sugerimos a que segue, que evidentemente pode ser alterada.
Tema:
A tomada voluntária do amargo cálice nos torna
voluntários.
Texto: Jo 18.11.
1. Cristo voluntariamente tomou o amargo cálice da morte. 1.1.
Cristo se humilhou voluntariamente.
252
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
por
AMOR.
1.3. Deus Pai ficou satisfeito plenamente com o cálice
1.2. Cristo padeceu, sofreu e morreu voluntariamente,
tomado por seu Filho e o ressuscitou dentre os mortos
no terceiro dia.
2. O amargo cálice de Cristo nos torna voluntários.
2.1. Por natureza não somos voluntários, mas mortos em
pecado.
2.2. Pela fé na morte redentora de Cristo somos tornados
filhos do Pai.
2.3. Como filhos somos novas criaturas, de espirito voluntário (SI 51.12), livres para vivermos nossa fé ativa
pelo amor.
Edgar Züge
Cachoeirinha, RS
A RESSURREIÇÃO DO SENHOR — DIA DA PÁSCOA
Lucas 24.1-11 19
de Abril de 1992
Reflexão inicial: Visitar o túmulo de alguém pode ser doloroso. Ser lembrado da
morte significa ser desafiado a enfrentar o maior inimigo do homem. A morte
causa sofrimento, dor e perdas irrecuperáveis. Como se posicionar perante a
morte? Existem algumas opções. Posso simplesmente ignorar a morte, mas
também posso me conformar com esta verdade. Ninguém consegue fugir da
"hora da verdade". O homem de todos os tem-pos tentou ou fugir ou combater a
morte. A morte deixa o homem ser pequeno, sentir-se limitado e sem solução. A
morte é sinal de desordem. Alguma cousa não deu certo, pois somos escravos da
morte. A morte oprime e deprime. Todos os homens tem medo da morte. Qual o
nosso posicionamento perante a morte?
A visita: A visitação das mulheres ao túmulo contém uma mensagem. Elas são
representantes da humanidade (que tem que enfrentar esta triste realidade. Por
que querem embalsamar o corpo de Jesus? Este gesto mostra que o homem
aprendeu a "lidar com a morte". Observamos a tentativa de frear o proces-
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
253
80 de decomposição. Qual a motivação para tomar esta atitude? Entre
os muitos motivos que devem ter causado este comportamento
encontramos aquele que "quer ficar com ele "ou" prestar certa
homenagem" a alguém que merece esta consideração. E tudo isto é
feito para um morto, um corpo sem vida. Poderíamos descrever este
momento como a "última homenagem" para com alguém que trouxe
sentido na vida de muita gente. Precisamos ser lembrados de que o
mundo é e permanece como um grande cemitério. Ninguém consegue
escapar de seu encontro com, a morte. Como será este encontro? Existe
certo preparo para este momento?
Os sinais: Naquela madrugada haviam acontecidas cousas estranhas. A
remoção da pedra e a ausência do corpo de Jesus foram indicadores de
que alguma cousa havia acontecido nesta noite. 0 próprio Deus havia
interferido poderosamente. Seu imenso poder transformou o lugar que
abrigou a morte em lugar que testemunha a vida, a vitória sobre a
morte. Esta transformação deveria acontecer, após a revelação da
páscoa, no mundo inteiro. Perguntamos por isto: por que ouvimos, em
nossos dias, falar tão pouco sobre o poder transformador da
ressurreição de Jesus? O que impede os cristãos a testemunharem, com
clareza, o poder transformador da ressurreição em suas vidas? Quais os
sinais da transformação divina na vida humana? Estávamos mortos em
nossos delitos e pecados mas agora somos vivos pelo poder
transformador de sua ressurreição.
O encontro: O aparecimento dos 2 varões causa perplexidade e temor.
Os representantes de um mundo dominado pela morte se inclinam
perante os representantes da vida. É chocante ter que ouvir: Por que
buscais entre os mortos o que vive? É simplesmente inacreditável. Esta
frase parece uma acusação. Quem busca Jesus entre os mortos está no
lugar errado. Isto significa: a morte não tem poder sobre o Senhor da
vida. Assistimos a inversão dos valores. A morte já não tem, mais a
última palavra sobre o destino do homem. A morte não é o fim de todas
as cousas. De repente, as mulheres são envolvidas no maior evento da
história. São transformadas em testemunhas da manifestação do poder
de Deus. São obrigadas a perceber: ele não está aqui. Ele ressuscitou.
Da mesma maneira este testemunho quer envolver o ouvinte. Somos
convidados a ter o nosso encontro com o Senhor da vida. Os homens de
nosso tempo não querem mais acreditar na ressurreição de Jesus Cristo.
Preferem ficar com o "Deus morto". As conseqüências desta atitude
percebemos no mundo inteiro. A ausência do poder da vida, nos corações das pessoas, gera os frutos do poder da morte. A força do poder da
ressurreição, conferida ao crente, é um tesouro. Cabe a
254
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
cada cristão administrar este poder em. conformidade com a von
daquele que venceu os grilhões da morte. Somos solicitados, c
ressuscitados da morte espiritual, a proclamar as virtudes daquele
nos chamou à verdadeira vida.
Esboço:
Proclamamos ao homem a ressurreição de Jesus Cristo, po
a)
b)
c)
vivemos sob o poder da morte
recebemos a oferta da verdadeira vida
agradecemos a ele com hinos de louvor.
Hans Ho
SEGUNDO DOMINGO DE PÁSCOA
João 20.19-31
26 de Abril de 1992
1. A temática das perícopes: O Salmo 100 é um hino de a
de graça, que convida à alegria e gratidão pelos benefícios
bidos Daquele que de fato reina e governa sobre todo o universo.
A leitura de Atos 5.12, 17-32 nos faz recordar os muitos mila
feitos por Deus através dos apóstolos, que não manipulavam o p
divino para sua glória ou vantagem material como o faziam o
profetas de "sucesso".
A segunda leitura, Apocalipse 1.4-18, conduz o pensamento
a visão joanina do Jesus glorificado. Esse Jesus que se encarn
morreu é o primogênito dos mortos e o Ressurrecto, o Soberano
reis da terra, o exaltado que está a direita de Deus Pai, Seu a
libertou os homens de seus pecados e assim formou o real e sacer
povo de Deus. Jesus, o Cordeiro de Deus, tem poder e para n
consolo nos ama.
2. Contexto: O sepulcro vazio é o fato central desse capitulo
de João. A notícia da ressurreição de Jesus ainda não havia
compreendida. O resultado dessa não compreensão foi o fec
se em casa, portas trancadas e medo dos judeus. Foi nesse c
de pavor c incerteza que Jesus aparece a seus discípulos, de
de ter aparecido primeiro a Maria Madalena, e então lhes
"Paz seja convosco!" Que saudação confortadora nesse prim
aparecimento para a congregação dos fiéis!
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
3. Texto: Vers. 19, 20: Maria Madalena tinha trazido a notícia da
ressurreição aos discípulos. Agora o próprio Jesus aparece na noite de
domingo, atravessando as portas fechadas. Vem para trazer paz. Sua
presença gloriosa enche de alegria os corações dos Seus discípulos. À
igreja fugitiva e secreta começa a respirar um ar de festividade e
coragem.
Vers. 21-23: Jesus reforça e reafirma a paz que veio oferecer aos
discípulos angustiados. Essa paz é a base, o ponto de partida para sua
tarefa de mensageiros da boa nova, pois o evangelho que vão anunciar
é "paz" (Ef 2.17), o evangelho da paz (Ef 6.15). Jesus é a nossa paz. Só
há paz através Dele (At 10.36).
Aqueles que querem trazer a paz
devem tê-la.
As palavras de Jesus nesse texto dão a toda igreja a missão de
proclamar a notícia da paz e salvação. "Assim como o Pai me enviou, eu
vos envio." Esse "vos" não se refere exclusivamente aos onze, mas
inclui necessariamente todos os cristãos presentes naquele momento. E
logo mais adiante o Mestre deixará bem claro que cada membro da
igreja pode e deve ser um representante do Deus verdadeiro.
A missão redentora de Cristo está pronta. Começa agora a
missão de todos os seguidores de Jesus: repartir essa boa nova. Os
onze já sabiam que esse seria seu trabalho. Haviam, sido preparados
nesse tempo de convívio. Agora recebem a ordem explícita de sua tarefa
no mundo. Vivo e glorificado, Jesus diz a seus discípulos que Seu
trabalho vai começar. Com autoridade que só Ele tem, envia
formalmente seus discípulos e com a mesma autoridade lhes concede
pessoalmente o Espírito Santo para esse trabalho.
No dia de Pentecoste essa manifestação do Espírito tem uma
dimensão mais pública, oficial e universal. Na noite de Páscoa o Espírito
foi recebido para que compreendessem o que Jesus lhes havia revelado
em Lc 24.44, a saber, que tudo isso aconteceu para que se cumprisse a
Escritura. No Pentecoste o Espírito veio para que a boa nova do
Evangelho chegasse a todo o mundo em, todas as línguas dos homens.
Na noite de Páscoa ninguém foi convertido, mas os líderes foram
fundamentados em seu crer para uma ação futura. Nessa decisiva noite
receberam o Espírito para que com poder e autoridade pudessem
perdoar e reter pecados, isto é, pregar lei aos impenitentes e evangelho
aos penitentes em, nome do santo e justo Deus.
Essa boa notícia é o verdadeiro evangelho libertador, que afasta
pecado, culpa e condenação. E mesmo que homens pecadores sejam os
portadores dessa declaração, esse reter ou perdoar pecados dos
discípulos de Jesus é certo c válido também no céu, como se o próprio
Cristo tratasse conosco. Aqui os discípulos recebem o poder do ofício
das chaves (cf. Mt 16.19; Mt
256
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
r. 17-20). Eles são os agentes que pronunciam a absolvição em nome do
Senhor, mas eles não são capacitados ou encarregados de olhar nos
corações dos homens e desse modo expor todos os hipócritas. Os
discípulos e a igreja são falíveis em seu agir e julgar.
Todos os cristãos têm o poder de reter e perdoar pecados. No
entanto, esse sacerdócio real de todos os cristãos deve ser exercido sem,
ferir a ordem e a decência. Todos temos o poder, mas ninguém deve
exercê-lo publicamente a não ser que tenha sido escolhido pela
congregação. Em particular, no entanto, ele pode e deve usá-lo. Quem
pode prestar maior serviço ao próximo do que consolá-lo com uma
palavra que lhe abre o céu?
O evangelho não é mero relato salvífico, mas é oferta de perdão,
de vida, de paz. Pois, quando o SENHOR vivo apareceu, Tomé não
estava lá. Essa sua ausência pesou na sua vida. Não se sabe bem porque
esteve ausente, mas esse fato foi decisivo em sua vida. Por não ter
visto, duvidou das testemunhas e exigiu uma prova física da ressurreição
do Mestre. Queria ver para crer.
0 testemunho unânime de pessoas
idôneas foi em vão.
É verdade que os discípulos nunca sonharam com a ressurreição.
Foram sacudidos pelas evidências que Tomé não viu. E Tomé vai exigir
provas "palpáveis, tocáveis". Ele quer por a mão na ferida. Não está
preocupado com os que crêem. Ele não crê e pronto.
Vers. 26-30: No domingo seguinte Jesus atravessa novamente as
portas fechadas e aparece a todos os discípulos reunidos. E. . . a prova
que Tomé exigiu, o Ressurrecto a dá logo de início. Jesus convida Tomé
de modo amoroso a fazer o que ele mesmo havia dito que faria para
testar a informação da ressurreição. Essa experiência tocou Tome
profundamente. Jesus lhe fala como AQUELE que ouviu cada palavra
naquela ocasião quando Ele fazia exigências. Só o perceber a onisciência
de seu Senhor o deve ter sacudido por dentro. É nesse momento, então
que responde confessando que Jesus é Senhor e Deus.
Tome aceitou completamente a divindade de Jesus e o fato de
sua ressurreição. Jesus confirmara assim que Ele é o próprio Deus,
verdadeiro Deus com o Pai e com, o Espírito.
Nesse episódio a fé dos discípulos foi fortalecida e desse modo
foram, equipados para serem Suas testemunhas na igreja e no mundo.
Perdoado o que tivera dúvidas, Jesus encoraja os Seus a caminhar pela
fé, como o fizera Abraão. Outras oportunidades teve o Mestre para
esclarecer, clarificar, e reafirmar algumas lições aos seus discípulos
nesses 40 dias após Sua ressurreição.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
7
25
4. Meditação: Jesus nos encoraja a caminhar pela fé, porque crer é ver.
Tome foi, tratado com muita paciência e então, explode nele a fé
pessoal num, testemunho claro e firme no Senhor Deus.
Jesus encoraja a Tomé e a nós hoje a viver pela fé, confiando no
amor, no poder e na sabedoria de Deus. Nessa fé confiamos nas
promessas divinas, mesmo quando as circunstancias e os sentimentos
dizem o oposto.
Crer é ver. É ver tudo na perspectiva divina, e não na
perspectiva natural do ser humano. E tem mais. Crer é ver o céu aberto
e esperar que um dia veremos Deus face a face e poder tocá-lo como
filhos gostam de sentir o Pai. Então nosso ser será completo.
Enquanto não estamos lá, vivamos a nova vida a serviço DELE.
Há muita coisa a fazer. Existe serviço pára cada um. O Salvador nos diz:
"Assim, como o Pai me enviou, eu vos envio a vós." Servimos porque
Ele nos serviu primeiro. Amamos porque Ele nos amou primeiro.
5.
Disposição: TEMA: Jesus vive e fortalece a fé dos ansiosos!
1. Tomé duvidou. Por quê? Queria ver para crer.
2. Jesus encorajou e encoraja a caminhar pela fé, porque
crer é ver.
Gerhard Grasel
TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA
João 21.1-14
3 de Maio de 1992
1. A temática das perícopes: O texto de Salmo 28.1-2, 6-9 convida ao cântico de
louvor ao Ungido, ao Salvador do povo que tem, poder.
No 3º domingo de Páscoa ainda ouvimos o eco do grito de vitória do
Senhor vivo sobre a morte. Cristo demonstrou Seu poder e Seu amor.
A leitura de At 9.1-20 (a conversão de Paulo) nos conduz para dentro da
vida de um zeloso fariseu treinado na lei. Esse Saulo tinha aprovado o
apedrejamento de Estevão e iniciou a perseguição aos cristãos.
Durante sua
viagem a Damasco uma
258
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
luz do céu brilhou ao seu redor, e caindo por terra, ouviu a voz de Jesus,
o perseguido. Desse momento em diante Saulo não é mais o mesmo.
Na segunda leitura, Apocalipse 5.11-14, é destacado o Cordeiro
morto pelo pecador, que com seu sacrifício trouxe vida, perdão e
salvação. Esse Cordeiro divino é digno de toda honra, glória e louvor.
2. Contexto: A presente perícope é uma seqüência do contexto
do domingo anterior em que Jesus aparece a seus discípulos sem
a presença de Tomé e depois reaparece para fortalecer a fé do
que duvidara. Nessa ocasião os discípulos recebem a incumbên
cia de ir e falar a todas as pessoas. Recebem o Espirito Santo e
são enviados para perdoar e reter pecados.
3, Texto: O texto de João 21.1-14 narra a 3ª aparição de Jesus.
O texto não é um mero relato, m,as um significativo evento de
ralacionamentos. Convém lembrar que o Jesus glorificado não
está com os discípulos como antes, 24 horas por dia. Ele aparece
quando Ele quer e vê a necessidade dos que crêem.
Conforme o texto, Pedro está com alguns discípulos envolvidos
numa pescaria que além de render dinheiro ainda proporcionava um
lazer. Naquela noite não apanharam nada. Ao clarear da madrugada,
Jesus apareceu na praia. Não é reconhecido pelos discípulos e lhes
pergunta se eles tem comida. A resposta foi negativa devido ao
resultado da pescaria. De modo curioso, então, a "não identificada figura
humana" lhes diz: " Lançai a rede à direita do barco e achareis!" Os
veteranos pescadores aceitaram a sugestão c pegaram muitos peixes.
Foi então que João desconfiou e disse a Pedro: "É o Senhor". Ao chegarem a terra, viram ali brasas e em cima peixes. Havia tam-bém pão.
E Jesus lhes disse: "Vinde, comei!" O Mestre, então serviu o pão e o
peixe. Jesus queria ter momentos de comunhão com seus discípulos que
tinham voltado ao seu trabalho nesse tempo antes do dia de
Pentecostes.
Vers. 2: É significativo que Tomé está presente na terceira
aparição. Parece que Tomé compreendeu o quão importante era ficar
junto com os demais.
Vers. 6: Os discípulos apenas identificaram um homem
desconhecido na praia. O fato interessante é que quando essa figura
estranha ordena aos discípulos, jogar as redes à direita do barco, o
fazem imediatamente. Não é surpreendente que pescadores
profissionais deixam que um desconhecido dirija seu trabalho? Não é
uma obediência cega demais? De fato, atrás dessa obediência estranha
está uma autoridade especial. Algo forte parece garantir-lhes que dá
para confiar nesse homem. E o reIGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
259
sultado foi fantástico, pois Jesus encheu suas redes como o fizera em
outra oportunidade, conforme relata Lc 5.6,7.
Vers. 7: Com sua sensibilidade João percebeu que aquele homem
era Jesus. O impulsivo Pedro, sabendo então que o Mestre estava com
eles, joga-se ao mar e nada em direção ao Senhor a quem ele negara
três vezes a poucos dias atrás. Em João 20 Pedro é ignorado pelo
Senhor.
Vers. 9: Discípulos tinham visto o poder de seu Senhor na
pescaria. Agora, ao chegar à praia, tiveram uma agradável surpresa:
mesa posta para a refeição. Cansados da noite podiam comer
imediatamente. Aquele estranho que a pouco tinha perguntado a eles se
tinham algo para comer, providencia milagrosamente fogo, peixe e pão.
O Mestre os está servindo. E cada ato de Jesus deveria lembrá-los de
seu convívio com Ele.
Vers. 12: Essa aparição de Jesus é marcada pela ação. Ninguém
fala a Jesus como sendo o Senhor, e nem há comentários sobre sua
relação com o Mestre. Do início ao fim há muita ação, e cada palavra de
Jesus está relacionada apenas com a ação, não dando nenhuma
explicação sobre o porquê da ação. Parece que os discípulos esperaram
por essa palavra que esclarece os acontecimentos. Ninguém conseguiu
perguntar nada, nem o audacioso Pedro. A razão dessa timidez é dada
pelo texto: "Porque sabiam que era o Senhor."
Em suas aparições Jesus mais e mais manifestou a sua glória a
seus discípulos e lhes revelou ser "o SENHOR".
Vers. 18: Três verbos fortes estão nesse versículo: vir, tomar e
dar. Jesus age e os discípulos olham, observam. Os atos do Senhor
falam por si. Sua presença já é a bênção sobre o alimento que veio de
suas mãos.
É oportuno perguntar a essa altura: Jesus também comeu? 0
vers. 5 pode ser entendido no sentido que Jesus indagou se eles tinham
comida para eles mesmos? Em Lc 24.42,43 Jesus comeu. Em At 10.41
Pedro reafirmou que ele e outros discípulos comeram e beberam, com
Jesus depois que ressurgiu dos mortos. É possível que isso tenha
acontecido na terceira aparição, apesar de o texto de João 21.13,14 não
mencionar o fato.
4. Meditação: Quando Jesus chamou os dois primeiros pares de irmãos
para serem "pescadores de homens", Ele lhes ensinou através de um
milagre que o mais importante era sua confiança Nele e sua palavra.
Tendo pescado toda noite nos melhores lugares com sua capacidade e
experiência, eles não pescaram nada. No entanto, quando jogaram a
rede sob a palavra de Jesus, o milagre aconteceu.
200
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
O próprio Mestre preparou seus discípulos para serem pescadores
de homens. Aqui, o milagre da pesca é repetido após terem recebido a
comissão de serem testemunhas de tudo que tinha acontecido no Cristo
prometido (Jo 20.21-23).
Nessa noite de trabalho sem resultado, os discípulos
apreenderam mais uma vez que só o esforço humano não é suficiente.
Poderosa e certa é a Palavra do Senhor e sua promessa. E... a Sua
promessa de que cuida dos seus enviados (cf. Lc 22.35) é agora
reafirmada. No episódio de nosso texto comentado, Jesus demonstra seu
cuidado, e lhes assegura que Ele mesmo vai alimentá-los, protegê-los e
cuidá-los como seus próprios escolhidos e servos chamados. O
pensamento que deveria nortear suas vidas é o de fazer Sua vontade e
Seu trabalho conforme Sua palavra. Todos os cuidados corporais e
temporais estariam nas mãos do Senhor.
O objetivo do evangelho de João é levar à fé em Jesus como o
Messias, o Filho de Deus prometido. A aparição de Jesus aos sete (7)
discípulos junto ao mar de Tiberíades visava fortalecer seus "alunos" na
fé e no interesse pelo trabalho apostólico específico para o qual haviam
sido chamados.
Pedro necessita de um conforto especial, talvez mais personalizado e direto, pois fora ele o protagonista da cena da negação.
Essa cura de almas Jesus realiza a partir do vers. 15 de João 21.
A grande promessa que o Salvador quer incutir nos seus
discípulos e também em nós é: "Eis que estou convosco todos os dias
até a consumação do século."
5.
Disposição: Tema: Jesus cuida bem dos seus discípulos!
1. Ele providencia por suas necessidades físicas e corporais.
2. Acima de tudo, lhes fortalece a fé, a confiança na
promessa de Sua companhia na pescaria humana.
Gerhard Grasel
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
201
QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA
João 10.22-30
10 de Maio de 1992
Leituras do Dia
As leituras do dia observam, um, fio condutor da idéia central, na
perspectiva de passado, presente e futuro. A figura do pastor e de suas
ovelha inicia pelo Salmo 23, tão conhecido quanto querido por todos os
que, na fala de Paulo, na epístola de Atos 13, temem a Deus, e a quem
foi enviada a palavra desta salvação. Estes receberam o evangelho da
promessa (passado), feita aos pais, e cumprida em Jesus (presente, no
anúncio do Apóstolo). listes remidos, na profecia, de Apocalipse 7,
alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro, que os apascentará e
guiará para as fontes da água viva, e enxugará de seus olhos toda
lágrima (futuro). Esta é a consumação final do plano divino de salvação,
confirmada na ressurreição de Cristo, sendo também este quem, nas
palavras do texto, conhece as suas ovelhas e lhes dá a vida eterna. Ao
nosso Deus pertence a salvação.
Contexto
A escolha do t e x t o do evangelho de João enfatiza o aspecto de que este
evangelista se preocupa, mais que os sinóticos, com o foco teológico, ou religioso
da atuação de Jesus, e não tanto com o enfoque biográfico. Deve-se encarar o
texto com a pergunta "por quê?", ao invés dó "que" e "como". Há, pois, uma
preocupação cm, responder perguntas como: "Qual a importância do Bom Pastor
Jesus para a vida de santificação de suas ovelhas?" "Como devem, elas
comportar-se cm relação a seu Pastor, para confirmar sua certeza de vida
eterna?" Isto porque o texto segue à exposição de Jesus, em João 10, de sua
figura e função de Bom Pastor. O debate em torno desse discurso cresce, os
judeus dissentem, e chamam Jesus de louco e endemoninhado. Era dia de festa,
e, mesmo assim, os inimigos acabam por querer prendê-lo, ao invés de aceitar a
sua palavra.
Texto
V. 22 — "Festa da Dedicação", a ocasião em que se desenvolve o texto,
era o festival criado por Judas Macabeu (1 Macabeus 4.36), para comemorar a
purificação do templo de Jerusalém após a sua profanação por Antíoco Epifanes,
o regente selêucida que queria helenizar o culto judeu. Era a festa
262
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
de Hanukkah ou enkaínia, uma espécie de re-dedicação de tem-pio ao
serviço de Deus. Pode-se introduzir a pergunta de como o templo pode
ser dedicado, sem haver dedicação de muitos de seus usuários.
V. 23 0 "pórtico de Salomão": este stoá é o nome grego para o
local onde, no inundo grego, grandes homens ensina vam, e de que
deriva o termo "estóico". Jesus ensinou, não apenas para mudar
mentalidades, mas para fazê-las retornar à fonte de toda a sabedoria
para a salvação. O pórtico ou arcada de Salomão remonta ao templo
original, que, segundo estudiosos, não havia sido de todo destruído, e,
portanto reconstruído por Herodes no templo atual.
Vv. 21-26 — A interpelação dos judeus, que inicia de forma
agressiva no v. 20 e termina com a tentativa de prendê-lo no v. 31,
obedece ao tipo de pergunta desafiadora e ofensiva. Os inimigos
revelam o espírito incrédulo e merecem a resposta dura de Jesus: "Já
vo-lo disse, e não credes." "Não sois das minhas ovelhas." O mundo
agride a divindade do Criador com acusações do tipo: "Quanto mal no
mundo, permitido por esse Deus!" A presença do Salvador, com seus
atos salvíficos, é rejeitada pelos incrédulos, como se fossem absurdos.
As perguntas que fazem já foram, há muito tempo, respondidas na
Bíblia.
Vv. 27-30 — Nestes versos está o âmago da mensagem de Cristo
para este domingo e para todos os tempos. Ouvir a voz do Bom Pastor
(akoúnoo no grego e shemá no Antigo Testamento) envolve a idéia de
aceitá-la pela fé. Ouvir a voz de alguém é conhecê-la (timbre,
entonação e mensagem). Dificilmente erramos no reconhecimento da
voz de alguém que nos é querido. Ouvir e conhecer a voz de quem
amamos significa, por conseguinte, segui-la e procurar fazer o que nos
diz. A mensagem do Bom Pastor nesses versos é plena de amor,
cuidado e compaixão. Responde à agressão com. compreensão,
convidando seus próprios inimigos a fugir da perdição e do perigo de
serem arrebatados para a condenação. É um chamado ao arrependimento e à fé.
A resposta de Cristo a seus crentes está cheia de poder. Poder
para transformar uma vida dispersa entre falsas vozes deste mundo,
fazendo-a retornar ao aprisco do Bom Pastor. Poder para tornar um
(hén) em Cristo os seus crentes, assim como Ele e seu Pai são um. Esta
unidade dos crentes em, Cristo é o testemunho presente na igreja
cristã, e serve de alavanca para conduzir muitos outros para que ouçam
a voz do Bom Pastor, e sejam unidos por fé, em seu "aprisco" do reino
da graça, em sua igreja, aqui e já, bem como em seu reino da glória, na
vida eterna, onde ninguém mais os arrebatará de sua mão. Alegria e
conforto, temporal c eterno, são a resposta definitiva a quaisquer
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
263
perguntas que se façam no âmbito da fé e vida cristãs, apontando para
a obra de Cristo e para a salvação eterna.
Proposta Homilética
A voz do Bom Pastor e seu efeito em suas ovelhas:
1. Ouvir / arrependimento: abandonar falsas vozes e retornar, em
verdadeira contrição, ao aprisco de suas ovelhas.
2. Conhecer / fé: aceitar a voz do único e divino Guia e apegar-se
à mesma, em verdadeira fé.
3. Seguir / confiança e esperança: Crescer na fé e confiança, pela
transformação da vida em. serviço a Ele; e levar outros ao
aprisco visível (igreja) e invisivel (vida eterna).
Elmer Flor
QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA
João 13.31-35 17
de Maio de 1992
TEMA GERAL
O bloco de leituras apresenta de modo geral o amor de DEUS
pelas pessoas, manifestado pelos seus feitos nos diferentes momentos
da história e através de pessoas e situações por ele utilizadas. A
culminância está no envolvimento do próprio Filho e na providência do
lar definitivo para o seu povo.
1.
Salmo 110
Por meio do salmista Davi, Deus, o Pai, revela suas amorosas
providências, através de seu Filho, Jesus Cristo, consti-tuindo-o
Sacerdote e Rei, e designando-o para a missão de defesa, intercessão e
reconciliação vitoriosas do seu povo.
2.
Atos 13.44-52
Como a mensagem da salvação em Cristo não foi recebida pelos
judeus, Paulo e Barnabé prosseguem em sua missão e le264
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
vam-na aos não judeus. O amor de Deus passa a ser demonstrado
também através da pregação aos povos de todo o mundo, para que
reconheçam a realidade cm que vivem e recebam a oportunidade de
salvação.
3.
Apocalipse 21.1-5
Com a finalização dos mil anos em que Satanás es lá preso,
ocorre sua soltura por "pouco tempo" (mícron chrónon espaço de tempo
tão pequeno que não é possível ser medido). E neste "pouco tempo",
Satanás agirá com grande poder e destruição, ameaçando, inclusive, a
segurança dos próprios cristãos.
Acontecerá, porém, uma fulminante intervenção divina, salvando
seus crentes, pondo fim às hostilidades satânicas, executando o grande
e final julgamento e pondo fim ao tempo (chronos).
Em seu grande amor providencia então uma habitação
"definitivamente segura" — um novo céu e uma nova terra para os
"povos de Deus".
4.
João 13.31-35
O contexto apresenta Jesus ocupando com a preparação dos seus
amigos discípulos para o grande evento da sua separação visível
definitiva que estava para acontecer logo a seguir. O contato havido
entre Jesus e Judas durante aquela janta de despedida na 5ª - Feira à
noite, que passou quase desapercebidamente ao grupo, ao mesmo
tempo que foi esclarecedor para o discípulo "a quem ele amava", foi o
detalhe que desencadeou a série de acontecimentos que culminaram
com a ascensão de Jesus.
4.1 — vv. 31 e 32 — Jesus foi glorifiçado, e nele Deus foi
glorificado.
Glorificado — Deus deu uma plena demonstração de sua glória
na pessoa do Filho. Como assim? É que Jesus ao recomendar a Judas
que fizesse depressa o que pretendia fazer, estava dando o decisivo
passo em direção da cruz. Estava chegando à fase final de seu
ministério. Estava entrando no "corredor da morte".
E com, este ato e seus complementos (ressurreição e ascensão)
o plano da salvação estava sendo executado — e nisto era perceptível a
glória de Deus, sua grandeza, seu amor.
1.2 — V. 33 — Após a sua partida, Jesus seria procurado
tanto
pelos
judeus
(por
curiosidade?)
como
pelos
discípulos
(pe
lo
apego
e
afeição...).
Porém,
nem
estes,
nem
aqueles
pode
riam acompanhá-lo agora.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
205
4.3 — V. 34 — Em. vista do distanciamento físico, Jesus orienta
seus discípulos para seu conviver diário: dá-lhes um "novo
mandamento". Não uma lista de itens proibitivos ou ordenações. Mas
simplesmente que assumam uma atitude de amor mútuo a exemplo do
que ele lhes havia demonstrado no tempo em que com eles estivera.
Apenas isto; mas também tudo isto! Viver neste estilo de vida significa
entrar numa nova relação com Deus e com as pessoas; c, a partir disso,
tudo se torna novo.
4.4 — V. 35 — E o serviço missionário? Este é conseqüência
natural da vida cristã. Ao perceberem o amor praticado entre os
discípulos de Cristo, as pessoas são atraídas e procuram saber a razão
deste comportamento. É nesta oportunidade que o discípulo vai explicar
a razão da sua esperança, a motivação para o seu amor: o amor de
Deus por meio de Jesus Cristo.
SUGESTÃO DE TEMA E PARTES:
O Novo Mandamento
1. Amor mútuo
— exemplificado por Jesus Cristo.
2. Identifica o discípulo
— oportuniza o testemunho.
Nelson Lautert
São Leopoldo, RS
SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA
João 14.23-29
24 de Maio de 1992
1.
Leituras do dia:
a) Salmo 67: cântico que convida todas as nações a louvarem
a Deus pelas suas bênçãos e a se alegrarem com, a ação do Senhor, e
que roga ao Senhor que continue a derramar sua bênção.
b) Atos 14.8-18: relato da cura de um coxo em Listra, que
levou a população daquela cidade a considerar Paulo e Bar-liabé como
deuses; mas eles, pregando o evangelho, quiseram
266
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
converter aquele povo das "coisas vãs ao Deus vivo", para que ele
encha "os vossos corações de fartura e de alegria".
c) Apocalipse 21.10-14,22-23: descrição da saiila cidade, a
nova Jerusalém, cujo "santuário é o Senhor, o Todo poderoso e o
Cordeiro", que é iluminada pela glória de Deus e cuja lâmpada é o
Cordeiro.
d) enquanto esperamos pela bênção maior — a cura definitiva e
a nova Jerusalém - - guardamos a palavra de Jesus e, pela ação do
Parácleto, nos tornamos sua morada, recebendo aquela paz que só o
Senhor pode dar.
2.
Contexto:
O texto faz parte do discurso de despedida de Jesus, proferido no
cenáculo naquela noite da celebração da ceia pascal e da instituição da
Santa Ceia. Mais especificamente, a pericope c a resposta de Jesus à
pergunta de Judas: "Donde procede, Senhor, que estás para manifestarte a nós, e não ao mundo?" (v. 22). Se "todos os povos da terra veriam
o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu" (Mt 24.30), que tipo
de revelação particular é esta? Jesus tinha dito que se manifestaria aos
discípulos (v. 21), mostrando com certeza que era "o caminho e a
verdade e a vida" (v. 7). Uma expressão que repete é a do relacionamento amoroso (vv. 15,21,23,28). Jesus não qiierjiiostrar que o
amor de Deus é condicionado pelo amor do homem, mas (jue o grande
amor de Deus (Jo 3.16) leva-nos a também amarmos a Deus e
santificarmos nossa vida, com o auxílio do Con-solador. É, por isso, uma
revelação dentro da família de amor. A presença de Deus é concretizada
onde existe amor e obediência.
3.
Texto:
vv. 23-24: a manifestação de Jesus como o Cristo acontece
dentro do relacionamento que o cristão tem com ele. Jesus mostra que
sua ressurreição é a renovação da relação pessoal com os discípulos.
Aqueles que crêem na palavra de Jesus são movidos a amá-lo e a
guardar seus mandamentos. Assim conhecerão o contínuo amor do Pai e
serão assegurados da habitação do Deus Triúno neles, para seu
benefício. O mundo não está incluído nesta manifestação porque não
ama o Filho enviado pelo Pai. É uma bênção sem medida termos a
manifestação de Jeus, que está unida à palavra de Deus c à fé.
vv. 25-26: o Espírito Santo trabalha através da palavra. Os
discípulos receberam a promessa de que quando o Espírito viesse, os
capacitaria a lembrar c compreender o que Jesus tinha ensinado. Ele é
enviado em nome de Jesus como um Parácleto
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
267
(auxiliado!*, alguém que "está ai" para auxiliar), para ensinar a palavra
do Pai, para manifestar a ação salvífica do Filho.
v. 27: o Filho dá a paz através de sua palavra. O mundo só pode
desejar paz, mas Jesus a dá. Sua palavra de paz é eficaz, pois proclama
e concede a paz e a reconciliação com Deus que ele veio realizar, e traz
paz interior e encorajamento (Ef 2.12ss; Cl 1.14,20ss).
vv. 28-29: a realidade da exaltação de Cristo fortalece a fé. É
motivo de alegria, antes que de tristeza, a partida de Cristo. A ausência
de sua presença visível tentou os discípulos naquele tempo, c tenta a
nós hoje, a desesperar, a reclamarmos de Deus, e a perder a fé e o
zelo. Por isso, Jesus mostra que o amor a ele e a confiança nele como o
enviado pelo Pai para realizar nossa salvação, nos leva a entender que a
ascensão é a marca do fim do seu estado de humilhação e, portanto, da
perfeita realização da obra salvífica, de modo que podemos nos alegrar
nele como nosso Salvador. Até o final do sofrimento de Cristo por nós, o
Pai era maior que a natureza humana de Jesus, porque este havia
renunciado ao exercício de sua majestade divina. As palavras de Jesus
sobre o glorioso significado de sua ascensão e exaltação têm um,
objetivo: "para que creiais".
1.
Pensamento central:
A manifestação de Deus nos homens acontece pela ação do
Parácleto através da palavra, c se concretiza no amor, na paz e na fé e
obediência aos seus mandamentos. São estas as bênçãos que a ida de
Cristo ao Pai nos oferece. Sua ascensão é a garantia de que ele está
conosco.
5.
Disposição:
Tema: A MANIFESTAÇÃO DO SENHOR JESUS
I — É fruto de seu amor
A. Acontece na ação do Parácleto pela palavra
P). É feita aos que, em fé, amam o Salvador
C. Não acontece para o mundo, que não o ama.
II — Nos traz bênçãos divinas
208
A.
B.
A habitação do Deus Triúno (v. 23)
A verdadeira paz (v. 27)
C.
A alegria da fé (vv. 28-29).
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
III — Nos capacita a responder ao seu amor
A.
B.
C.
Guardando sua palavra
Vivendo em fé e esperança
Manifestando seu amor ao mundo.
Rony Ricardo Marquardl São
Leopoldo, RS
A ASCENSÃO DO SENHOR
Lucas 24.44-53
28 de Maio de 1992
Reflexão inicial: Não é mais segredo. A cristandadc está enfraquecendo
sensivelmente. Muitas pesquisas foram elaboradas. Muitas falhas
apontadas. Ninguém sabe avaliar, de maneira abrangente, a situação. 0
que está perante os nossos olhos? Há cristãos que trabalham
incansavelmente. Mas há também aqueles que desconhecem um maior
comprometimento. Como explicar que tantas pessoas nas igrejas evitam
um maior envolvimento? Como interpretar o aparente cansaço?
Devemos começar a desconfiar da pregação? Proclamamos a Palavra do
Senhor com autoridade? Esta palavra atinge o coração das pessoas? O
exército que desaprendeu a lutar não precisa mais sair das ca-sernas. O
cristão que não quer ser um bom soldado, experimentado em combate,
morrerá pelo atrofiamento (Atrofia: Definha-mento por falta de nutrição
ou de exercício; decadência; enfraquecimento). Necessitamos de novo,
e sempre de novo, ouvir a Palavra do Senhor. Sendo "ouvinte
praticante" e não um "ouvinte negligente" poderemos experimentar o
cumprimento das promessas imbuídas na Palavra do Senhor.
O cumprimento: Jesus visita os discípulos. Constata a sua perturbação.
Existem sinais claros que eles estão na "defensiva". Exatamente no
momento da dúvida e da vacilação eles necessitam de seu consolo, sua
palavra amiga, enfim a sua presença. Estava na hora de aprenderem
algo indispensável para a sua vida. Para compreender o presente se faz
necessário recordar o passado. Toda história do povo de Deus manifesta
o cumprimento da vontade de Deus. "Importava se cumprisse tudo" (cf.
dei). O povo tem que se desincumbir de sua missão. A regra é
obediência à Palavra do Senhor. Um estudo mais aprofundado
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
_
2C9
da Palavra mostrará o quanto nas Escrituras está escrito sobre Jesus. O
leitor é convocado, constantemente, a tomar conhecimento dos planos
de Deus. Sentirá a sua obrigação c a necessidade de cumprir com o seu
dever. Sentimos novamente a necessidade de o Senhor da igreja "abrir
o entendimento para compreenderem a. Escritura". Jesus prepara os
seus discípulos. Antes de sua ascensão ele coloca nas suas mãos as
regras espirituais para uma vida espiritual sadia. Cada discípulo de
Cristo deveria seguir as regras aqui expostas (Meditação, recordação,
compreensão, seguir a convocação e proceder na proclamação de sua
palavra). Deus cumpriu a sua palavra. Cristo cumpriu com a sua missão.
Os discípulos de todos os tempos estarão perante os desafios que o
Senhor da igreja coloca ria sua frente. Parar significa estagnar. 0 Senhor
da igreja quer o seu "time" na ofensiva, no cumprimento de seu dever.
A caminhada da cris-tandade não pode ser interrompida.
O testemunho: "Vós sois testemunhas". Não adianta escrever milhares
de artigos, livretos ou até livros sobre o testemunho. O testemunho tem
algo a ver com a presença do Espírito de Cristo na vida do discípulo. Os
primeiros discípulos receberam a promessa: "até do alto sejais
revestidos de poder". Já pedimos o poder do Santo Espírito de Deus
sobre as nossas vidas? Vivemos conscientizados do fato de que o
Senhor quer o nosso testemunho (martirein)? Por que não conseguimos
mais falar com Cristo e de Cristo em nossos próprios círculos? O Cristo
ressuscitado e elevado aos céus não tem mais importância para nós?
Que tipo de "espírito" governa as nossas vidas? (Matcrialismo, orgulho,
auto-suficiência, cngrandeciinento próprio, ganância, desobediência para
com a Palavra). Que tipo de testemunho é este quando uma
congregação cristã aceita as regras do inundo, da carne c do pecado?
Invoquemos o nome do Senhor para que tenha compaixão de nós.
Queira ele conduzir-nos ao arrependimento sincero e enviar a força de
seu poder com o fim de preparar e enviar testemunhas autênticos de
sua igreja.
A bênção: Antes de se ausentar Jesus abençoou os seus discípulos. A
bênção é uma tradição antiga no povo de Deus. Jesus cumpriu a sua
missão. Ele foi sacrificado no altar do mundo. Agora ele age como
Sumo-sacerdotc. A bênção é o elo entre o Senhor e os membros da
igreja cristã. Um povo abençoado por Deus jamais vacila. Saberá buscar
a presença do Senhor em toda e qualquer situação. As considerações da
reflexão inicial permitem fazer perguntas audaciosas. Uma igreja que
mostra sinais de enfraquecimento em muitas áreas poderia considerarse uma "igreja abençoada"? Talvez a nossa geração tem que aprender
novamente invocar o.Espírito do Senhor que move os co270
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 2/1991
rações. Sem a presença do Espírito de Deus e sem a bênção do Senhor
da igreja trabalham em vão aqueles que confiam, somente na sua
própria força. Pedimos: Vem Senhor! Prepara uni povo que ouve e
obedece a Tua palavra. Um povo que aceite e segue a Tua convocação.
Abençoa o Teu povo com a Tua presença sempre.
Esboço: Cristo quer governar a sua igreja
a)
b)
c)
para que se cumpra a vontade de Deus
para que se anuncie a Sua palavra a todas as nações
para que se experimente as Suas maravilhosas promessas.
Hans Horsch
SÉTIMO DOMINGO DE PÁSCOA
João 17.20-26 31
de Maio de 1992
1. Temática - Os quatro textos que formam a perícope do
domingo, aponta, direta ou indiretamente, para uma grande te
mática: a unidade cristã!
Cristo ora pela unidade do povo de Deus (Jo 17.23). Davi afirma
que a união entre os irmãos é algo "bom e agradável" (SI 133.1). Deus
mostra que os "desunidos e distanciados" precisam de ajuda mediante o
anúncio do Evangelho de Cristo (At 16.9,10; Jo 17.20). João, em sua
visão escatologica, testifica que a unidade perfeita somente acontecerá
na glória eterna, quando, em sua última vinda, Cristo entregará o
galardão aos fiéis (Ap 22.12,20; Jo 17.24). Os que, portanto, vivem
esta união cristã, são "todos os crentes c santos" que formam a "igreja
cristã (CA, Art. 7 c 8).
2. Contexto — O texto do Evangelho parece encontrar-se num
domingo equivocado. É que Jo 17, normalmente, é usado como
fundamento para os estudos e pregações antes da Páscoa. E o
Evangelho de hoje (Jo 17.20-26) está prescrito para depois da
Páscoa, o 7" domingo da Páscoa. As razões mais justificáveis
são estas duas; a Igreja Cristã, com o domingo de hoje, ainda
está vivendo no ciclo da Páscoa; a primeira parte de Jo 17 inicia
com o "Pai, é chegada a hora" (V. 1), próprio para antes de
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
271
Sexta-feira-santa"; a segunda parte de Jo 17 inicia com "Não rogo
apenas por estes, (passado c presente), mas também por aqueles que
vierem (futuro) a crer em mim... " (v. 20). Por isso, apesar do aparente
engano, a propriedade do Jo 17.20-26 para o nosso 7o Dom. após a
Páscoa.
João 17 é conhecido como a oração saccrdotal de Cristo. É a
última, grande e profunda oração que Cristo faz no final de seu
ministério público. Referindo-se a esta oração, o cap. 18 inicia com,
"tendo Jesus dito estas palavras... " e logo passa para a prisão de Cristo
no Getsêmani. Nesta oração de despedida, para enfrentar o Calvário,
Cristo ora em favor de si mesmo, em favor de seus discípulos, e em
favor daqueles que, até o fim dos séculos, ainda viriam a crer nele. Esta
oração de Cristo (Jo 17) só pode ser lida, meditada e orada de joelhos
diante do próprio Senhor da Igreja.
É desta oração do Salvador que o Evangelho de hoje destaca a
segunda parte: Jo 17.20-26.
3. Texto — Desta riqueza inesgotável, apenas alguns termos que
servem de auxílio no preparo da Mensagem.
—- ''Unidade": Aparece muitas vezes neste capítulo com o conteúdo de
"um, união, unidade", sempre apontando para o relacionamento,
existência e convivência das três Pessoas da Trin,dade, e dos fiéis
entre si e com seu Deus e Salvador. Intimidade, interdependência,
comunhão, concórdia, harmonia. Unidade não é uniformidade!
— "Aperfeiçoar": este termo expressa a idéia de que algo ainda não
está perfeito, completo; mas que este algo é dinâmico, progressivo e
que culmina com a plenitude, com a meta alcançada; no
aperfeiçoamento nada é estático ou morto, mas vivo, em constante
mudança, subida, melhora. "A justificação é um fato consumado, a
santificação é um processo contínuo — assim é o aperfeiçoamento
deste texto".
— "Oração": compreende tudo aquilo que Cristo, o Deus-Ho-mem,
expressa, grita e joga aos pés do Pai; tanto o conteúdo como forma
mostram a missão saccrdotal e salvadora do Filho de Deus.
— "Palavra": o meio, o veículo, o instrumento através do qual o Espírito
Santo opera a fé; é a palavra infalível de Deus que pode "fazer sábio
para a salvação"; é a pregação do evangelho de Cristo. Deus "não
age sem meios", mas sempre através dos meios da graça. Aqui,
também, entra o enfoque missionário: "Cristo para todos"!
272
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
"Glória": descreve tudo que aparece sob majestade, prêmio,
galardão, céu, vida eterna — a beleza e riqueza do "novos céus e
nova terra" (At 21).
4. Disposição — Dentre as muitas possibilidades, apresentamos uma
sugestão. Como introdução, o colega poderia apontar para um contrário
de unidade: a desunião na Igreja Cristã de Co-rinto (1 Co 1.10-13; 3.16).
Tendo como tema VAMOS APERFEIÇOAR A UNIDADE CRISTÃ o
pregador poderia desenvolver sua mensagem com três grandes
enfoques: I — a causa/razão; II — o meio/modalidade; III —
Finalidade/propósito, aproveitando o seguinte esquema:
I — Porque este é um pedido de Cristo (vv. 20,24) II — Por
intermédio da palavra de Cristo (vv. 8,20) III — Para vermos
a glória de Cristo (v. 24).
Leopoldo Heimann
Porto Alegre, RS
••''...
: •.
•
ÍGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
273
DEVOÇÕES
PORQUE APRENDI A VIVER CONTENTE EM TODA E
QUALQUER SITUAÇÃO
(Fp4.11)
Amados:
Ao iniciarmos o 3<? trimestre de estudos do ano de 1991, que,
para alguns
— será o último preparatório para a entrada no Curso Teológico;
— para outros, o último antes do esperado estágio;
— para outros, ainda, o último da vida acadêmica aqui nesta
escola;
— para TODOS NÓS, o início de um trimestre de estudos e
trabalho, para o qual queremos, antes de mais nada e acima
de tudo, levantar nossas mãos aos céus e dizer com o poeta:
"Guia-nos Jesus, teu caminho é luz. Vacilar nós não
queremos, sempre a ti fisé seremos. Toma a mão dos teus,
leva-os para os céus."
Todos nós, eu estou certo que não exagero, todos nós em algum
momento da nossa vida, quem sabe até agora, np início do trimestre,
tivemos e TEMOS o desejo secreto de:
— sermos diferentes do que somos;
— de termos a vida que outros têm; prestígio dos demais;
— possuirmos, termos aquilo que não está em nosso poder;
Lamentamos a nossa sorte, vivendo nossa vida preocupados,
especialmente a nível horizontal, comparando-nos e preo-cupando-nos
conosco e com os outros:
—
—
—
—
Puxa, se eu tivesse o dinheiro que ele tem;
se eu tivesse a inteligência que ele tem;
se eu tivesse o poder e o sucesso que ele conseguiu;
se eu tivesse o charme e a simpatia daquele outro;
— ah! seu eu tivesse alguns anos menos, teria feito diferente, teria feito
como aquele outro fez.
E assim, muitas vezes andamos cabisbaixos, tristes, aborrecidos e cada
gesto, cada dia de estudo, cada dia de trabalho, cada iniciativa e comportamento
se torna difícil, cansativo, des-gastante.
274
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
Amados:
Na verdade, nós nos esquecemos que não estamos HO mundo
por acaso. Somos sim, frutos da santa vontade de Deus, tanto quando
fomos criados como quando fomos redimidos.
Deus nos conhece, inclusive pelo nome e lem um propósito com
cada um de nós, com a nossa vida.
Quando fomos gerados num momento de amor na relação de
nossos pais, Deus estava presente, como diz Davi no Salmo 139.13-16:
"Pois tu formasíe o meu interior, tu me teceste no seio de minha
mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente
maravilhoso me formaste. Os meus ossos não te foram
encobertos, quando no oculto fui formado e entre-tecido como
nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substancia
ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias,
cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles
havia ainda. Que preciosos para mim são os teus pensamentos."
E Deus continua neste objetivo junto de seus filhos e filhas,
resgatados pela obra salvadora do Senhor Jesus que garante:
"Eu sou o bom pastor. As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu
as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais
perecerão eternamente e ninguém as arrebatará da minha mão"
(Jo 10.27).
Se, de um lado somos rigorosamente iguais, pois:
— somos pecadores e inimigos de Deus;
— somos carentes da misericórdia de Deus;
— somos alvos da salvação preparada por Deus através de
Jesus;
— somos NOVAS CRIATURAS pela fé e poder que o Espírito
Santo de Deus supre.
Do outro lado, Deus nos fez a cada um de nós:
—
—
—
—
um ser único, original;
ninguém é cópia de ninguém;
ninguém é xerox de ninguém;
de cada um de nós só existe um exemplar. Nunca houve igual
a nós antes, não há no presente, nem haverá no futuro.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
275
Portanto, o melhor para nós é sermos nós mesmos: Porque:
—•• é assim que Deus estabeleceu c criou todos;
— Deus tem um propósito conosco c com a nossa vida;
— Deus tem um jeito especial e individual de guiar a nossa vida
e Ele sabe mui Io melhor do que nós quando estamos prontos
c preparados para os diversos desafios e tarefas sob nossa
responsabilidade;
— Deus tem muita paciência conosco, esperando que nos demos
conta de tudo isso. Basta para tanto, nos lembramos de dois
ou três heróis bíblicos para comprovarmos todas essas
afirmações. Deus tratou diferentemente a cada um:
.Tonas — compromissos cm Nínive;
Moisés — primeiro deserto — depois Libertador;
Pedro — primeiro espada, fuga — depois apóstolo consagrado;
Paulo — perseguidor — depois perseguido, maltrata-atc as
algemas, porém satisfeito e feliz da vida exclama
as palavras do nosso texto: "Amados, eu aprendi
(não foi fácil, foi duro, mas valeu a pena) a viver
contente em toda e qualquer situação." Deus
esteve com ele para que encontrasse.
O apóstolo encontrou seu lugar, descobriu seu
espaço, assumindo sua vida com alegria em toda
c qualquer situação.
Sem dúvida, para nós e para os outros, o melhor é pedirmos a
Deus que nos ajude a buscarmos também
o nosso lugar,
o nosso espaço
a nossa situação e vivermos com,
autenticidade e alegria. Xerox sempre será
xerox. Cópia será sempre cópia.
Lembro de uma ilustração singela, porém, rica em conteúdo
sobre o nosso assunto:
"Conta-se que um rei foi certa manhã ao seu jardim e encontrou
as árvores, plantas c flores morrendo e murchando. Perguntou ao
carvalho que ficava junto ao portão, o que significava aquilo. Descobriu
que a árvore estava cansada de viver porque não era alta e elegante
como o pinheiro.
270
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
Este, por sua vez, estava desconsolado por não poder produzir
uvas como a videira.
A videira ia desistir da vida porque não podia ficar erela e
produzir frutos delicados como o pessegueiro.
0 gerânio estava triste porque não era alio e charmoso como o
lírio. E no restante do jardim acontecia o mesmo. e suas filhas
brilhando.
Chegando ao amor-perfeito, encontrou seu caule erguido
— "Muitos bem, amor-perfeito, alegro-me em encontrar em meio
a tanto desânimo, uma flor corajosa. Você não parece
nenhum pouco desanimada."
— "Não, não estou. Eu, na realidade, não sou de muito
importância, mas achei que se no meu lugar o senhor
quisesse um carvalho, ou um pinheiro, ou um pessegueiro, ou
um gerânio, ou um lírio, teria plantado um deles. Porém,
sabendo que o senhor queria aqui neste lugar um amorperfeito, estou resolvido a ser o melhor amor-perfeito que
posso."
Amados:
Neste inicio do último trimestre do ano de 1991, busquemos bons
exemplos, porém, e com, a ajuda de Deus, não procuremos ser cópia ou
xerox, simplesmente uma imitação, sejamos porém originais, o melhor
que podemos ser para Deus e para o nosso próximo, ocupando o nosso
espaço lá e do jeito que o Senhor Deus nos colocou e fez. E digamos
cheios de paz, de alegria e de firmeza, com, o apóstolo: "Porque aprendi
a viver contente em toda e qualquer situação."
Que assim seja, sob a poderosa bênção de Deus. Amém.
Devoção proferida pelo Rev. Norberlo Heine na capela do Seminário
Concórdia.
•
'
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
277
A VERDADE QUE LIBERTA
(Jo 8.31-36)
Introdução
Tesmina amanhã a semana cm que a noticia destaque ficou entre
a privatização da Usiminas e a vida privada da ex-ministra Zélia,
transformada em best seller nesse país de contradições sociais c carente
de mudanças e reformas profundas.
Começa segunda-feira para nós luteranos a semana da Reforma.
Vamos lembrar aquele monge agostiniano corajoso, apaixonado pela
verdade que salva, que no dia $1 de outubro de 1517 pregou 95 teses
na porta de uma igreja, iniciando com isso um movimento que mudou
radicalmente o curso da história humana, especialmente da ocidental e
que libertou o povo do cativeiro eclesiástico romano.
Nosso texto de João 8.31-36 fala da verdade que liberta c a
Reforma foi a busca dessa verdade que liberta.
As palavras "libertar", "livre" e "liberdade" nos estimulam muito.
Políticos sabem que o auditório acorda quando se afirma que "nossa
liberdade e soberania nacional está ameaçada".
A propaganda comercial explora a idéia, o desejo de ser livre
para atingir o olho e o bolso do consumidor.
Há algo muito profundo dentro de nós que deseja, que aspira
pelo sentir-se livre. No entanto, há algo bem fundo dentro de nós que
diz que ainda não o somos.
A parábola do filho pródigo toca nesse tema da liberdade. O filho
mais novo saiu de casa, da presença do pai, para encontrar a sua
liberdade. Encontrou??? — Hoje alguns filhos fogem ou saem de casa ou
até casam para conseguir sua liberdade, longe do olhar controlador dos
"velhos". ,É isso liberdade?
Outros começam a sentir o gostinho da liberdade quando
começam a trabalhar, garantindo seu sustento próprio e deixando assim
de ser dependentes.
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IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
E aqui entre nós no CEC, há falta de liberdade ou liberdade
demais? Deveríamos ter mais regras e normas para disciplinar nosso
convívio?
Quando olhamos mais de perto essa busca do ser livre, vemos
que não somos tão livres assim. Então perguntamos: temos que esperar
até a morte para sermos livres mesmo?
I
- Nascidos livres ou feitos livres?
Jesus referiu-se a esse constante desejo e busca de liberdade nas
palavras de nosso texto: "Se vós permanecerdes na minha palavra, sois
verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade
vos libertará." (Vv. 31-32)
"Se permanecerdes" dá a entender que o afastar-se da Palavra é
possível. Essa foi a moléstia que tornou a Reforma necessária no século
XVI.
Mas..., voltando ao texto e seu contexto, podemos dizer que não
é de se admirar que Jesus reunisse grande multidão ao seu redor. Ele
percebeu a fome e sede espiritual do povo e seu jugo como escravos do
pecado e de leis humanas.
No texto bíblico a palavra "libertará" aparece no fim. isto significa
que nós não começamos na liberdade. A liberdade é o resultado de uma
série de ações que a precedem,. Antes do ser livre está o "permanecer
na palavra", o "ser Seu discípulo", o "conhecer a verdade". Portanto, nós
não nascemos livres. Nós somos feitos livres.
No vers. 33 os judeus reagiram: "O que você, Jesus, quer dizer
com "sereis livres"? Você fala em futuro, mas..., e nosso passado, nossa
descendência de Abraão? Nós jamais fomos escravos de alguém!" Com
sua objeção, os judeus provaram nesse diálogo que não eram livres,
porque não conheciam a verdade sobre si mesmos. O engano escraviza.
Mas que tipo de escravidão é essa que não tem grades, correntes e
senhores? Jesus tem algo a dizer sobre isso.
II
- Umcx questão de identidade
As palavras do Mestre ecoam pelos séculos: "Em, verdade vos
digo: Todo o que comete pecado é escravo do pecado". (Vers. 31) Sim,
o pecado impede o nosso ser livre. Ele escraviza, aprisiona, domina o
ser. Via engano, via mentira, Adão e Eva foram aprisionados. O tentador
não usou a força para chegar ao seu objetivo. Usou o oposto da
verdade, a mentira. Portanto, se queremos ser livres, não podemos
estar satisfeitos em querer ser "bons". Precisamos conhecer a verdade
sobre nós mesmos e sobre o verdadeiro Deus.
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E a real verdade sobre nós é que n,ós não conhecemos nosso
verdadeiro ser. De on,de, então, poderemos conseguir a verdade sobre
nós e conseqüentemente a nossa verdadeira liberdade?
III — O ponto de referência
Vers. 36 — "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis
livres!"
Ser discípulo significa ter achado o ponto de referencia na vida. É
ter o Senhor correto. Com Cristo como referencial nosso estar no mundo
começa a ter sentido e significado, apesar dos absurdos, paradoxos,
incógnitas e contradições de nossas frágeis vidas.
Ter esse ponto de referencia EXTERNO, fora de si, é bem
diferente da proposta socrática de libertar-se pelo auto-conheci-mento.
Lutero experimentou em sua vida a tirania da culpa de uma
consciência que olha muito mais para si do que para Cristo. Quando,
porém, começou a vivei- o Solus Christus é que pode sentir-se livre de
seus terrores, dúvidas e questionamentos, c experimentar a liberdade
da fé no Redentor.
Com olhar fixo em Cristo, o Reformador pode até falar de si
próprio como um "pobre fedorento saco de vermes". Como discípulo
sabia que não estava em si próprio o poder para achar c ter a liberdade
da paz de consciência.
Uma vez liberto da culpa, da morte e do poder do diabo pela fé,
o filho de Deus é livre para servir em amor o seu próximo. Ser cristão,
então, não é mais um simples rótulo ou embalagem, mas um estilo de
vida no qual a verdadeira liberdade começa a ser experimentada.
Na próxima semana estaremos celebrando o 31 de outubro. A
igreja cristã enquanto peregrina sempre precisou e precisará de
reforma. Reforma em termos de arrependimento, de volta ao
conhecimento e prática da Palavra. E Reforma outra coisa não é senão
colocar Cristo no centro da pregação e da vida da igreja. E isso tem;
que ser feito sempre de novo.
O que provocou a Reforma no século XVI e o que continuará
exigindo reformas é o afastar-se da PALAVRA. Esse afastamento é a
moléstia que torna a reforma necessária a cada momento de men,tiras
escritas ou vividas. Reforma é a volta, o retorno à Palavra de Cristo e
jamais uma simples novidade eclesiástico-religiosa.
Se permanecermos na Palavra, somos verdadeiros discípulos,
conhecemos a verdade que liberta da escravidão do pe-
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IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
cado. Os que crêem no Filho são de fato livres para servir. Livres pela
fé. Servos pelo amor. Isso é estilo de vida. Eis aí a Reforma na prática.
E esse é o nosso desafio nesse fim de século: proclamar a verdade que
liberta e viver essa verdade.
Jesus Cristo é a verdade sobre nós e Deus.
nessa verdade, pois esse é livre!
Feliz o que crê
Devoção proferida pelo Prof. Gerhard Grasel na capela do Seminário
Concórdia no dia 25 de outubro de 1991.
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UM TESTEMUNHO QUE INCOMODA!
"... reconheceram que por intervenção de nosso Deus é que fizemos
esta obra" Ne 6.16b
Há muitos que detestam o seu passado.
Para muitos a história não tem sentido ou valor algum.
Até certos grupos religiosos julgam que a história da Igreja, do
povo de Deus, n,ão tem valor algum e a ignoram, justificando a sua
vivência religiosa como um simples fato momentâneo.
Entretanto, ninguém de nós precisa ser historiador profissional
para compreender o valor da história do povo de Deus na continuação
histórica desse povo. Isso porque o povo de Deus vive no tempo e faz
parte da história.
Que maravilhoso é poder viver lembrando a história da vida. 0
texto biblico é um maravilhoso relato de história. História que tem a ver
contigo e comigo, história de vida. Umi testemunho que incomoda! Que
incomoda positivamente, dando-nos exemplos e razoes para uma vida
de confiança e fidelidade. Ou, não acontece isto contigo, ao ouvir ou ler
a grande história de salvação vivida pelo povo de Deus, que
sentimentos e razão te despertam e impulsionam à confiança e à vida
cristã? Eu recobro ânimo e disposição olhando para a história do povo
de Deus do Antigo Testamento, para a história da Igreja Cristã do Novo
Testamento, enfim para a história da Igreja pelos séculos e da IELB. Na
história encontramos relatos trágicos que incomodam, mas encontramos
especialmente relatos vibrantes, que também incomodam.
História que testemunha. Que nos traz a consciência do ser sal,
luz, o bom perfume de Cristo. Testemunho que arde como o sal, que
cega como o sol, que invade como o perfume. Que assim perturba,
agita e incomoda a nossa perversa natureza carnal; que perturba, agita
e incomoda, e faz esbravejar os inimigos; mas, que especialmente
conserva clareia, perfuma e inspira a nossa vida de salvos.
Nos
impulsiona para a nossa real
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IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
missão na história. Portanto, UM TESTEMUNHO QUE INCOMODA, que
incomoda para o testemunho!
"... reconheceram que por intervenção de nosso Deus è que
fizemos esta obra" exclama Neemias, em sua história que mexeu, que
incomodou.
Neemias, em resposta às suas orações, recebera do Hei
Artaxerxes a licença para ir à Jerusalém e reconstruir os muros e a
própria cidade. Isto significava mais que a licença do rei: significava a
aprovação e o desejo de Deus.
Mas, não foi assim no mais, nem fácil. A idéia desagradou aos
governadores vizinhos que não queriam "Que alguém viesse a procurar
o bem dos filhos de Israel" (Ne 2.10).
Vendo que a obra havia começado, os inimigos se indignaram e
escarneciam dos judeus: "Que fazem estes fracos judeus... Ainda que
edifiquem, vindo uma raposa derrubará o seu muro de pedra" (Ne
4.2,3'). De todas as formas amedrontavam e assustavam ao povo na
obra, prometendo-lhes a destruição. K o povo desanimado queria parar
com a obra (Ne 4.,10); A Necmias acusaram de líder de revolta e
usurpador do trono (Ne 0.6). Até os mensageiros de Deus foram
subornados para impedir a obra (Ne 6.10-12).
Não foi fácil. Mas a obra era de Deus. E Deus havia escolhido
Neemias e seu povo. A obra deveria ser feita.
An!cs, Neemias não conseguira esconder sua tristeza pela aflição
de seu povo, pelas ruínas de Jerusalém, pela zombaria dos inimigos,
nem perante o Rei, líder do povo dominador. Ele lutava pelo povo de
Deus empunhando com bravura a arma da oração, e venceu!
Ao seu povo que não mais alimentava esperança alguma, ele
animou c incentivou. Em cima das ruínas, pela história, os fez renascer:
"E lhes declarei como a boa mão do meu Deus eslivera comigo.. . Então
disseram: Disponham o-nos, e edifi-quemos. E fortaleceram as mãos
para a boa obra" (Ne 2.18). Assim animado, o povo trabalhava, decidido
c consciente de sua missão. Acima de tudo estava a sua confiança no
Senhor Deus. "Não os temais; lembrai-vos do Senhor" (Ne 4.14) era o
grito de guerra do líder ao seu povo!
"reconheceram que por intervenção de nosso Deus é que fizemos
esta obra" (Ne 6.16).
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UM TESTEMUNHO QUE INCOMODA!
II
A Conferência geral dos pastores c delegados leigos convocada
para os dias 23 a 27 de junho de 1904 na localidade de São Pedro do
Sul decidiu unanimemente na tarde de 24 de junho pela criação do
Distrito Brasileiro da Igreja Luterana do Sínodo de Missuri. Hoje são 87
anos daquele memorável acontecimento.
Problemas terríveis se interpuseram na trajetória desta obra.
Possivelmente a missão luterana no Brasil, a partir do Sínodo de Missuri,
teria sido iniciada bem antes, não fosse a decepção com o
indiferentismo religioso experimentada pelo Rev. Schwan, por longos
anos Presidente daquela igreja, e que antes trabalhara no Brasil por
alguns anos. A mesma frieza e indiferença espiritual quase fez o Pastor
Broders, primeiro missionário enviado ao Brasil, a abandonar a sua
missão pouco tempo depois de sua vinda. "O povo prefere o
divertimento, sendo o domingo antes de mais nada, explorado para
organizar reuniões dançantes, bailes e festas que culminam muitas
vezes em brigas... predomina... a indiferença eclesiástica" dizia ele. A
população de origem alemã, presente já há mais de 50 anos no Brasil,
vivia uma religiosidade liberal. Os guias espirituais eram de pouca ou
nenhuma formação. Religião era necessidade de certos momentos. O
pastor Broders lembra que em determinada região havia uma igreja e
22 salões de baile.
Uma mensagem séria, bíblica, e uma vida cristã autêntica e
comprometida com o Evangelho não fazia a preferência e o gosto
daquele povo.
O germanismo, sentimento alemão, também se constituiu numa
difícil barreira. Em termos gerais os líderes religiosos alemães enviados
pela Igreja Unida não viam com bons olhos a intromissão dos
missionários luteranos enviados pelo Sínodo de Missuri. Esta dificuldade
se fez sentir especialmente durante a 1' Guerra Mundial quando os
missionários missurianos eram taxados de traidores.
À nova Igreja faltavam pastores. Muitos missionários voltavam
cedo à sua Pátria de origem. Assim sendo, congregações inteiras muitas
vezes abandonavam o Sínodo.
Não foi fácil. Mas, a obra era de Deus. E Deus havia escolhido
servos fiéis. A obra deveria ser feita.
E foi feita. Missionários consagrados e fiéis serviram ao Senhor.
Membros dedicados assumiram seu sacerdócio. Muitos servos do Senhor
tinham consciência de sua missão. Os irmãos americanos não só
enviavam missionários, como também os sus284
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
tentavam com generosas ofertas. Pastores determinados, mesmo num
campo hostil, proclamavam e ensinavam a doutrina cristã em sua
pureza. Com espírito de sacrifício e amor à causa estes abandonavam a
sua pátria e até a família pela obra do Evangelho. Não se davam por
vencidos quando escarnecidos ou a laçados publicamente por falsos
pregadores. Em seu impe Io estabeleciam estratégias para a
cvangelização do povo brasileiro. Confiavam em Deus, lutavam
empunhando firmemente a arma dà oração, e não se assustavam com o
desafio humanamente impossível à sua frente.
0 sal ardeu! A luz brilhou! O perfume penetrou e se fez sentir! 0
testemunho incomodou! Hoje, 87 anos depois, se reconhece "que por
intervenção de nosso Deus é que fizemos esta obra"!
UM TESTEMUNHO QUE INCOMODA!
III
A história do povo de Israel, da Igreja Crist, da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil em seus 87 anos, é um prenuncio e exemplo da
nossa realidade como Igreja, em nossas comunidades.
Nos defrontamos dia a dia com sérios obstáculos: Linhas
teológicas c doutrinas anticscriturísíicas; o liberalismo teológico, onde
muitos pregadores e igrejas não estão interessados na pregação bíblica
e na pura mensagem de Deus; o legalismo teológico, onde cada dia
surgem novas igrejas c pregadores que por leis e imposições escravizam
o povo de Deus que o próprio Deus em Cristo libertou para a liberdade;
a teologia social que desvia a atenção do povo de Deus para o aqui e
agora; a Mariolatria ou adoração de ídolos, renegando a Deus; o
materialismo que prende o homem às coisas deste mundo e o cega para
Deus; o cristianismo profissionalizado, onde a vocação ministerial ou o
uso de dons espirituais é apenas visto como opção profissional; o
abandono da igreja por orgulho ou insubmissão à boa ordem c vontade
de Deus; o mundanismo c os atrativos das paixões da mocidade; a
deturpação dos verdadeiros objetivos da Igreja Cristã e da vida cristã.
São tudo obstáculos terríveis à nossa frente.
Não é fácil. Mas, a obra é de Deus. Deus escolheu e chamou
servos para a obra. A obra precisa ser feita.
Como Neemias, como Paulo, como Broders, como Gowert e
outros tantos, Deus precisa discípulos hoje. Alunos de sua Palavra,
assentados a Seus pés para ouvir Seus ensinamentos. Adoradores fiéis,
caídos de joelhos para pedir-lhe oportunidades, poder c orientação.
Carregadores da cruz, que não medem esforços c sacrifícios para que
haja arrependimento e volta ao amor
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
285
de Deus em Cristo Jesus. Líderes animados e incentivadores que
lembram "a história dos feitos de Deus" ao seu povo. Pessoas
conscientes de sua vocação, dispostas a aproveitar as oportunidades
que Deus lhes proporciona.
Testemunhas que incomodam, com
UM TESTEMUNHO QUE INCOMODA!
Para que também hoje reconheçam "que por intervenção
de nosso Deus é que fizemos esla obra"!
Este 6 um testemunho que incomoda!
A obra divina posta nas mãos de Necmias e dos judeus de
Jerusalém incomodou os adversários defrontando-os com a realidade do
Deus verdadeiro. Que bom que a história bíblica nos reluta esta obra e
este exemplo.
A obra divina da Igreja Cristã pelos séculos incomodou muitos
adversários, defrontando-os igualmente com a realidade do Deus único
e verdadeiro. Que bom que a história da Igreja nos rela Ia esta obra.
A obra divina da Reforma, do Sínodo de Missuri, do missionário
Broders, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil incomodou muitos
adversários, confronlando-os com o Deus verdadeiro. Que bom que
tambéni esta obra nos é legada pela história.
A obra divina dos servos de Deus hoje também incomoda,
especialmente também quer incomodar a nós. Por isso, DIS-PÓNHAMONOS E EDIFIQUEMOS! FORTALEÇAMOS AS MÃOS PARA A BOA OBRA!
Que o sal continue a arder, a luz a cegar, o perfume a invadir!
Um testemunho que incodoma!
Que especialmente o sal continue a conversar, a luz a iluminar, o
bom perfume a revitalizar!
Que especialmente o sal continue a conservar, a luz a iluminar, o
bom perfume a revitalizar!
Jesus diz: "Se vós permanecerdes na minha Palavra, sois
verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade e a verdade
vos libertará" (Jo 8.31,32).
Se assim continuarmos a história do povo de Deus, então
certamente também reconhecerão "que por intervenção de nosso Deus
é que fizemos esta obra"!
ó Deus, incomoda-nos com o testemunho da história, para (pie
em nós transpire este TESTEMUNHO QUE INCOMODA!
AMÉM
Sermão proferido pelo Rev. Ettti Krebs no Encontro de Pastores do
Distrito Horlensias, em Alto Rolante, em 24 de Junho de 1991, alusivo
ao 87.° aniversário da IELB.
286
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
A FÊ SEM OBRAS Ê MORTA
(Tg 2.14-18)
(/.aros amigos:
Certa ocasião, o dramaturgo irlandês George B. Schaw disse: "O
cristianismo seria bom se fosse colocado em prática".
Concordando ou não com essa afirmação, temos que admitir que
o grande "tcndão de Aquiles" do Cristianismo é a contradição entre a
sua pregação e a sua ação. O grande ponto fraco da Cristandade é a
discrepância entre a sua confissão de fé e a sua prática. Nessa
contradição entre a pregação e a ação dos cristãos, os seus inimigos se
baseiam para desmerecer o evangelho do amor e do perdão de Deus em
Cristo Jesus.
A carta do apóstolo Tiago nos mostra que esse problema não é
apenas atual, mas que ele já vem de muito longe. A sua carta possui um
caráter pastoral, exortativo e, até, profético, cujas palavras mexem
conosco e nos fazem refletir sobre a nossa conduta como cristãos e
como igreja cristã.
Provavelmente, Tiago escreve a sua carta para cristãos judeus
que viviam, numa situação de tensão social causada pela exploração e
perseguição por causa de sua fé. Nela, Tiago dá a entender que ele está
preocupado comi o fato de que o mundo está entrando na igreja, como
ele expressa no cap. 1.27, quando cie declara que a "religião pura e sem
mácula.. . é guardar-se a si mesmo incontaminado do mundo". Da
mesma forma, no cap. 1.4, quando diz que aquele que quer ser amigo
do mundo é inimigo de Deus. Essa invasão do mundo na igreja se
expressa de vários modos, como mostra Tiago, afirmando que, acima de
tudo, se expressa numa inconstância em essência com relação a Deus,
que interrompe a eficácia da oração e se manifesta no fracasso em
colocar a fé em prática.
Nesse contexto é que Tiago declara a verdade que encontramos
no vers. 17 do cap. 2: "... a fé se não tiver obras, por si só está morta".
Através desse versículo e de outros trechos
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de sua carta, Tiago não está querendo afirmar que, em última análise,
as obras são um meio de adquirir a salvação eterna. (.') seu ensino não
contradiz o de Paulo, mas complementa o que Paulo já havia afirmado
em suas cartas sobre a vida santificada. 0 que Tiago faz é voltar-se
contra um tipo de fé intelectualizada, que se satisfaz em, aceitar
dogmas e confissões, sem se preocupar com uma vida coerente a essa
confissão de fé.
Se Tiago escrevesse hoje essa carta, certamente ela também
estaria endereçada a nós, membros da igreja luterana. Isso porque a
situação daqueles cristãos não é muito diferente da nossa situação.
Também nós vivemos num processo de munda-nismo ua igreja, no qual
cada vez mais valores e pensamentos mundanos estão entrando e
tomando conla de nós e de nossos irmãos.
Esse processo de mnndanismo traz consigo a inércia espiritual,
que também faz com que nós nos prendamos e enfatizemos
demasiadamente a doutrina correta c a confissão de fé, e nos
esqueçamos que a doutrina correta, sem a prática correspondente, é
inoperante c sem proveito. Como diz o próprio Tiago, os demônios
também sabem que Deus é um só e, talvez, eles conheçam as doutrinas
cristãs muito melhor do que nós.
Dietrich Bon,hoeffcr, em seu livro "Diseipulado", alertou a igreja
contra o perigo da "graça barata". Bonhoeffer usou este termo para
designar a pregação da igreja que não mais compromete o crente a
viver uma vida santificada. Ele escreve: "A graça barata é a pregação do
perdão sem arrependimento; é o batismo sem a disciplina de uma
congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a
absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem
diseipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo,
encarnado." (p. 10)
De acordo com Tiago, a fé morta se manifesta especialmente na
falta de amor para com o próximo. Quando não mais nos comovemos e
não vamos ao encontro do que sofrem, das viúvas, dos órfãos, dos
pobres e miseráveis, então mostramos que nossa fé está moribunda ou,
até, morta. Quantas vezes, também não dizemos para nossos membros
no fim de nossos cultos "Vão em paz e Deus os abençoe" e não estamos
preocupados com suas necessidades e seus problemas? Que fé é essa? É
uma fé que está confortavelmente acomodada ao espirito de nosso
século, e que não se preocupa com o bem-estar global do nosso
próximo.
Se a fé morta é aquela não ama, então o contrário também é
verdade, ou seja, que a fé viva é aquela que se manifesta no amor
concreto pelo próximo. A fé que atua pelo amor, como diz Cl 5.6, é a fé
verdadeira que somente o Espírito de Deus
>v,s
.
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
pode colocar em nosso coração através da pregação dp evangelho. Essa
é a fé que se agarra aos méritos e à justiça de Cristo, que transforma o
coração do homem, e faz dele uma nova criatura, que está livre do
pecado e do egoísmo e, ao mesmo tempo, é escravo do próximo por
amor a ele.
Essa fé viva não é algo inerte, mas é uma força dinâmica que
compromete o crente com o Reino de Deus e o faz viver em obediência
ao chamado do discipulado. Como expressou Lutero, em seu prefácio a
Romanos: fé real "é uma obra divina em nós. Ela nos muda e faz com
que renasçamos de Deus; ela mata o velho Adão, ela transforma
radicalmente os homens, em, coração e espírito e mente e poderes, e
traz consigo o Espírito Santo. Oh, esta fé é algo vivo, diligente, ativo,
poderoso; e por isso é impossível que ela não faça incessantes boas
obras. Ela n,ão pergunta se há boas obras a fazer, pois antes que a
pergunta surja, ela já as fez, e ela constantemente as está fazendo".
Essa fé apenas nascerá da pregação pura da palavra de Cristo.
Pregação que chama ao arrependimento, que derruba o homem do seu
altar de egoísmo e vaidade; e por outro lado, pregação que chama à fé
na obra de Cristo, que levanta o homem arrependido e lhe dá uma nova
vida. Nós precisamos de uma pregação que nos comprometa com o
evangelho e com, o reino de Deus, que nos faça ver a Cristo naqueles
que passam por dificuldades e problemas; uma pregação que nos
estimule ao amor concreto e ativo em prol dos que sofrem e daqueles
que precisam de nós. Enfim, uma pregação que uos tire da inércia e da
inatividade espiritual.
Os primeiros ouvintes dessa pregação devem ser nós próprios.
Deus quer e pode renovar a nossa fé e fazê-la atuar em amor ao
próximo. Com corações cheios dessa fé viva e ativa, estaremos aptos
para levar adiante a mensagem de Cristo, que nos livra do pecado e da
morte, mas que nos compromete com Deus e com nosso próximo. Que
o Espírito Santo nos conceda essa bênção, Amém.
Devoção proferida pelo Rev. João Carlos Schmidt na capela do
Seminário Concórdia no dia 12 de setembro de 1991.
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LIVROS
A ERA DOS CONQUISTADORES. In: E até os confins da
terra: uma história ilustrada do cristianismo. Por
Justo L. Gonzalez. São Paulo, Vida Nova, 1980. V. 7. 214 p.
A ERA DOS NOVOS HORIZONTES. Id. Ibidem., 1987. V. 9.
212 p.
Ao concluir a leitura do livro bíblico "Atos dos Apóstolos", o leitor
certamente sente a curiosidade de saber a continuação destes atos,
feitos e ações dos apóstolos e seus discípulos, ou seja, da igreja cristã.
No entanto, o Novo Testamento não tem este objetivo. Gabe a outros
escritores, não inspirados, fazer este registro histórico.
Divulgamos assim a obra de Justo L. Gonzalez que leva como
título geral: "Uma história ilustrada do cristianismo", escrita em 10
volumes, cada livro com aproximadamente 200 páginas. Os livros
podem ser adquiridos avulsaniente. O preço é acessível. O estilo é
popular. As ilustrações atraentes. A leitura dos 10 volumes oferece uma
visão panorâmica da igreja através dos séculos. Recomenda-se como
leitura inicial. O leitor que depois pretende aprofundar-se em história
eclesiástica deverá consultar outras obras.
Dos 10 volumes, destacamos inicialmente dois livros. O volume
li" 7, que tem como título: "A Era dos Conquistadores". Sucintamente
descreve a conquista geográfica da América e sua conseqüente
"eristianização". Como no próximo ano (1992) muito se publicará sobre
o tema dos 500 anos do descobrimento da América, a leitura deste
volume é oportuna. E o volume n" 9, que por sua vez tem, como tema:
"A Era dos Novos Horizontes", registra a expansão da igreja cristã
através dos continentes, dando destaque aos grandes empreendimentos
missionários.
Estamos certos que a leitura destas obras levará os leitores a
uma melhor compreensão histórica da igreja cristã; a uma maior
valorização da herança cristã; e, especialmente a uma maior
conscientização pessoal da responsabilidade no testemunho da fé cristã.
Walter O. Steyer
290
IGREJA LUTERANA/NÚMERO 1/1991
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